terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A mineração do eu no outro




D’ia
Trabaiei poco co pai dele, eu morava nas lonjuras
dos canhadão do Mato Queimado,nos cafundó,
uns arguere adiante donde o diabo perdeu as bota.
Ia di a pé pra cidade, galo inda cantava,
triste decha a roça,virava pra oia otra veis
a veia co chimarão no rancho luniado de lanpião,
e sumia na seração.
Tinha de cruza quizaza, potrero, pirambera, pinherá,
taguará de tudo lado pra chega na Queda.
Daí dormia no patrão, nos fundão, na dispensa junto co traiedo,
pertado, parecia patente, briava de varejeira,
eu dipindurava unas carça, japona, tudo ensacado
no prego das lingüiça e ia pro serviço.
A moradia era de pinhero prantado por graia azur,
dubado de bosta de anta,mijo de tigre.
Pinhero dos grande,unhava céu,
florado muita pinha te se serrado.
De a frente da casa era cidade, atráis mato,
te os passarinho erum deferente,
pardar dum lado ,nos poste de luiz
e canarinho dotro, mos matagar.
Pra diante
ia pras bodega,trabaia de bastece as tobata,os toreiro,
nus domingo vê firme,nas matine do Mazzaropi,do Texerinha.
Sábado pros baile ranca rabo, dança vanera, panha dos polaco
corre das tiraiada.
Nos fundo
arma rapuca, roba mio, melancia.
Sistia poco teve, era benzida pelo Padre Sismundo
problema que invergonhava, vermeava de i na sala
e do mais, na teve não tinha butiá, quero-quero nem lambari.
Tinha a tar da novela e firme de tiroteio,
de bichinho que falava.não gosto, mais o Soile gostava,
tarde intera, despois pintava osso do peito
de galinha e dizia que era nave espaciar azul.
Bão também Jogava bulica, futebor nas estrada, nos campinho,
voltiava de bicicreta, ia pega bergamota nos confins do Judá.
Quando tinha pechada de carro, velório,
baleado no samambaial, em bodega.
um pia espaiava pro’tro e ião de turmada na novidade.
Ate vaca morta cheia de urubo, iam vê.
Pia é bicho do jchãnho.
Despois se pelava de medo de baleado parece de noite
pegava a durmi só de luiz acessa.
Te parece, luiz não espanta sombração
tem que faze benzimento, joga água benta pra resorve.
Via lobisome,
e oia que lobizome daqui não é bicho brabo,
chupa ovo, pega galinha manca, distrambeia na primeira acoada.
Deve ser cruza de home com quaipeca manso.
Pra esses lado nunca vi fala de lobizome taca gente..
Boitatá intão, qui nos canhadão, nois doma,
usa pras lida,traze tropa de melore,da vortiada,
faze pinhão no fogaredo da crina,
pinhão mio só assado na grimpa.
Que sombrava memo era a Kombi branca que seqüestrava,
marava na soga, bem,dava nó,levava pra taquarazuzar,
tirava as morcia, os bofe da piazada e vendia pros estrangeiro,
despois atirava os guri no Iguaçu, na seva das traira.
De visage, repiava a muié de seração que rodiava o cemitério veio.
Otro, que de veiz em quando
parece na praça de buchada pra fora
diz que tira madera na sexta fera santa,
o pinhero caiu em riba dele, istribucho.
O Soile não queria sabe de i pra aula, burro que era uma anta,
rodava, istudiava só na suiterada,no laço.
O dele é cata fruitinha do mato, se metia nas capoira
trais de sete capote,maria-preta,coquinho,ponta de grimpa verde.
Tinha té carero pro vacum,tudo que male mar dava pra vê,
tudo piqueno,vacum intão é pingo d’sangue.
De boa jaracatiá,banana de mico,ariticum,só no mais longe.
Era mintiroso, gargantiava que tinha luitado cum jiboia
numa quizaza de preá.
Amostrava ranhado de taguaruçu e dizia que era dentada de onça.
As veiz se fazia de índio, cum pena de carijó,
se a negada do posto via, gozava,vinha de pedrada.
Mais gostava memo era de gibi,
ia pega na livraria do Seu João.
Seu João tinha prédio bão, de primera,feita de materiá,
teiado de ternite, teia é coisa veia, casa boa tem ternite.
Tamanho de duas, uma cima dotra,
baxo gibi,caderno,cima moradia,
de zulejo bunito ,enfeitado de flor.
De veiz eu garrava compra um caderno, mais nas vendaiada,
Pra faze palhero, de foia caderno é mais atuar,
inte parece cigarro da holiude.
Seu João ensinava cartilha n’aula
interigente, sabia das Bibria,dos jorna.
