sexta-feira, 9 de julho de 2010

Falange

Canções de uma banda de heavy metal que nunca existiu


1)Grito biográfico

Eu que obedecendo aos gritos de uma dama de ferro
parei de escalpelei os meus cabelos,
vesti sudários estampados com serigrafia
e fiz de uma bandeira bucaneira minha jaqueta.
Que com os rastos de uma caneta
tatuei nos braços temporárias cobras e cruzes
E na ultima das cadeiras elétricas da escola
fazia canções e iluminuras hereges nos cadernos,
enquanto outros engoliam equações que ainda coaxavam.
Eu que com minha alcatéia,
bebia espumantes poções amargas
recostado em trelizas brancas.
E nos sabados fazíamos pirâmides humanas nas ruas
ou em celebrações tribais ao lado de um riu
bebianos sangue de cana
e assávamos pedaços de manutes
comprados no super-mercado.
Que entediados alugamos um avião velho, já sem azas
e viajamos, bebendo, brigando e parando nas danceterias.
Ate o paraquai onde comprei chicletes coloridos.
Eu que transformei uma armadura medieval em moto
e galopando este magro vento de metal
atravessei a avenida brincando com uma tempestade
e rasquei uma neblina âmbar tingida pelas luzes das estrelas elétricas.
Que desci pelas escadarias do templo
com uma linda menina de cabelos vermelhos
pira sedosa tratado com xampus e amaciastes.
Eu que numa esquina suspeita de Curitiba
receptei um grifo que ficou no meu ombro como uma rêmora
e o alimentei com pedaços de aço.
E viajei para o sul ouvir venenos,mas o saba foi cancelado
então fui ao cinema ver sons violinos esfaqueando
uma moça no banho,
e me auto-condecorei com bootons
em negras lojas.
Eu que fui preso por acariciar um
peixe ornamental na rua.
Meus dedos ainda tinham cheiro de peixe
quando um soldado do exercito de bobos da corte
me disse “vou te soltar pelo seu pai”
e respondi. “Se for pelo vendedor de combustíveis fosseis
pode soterrar a entrada novamente”.
Então passei a noite com uma ladra vestida de noiva.
e ouvindo os gritos de um assassino tento pesadelos.
“Alice com laços vermelhos saindo do corte,
Alice caindo,Alice se transforma em ofélia no fundo do poço.”
Eu que fui apedrejado pelas lagrimas de minha mãe,
mas evitei sua santificação pelos meus pecados
recusando me a injetar o bico do beija flor no meu braço
para espremer seu corpo ate ele vomitar nectar dentro de mim.
Eu que quebrei suavemente um diamante
que sangrou rubis e fui embora atravessando arvores retorcidas.
Que guardei uma mansão abandonada,
solitário sem nem uma mesa de centro para afagar,um sofá para me dar colo
e fiquei deitado em estado vegetativo,
me alimentado por fotossíntese e café solúvel requentado.
Eu que vendi recipientes feitos de seiva
que serviam para se por um pedaço de atmosfera.
E trabalhei em uma loja de materiais de construção
cheia casulos de maldade, charques e pernis de ódio pendurados,
onde lutei com um Ogro cheio de varejeiras,
ate jorrar rosas vermelhas pela minha boca como uma estatua de fonte.
Eu que atravessei a transamazônica em um navio negreiro,
como não tinha lugar nos rotos e remendados tapetes voadores
estendi meu lençol de faquir no corredor.
E na madrugada masturbei uma lactente no cio.
Que vi do outro lado do riu ing e iang
uma cidade cheia de vida como um antigo cemitério no dia dos mortos,
com urubus sobre as casas tumulares,
e conheci suas lojas
que vendiam cocares e vídeo-games ,bordunas e televisores.
Eu que voltei para casa com saudades
de folhear meus recipientes de musica,
de rever sua decoração e beber os sons pesados num brinde nórdico
e limpar os cantos da boca com o antebraço.
Eu que morei num lobo branco de geada
e fiz aulas de pintura no seu estomago com estantes e bibelôs.
E com meu cinzel amei uma das três graças de Rubens
em uma casa feita com de carne de pinheiros.
Que conheci um amigo que também
era uma ovelha vestindo pele de lobo,
e jogamos ruprestes vídeos- games
ouvindo bocas-crisóis cuspindo lava
e conhecemos um templo Egípcio sombreado por araucárias.

