segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Quintais oníricos


Gosto de artemistificar a morte
Compara-la a quintais abandonados.
Porque vejo
na briga de galo
entre a guaxuma e o picão
renitência do sempre renascer.
Da inútil na insistência de florir
sua flor feia e dissonante
sua flor desperfumada.
Sempre que vejo quintais abandonados
sinto vontade de ser novamente
o menino
que via revoada de rainhas vestidas
Com azas núpciais
que enluarava telhados
engrutava porões
para-dificava guarda chuvas
cachoeirizava torneiras
e savanizava quintais abandonados.
De o meu brincar sem nunca individualizar
sem nomear, sem especificar
todas as formigas eram formigas.
Assim nada morre
tudo continua, se um gafanhoto morre
não importava
os gafanhotos não morreram
outro igual nascia e o pedaço era reposto.
Meus soldados também eram renitentes
morriam e renasciam
como gaxumba.
Só a perca era uma espécie de morrer
e o achar ressurreição.
Outros quintais abandonados
Em outros lugares são só quintais abandonados
Quintais oníricos
São os quintais de Quedas
Quintais com guaxuma e picão que reencarnam.

Ilustração e poema de
Solivan

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O link da minha entrevista para o programa de Oscar Dambros
Perfil Literário, da Rádio Unesp FM,

http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario

entrevista 607.

Nossa casa





Esta e a nossa casa
Com minhas mãos
Colhi meteoros e ergui as paredes
E iluminei todos os cômodos
com estrelas,
Mas nosso quarto
com vênus.
Os movéis
São feitos de videiras
Que florecem e frutificam
Podemos
Numa tarde de domingo
Fazer vinho.

Apanhei as sombras mais frescas das arvores
Para colocar na varanda,
Com suaves raios do sol da manha
Transei a nossa rede
E agora podemos vamos ver juntos
Os peixes ormamentais
Que nadam entre as tulipas do jardim.
E a noite os pavões pousam
Num arco íris
Ao lado da lua.

Veja da janela
Podemos ver os ciprestes
Onde uma leoa fez seu ninho
E cuida de seus magníficos ovos.
No verão os leozinhos nasceram
Então podemos brincar com eles
no quintal.

De solivan

Déjà vu:Repostagens

A odisséia ou o erro do pavão

O pavão
de olhinhos nervosos
irrequieto bípede
tirou dolorosamente
suas queridas penas
uma a uma
e colou
em folhas de papel sulfite.
Despiu-se de suas jóias
transgrediu o pudor
sentiu frio
ficou só
sua família não agüentou
a verdade nua.
Não satisfeito
regurgitou a pouca quirela
do jantar
e vendo o vômito convulso e amarelo
lembrou-se de Van Gogh
e chorou.
Colou sua bile no sulfite
e com as folhas e penas e vômitos
profissionalmente encadernados,
a pobre ave implume
saiu a procura de editor.
Seria mais fácil, pássaro
achar editor
se deixasse as penas no corpo
e levasse as folhas em branco
profissionalmente encadernadas
sempre
profissionalmente encadernadas.


De Solivan

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Andy warhol revisado:16 Marilyn Monroe Morta



De Solivan

Dissecação da felicidade

Há felicidade
no passear por babilônicos shoppings.

Nos ambientalistas hospedados no Hiltom hotel
como lideres comunista em seus palácios
que qualquer poder é aristocratizante.

No vender ovelhas para o frigorífico,
por que matamos os lobos pelo mesmo motivo
que leões matam hienas.


Há felicidade
no abortar
com segurança na luxuosa clinica de obstreticia Medeia.


Há felicidade
no crime com o processo envelhecido
como manuscritos do mar morto.

No soco daviniano num estacionamento.

Nos paleolíticas êxtases religiosos,
porque Deus nasceu numa gruta decorada
com euroques e cavalos.

Na estrela pop deificada como Nero
que cheira coca nos intervalos dos shows.
Mas cuidado, que o inferno
é seus desejos elevados ao máximo.


De Solivan

déjà vu:Repostagens

Esta rua não devia se chamar Mario Quintana

Não gosto do sabor insosso
das linhas retas.
Um poeta não devia nomear
uma rua reta.
A rua Mario Quintana não devia ser reta,
devia ter joelhos,
dobrar esquinas,
passar por um barbeiro e livrarias,
por uma árvore centenária,
por um bar,
cruzar uma praça,
desorganizar o retilíneo das homenagens.
Uma rota de pássaros migratórios, sim
poderia se chamar Mario Quintana.
De Solivan

Interferência:Um poema de Sylvia Beirute

PEQUENO POEMA PARA A MORTE

que a palavra te redima do erro. que a palavra seja o erro.

luís quintais

primeiro: preparar a sombra. rumorejá-la. desflorá-la.
segundo: escolher o objecto. fixá-lo. intuí-lo. medi-lo.
terceiro: retirar o objecto lentamente. analisar a sombra.
quarto: estender o corpo populoso no solo, sobre a sombra.
quinto: imaginar o objecto excluído.
sexto: sentir o corpo adquirir a forma do objecto excluído.
sétimo: sentir a sombra percorrer a distância
entre o corpo e o objecto excluído como se tivesse
havido contemporaneidade entre os dois.
oitavo: analisar a sombra do ponto de vista dos relevos
adquiridos e danos residuais.
nono: excluir a sombra. {o terno é a antítese do eterno}
décimo: fechar o corpo.

Sylvia Beirute

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Carrancas




Uma matilha de carrancas
protegem a frente
da casa de artesanato
três totens raivosos
Cérbero decapitado
com sorrisos de raiva
dentes despidos de lábios
bocas temerosas
que beija-flor pensou ser azaléia.
Os cães de cedro
ecoam, ecoam
um coro de lobos em caça
canto esculpido
em suas gargantas vermelhas.

Sigo mastigando imagens,
quando as engulo
escuto de minha língua involuntária.
“Carrancas têm traços de Picasso”
e crio um retrato dele onde
corpo e alma aparecem justapostos.

Ilustração e poema de Solivan

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sou até aonde vai meu olhar


Eu sou tudo que minha visão alcança, sou enorme
sou até aonde vai meu olhar.
Com meus olhos toco as nuvens e o céu,
com meus olhos sinto os pássaros,
com meus olhos apanho as frutas mais altas.
Sou uma redoma de olhar,
imenso,moldável,
em mim cabe uma parte da rua
com seus carros,
mas a massa do meu olhar para nos prédios.
Se num quarto,
acabo em suas paredes,
em sua janela para a amplidão
sou até a linha do horizonte.
Se vejo a noite vou até as estrelas.
A carne do meu olhar tem tato,
e sente os ventos.
A carne do meu olhar sente gosto,
com ele lambo a prateada lua,
A carne do meu olhar tem olfato
e cheira a primeira flor de
Andrômeda.
Meu olhar é tentáculo
vai ao longínquo,
e toca o fim visível do Cosmos,
Meu olhar é língua de camaleão
e engole estrelas.
Por isto gosto de imensidões, onde meu olhar cresce
e me estendo até o máximo.
Sem meu olhar me reduzo,
fico apenas do tamanho do meu tato,
do tamanho de meu gosto.
Só meu pensamento é ainda maior
que meu olhar
e vai ainda mais longe,
Meu pensamento é o olhar do meu olhar
e chega até depois da linha do horizonte
e chega ao depois do Cosmos.