Morada na bera da igreja.
Igreja bonita,parecia com das Europias,das de foinha,
co vermeio das chaga de Jesuis.
Mais do longe, nem parecia se de anjico.
Padre Sismundo, ia pras linha de matungo veio, cabado.
Quele tempo, de trais,nem tinha estrada,
ia pelo carrero feito no fação pros interio,
no caminho da onça, facir pisa em urutu,cascaver,
tinha de travesa matagar brabo, chegava ardido de urtiga,
espinhado de cipó unha de gato, inchado de abeia.
Hoje já tem condução tudo facir.
Rezava missa bunita ,enveredava pros conseio,
dava sermão pras muié que ia de saia curta pra igreja.
Tinha ocurus de grussura,tanto lé, acho,cansa as vista.
Assunta como se comprava ocurus d’grau.
Ia na venda mió,maió, nas do Franzoni,
lá tinha balaio de taguara cum monte de ocurus,
escoia,ficava pondo e tirando dos óio té um acenta,
té vê bem as coisa,se não nuviava mais as vista
comprava,o Falecido pai comprava ansim.
Então,vortando, o Soile garrava no gibi
um veiz em quanto,eu zoiava um tar de Tequis,
de outro, co de pitanga ,sombração,
alembrei Fantasma, prestado do Irson.
Mais i os dele era outro,via os não seioquelá dos homeranha
e saia luita com samambaia, mandioca, mata-campo,
entrava pra pega pão moiado com açúcar
e gasosa Serramalte e vortava pras guerra.
Eu tenho radinho, de prastico marelo bunito.
Escuito futebor, jogo do inter ,violero, pograma de pulicia.
Quando fui pra Sarto do Lontra
toquei de compra na rodoviária um vrinho de fareste.
Sabe que inte foi bão vé o vrinho,
quando vortei deitei no pelego
e oiei debaixo da cabriúva de carnea vaca.
Mas não comprei mais,demais de caro,
tinha que guarda pras pia.
Tinha uns de muei pelada,de teta tudo de fora,
Escundi no paió, os rato roeram as mio parte.
Desgraça de rataiedo.
A mãe campeava se catasse ia pro fogo, virava lenha.
O Soile
parecia que nunca tava onde tava,
na rede dizia que tava num caico
e balangava inte no teto,
o teto tinha mais de pezada
que a entrada da moradia.
Subia no teiado,qui era a lua e despois.
se destrambeiava de guarda chuva lá do arto.
Oia,não sei como não se quebrava,
piá tem bicho carpintero no coro.
A casa? era bunita, a dele, grande.
Qui em Queda, eitá lugar de moradia tudo iquar,
parece um c’otro,num tem sobrado cum sotam,nem porão.
Tudo quanto é teiado abre asa pra direita, faze área.
O gente pra gosta de uma área.
“Entra” é só modo de dize, se traiz as cadera
e as visita fica no fresco.
Área é o abraço da casa,
lugar de recebe os cunpadre, toma chimarão.
Tem servendia de garage também,
se chega a parentaida e só vastra o fusca.
A moradia dos bonado são parecida, muda só tamanho
ou feita de materiá, teiado de ternite,
mais o jeito é mema coisa.
Otra deferença me toca dize
é onde se pranta as pranta,
samambaia, espada de São Jorge tudo mundo tem,
só que nos de dinheiro é no vasos,
as outra, dos minquera, é no galão de tinta Rene.
A do Soile era de samambaia no vaso
é rico é bicho fraco memo,
o piazedo não gostava, decha de lado.
No futebor parece chuta purungo,
na bolica, não certa na caseada, no bulico,
num sabe sorta pandorga fica distranbeiada,num avoa.
Ai pegava de fica tempo enchaviado,
cós sordadinho de paper tizorado, guerriando.
Escuitava da porta tando tiro de metralhaiadora ca boca
era ingraçado escuita, num dexava entra de jeito manera.
O Soile era lazerento de ruim no bodoque.
Veis co primo dele chego, fizero um de borracha cansada
e forquia de basorinha, oia não prestava pra nada.
E saíram campiá passarinho, não certaro um,
Daí, aresorverum de pega da gaiola o papagaio peito roxo da famia
cortaro as pena da asa e sortaro,
e dele pedrada no coitado te mata
truchero o bicho depenado
pra mostra que consequi caça
despois que a Dona Tere descubriu que era o Papagaio Peitoroxo
dela as piazada panharum, mais panharum de fica vergão.
Eu quando era novo,lá nos canhadão
carpia as roçada debaxo de sor,
o de friu de racha os beiço,a zorelha.
Gostava de vê carro passa,corre di atrais,te não pude,
despois ficava vendo os rastro dos peneu.