De Solivan

Poesia alheia:João Cabral de Melo Neto

Morte e vida Severina(Auto de Natal Pernambucano)



O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

De João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sobre Quedas e digressões



Sobre Quedas e digressões


Os Polacos ao chegar
fatiaram araucárias
construíram
com este lenho puro imaculado
suas casas.
Católicos martelavam com vigor
porque sabiam que neste lenho puro imaculado
não tinha as mãos de Jesus.
A araucária não tinha o pecado do cedro.
Neste tempo
as ruas de Quedas mudavam
de plumagens ao ano
no verão áspero pó vermelho
no inverno uma nupcial neblina.
Mas dos eslavos e capivaras e pinheirais
da comunidade mítica
desta primeira dentição de madeira
restam apenas
algumas casas apodrecidas.
Hoje as ruas são praticas e cinzas
e prédios matemáticos
feitos de cimento e cálculos.
porem em
suas calçadas de hexágonos sem mel
aparecem índios
vendendo balaios.
sua solidão lembra
que esta cidade quando vista de um alto
ainda parece
uma destas cidades perdidas na mata.
Não gosto do sabor insosso
das linhas retas.
Artificialidades, não gosto de artificialidades.
Gosto de Gaudí
que fez o frio concreto cometer excessos
cometer luxurias.
Já a voluptuosidade de Niemayer
é uma voluptuosidade seca, estilizada.
voluptuosidade tem que ter exuberância.
seus edifícios parecem esterilizados, sem germes.
Não confio em lugares que não tenha germes
lugares santos são cheios de germes
a beleza e sempre cheia de germes.
Porem artificialidade não e desumana
a artificialidade e algo racional
portanto mais humana que a exuberância.
A exuberância esta sim e algo mais animal
mais artística.
Os bares de Quedas
são os nascedouros das lendas
a cachaça com ervas e lascas de sassafrás
e um santo daime, um peiote.
O Orixá Mario de Andrade desce
como espírito santo
a linguagem entra em transe
peixes tornam-se monstruosos
e em quantidade milagrosas
os tiros são mágicos
e matam uma onça mitológica
e o caçador e o cavalo da anta morta
no êxtase, na língua do sonhar.
E alguém imita um polaco
coro de risos.
Das livrarias
gosto da livraria de seu João
heroicamente agarrada ao passado
um carrapato agarrado ao ano de 1967.
Mesmo o jornal do dia
se comprado na livraria do seu João
já sai um jornal cinqüentenário
e muito mais sábio que mesmo jornal
comprado na outra esquina.
Já é um jornal
para ser guardado
uma relíquia
uma peça de antiquário.

Vila dias
E uma favela paranaense
favela branca, de europeus pobres
com um pouco do marrom terra dos caboclos.
Lá e em todo o oeste e sudoeste do Paraná
a cultura gaúcha
encontrou-se com a do caipira.
E quando culturas se encontram
espera-se choque, divisão ou amálgama.
Nas não houve embate
nem o gaúcho e o caboclo mesclaram-se culturalmente
somente desenvolveram uma coexistência única
O paranaense singularmente adotou como sua
duas culturas que continuam distintas e puras
dentro dele
em uma dualidade tão natural
que nem é percebida.
Nos velórios da Vila Dias
o caixão fica dentro das casas
sala aberta como templo.
Reverenciado pela curiosidade
o morto como um santo no oratório
decorado com coroas de alumínio
cuja as flores cheiram a tinta esmaltadas.
Conversas, chimarrão, rezas e choro
fermentam num bolo sonoro
salgado com suor.
Percebe-se em alguns
um certo sentimento de triunfo festivo
os vivos senten-se vitoriosos
perante a morte.
No bar, musica embriagada
e a vizinha assiste à novela
porque na vila dias a morte é cotidiana
e a morte sem os dramas
das mortes dos semideuses da classe media
a morte é comum, domestica
é parte da vida
não causa traumas.
Gosto de artemistificar a morte
Compara-la a quintais abandonados.
Porque vejo
na briga de galo
entre a guaxuma e o picão
renitência do sempre renascer.
Da inútil na insistência de florir
sua flor feia e dissonante
sua flor desperfumada.
Sempre que vejo quintais abandonados
sinto vontade de ser novamente
o menino
que via revoada de rainhas vestidas
Com azas núpciais
em dias de sol e chuva juntos
que enluarava telhados
engrutava porões
para-dificava guarda chuvas
cachoeirizava torneiras
e savanizava quintais abandonados.
De o meu brincar sem nunca individualizar
sem nomear, sem especificar
todas as formigas eram formigas.
Assim nada morre
tudo continua, se um gafanhoto morre
não importava
os gafanhotos não morreram
outro igual nascia e o pedaço era reposto.
Meus soldados também eram renitentes
morriam e renasciam
como gaxumba.
Só a perca era uma espécie de morrer
e o achar ressurreição.
Outros quintais abandonados
Em outros lugares são só quintais abandonados
Quintais oníricos
São os quintais de Quedas
Quintais com guaxuma e picão que reencarnam.