Poema e ilustração
de Solivan

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Presos na liberdade



De solivan

Presos na liberdade

Trecho de uma peça teatral

CRUZ
-Ainda achamos pedacinhos de alegria.
No dia áspero, na noite molhada e fria colhemos fragmentos
um sorriso no chão,um cheiro que faz lembrar pão.

GRÃO
- Mas estão tornando-se raros, temo a insensibilidade.

CRUZ
-Estamos presos.

GRÃO
-Estou me acostumado com a angústia
é tão perene que de tanto conviver
já não me incomodar tanto.

CRUZ(a voz que começa normal,
vai se tornando baixa e termina
em resmungos incompreensíveis)
-Estamos presos nesta enorme liberdade
muito maior que nós,
aqui pássaros não morrem contra o vidro
morrem de cansaço,
estamos presos na liberdade
Presos.presos,presos
presos na liberdade,
presos na liberdade.

De Solivan

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O prego no pé do menino



Sob os olhos a venda estampada
da distração.
O prego canino oxidado o espera
escondido na realidade.
No pé do menino
floresceu uma rosa
pétalas saem do corte
em um rosário rubro.
Em seu colo, maternal
embala seu pé tingido de dor
que lateja
no mesmo compasso dos segundos.
Se a concha tem o som do mar
no canto de seus olhos tem
sabor de água do mar.

poema e ilustração Solivan

obrigado kelly por seu poema

Feliz poeta ,Solivan Brugnara


Feliz poeta que as palavras
lhe escorrem pelos dedos,
misturan-se à tinta da caneta
e mancham por conta própria
a brancura do papel.
Feliz poeta que o tempo
vê passar a vida:
O detalhe. Feliz poeta que cola a vida
nas palavras,
faz delas vivas por si.
Feliz poeta que arranca
a dureza ao coração
faz sorrir os olhos de quem lê.
Feliz poeta beija-flor.
Mastiga palavras pra alimentar
a mente aos filhotes famintos.
Feliz poeta.
Sacode o mundo
tritura emoções.
Mastiga o velho e vomita o novo.
O seu próprio novo.

De Kelly Hrysay



11/09/2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Os links de poemas e da entrevista publicados pela Agl:

http://blogs.abril.com.br/agencia-literaria/2010/10/homenagem-ao-amarelo-solivan-brugnara.html
http://blogs.abril.com.br/agencia-literaria/2010/10/poemas-solivan-brugnara.html
http://blogs.abril.com.br/agencia-literaria/2010/10/agl-entrevista-solivan-brugnara.html

Pequenos poemas

1. . Chamas
Chamam
xamãs

2.Sou o mesmo
incoerente de sempre

3.Cortem todas as árvores
mas por favor deixem as sombras.

4.Havia uma pedra
no caminho de Davi.
Havia uma pedra,
felizmente havia uma pedra.

5.O sol faz seus malabarismos com os planetas

6. Extrai mel do sal.

7.Sobre a indignação

Notei que
soco na mesa
é sempre na sílaba tônica.

8.Desculpe-me por
ter cuspido tantas belezas em sua cara.

9.Um tiro
e o poeta
sangrou uma bandeira soviética.

10. Fico aqui
lapidando vidro.

11.A chuva
cai como crinas.

12.Todo o grande romancista é poeta.
Todo e grande dramaturgo é poeta.
Todo o grande poeta é poeta.

13.O que pintar uma marinha me lembrou

Pintar o mar me lembrou
quando acariciei seus cabelos.

Poema e fotografia de Solivan

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Poemas psicografados de João Cabral de Mello Neto

Estudo sobre a posse

1.O ter um pássaro,
não é no total, ter,
seria mais exata
a palavra prender,
pois depende de grade.
Não é como
o ter uma pedra,
que é um ter mais sólido.
O inerte dá-se facilmente
ao pertencer
ao ficar a tua espera.
Porém pedra
na ignorância das pedras
não sabe que pertence.

2.Dir-se-ia que a estátua
por também ser
feita de carne de pedra
(ou de outra carne com
a mesma imobilidade)
ser de fácil doma.
Porém há na estátua beleza
e a beleza é sedutora,
vê-se na estátua
a vontade leviana de
dar-se a outros, a todos.
Tê-la portanto suscita
(já que é infiel)
tanto cuidado
que é a estátua que te possui.

3.Ter uma chave
diferencia-se da pedra
por poder a chave
encolher suas pernas,
fingir-se morta
e sumir quando propício.
Tem a chave- inseto,
a fuga do prisioneiro
que ao contrário da barata
(esta foge ao perceber-se vista)
foge quando não observado
e esconde-se atrás dos móveis.
Tem a chave o mesmo
exato sumir da caneta,
dir-se-ia da mesma espécie.

4. Mais pleno é ter um cão
que ao contrário da pedra
sabe que pertence
e permanece ao lado
mesmo de quem recebe chute,
(Homem sem pomba no peito)
ou da mão confeitada, afago
(Homem com flor no peito).
O cão quando sem coleira é
preso no desejo de pertencer
e quando morto( agora
sem perceber-se) quer
ainda ser propriedade
mesmo que seus ossos tenham
a ignorância das pedras.

De Solivan

terça-feira, 19 de outubro de 2010



O poema inicia-se luz


O poema inicia-se luz
e enquanto luz
é desprovido de palavras.

Mas neste exato momento de luz
que fecunda
e toma pulso um poema.

Esta luz e o âmago
que atrai palavras
e corporifica o poema

E quando terminada a corporificação do poema
a luz
fica então sendo
o coração do poema
se eterno for o pulso desta luz
então eterno será o poema.


Poema e ilustração de Solivan

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A beleza é frágil



Foto de solivan
Idéias póstumas para Magritte
Poemas-quadro onde o leitor
é a tela do poeta

Liberdade

Dentro de uma gaiola dourada
uma pomba
voa livre
ante um céu azul com nuvens brancas.

O letrado

Um homem sentado entre suas estantes
tem na pele a palidez
transparente da cera,
está de chapéu coco.
Sua face
é a capa de um livro aberto
“Flores do mal,”
capa verde com letras
e arabescos dourados.
Veste um paletó negro-funeral
tem um odor de morte recente
ou muito antiga
de porões e bibliotecas.

O império das nuvens

Na parede da sala
duas janelas:
na fechada
vê-se um céu azul tranqüilo, com
[nuvens brancas
por detrás da vidraça.
Na que está aberta
nuvens escuras tempestuosas.

O letrado II

Um homem
entre suas estantes
de chapéu coco e paletó preto
em pé, de costas
seu cabelo é preto luzidio
tem os braços virados
para trás.
Segura na mão
um livro aberto
“Flores do mal”
de capa verde com letras
e arabescos dourados.
Sua nuca
lê atentamente o livro.

Contemplação

Um homem
solitário de paletó preto
sem chapéu coco
(está no porta-chapéu
ao lado da porta)
braços abaixados, nas costas
mãos juntas
parecendo alguém
que reza ao contrário.
Com este gesto dos contemplativos
olha atentamente a janela
que é feita de tijolos à vista.
As paredes da casa é que são de vidro.

Premonição

Entre os prédios
nas calçadas, atravessando a rua
caixões transeuntes
com duas pernas de madeira.
Andam de um lado para outro
atrasados
verificam a hora
e estão bravos com
as esposas.

O homem que lê poesia

Um
homem que lê poesia
tem dois narizes no lugar das orelhas
a boca no nariz
digitais no buraco do olho
e um olho de Cíclope
onde era para ser a boca.

Cabeça

O corpo veste um paletó
negro
e acima da gravata
está escrito: cabeça.