Te cubria as marca cum foia de parmera
pra dura mais,protege dos temporá.
Ficava chola de mostra pros outro
que passava artomover na nossa roça.
Catava pedra caprixada pro bodoque
e ia mira no peito dos sabiá na amorera,
na pinha das juriti nos gaio da canafrista seca.
Perdoava nem curuira, bicho nanico,tem de se bão
certa curuira e qui nem certa no zoio do boi.
I pro rio pula de cipó na’qua, merguiá
e pesca,faze sem-vergonhice.
Sabe lambari? pexe prata e azur,
piqueno ma bastante no Iguaçu tem de monte,
pega facir,de kilo, se joga quirela.
Ma io o bão é faze lambari arecém pescado,
numa fritada,mais radite e polenta,e de lambe os beiço.
O probrema do lambari é as brigaida de casar.
Causa de Lambari oiei os tempo muda.
Pra’onte inda, home pescava e muié limpava,
hoje’dia, mudo, home não manda mais,
causa das novela da Grobo,sabe?
Muierada ficam bizoiando as tar de novelas,
daí prende das modernidades, que trabaia fora.
A minha qué por qué ser zeladora da iscola Castro Arves.
Hoje’dia o home tem que pesca e garra de tira buchada
ainda frita, se muié toca de limpar, oia da desquite.
E torresmo, eitá torresmo, de porco sorto,
criado na lavage, de encraxa os bigode.
Torresmo se escoie, garimpa o mais meio.
Têm muito só graxa e coro duro
de quebra dente do fundo, poco de carne,
negocio é cata que rareia.
Bão é co a companheirada de bodega, cum pinga,
na torresmada tudo iguar , não tem rico,
cada que se ajeite pra acha pedaço que preste.
Passa pra todu o mundo,
gara um, ponha no sar co vinagre e pra dentro.
Torresmo da problema de congistã,
mas não é como outra, que quando torce as tripa,
se pega nojo, torresmo despois de meiorá,
já da vontade de novo, torresmo é assim.
Na bodega vorta e meia parece arquem com torresmo,
Pra deixa os amigo contente.
Vo pra bodegade veiz em quando, joga um pontinho,truco
se esconde de tormenta.
Que dia de chuva não da pra carpi,
e dia de sol é de mais de quente.
Vo pedi um galeto,ovo na salmora, paster
pra come cum gasosa.
Só não me vai pinga com mistura,
mania, estraga pinga cum gaio,cum quizaza,
ponha mestruis, preteia com jaboticaba,
marga com milome, doça com butiá.
Me petece cachaça da pura,de lambique
dose da boa,desse ranhando,de enguli gato de ré.
Só tomo uma cum aio só guando me taca gripe,
o cum losna pro estomego.
Oia bodega não e só pra home,home fica,
bebe, joga sinuca,baraio,faiz gritacera de truco
fica queito no treis sete,na moita.
Mais guri vai compra doce e sai.
O Soile se cabava no doce, não jogava chicle fora,
colava o baita de debaxo da mesa,na geladera
notro’dia pegava de vorta, pra masca de novo.
Bodega se iscuita caso.
Meu cumpradre conto que pesco onça.
O home tinha pego baita pexe,
não é que a pintada se taco na carpa-capim
e o anzor fico prendido na boca dela, bandonei.
Mataram o coitado do meu cumpatre.
Se meteu numa tramóia,
fizero espera na piramberra, perto do córrego.
O capanga sabia o carrero da paca,atiro.
Triste vê, cheio de bala, uma bem no zoio.
Era bão, alembro bastante dele.
Dia ele ia bebe uma pinquinha,dozinha,
falei pra mangá
-Não joga poco pro santo?
num talagazo entorto tudo e prozeo
- Vô não, joga você que é infier,
meu Santo mora qui dentro do meu peito.
Eee sardade, vorti e meia penso nele,
de quanto nois ia pesca,caça, nos bailedo,
cum ele não tinha tristeza.
Se carniava porco,me dava um pedaço,do meió,
mais umas vorta de lingüiça, se coiá borora trazia,
Mandioca intão, de braçada, e quejo, mio verde,
inte galinha limpa,cos miúdo tudo rumadinho no vazio.
Foi coitado, dá nó no peito paifioespiuritosantoamem.
Vá cum Deus cumpadre.
Eu não costumei na cidade, vortei pros canhadão.
Gente vai pra cidade, só pra trupica,
chupa picolé,perde lotação.
Se crio no mato, no mato tem de mora,
cuida da criação, joga mio da galinhada, gosto, vem tudo em vorta.
Cria porco sorto, desenferruja
a quarentinha nos cambuta, nas paca.
Pega quabirova e ovaia no potrero,
sopra as bosta da vaca é manda pro bucho,
Sai e vorta cós borso cheio de butiá,vida boa.
Inte mais.