De Solivan

O alimento da vida

A vida,
é o predador da morte.
É a vida que mastiga, engole e digere a morte.
A morte é o passivo, o generoso
alimento da vida.
A relva da qual
a vida se alimenta.

De Solivan

Poesia alheia:Carl Sandburg

A GRADE

Agora,a mansão à beira do lago já está
concluída, e os trabalhadores estão
começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.
Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
entrada de todos os famintos e vagabundos
e de todas as crianças vadias à procura de
um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
Amanhã.

De Carl Sandburg
Tradução: Carlos Machado

A FENCE


Now the stone house on the lake front is
finished and the workmen are beginning
the fence.
The palings are made of iron bars with steel
points that can stab the life out of any
man who falls on them.
As a fence, it is a masterpiece, and will shut off
the rabble and all vagabonds and hungry
men and all wandering children looking
for a place to play.
Passing through the bars and over the steel
points will go nothing except Death
and the Rain and To-morrow.

De Carl Sandburg

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Foto embaçada



Correspondente de guerra

Se a fotografia estava embaçada
é por que a maquina
chorava.



Fotografia e poema de Solivan

Estudos simbólicos sobre o público

A multidão é a mesma,
mas o poeta fala sem amplificação
para um exército de nucas indiferentes,
enquanto o ídolo está de frente para os rostos e aplausos.


Saiba, os pedantes são os alicerces econômicos da cultura.


Cruza o inferno até uma editora,
o impostor com a mesma gravata púrpura dos demônios,
quem pode pagar anjos mercenários com seu cartão de crédito,
o movimento com Sarissas:Um novo inseticidas
com um novo príncipe ativo.
Ou um Virgílio,
mas Virgílios são tão raros como Dantes


Cantores abóiam,
já os escritores tem que dissolver a manada
e fazer que cada vaca encontre um canto e leia seu livro.É uma tarefa mais árdua.

A platéia é aviário de águias recém-nascidas,
ávidas por engolir cobras e lagartos
jogadas por alguns rebeldes.
Já de uma ovelha no palco, só aceita doces.

Como morsas,
nas livrarias e bibliotecas, os livros dos vivos lutam contra os poderosos mortos
pelo feio harém de intelectuais.
Geralmente os jovens livros dos vivos são expulsos. I’ll be back.


Lembra,a inteligência santifica a inteligência,
criar é uma insinuação para o eterno.

De Solivan

Conversa com a esposa sobre meu dia

Não, senhor Prutok
infelizmente, seu plano de saúde
não lhe dará eternidade.
Pensei cinicamente,
enquanto ouvia
durante nossa partida de xadrez
o senhor Prutok
falar longamente sobre seu plano de saúde,
e das sete maravilhas tecnológicas
feitas para prolongar o sofrimento.
Eu estava voltado para o portão, com meus sapatos
imantados pela rua.
E achei novas ranhuras no visor do relógio.
Gosta de mim o velho, traz pistaches, arguile.
Deus, como é tedioso ser amado por insossos.
Como me irritei,
mas fixei uma agradável máscara da comédia,
quando me perguntou.
- Gostou do vinho?
- Sim, sim algo frutado, de um rubro intenso.
Calei, mas minha alma continuou.
É também marcante a presença
de acidulantes e conservantes
e tem um bem definido odor de aromatizante para
[automóveis.
Só Liszt dava-me certo alívio
engraçado esses pianistas
cumprimentam a platéia, sentam-se
e tiram sons maravilhosos
dedilhando presas de elefante.
Tem um analgésico?
Minha têmpora lateja como um coração.