De Solivan

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

As Profecias de Igor



As profecias de Igor
para Jorge Linzmeier
I
Sete nomes terá a ovelha com estômago de lobo que trará o
Tempo das algemas abençoadas com vinho, e o escriba da
Masmorra escreverá com cobras, poemas tristes. Um viajante
Irá decorar o livro, será assim contrabandeado e traduzido.

II
No cio das estrelas as aves do paraíso morrerão ao se
Alimentar com as unhas de Sithar, mas assim conseguirão
Levar oferendas para o lado negro da lua onde vive um cão
Dourado que guarda num átomo a história da humanidade.

III
Quando o primogênito reinar, a peste se abaterá sobre
O ouro que ficará coberto de terríveis chagas e as formigas
Desmembrarão os diamantes. Os ciclos parecerão mortos,
Mas uma colméia de lobos negros aprenderá a fazer mel.

IV
No cálice de prata cinzelado com a história dos heróis,
A sacerdotisa ordenhará o sangue simbólico do sacrifício
E entoará aos cardeais do concílio, nova mensagem: o sinal
Da cruz não deve tocar o ombro, mas nas palmas das mãos.

V
Peixes ornamentais nadarão nas chamas das bibliotecas
E a liberdade perderá seus braços como Vênus de Milos
E as esposas terão que beber água do mar para voltar a ter
Lágrimas e aguardar os rouxinóis comporem outra canção.

VI
Aos demônios reunidos, o que foi anjo magnífico anunciará
Acariciando seu gato que uma mãe pacífica em demasia criará
Os trigêmeos do anticristo, então as águias terão que combater
As pombas malévolas e o cordeiro será mais cruel que o lobo.

VII
Quando um coral de bicéfalos e irmãos siameses cantarem
Uma canção natalina para o eclipse, seu sinal.Ele assinará
Com uma pena de corvo um tratado de paz nefasto. Sacrifíca
Tua televisão, teu automóvel no altar de Deus enquanto há tempo.

VIII
O país justo terá suas leis em um pequeno livro de letras
Grandes, usarão apenas vinte carneiros para os pergaminhos.
O rubi valoroso, seu símbolo, ficará exposto na Ágora, sem
Soldados, maldições ou redomas e não será roubado.

IX
Quando a ciência substituir os Sacerdotes na descrição
Do apocalipse e crença na vida eterna for retirada das
Mãos divinas e entregues à medicina saberemos que
o asno apenas substitui uma tolice por outra maior.

X
O homem acreditará no sábio que dissecou o corpo e não
Encontrou alma alguma e assim provou que ela existe.
E no alquimista que escreverá na quinta linha que a matéria
Que se transforma com mais facilidade em ouro é o suor.
XI
Os que pensam emaranhar os desejos na verdade tecem crisálidas
Dirá o deificado que pacificará com luxúria e um novo versículo
Aparecerá na escritura: quanto mais casto, mais furioso é um povo.
E mostrará no sêmen, os pregadores em desterro no sétimo círculo.

XII
Aviões jogarão tigres sobre as cidades e as viúvas gemerão como cedros Caindo e o povo abandonará suas casas como um filhote de cervo a mãe Devorada. No êxodo, poucos sobrevirão bebendo o veneno das serpentes E enriquecendo com sua passagem, os tecelões de mortalhas baratas.

XIII
Será o tempo da última fome no sol nascente, porém somente
Tenores poderão anunciar o suntuoso imperador vestido de jade
Mas para provar sua abnegação se alimentará com apenas um
Pequeno pedaço do baiacu, a maior parte será distribuída a multidão.

XIV
O que lê no passado, o futuro verá uma amarga verdade no seu cristal:
As nações que enriquecerão a custa da servidão se tornarão dignas
Com mais facilidade que as pobres que tentarem ser generosas em
Demasia antes do tempo, estas retornarão a mais triste barbárie.

XV
Quando nenhuma profecia se realizar e a concha não ter mais o
Marulho do mar, o silvo do guepardo, o rosnado do chacal
E o sibilar da serpente, será usado para adormecer as crianças.
A flora gemerá de preocupação porque o leão começará a pastar.

Ilustração e poema de Solivan

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Nono sonhando acordado.

Nono

Nono
chegaste tão cheio de mar
cheio de Itália
e neste mar, nesta Itália dentro de ti
foram entrando Santa Catarina
os olhos teus foram engolindo
todo o sul do Brasil
e o sul
foi dando brasilidade
ao rosto teu.
Meu nonito, em ti
os defeitos eram só risíveis defeitos
os palavrões eram ledos em tua boca
flores nascidas do vinho em seu peito
de tua alma latina
teu falar era alegre,
trançado de duas línguas.
Unhas sujas de tanta terra
de tanto plantar com as mãos,
seus filhos plantam com aço
e dão mãos de aço aos filhos.
Nonito, saudades de tua mão de carne
fruto áspero e rude
de onde retirava carinhos
tal como fazem os homens
com o algodoeiro.

Ilustração e poema
de Solivan

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Motivos orientais





1
Preocupou-me um problema insolúvel
até o dia que ouvi
ao passear no jardim
um ancião
dizer cheio de felicidade à uma libélula:
“Ainda temos todo este verão de vida”.
B
Noite de primavera,
florescem
estrelas no céu.

Poço profundo,
salvo
pelas suas cordas vocais.

Sol traz
ao lago calmo,
constelações de reflexos.

Caos urbano, porém parecia
com tai chi chuan
a informação do chinês.

Com um grito grafitei
um hai-kai
no vento marinho.

O distraído
tem uma águia
dentro do olhar.

Fotografia e poema de Solivan

terça-feira, 14 de setembro de 2010

video

Apenas transcrevo

Apenas transcrevo
todos os poemas que me dita.
Sou teu escriba
minha alma.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Vilela: vida e obra(Fragmento)

Crucificaram Vilela.
Crucificaram o poeta cínico
pobre e esnobe
de sorriso lascivo e abusado.
Crucificaram o poeta
pregaram-no em uma cruz
feita de garfo e faca.
Crucificaram o poeta
cheio de escárnio
e devassidão.
O poeta crucificado
pede frugalmente água
dão-lhe fel
suga o fel oferecido.
O derradeiro não
corta seu estômago
sangra uma mistura de
feijão, arroz e comprimidos para dormir.
Vilela inocentemente
nos dá ainda
a beleza de seu último milagre
faz sua coroa de espinhos
de roseiras florescer rosas vermelhas
e fala suas últimas e introspectivas
palavras
- Perdoa-me PAI,
mas eles sabem o que fazem.

Ano 33, dia 5

Vilela é editado no terceiro dia.