Poema e fotografia de Solivan

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Conversa sobre o Senhor Prutok




Não, senhor Prutok
infelizmente, seu plano de saúde
não lhe dará eternidade.
Pensei cinicamente,
enquanto ouvia
durante nossa partida de xadrez
o senhor Prutok
falar longamente sobre seu plano de saúde,
e das sete maravilhas tecnológicas
feitas para prolongar o sofrimento.
Eu estava voltado para o portão, com meus sapatos
imantados pela rua.
E achei novas ranhuras no visor do relógio.
Gosta de mim o velho, traz pistaches, narguile.
Deus, como é tedioso ser amado por insossos.
Como me irritei,
mas fixei uma agradável máscara da comédia,
quando me perguntou.
- Gostou do vinho?
- Sim, sim algo frutado, de um rubro intenso.
Calei, mas minha alma continuou.
É também marcante a presença
de acidulantes e conservantes
e tem um bem definido odor de aromatizante para
[automóveis.
Só Liszt dava-me certo alívio
engraçado esses pianistas
cumprimentam a platéia, sentam-se
e tiram sons maravilhosos
dedilhando presas de elefante.
Tem um analgésico?
Minha têmpora lateja como um coração.

Poema e fotografia de Solivan

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O cubo (Fragmento)



Desejava ainda ser o herói que todos esperavam, mas não conseguia, a absurda falta de acontecimentos me impedia, meu orgulho estava oxidado corroído, e sem o suporte do orgulho a espinha não consegue deixar o corpo ereto. Passei a ser cínico e amargo, escarnecia a humanidade, aliás, nem somos humanos ainda, somos híbridos de instintos siamescos apenas atenuados, semi-selvagens, uma raça na puberdade, cheia de ereções, que precisa conquistar, derrotar, de júbilo não de paz, encha de paz e segurança a humanidade e os índices de suicídios aumentam. Como híbridos não temos a verdadeira liberdade do selvagem, que está na luta franca dos animais pelo poder, uma luta que longe de ser apenas a lei do mais forte, e também da velocidade, agilidade, fugas, de camuflagem e venenos, uma luta sofisticada como conspirações palacianas, uma liberdade bem mais elaborada e real, que não é tolhida por leis, dúbias, cheias de interpretações, um engodo que aprisiona lobos para que os leões possam engordar seus cordeiros. Se o natural é perfeito e busca seu equilíbrio, o que é tocado pelo monstro híbrido chamado homo sapiens, torna-se grosseiro, a árvore é perfeita, mas sua lenha tem algo de tosco, porque tocada por semi-selvagens, deixamos tudo que tocamos rude, inacabado, nada é conclusivo, sejam, leis, sistema político, filosofia, tecnologia, em tudo temos que evoluir, e se temos que evoluir, substituir, é porque não chegamos ao perfeito, talvez quando alcançar a condição de homens voltaremos ao perfeito, mas enquanto híbrido, não confio neste símiomem, em sua evolução convulsa, que cria sistemas achando culpados superficiais, sem levar em conta seu verdadeiro inimigo, os instintos, a vontade que temos de nos sobressair, a sede de poder, quando o socialismo acabou com o poder econômico, este foi rapidamente preenchido pelo ainda mais truculento poder político, os instintos infelizmente sempre acham seu lugar.


Conto e ilustração de Solivan

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Minhas Fotos ao som de Debussy.

video

Talvez a jabuticabeira seja feliz


Banho de Sol

Numa manhã fria
tomando sol
num pedaço de quintal
entre uma jabuticabeira
e um resto de horta abandonada,
velhas roseiras
e entulhos.
Fechei meus olhos
fiquei ali,
o ardente amarelo
transpassando
minhas pálpebras fechadas,
inerte,
só sentindo
o calor agradável,
sem pensar em nada,
sem ser nada.
Não existir
foi delicioso.
Quando abri meus olhos,
pensei:
Talvez
a jabuticabeira
seja feliz.

Foto e poema de Solivan