De Solivan

Poesia alheia:Charles Bukowski

velho limpo

daqui a
uma semana farei
55.

sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?

meus críticos
vão adorar
quando minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas -do-mar.

chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim

como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.

De Charles Bukowski
Tradução:Pedro Gonzaga

terça-feira, 22 de junho de 2010

Taquaras




Fotografia de Solivan

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pensamentos dispersivos sobre minha reencarnação

Esta manhã quis que
meu rosto fosse
cega pedra de nascente
e sentisse a água fresca
temperada com musgos e folhas,
correr eterna sobre minha face.

E meu olhar distâncias
ou linha do horizonte
para ver o sol
estender sua luz limpa e quente sobre a terra,
como um lençol recém passado sobre
a cama.

Que de meus braços emplumados de folhas
e dedos transformados em galhos de árvores
pingassem tangerinas.

De Solivan

Dandi Vampire

A Baudelaire


Prefiro o gosto tão delicado do amor,
O doce carmim feminino ao velho e azedo.
É rançoso, amargo o sangue de pecador,
Avinagrado e rústico o sabor do medo.

Aguardo a ninfa mulher surgir da criança
E com ouro, tempo e charmosa adulação
Rubro néctar é preparado e descansa
No coração cheio, impregnado de paixão.

Identifico-me com brônzeos colibris,
Bebo alvas nucas e pulsos perfumados,
Destes seres faço meu brasão e Ex libris.
Tenho asco dos doentios notívagos alados.

Com beijo suave,o carmim vivo é degustado,
Sinto o melodioso coração adormecer
E sobre meu ombro cai o rosto reclinado.
É sempre alma, não o sangue saboreado.

Então no colo, levo as para jardins,
Lagos ou brancos e esvoaçantes dóceis.
São pálidas, combinam com rosas carmins.
Como que pousando as deixo em vergeis.

De Solivan

Poesia alheia:Helena Kolody

No Silêncio luminoso da tarde
as árvores desfolham-se em pardais.

De Helena Kolody

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Curitiba em dia cinza




De Solivan

Quando planejei um roubar uma livraria

Chuva,
corri para frente da livraria.
A chuva cai
como cortinas de miçangas da platibanda.

Um frescor cola na pele desprotegida
do rosto e braços.
Dá vontade de ficar nu.

Olhos ávidos de desejo
na vitrine da livraria,
livros com fascínio de jóias.
Vontade de assaltar a livraria
andar livre entre as estantes
encher-me de poesia com gula
sem critérios.
Eu sempre tão comedido
entre estas estantes
sedento e tendo que
contentar-me apenas com um ou dois goles.
Pegar o que quisesse
um bárbaro saqueando.
As mãos livres a colher
maduros e suculentos
livros de fotografia
de fauna e flora.
Filosofia, sobre pintores
romances e pornografia.
Pelo fundo, teria que entrar pelo fundo.
Que felicidade
engolir todos,
estrebuchar em cima dos livros,
sentir a segurança da quantidade,
folhear todos com o polegar
e ouvir um barulho reconfortante
parecido com o de maços de dinheiro
e cheirar aquele arzinho de livro novo
novinho, novinho.
Meia hora
meia hora de delírio.

Nuvens já dissolvidas
apanho um último estilhaço de nuvem na palma da mão
e lambo o gosto insosso de céu.

De Solivan

Maiakovski latinizado

Incakovski
Maiakovski
Astecakovski

De Solivan

Poesia alheia:Yao Feng

Peixe Salgado

Como um peixe salgado retornaria a vida?
em busca daquela agulha de prata
percorreu todo o mar,prometeu amor,
que só findaria,no caso de as montanhas despencarem
ou o mar secar
e,para o horizonte,saltou da água.

Agora,pendurado sob o sol,
deixa que a brisa o absorva até a última gota de mar.
E o sal que o destino o impõe
salga o tempo para além do mar.

Não conseguiu no entanto fechar os olhos
mesmo depois da morte.
Vendo que a chuva cai do telhado
para os rios,
o peixe amargo sonha
seu salgado regresso ao mar.