Poema e ilustração de Solivan

sexta-feira, 27 de agosto de 2010


Lãminas
Proustinianas brasileiras


Acordo antes do celular despertar, me espreguiço, o prazer do sono está em suas fronteiras, no adormecer e no acordar.Abraço Aline, gosto de tocar em seu corpo, sentir seu calor rosa, sei que ela gosta de dormir mais um pequeno, mas gostoso sono,gosta de roubar para si a maciez deste pequeno tempo,se dá este luxo. O celular espera mais cinco minutos e avisa com mais alguns trinados.
-Bom dia - diz Aline.,
-Bom dia - respondo, nestas pequenas palavras matinais pode se sentir como está nosso relacionamento, as palavras são sempre as mesmas toda manhã, mas o sentimento que esculpe a expressão e põe música em seu tom é diferente, o bom dia pode soar doce, amargo, angustiado, sensual.
Dormi mal esta noite, fui e voltei da sala, rinite, insônia. Ligo a TV, a voz paternal do jornal vai me ajudar a dormir mais um pouco, quinze minutos vai me ajudar a escrever melhor. É bom sentir as cobertas quentes, é bom me contorcer. Como fazemos os mesmos gestos, os mesmos sons, para sensações antagônicas, temos gemidos similares de prazer e de dor, nos contorcemos de prazer ou de dor.
Ouço Aline chamar nossos filhos para ir para a escola, é preciso ser insistente, repetir como o celular, da cama escuto o barulho deles indo ao banheiro, e a procura arqueológica por meias e uniformes perdidos. Um dia vou sentir saudades destas manhãs, de ouvir as portas dos armários sendo abertas,das xícaras,as brigas pela partilha do chocolate quente, por mais justa que tenha sido a distribuição de Aline.Hoje nossa casa respira, vive, é colorida pelos desenhos animados, sons de vídeo- games, bonecas esquecidas pelo sala,copos quebrados e pelas reclamações constantes de Aline porquê as bolachas e chocolates duram pouco, quando a casa ficar silenciosa e sem filhos e os copos não mais se quebrarem, os chocolates durarem mais e meu violão ficar exatamente onde deixo, imóvel, morto, vou sentir uma saudade enorme, mas hoje me irrita, não consigo dormir. Leio algumas páginas, sobre física quântica em uma revista, sempre tive com a física uma relação pop, o que sei sobre a relatividade, quasar, matérias negras, assisti em algum documentário televisivo ou principalmente li em alguma revista, sempre gostei de matérias sobre o assunto simplificadas por jornalistas ou um físico didático, nunca comprei um livro de física, mesmo assim sou petulante, iconoclasta, fico irritado quando leio que a física quântica é desordenada, imprevisível, que as leis da física não atuam nas partículas subatômicas, acho que é uma questão de ponto de vista,olhamos como gigantes para estas partículas e como seres insignificantes para as dimensões do cosmos,e é este olhar o olhar do insignificante, do distante que dá lentidão aos processos extremamente rápidos do universo e nos permite estudá-los.Portanto,se pudéssemos diminuir nosso ponto de observação, e ponto de por sobre um núcleo de átomo como um asteca vendo estrelas,então poderíamos ver a escala atômica movendo-se calmamente e estudar sua previsibilidade, ou se pudéssemos filmar os processos e diminuir seus movimentos até deixá-los em câmera lenta íamos ver que as leis da física e da quântica não se diferenciaram,ou mínimo suas leis próprias poderiam ser desvendadas, porquê é sua velocidade não seus processos que nos desorientam.
Quando as crianças saem para escola e Aline para o trabalho, consigo dormir mais um pouco, acordo e fico assistindo o jornal da manhã,como futilidades faladas por alguém com terno e gravata passa por algo sério e inteligente, raramente assisto ou leio jornal, há muita notícia irrelevante como de uma professora que dançou nua em boate, índices econômicos descartáveis,a festa junina do presidente,um acidente de automóvel sem vitimas em São Paulo. Gosto de noticias que me ensinem algo durável ou que ao menos me divirta, informações que poderei usar para sempre.Tirando a previsão do tempo, raramente uma notícia que morrerá em uma semana ou em um dia me interessa,é só ler um jornal velho para ver que a maioria das notícias políticas e econômicas terão menos valor que uma receita culinária, por isto mesmo, por separar o que é relevante, quando leio um jornal ou revista não me importa que sejam antigos, porque sei retirar deles notícias ainda vivas, quando trabalhava com meu pai,o que detestava por ter que fazer poemas e desenhos escondido ou sob seu olhar de desaprovação, mas gostava dos dias de chuva,dos dias de tempestade com lindos raios era melhor ainda, o movimento caía muito e era uma delícia ir nas pilhas de jornais velhos e achar notícias frescas principalmente nas páginas culturais.
Escuto Arlete chegar, é ela quem domestica nossa casa, é a domadora que faz as cadeiras e sapatos voltarem ao lugar, tira as escamações de nossa pele das estantes e chão. Logo sinto a alma do café que Arlete está preparando pairar no quarto, após um banho cálido, desço as escadas, há muitas fotos na parede, como é bom ter uma máquina capaz de apanhar um momento delicado como um sorriso de meu filho, minha filha lavando louça, fazendo bolhas de sabão ou todos jogando banco imobiliário. Uma máquina fotográfica não machuca o tempo,o colhe sem incisões, sem o entalhar ou pintar, reproduz apenas com uma luz doce,tão suave, toca um segundo com tanta delicadeza e ternura que não o machuca,o deixa inteiro, como a mão de Gandhi segurando uma borboleta azul e nos permite emoldurar uma lembrança.
Tomo café na sala vendo os gols da rodada, subo novamente para escovar os dentes, me lembra espremer tinta óleo, branco de titânio, sempre me dá ânsia escovar os dentes, duas tossidas clássicas. Já inventei alguns sabores de pasta de dente, folha de laranjeira, de cidreira, camomila, acho que quase todos os sabores de chá combinam com sabores de pasta de dentes. Antes de sair procuro minha carteira, chave e celular, de tanto os perder, consigo os achar com mais facilidade, virei especialista, um detetive, sigo seqüências, primeiro interrogo pessoas, após procuro nos lugares mais óbvios, depois tento reconstituir a cena, só então perco tempo em uma varredura minuciosa. Pego apenas um cigarro e vou caminhando até o escritório, com vontade do primeiro cigarro me acariciando, de ler meus e-mails e de começar a escrever ,é isto que me faz levantar.
Nove horas e quinze chego ao hospital, sempre estou um pouco atrasado, o que me incomoda, mas já incorporei o atraso, justificável até 9:30 depois disto não consigo mais iniciar nada,me perco completamente, não sei mais o que fazer.Assim que entro no escritório chaveio a porta,não estou me aprisionando,pelo contrário, fecho o mundo do lado de fora do meu Éden, enclausurado me sinto livre,fico cheio de uma imensidão onde posso soltar meu pensamentos, a solidão é um pergaminho de ovelha negra onde escrevo, ligo o computador e num ritual abro alguns e-mails, acendo meu cigarro como um incenso que me trás pensamentos,então começo escrever. Inicio meu poema “veludo” só tenho esta idéia primordial, agora dependo do seu poder gravitacional para atrair palavras, começo escrever, jazz de imagens: Veludo/Aqueduto da suavidade/agulhas macias/pesada leveza/campo de trigo avermelhado. Minha espontaneidade é uma massa amorfa, é preciso destilar e definir o estilo,o estilo do o poema é importante para que a frase seja moldada, a minha frase não vem pronta, precisa de sal ou adoçar. Aqueduto da suavidade não é uma boa frase, nem uma é uma boa frase, talvez “agulhas macias”.Quero palavras iridescentes, macias “Pluma” é uma boa palavra,suave, porem muito leve,não resiste ao sopro,quero palavras agarradas ao texto,se alimentando dos restos de banquete e orgias de um veludo episcopal,este será o estilo:O tapa do dominador é de veludo/o tapa para dar prazer/invertendo o sentido da violência,/agulhas macias. Boas frases, com defeitos, mas boas, tem inversões, porém “tapa” tem que ser substituído “chicote” talvez, não “chicote” também não. Fecho os olhos, passo um longo tempo em espreita,escondido na escuridão, procurando o rumor de uma imagem,sentir seu cheiro,não faço nem um gesto brusco, espero que o telefone não grite, nem quero ouvir três jeb’s na porta. Nada, apenas o trivial me ronda, incomoda. Fico inquieto, preciso me alimentar com algumas frases por dia, ou me debato, fico ansioso como numa noite de insônia. Luto contra a vontade de sair, de olhar as correspondências, tento me concentrar, há yoga nesta silenciosa espera felina. O relógio me espinha com suas setas de zarabatanas envenenadas. Tenho apenas umas idéias para ilustrações, um quadro chamado fotografia e uma estátua de uma Eva desesperada tentando devolver a Deus a maçã mordida, dizendo “foi apenas uma mordida.” “Onça negra” é puro veludo, fluidez e dá brasilidade ao poema: O veludo descansa sobre a cama/ Onça negra após o cio. Soou o gongo, escrevi apenas joio, mas estou acostumado com estas derrotas cotidianas, renitente, amanhã recomeço. Desço as escadas lembrando quando estava em um café, após uma palestra discutindo com a Luna, uma poeta do que surge, é o poema que a encontra, e eu o poeta do procurar,do caçar o poema,da insistência. Mas tanto seu método mais orgânico quanto o meu rigoroso,de expediente, somos presos na insegurança do lidar diretamente com o criativo,minha procura por poemas não é a garantia de que os encontre,como aconteceu hoje e Luna pode não mais ser surpreendida por um poema ao abrir uma janela, porque toda a criação vem do inesperado,emerge, e sobre isto, o escritor seja ele disciplinado ou displicente,não tem controle. Porém acredito que quanto mais guardamos sensações e conhecimentos, maior a capacidade para encontrar conexões com o improvável e é exatamente o improvável que faz a arte se movimentar,e os museus criarem novas alas.