De Yao Feng,poeta chinês contemporâneo

Tradução de Yao Feng e Régis Bonvincino

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Arlequim ou Hamlet?

O mais sublime gosto

Quero fazer silibações para que Zeus
me entregue um pedaço de sua majestosas coxa
porque invejo Cronos,
o único
que teve em sua boca
o sabor dos deuses.
Experimentou o mais sublime alimento.
A magnífica carne de Zeus,
o gosto mediterrâneo de Netuno
e o terroso Hates
neste êxtase sentiu em todos
um pouco de seu próprio gosto.

De Solivan

Você que ladra motins

Você que ladra motins, rosna intentonas
sua ira não me engana
não é um revolucionário,
apenas um contrariado.
Sua revolta é porque quer
suas ovas de esturjão.
Se for aceito
tomara chá de servos as quatro da tarde.

De Solivan

Poesia Alheia:Ievguêni Ievtuchenko

Encontro em Copenhague


Sentados no aeroporto em Copenhague
atacávamos juntos o café.
Ali tudo era belo,
confortável —

Ambiente refinado como quê!
E de súbito
aquele velho surgiu,
japona simples e capuz verde oliva,
pele curtida
por lufadas salinas,
ou melhor,
não surgiu,
exsurgiu.
Caminhava,
singrando por turistas,
como se houvesse largado o leme faz pouco,
feito espuma do mar
a barba híspida
branca
emoldurava-lhe o rosto.

Com sombria decisão de vitória
caminhava,
erguendo uma onda volumosa,

através de antiqualhas
de um moderno postiço,

através do moderno posiçando o antigo.

E abrindo a gola da camisa rústica,
ele, rejeitando o vermute e o pernaud,
pediu ao balcão uma vodca russa
e repeliu a soda com um gesto:
“No...”
Mãos gretadas, com cicatrizes,
curtidas,
sapatos grossos, arrastando solas,
calças incrivelmente encardidas, —
era mais elegante
do que todos em roda!

A terra sob ele como que afundava,
com o peso daquelas passadas.
Um dos nossos sorriu-me:
“Ei!
Veja se não parece Hemingway!”
Caminhava,
expresso em gestos curtos,
andar de pescador, pesado, lento,
todo talhado num rochedo bruto,
como através das balas,
através dos tempos.

Caminhava, encurvado, como na trincheira,
abria caminho entre pessoas e cadeiras...
Parecia-se tanto com Hemingway!
— Depois fiquei sabendo:
era Hemingway.


IEVTUCHENKO, Ievguêni. Encontro em Copenhague. Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Varanda



De Solivan

Agora que te perdi

Estavas ao meu lado
Mas partiu,
E agora que não te tenho
Entrou em mim sua imagem
E de mim não sai, e em mim fica.
Agora que te perdi,
Esta tão dentro, que já é minha carne.
Com sua partida,
Já não sou apenas eu, também sou você,
No meu corpo trago tua alma
E teu rosto toma-me o peito sempre.
A cada alimento, preparo
Conforme sua vontade
E pergunto-me
Se nossa casa
Esta arrumada a teu gosto.
Com carinho dobro as toalhas
Do jeito que queria.
As vezes conforta-me esta sensação
Que não partiu,
Que na verdade mesclamo-nos
Mas minha tristeza repete com insistência
você se foi.


De Solivan

A pintura é surda e a música é cega.

Um trecho deste poema abre o livro"Um brinde a três amigos"
de o Nilton Bobato.
Obrigado amigo

Vazem o olho da humanidade,
perfurem seu tímpano
e o poema continuará intacto.
Pode-se mesmo, quebrar a terceira vértebra
[da humanidade
e o poema continuará intacto.
Que poema não precisa necessariamente dançar.
Já a pintura é surda e a música cega.
O poema não, o poema é sempre saudável.
Pode ser lido como um todo
pelo olhar, pela audição, pelo toque.
Poemas duram mais que as pedras.
A Ilíada sobrou intacta,
enquanto da Grécia antiga, feita de mármore,
sobraram colunas quebradas, templos em ruínas,
estátuas desmembradas.