Tenho que ficar na recepção por uma hora para a recepcionista ir almoçar, os corredores estão vazios, escuto apenas um bebê chorar e pardais, pego um cafézinho e vou ver o sol, mas logo volto para a frente do computador para poder escrever meu poema alternativo, com cara de quem está fazendo relatórios, se ninguém aparecer para marcar consulta ou internamentos,se o Dario não vir, ele gosta de conversar comigo sobre guerras,mulheres e carros,e sabe que sempre estou aqui neste horário, torço para que não apareça, mas não completamente se ele aparecer vou ter uma desculpa para parar de escrever e estou cansado, sem alma,com os espinhos do poema veludo engasgados na garganta, amanhã quero revanche.
O Dario, ele já viu discos voadores, tem um olhar messiânico ,um pouco louco,suas pálpebras abertas lembram uma mandíbula de cobra engolindo os olhos e usa uma barba com veios de prata, é bíblica ,porém não lembra apóstolos ou Moisés ,mas Barrabás, nunca veste roupas novas,na verdade gosto de conversar com Dario, o problema é que ele surge em horas inapropriadas, hoje exemplarmente, não apareceu, adivinha quando o poema não me surge e ele não atrapalharia. Após mais uma hora de tentativas inúteis vou para casa almoçar e ir para o quarto ler algo suave antes de dormir um pouco, é uma delícia dormir depois do almoço, ressuscito bem. Ao voltar a tarde ao escritório também sempre leio, ao contrário de quando estou em meu quarto, para meu escritório reservo leituras que precisem de mais concentração, o livro me amamenta com seu leite denso,se televisão ou um filme é uma espécie de telepatia que nos injeta uma idéia pronta com imagens e sons, ler falta algo, um ingrediente que o escritor não consegue fazer pelo leitor, mas é justamente nesta falta que esta sua força, ler obriga ao leitor pensar e produzir imagens, ler é pensar, ninguém lê sem pensar, podemos ler um livro ser perceber nossos pensamentos, mas estamos sempre pensando, criando imagens,editando imagens,sentindo, porque ler é interação podemos tocar o que se lê,o pensamento tem cinco sentidos, a leitura molda brinca com estes cinco sentidos, o cérebro tem o poder de criar realidades, se tem algo mais próximo do real é o sonho e ler é um sonho moldado,escrever é esculpir um sonho moldá-lo com palavras, ao ler usamos a memória do táctil, do olfativo, ler tem o gosto e imagens.A leitura fixa melhor um conhecimento,porquê seja ele bom ou não, verdadeiro ou falso é apreendido com os cinco sentidos, porquê isto é intrínseco do ato de ler.
Bom, está na hora de utilizar ao máximo o pouco pragmatismo que tenho e organizar papéis,ver os caixas. Manter as contas do hospital em ordem, até as quatro quando novamente em casa faço um lanche,acho que aguento minha dupla jornada porquê me dou ilhas de descanso absoluto durante o dia, dormir após o almoço e ir para casa no meio da tarde e escolher uma fruta, cada dia pego uma diferente, uma bergamota, um caqui ou um pedaço carnal de melância, se maçã, sempre sinto vontade de destilar seu perfume,de ter seu perfume apartado de sua carne, e vou me aconchegar na sala. Sinto todo o dia o prazer de, chegar na sala,de ver o vaso reconhecível em cima da estante,as pequenas estatuetas dos guerreiros de Xiam e de um cavaleiro medieval, como alguém perdido que reencontra que acha a segurança de um ponto de referência, o que sinto é uma felicidade diluída de quem se perde diariamente e tem que encontrar diariamente o caminho de casa,de quem já está acostumado com a insegurança, mas mão perdeu o gosto deste reencontro diário do perdido com o que lhe é familiar. Mesmo uma perda corriqueira, como uma chave do carro desaparecida tem sempre o potencial de ser para sempre, e é sempre bom o primeiro toque com o que se tinha perdido, é quase um sabor sentido pelas mãos. Então finalmente depois de me achar, posso descansar, por uma hora, neste pequeno pedaço de eternidade, reviro rapidamente os canais da TV, atiro com arma a laser do controle remoto atrás de um documentário,de filmes ou de um divertido seriado antigo, acompanho cretenses, a vida de Picarbia, de Lorca, sou especialista em animais, sempre me comove poder de minha sala ver leões caçando, escolho um canal e hiberno por uma hora em frente ao fogo virtual da televisão. Aprendo nesta posição vegetativa de ostra criando pérolas. Televisão é minha distração, no fim da tarde bebo uísque em sua frente e nas madrugadas de insônia e rinite. A TV me faz parar de pensar, algo como descansar após um esforço, na frente da TV consigo dormir ,relaxo, porque não preciso produzir imagens, tudo é simplificado, um pensamento já pronto,resolvido e editado, o que é um alívio para mim que sempre lutei contra minha alma inquieta. Quase sempre adormeço na frente da televisão vendo suas guerras de ninar, ao som de metralhadoras,bombas e sirenes de algum filme. Eu também gosto de assistir um filme quando o domingo fica tedioso pela aproximação perigosa da segunda-feira, talvez resquício de ir ao cinema na infância, das matines de domingo à tarde, prazer que começa ir a uma locadora ou comprar um bom filme, é um passeio semanal,passo por vitrines,olho as meninas passeando e rindo, acaricio árvores,compro revistas, sei onde tem uma pitangueira que deixa alguns galhos passar por cima do mur. Da calçada ,se for o tempo de frutificar é possível colher pitangas com um sabor de roubo inocente,se não há frutos ,tiro algumas folhas para sentir o odor. Também posso passar perto das camélias e sentir seu cheiro de moça perfumada. Quando chego a locadora, escolho cuidadosamente um filme,vejo diretores, sinopses, por ter múltiplas escolhas posso ser exigente e pegar o melhor, o mais suculento e dispensar as que tenham um mínimo defeito, geralmente pego um filme do qual já tenha lido a respeito, saber com antecedência aumenta meu desejo de conhecer, de tocar, sentir. O descobridor dos manuscritos do Mar Morto, não deve ter ficado muito eufórico com sua descoberta até saber do que se tratava, porquê não tinha conhecimento do que havia achado. Já os ossos pequenos de Lucy, devem ter enchido o arqueólogo de alegria, porquê ele sabia que aqueles ossos fragmentados, áridos e espalhados como um vaso partido eram cheios de importâncias, de interesses, foi seu conhecimento prévio e profundo de coisas similares, que leu nestes pedacinhos aparentemente sem significado, um elo e entendeu sua significação,sabia, mesmo sendo algo que nunca tinha sido tocado, que estes ossos eram o primeiro esboço de um ser humano. Tais ossos, se encontrado por um leigo, seriam algo a ser ignorado ou no maximo serem destas coisas que nos damos ao trabalho varrer ou jogar no lixo.
Então quando finalmente deito no sofá como um romano pronto para se deliciar num banquete godt de ver e ouvir tambores da 20th Century Fox, como um sem-culote assistindo uma execução, o rugir da Metro, as quase vídeo- instalações dos inícios dos filmes, assistir os pensamentos editados e visíveis dos diretores, um filme para os atores é um teatro onde as interpretações podem ser repetidas até a perfeição. Vou at depois do final, leio os créditos e sua disposição de poema,quero saber quem compôs as musicas,quem escreveu o roteiro.Mas hoje não é domingo, preciso voltar ao trabalho, manter tudo organizado, o hospital é meu mecenas, minha editora, eu acho até que o edifício lembra um pouco a angulosa face de Lourenço Médice. Sob suas asas consigo horas cálidas de proteção e posso escrever e ler, retribuo sua gentileza pra comigo cuidando o melhor que posso da minha galinha dos ovos de bronze.Não me sinto castigado, apesar que querer, e muito, ser alimentado somente pela poesia, porquê sei que é histórico a jornada dupla que se submetem os poetas, mesmo os melhores não viviam de poesia. Drumond em sua repartição pública, Cabral , Vinicius e Dante diplomatas, Lemiski traduzindo. Para se viver de poesia é preciso ser vegetariano e viver de pastar as folhas de sua coroa de louros. A poesia sofre de uma distorção mercadológica, atingiu uma excelência generosa, quis dar brioches para todos, mas o povo quer pão, e a poesia foi destronada, está no calabouço, mas mandélica, não perdeu seu brio,sua convicção e conspira, nem que seja falando com as paredes,na esperança que estas tenham ouvidos.
Para vender poesia,é necessário distribuir nossos livros, estar nas livrarias em lugares vistosos. O que tenho visto são livros de poesia escondidos em cantos,em lugares que dão torcicolo, precisamos de gôndolas de ofertas, que pareçam uma bananeira,com o slogan "Poemas a preço de banana".
A noite volto para casa, arrastando a alma, precisando descascar, relaxar, esquecer contas e poemas.Tenho um lema de auto-ajuda, os problemas existem e devemos tentar resolve-los,mas preocupação é algo inútil, perde-se com ela um tempo que deve ser oferecido a paz.
Aline está tricotando na sala.
-Tive um dia péssimo, sem frases novas, contas.-Reclamo amargo
-O meu também foi cheio. - Ela responde
-E as crianças onde estão?Há recebi mais uma recusa da editora Hienas.
-Mesmo? O Duda está no computador, Marcelo no banho e a Luiza assistindo novela no quarto.
-Como as coisas estão complicadas, não e fácil, me equilibrar.
Aline apenas acente, fico querendo mais palavras dela.
-Tive uma idéia para uma ilustração, não sei se vou ter talento mas quero pintar um desses nus fotográficos em preto e branco e fazer o mais parecido possível com a foto, seu nome será uma inversão fotografia
e uma estátua de Eva desesperada tentando devolver a maçã já mordida para Deus.
-Parece uma boa idéia, qual poema?
-Não sei, se precisar invento um. Idéia não e nada se a execução não for boa.

Conto e fotografia de Solivan

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Dança



Fotografia de Solivan

Monalisa e hipopótamos(fragmento)

Quero olhar, olhar
Com telescópios e microscópios
Que tenho os olhos boquiabertos com o mundo

Ver
o universo
esta negra bonita de mais perto
e o big beng que ejaculou mundos pedras e sóis no seu útero
e pelo menos um foi fecundado.

Observar com carinho o ínfimo
Por que toda a vida tem
seu inicio no minúsculo.


Os perfumes,respirar os perfumes
do pão e do orvalho,
das ruas com cheiros de roupa nova,
das ruas com o cheiro aconchegante das cozinhas e frituras,
das lojas com o delicioso aroma das sandálias e sapatos.
Nos shoppings procuro
as livrarias
emanando o tentador aroma de livros novos,
entro nas perfumarias
para sentir as delicadas composições dos perfumistas
estas musicas feitas com das seivas e madeiras,
com flores, tangerinas e glândulas.
Experimento a dosagem orquestral
das graves gotas de cedro e o agudo dos cítricos
com suavidade de flauta das alfazemas,
toco os frascos que
me parecem recipientes alquímicos
estojos para alaúdes
essências envoltos em mantos e conchas de vidro.

Poema de Solivan

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Cavalgo sempre no amanhecer



Meu cavalo é veloz
acompanha a nascente
cavalgo sempre no amanhecer.


Ilustração e poema de Solivan

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Manhã


Fotografia de Solivan

Na rua d’ouro durante uma chuva

Chovia e ventava
o casacão preto dava um ar sorumbático
a Fernando Pessoa.
O vento pareceu levar
seu chapéu
mas era sua alma,
que se desprendera do corpo
e brincava na chuva
de chapéu
rodopiava nua, invisível
com saltos de ginasta.
O corpo
de casacão preto a seguia
com passos envergonhados
como um pai atrás de seu filho levado.

De Solivan

Eu vou ficar

Eu vou ficar
e me aninhar
comodamente no desconforto.
O frio há de me aquecer
a fome me alimentar.


De Solivan

Poesia alheia: Neuzza Pinheiro

Gatos...
sempre mantém
aquela postura de pluma
e lá se vão
uma a uma
pé ante pé
pétala
sobre pétala
como se pedra
fosse espuma.


De Neuzza Pinheiro

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Pai cinza e o Filho colorido



(Para Vinícius)

O homem cinza
de sombra ou rocha
leva
o menino vitral
que tem sua mão presa ao pai
como flor enraizada na pedra
a outra brinca no ar como pássaro liberto.
O indicador livre
aponta seu raio solar
para alegria
quer brincar dentro das cores
ou tingir a língua
com um picolé carmim.
O sorriso do menino
e uma flor de dente-de-leão
o pai sopra o
sorriso
o menino apaga-se.
O braço paternal
como um pincel
em falanges espalmadas
mancha com um tapa
de raiva vermelha
a alegria amarela no seu rosto do menino.
Mas seu coraçãozinho palpita como uma estrela
e pulsa
estrelinhas em cordames natalinos pelas veias
as luzinhas coloridas
reacendem renitentes.
O pai continua pedra ou sombra cabisbaixa
um gosto de culpa
incrusta
como pátina sobre sua língua.