De Solivan

Poesia Alheia: Poema de Bertolt Brechet

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

De Bertold Brecht 1913-1956

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Canos de PVC



De Solivan

Lua de mel

Vamos amor
Para um recife de corais
Respirar mar.
Onde só nos é permitido
Falar luxurias ou carinhos,
E toda a palavra áspera ou espinhosa
Machuca nossas delicadas guelras.

Trago comigo ambrósia, maçãs do Édem
E estou ansioso
Para seus seios amamentar meus desejos,
Ler no seu olhar
A partitura dos desejos
E sentir tua
Pele que é fogo sedoso e fresco e orvalhado.

Vem
Meu leopardo e pomba,
Ave- aquática e peixe- voador.
Eu sou apenas beija-flor
Em sua orquídea
Com gosto de néctar e perfume.

Sente
Minhas mãos quentes são estrelas com cinco raios
Em suas costas,
E meu olhar massageia seu corpo

Então danço sobre você
Como vento sobre
As marés de alfazemas
E com meu êxtase
Polinizo seu útero


De Solivan

1º Dezesseis Marylin Monroe morta(fragmento)

Marylin era uma
esposa frustrada
pediu divórcio,
e tornou-se
uma diva frustrada.


Poor Marylin
a máscara da tragédia
quimicamente
transformada
em comédia.

As substâncias
na imagem de
Marylin aderem
do glamour à
canecas de café.

Retratos de Marylin
deviam vir
musicalizados
por uma gota de chanel 5.

De Solivan

Pequena oração de agradecimento à maternidade

Divino e sublime
é DEUS
que cria almas
por intermédio do prazer.

De Solivan

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Nascente



De Solivan

Jazz session(Fragmento)

Sentado em uma pedra com as mãos no queixo
penso em pavões cor de rosa,
agulhas para suturar líquidos,
cigarros feitos com água de mar.

De Solivan

Retrato falado de um velho japonês

Seus olhos são baços e pequeninos
delicadamente colocados
sobre a renda das rugas.
Mas seu olhar tem uma imensidão que
lembra o mar.
O ar de oitenta anos de sorrisos
desgastaram seus dentes
como o vento, uma rocha.

De Solivan

O lobisomem e o mel

Espiava da copada da guajuvira
escondia até meu olho que é azul
e parecia com o céu atrás das folhagens.
Dizem, lobisomem gosta de ave
porque tem gosto de carne de anjo,
mas aquele gostava era de mel
passou nambu, nem notou.
O bicho mordia o favo
arfava, como cio, queria sentir o cheiro
que era de remela de flor de maria-mole.
Se lambuzava e gania
olho grande,
achava bonito
o mel farto, grosso
que caia lerdo, cheio de preguiça,
florido de brilho na sua boca.
Comia com abelha e tudo,
apimentava o mel com ferroada.
Quando acabou, lambeu os respingos na terra,
depois as mãos e chupou os pêlos.
Então deitou, doeu, gemeu, doeu, gemeu.
Muito mel arde na barriga,
é comer urtiga.
Revirado em homem, foi, mãos nas tripas.
Desci da guajuvira,
meu olho já não era céu.

De Solivan

sábado, 1 de maio de 2010

caricia



Meu olhar
acaricia horizontes.

Solivan

Olhos boquiabertos

Quero olhar, olhar
com telescópios e microscópios,
que tenho os olhos boquiabertos com o mundo

Ver
o universo
esta negra bonita de mais perto
e o Big-bang que ejaculou mundos, pedras e sóis no seu útero
e pelo menos um foi fecundado.

Observar com carinho o ínfimo
porque toda a vida tem
seu início no minúsculo.


De Solivan

Sobre a interessante reação das senhoras a um poema

Batista entrou sem ser convidado
no sarau com chás, torradas e alguns maridos.
Terno amassado com cheiro de brechó,
camisa bege encardida.
Recusou o chá, procurou vinho
e como está acostumado a achar espaços
em ônibus lotados,
foi fácil subir ao palco.
Com a voz beirando o grito
iniciou o poema:
-A puta!
Soou como sirene com cárie.
Olhos voltaram-se, como girassóis raivosos
para a palavra, tão vermelha
que manchou de rubro a face das senhoras.
E o constrangimento se manteve
até o arremate de Batista:
-A puta, de Carlos Drummond de Andrade!
Alívio entre as senhoras, sorrisos, e mesmo aplausos.
É Batista, confirma-se a tese
que o maldito está no poeta
e não na poesia.
Tuas doces poesias são consideradas malditas
só porque não lava as mãos antes de fazê-las.