Poema e ilustração de Solivan

Ponte da amizade

Ponte da amizade

O concreto da ponte flutua
tem algo de voar, de lento voar
algo que me deixa gasoso
ao andar sobre ela.
Porém parece só acontecer comigo,
os outros pedestres estão mais pedra.
Vejo engarrafamento, suor e contrabando,
mas a ponte se mantém tranqüila
com uma docilidade cetácea.
Embala os que mijam, roubam, buzinam e xingam
sobre suas costas.
Afago-a, emocionado com sua bondade.
É das coisas que conheço
a mais próxima da santidade.

De Solivan

Poesia alheia:Tininha

Poema escrito pela gata de minha filha, quando cruzou elegantemente sobre meu teclado.

;/56q3

;/56q33333333333333333333333333333333333333333yu=9j8
ol


De Tininha

sábado, 24 de julho de 2010

Mulheres guaranis tomando chimarão



Fotografia de Solivan

Insegurança

Lembro quando estava em um café, após uma palestra discutindo com a Luna, um poeta do que surge, é o poema que a encontra, e eu o poeta do procurar, do caçar o poema, da insistência. Mas tanto seu método mais orgânico quanto o meu rigoroso, de expediente, somos presos na insegurança do lidar diretamente com o criativo, minha procura por poemas não é a garantia de que os encontre, como aconteceu hoje e Luna pode não mais ser surpreendida por um poema ao abrir uma janela, porque toda a criação vem do inesperado,emerge, e sobre isto, o escritor seja ele disciplinado ou displicente,não tem controle. Porem acredito que quanto mais guardamos sensações e conhecimentos, maior a capacidade para encontrar conexões com o improvável e é exatamente o improvável que faz a arte se movimentar,e os museus criarem novas alas.

De Solivan

Poema ao rio Iguaçu

Rio represado
domado
pela inflexível
posição marcial do concreto.
Rio com hora marcada,
espera contido,
espera angustiado
a hora de fluir feliz
por entre
estas vaginas metálicas.
Meu rio
de margens indefinidas,
e às vezes litigiosas.
Iguaçu de pouco peixe
que lança lambaris aos pescadores
como quem joga moedas
ao mendigo da praça.
Rio importunado
por projetos,
urbanizado
pela pouca poesia
das casas de veraneio.
Enquanto pesco
à sombra de um
out door da
Severo Materiais de Construção,
penso
que teu caule passa aqui,
mas tua rosa flor branca
abre-se em Foz do Iguaçu
e lembro do dia
que levou vilas e pontes
inclusive a zona do Chopim-Dois.
Foi-se o sofá das putas
deslizando rio abaixo.
Adeus sofá das putas
sentirei saudades.

De Solivan

Música

É uma fotossíntese,
qualquer cantor
aspira ar e expira notas musicais.
Já o blues man emite sons feitos de barro.
Vi um cego tocar acordeom,
a música o sacudia como uma ventania ou maré.
E por falar em cego
a música materializa os sentimentos,
reconhecemos um sentimento dentro do peito
como um cego apalpa e reconhece um objeto.
Músicos precisam do silêncio,
do silêncio branco como linho
para esculpir sentimentos.
Pergunto-me:
quem nasceu antes a música ou o rouxinol?
Acho que a música pousou num galho e compôs
um rouxinol.
E a beleza
a beleza nada mais é que música
de objetos não sonoros.

De Solivan

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Exegese de Eva



Eva, Eva
o Éden gritou de dor
quando você
Imolou o que mais amava,
Eva, Eva
Agora em sua boca ressaibos de carne crua.
Eva, Eva
seu cabelo foi a serpente
Eva Eva
sangra tua lágrima azul.
Eva,Eva
tua face; uma escultura bela
Foi remodelada pela angustia
Eva,Eva.
Trançados de espinhos envolvem o útero
Eva,Eva
tua pele é um sudário tecido de angustias e dor
Eva, Eva.
Com o coração mordido,
como uma gazela por um leão,
Eva, pobre Eva
tenta devolver
a maça a maça ferida.

Ilustração e poema de Solivan

Fragmentos do diário de Ariel

Sou um homem com ilustrações na alma
ando com ilustrações e passos vagarosos
um banco ao lado de uma árvore
convida-me a olhar a imensidão
sinto-me enorme, sou até onde
minha visão alcança.
Olho um pássaro no alto, distante
no céu azul com nuvens brancas
e me pergunto
quem é mais livre neste instante
o pássaro lá no alto
com olhos fixos na terra
ou eu de olhos perdidos e livres no firmamento
e neste momento
em que a retina engole o oceano
o céu e a linha do horizonte,
ouço o mar
e o barulho do mar
lembra-me
o som do interior das conchas.


De Solivan

Mimeógrafo: poesia marginal dos anos 70

Idílica Estundantil-III

Nossa geração teve pouco tempo
começou no fim
mas foi bela nossa procura
ah!moça,como foi bela nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta.

De Alex Polari


A(R)MAR(?)

De Marcos silva


que viagem
ficar aqui parada

De Alice Ruiz



quem tem a mão decepada
levante o dedo

De Nicolas Behr


poética do cotidiano:5

Num domingo desses,
correu por entre os barracos,
som dos futebóis e cheiros de maçarão,
uma noticia triste:
(de uma rua escura de Nova York )
O sonho acabou.

De Flávio Checker




Sobre o momento atual e a tática proletária


Panfletamos a noite toda
-o nome mais belo do medo-
e alguma coisa nos fazia
lembrar uma música

somos ainda jovens
e o suco de laranja estava

ótimo

De Maira

sexta-feira, 9 de julho de 2010

video

grãos de areia

grãos de areia que reclamam do mundo
grãos de areia que discutem sobre o universo
grãos de areia presidentes
grãos de areia escritores
há um grão de areia pintado com um sorriso enigmático
nas paredes de um museu
e outro com a orelha cortada.
temos grãos de areia de esquerda
grãos de areia islâmicos
grãos de areia com problemas cardíacos
grãos de areia rico e grãos
de areia que compram a prestações.

De Solivan

Falange

Canções de uma banda de heavy metal que nunca existiu


1)Grito biográfico

Eu que obedecendo aos gritos de uma dama de ferro
parei de escalpelei os meus cabelos,
vesti sudários estampados com serigrafia
e fiz de uma bandeira bucaneira minha jaqueta.
Que com os rastos de uma caneta
tatuei nos braços temporárias cobras e cruzes
E na ultima das cadeiras elétricas da escola
fazia canções e iluminuras hereges nos cadernos,
enquanto outros engoliam equações que ainda coaxavam.
Eu que com minha alcatéia,
bebia espumantes poções amargas
recostado em trelizas brancas.
E nos sabados fazíamos pirâmides humanas nas ruas
ou em celebrações tribais ao lado de um riu
bebianos sangue de cana
e assávamos pedaços de manutes
comprados no super-mercado.
Que entediados alugamos um avião velho, já sem azas
e viajamos, bebendo, brigando e parando nas danceterias.
Ate o paraquai onde comprei chicletes coloridos.
Eu que transformei uma armadura medieval em moto
e galopando este magro vento de metal
atravessei a avenida brincando com uma tempestade
e rasquei uma neblina âmbar tingida pelas luzes das estrelas elétricas.
Que desci pelas escadarias do templo
com uma linda menina de cabelos vermelhos
pira sedosa tratado com xampus e amaciastes.
Eu que numa esquina suspeita de Curitiba
receptei um grifo que ficou no meu ombro como uma rêmora
e o alimentei com pedaços de aço.
E viajei para o sul ouvir venenos,mas o saba foi cancelado
então fui ao cinema ver sons violinos esfaqueando
uma moça no banho,
e me auto-condecorei com bootons
em negras lojas.
Eu que fui preso por acariciar um
peixe ornamental na rua.
Meus dedos ainda tinham cheiro de peixe
quando um soldado do exercito de bobos da corte
me disse “vou te soltar pelo seu pai”
e respondi. “Se for pelo vendedor de combustíveis fosseis
pode soterrar a entrada novamente”.
Então passei a noite com uma ladra vestida de noiva.
e ouvindo os gritos de um assassino tento pesadelos.
“Alice com laços vermelhos saindo do corte,
Alice caindo,Alice se transforma em ofélia no fundo do poço.”
Eu que fui apedrejado pelas lagrimas de minha mãe,
mas evitei sua santificação pelos meus pecados
recusando me a injetar o bico do beija flor no meu braço
para espremer seu corpo ate ele vomitar nectar dentro de mim.
Eu que quebrei suavemente um diamante
que sangrou rubis e fui embora atravessando arvores retorcidas.
Que guardei uma mansão abandonada,
solitário sem nem uma mesa de centro para afagar,um sofá para me dar colo
e fiquei deitado em estado vegetativo,
me alimentado por fotossíntese e café solúvel requentado.
Eu que vendi recipientes feitos de seiva
que serviam para se por um pedaço de atmosfera.
E trabalhei em uma loja de materiais de construção
cheia casulos de maldade, charques e pernis de ódio pendurados,
onde lutei com um Ogro cheio de varejeiras,
ate jorrar rosas vermelhas pela minha boca como uma estatua de fonte.
Eu que atravessei a transamazônica em um navio negreiro,
como não tinha lugar nos rotos e remendados tapetes voadores
estendi meu lençol de faquir no corredor.
E na madrugada masturbei uma lactente no cio.
Que vi do outro lado do riu ing e iang
uma cidade cheia de vida como um antigo cemitério no dia dos mortos,
com urubus sobre as casas tumulares,
e conheci suas lojas
que vendiam cocares e vídeo-games ,bordunas e televisores.
Eu que voltei para casa com saudades
de folhear meus recipientes de musica,
de rever sua decoração e beber os sons pesados num brinde nórdico
e limpar os cantos da boca com o antebraço.
Eu que morei num lobo branco de geada
e fiz aulas de pintura no seu estomago com estantes e bibelôs.
E com meu cinzel amei uma das três graças de Rubens
em uma casa feita com de carne de pinheiros.
Que conheci um amigo que também
era uma ovelha vestindo pele de lobo,
e jogamos ruprestes vídeos- games
ouvindo bocas-crisóis cuspindo lava
e conhecemos um templo Egípcio sombreado por araucárias.

De Solivan

Poesia alheia:João Cabral de Melo Neto

Morte e vida Severina(Auto de Natal Pernambucano)



O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

De João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sobre Quedas e digressões



Sobre Quedas e digressões


Os Polacos ao chegar
fatiaram araucárias
construíram
com este lenho puro imaculado
suas casas.
Católicos martelavam com vigor
porque sabiam que neste lenho puro imaculado
não tinha as mãos de Jesus.
A araucária não tinha o pecado do cedro.
Neste tempo
as ruas de Quedas mudavam
de plumagens ao ano
no verão áspero pó vermelho
no inverno uma nupcial neblina.
Mas dos eslavos e capivaras e pinheirais
da comunidade mítica
desta primeira dentição de madeira
restam apenas
algumas casas apodrecidas.
Hoje as ruas são praticas e cinzas
e prédios matemáticos
feitos de cimento e cálculos.
porem em
suas calçadas de hexágonos sem mel
aparecem índios
vendendo balaios.
sua solidão lembra
que esta cidade quando vista de um alto
ainda parece
uma destas cidades perdidas na mata.
Não gosto do sabor insosso
das linhas retas.
Artificialidades, não gosto de artificialidades.
Gosto de Gaudí
que fez o frio concreto cometer excessos
cometer luxurias.
Já a voluptuosidade de Niemayer
é uma voluptuosidade seca, estilizada.
voluptuosidade tem que ter exuberância.
seus edifícios parecem esterilizados, sem germes.
Não confio em lugares que não tenha germes
lugares santos são cheios de germes
a beleza e sempre cheia de germes.
Porem artificialidade não e desumana
a artificialidade e algo racional
portanto mais humana que a exuberância.
A exuberância esta sim e algo mais animal
mais artística.
Os bares de Quedas
são os nascedouros das lendas
a cachaça com ervas e lascas de sassafrás
e um santo daime, um peiote.
O Orixá Mario de Andrade desce
como espírito santo
a linguagem entra em transe
peixes tornam-se monstruosos
e em quantidade milagrosas
os tiros são mágicos
e matam uma onça mitológica
e o caçador e o cavalo da anta morta
no êxtase, na língua do sonhar.
E alguém imita um polaco
coro de risos.
Das livrarias
gosto da livraria de seu João
heroicamente agarrada ao passado
um carrapato agarrado ao ano de 1967.
Mesmo o jornal do dia
se comprado na livraria do seu João
já sai um jornal cinqüentenário
e muito mais sábio que mesmo jornal
comprado na outra esquina.
Já é um jornal
para ser guardado
uma relíquia
uma peça de antiquário.

Vila dias
E uma favela paranaense
favela branca, de europeus pobres
com um pouco do marrom terra dos caboclos.
Lá e em todo o oeste e sudoeste do Paraná
a cultura gaúcha
encontrou-se com a do caipira.
E quando culturas se encontram
espera-se choque, divisão ou amálgama.
Nas não houve embate
nem o gaúcho e o caboclo mesclaram-se culturalmente
somente desenvolveram uma coexistência única
O paranaense singularmente adotou como sua
duas culturas que continuam distintas e puras
dentro dele
em uma dualidade tão natural
que nem é percebida.
Nos velórios da Vila Dias
o caixão fica dentro das casas
sala aberta como templo.
Reverenciado pela curiosidade
o morto como um santo no oratório
decorado com coroas de alumínio
cuja as flores cheiram a tinta esmaltadas.
Conversas, chimarrão, rezas e choro
fermentam num bolo sonoro
salgado com suor.
Percebe-se em alguns
um certo sentimento de triunfo festivo
os vivos senten-se vitoriosos
perante a morte.
No bar, musica embriagada
e a vizinha assiste à novela
porque na vila dias a morte é cotidiana
e a morte sem os dramas
das mortes dos semideuses da classe media
a morte é comum, domestica
é parte da vida
não causa traumas.
Gosto de artemistificar a morte
Compara-la a quintais abandonados.
Porque vejo
na briga de galo
entre a guaxuma e o picão
renitência do sempre renascer.
Da inútil na insistência de florir
sua flor feia e dissonante
sua flor desperfumada.
Sempre que vejo quintais abandonados
sinto vontade de ser novamente
o menino
que via revoada de rainhas vestidas
Com azas núpciais
em dias de sol e chuva juntos
que enluarava telhados
engrutava porões
para-dificava guarda chuvas
cachoeirizava torneiras
e savanizava quintais abandonados.
De o meu brincar sem nunca individualizar
sem nomear, sem especificar
todas as formigas eram formigas.
Assim nada morre
tudo continua, se um gafanhoto morre
não importava
os gafanhotos não morreram
outro igual nascia e o pedaço era reposto.
Meus soldados também eram renitentes
morriam e renasciam
como gaxumba.
Só a perca era uma espécie de morrer
e o achar ressurreição.
Outros quintais abandonados
Em outros lugares são só quintais abandonados
Quintais oníricos
São os quintais de Quedas
Quintais com guaxuma e picão que reencarnam.


De Solivan