De Solivam

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Não gosto de decorar poemas

Não gosto de decorar poemas,
Prefiro falar poemas com um livro na mão
o livro é meu instrumento musical.

De Solivan

Relojoaria

Impossível saber que horas são numa relojoaria,
discordantes, vaidosos, pretensiosos
os relógios marcam horas divergentes.
Faz anos que libertei meu braço desta coleira,
detesto mesmo os corretos, os precisos.
Seu meio-dia não é o meu meio-dia
nem meu sono, termina em algum ponto programado
e estridente da manhã.
Porém,
tenho certa simpatia pelos relógios parados
errados sempre
salvo, por um instante, por um segundo
durante o dia no qual estão certos.
Um certo, que tem a beleza do acidental
do impossível que acontece
como o exato lance ou arremesso longínquo.
O perfeito ocorrido por um acaso mágico.

De Solivan

Aboios

Os aboios longínquos
voam pelo céu azul
ocres aves de vozes,
tênues pássaros
que pousam na arapuca de meus ouvidos
e são aprisionados
pela minha lembrança
para que voltem a cantar
para mim toda a manhã.
A música dos aboios
vem dos distantes tropeiros
brilhando em torno deles,
como raios em torno do sol
ou perfume em volta do jasmim.
Os aboiadores se aproximam,
embelezando a estrada de terra
em meio à mata,
assim como o canto do canário
embeleza uma árvore ao amanhecer.
Os aboios
trançam com as vozes
um balaio onde
prendem a tropa.
Aboio é música
que rostos curtidos
de olhar com rugas
iguais a raízes,
sulcos arados
pelo brilho e calor do sol,
pela vida dura
e por sorrisos francos
escrevem no vento e no pó,
o seu canto rude como couro,
salgado como suor,
ríspido como poeira.
São retratos de suas faces morenas.
Têm aboios
que são
repetidos
como contas de um rosário.
Aboios
compridos
como o canto das bocas escancaradas vermelhas
das carrancas do rio São Francisco.
Um canto que não quer acabar mais
ou de sons dissonantes, roucos, rasgados
agudos, encardidos
feito marcas de espinhos do sertão,
na roupa dos vaqueiros.

De Solivan

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Oração para São Francisco




É uma guirlanda de pássaros tua aura
uma aura cantante
e a juta de tuas vestes voltou a florir.
O cervo veio beber tolerância
em tua mão
e o lobo mansidão.
Teu beijo na testa do bêbado
transformou o desejo de vinho em água,
porque tocas o coração de todos
com a mesma facilidade
de quem colhe uma maçã vermelha
entre as ramagens verdes da macieira.
E quando afagou o leproso
a voz de Deus falou-lhe no íntimo do peito:
“Apenas o consola, que esta é sua hora
que um dia fez-se novamente
presente, a morte a Lázaro
e o cego outra vez vê minha face
e o coxo que fiz andar, veio a mim envolto em linho”.
Então somente abraçou-lhe a ferida
e fê-lo descansar
sentiu o peso da cruz na cabeça agradecida
deitada sobre seu ombro
e chorou com seu irmão.

De Solivan

Tempo

Dentro de um relógio
toquei no tempo.
Vácuo pulsante circulava nas artérias,
num cálice vazio estavam suas entranhas inodoras.
Em seus nervos inexistentes
marcas,calosidades
tentativas de segurá-lo
como se fossem rédeas.

De Solivan

Convenções

Desconfio do nexo, das convenções.
No jogo do encaixe
estrelas deviam caber no círculo.
Que estrelas são circulares
o que não se enquadra é o brilho.

De Solivan

sexta-feira, 9 de abril de 2010



Auto-retrato

Meu rosto é um triângulo
com barba por fazer.
Meus olhos, gelo
e no degelo, lágrimas.
Minha boca
tragicômica banana,
e a orelha bicolor.
Meu peito
tem um coração quadrado
dentro deste recipiente
o infinito
que é destilado
pelos dois retângulos dos braços,
chega à minha mão, melífluo pentagrama
e goteja das digitais letras
no reorganizado alfabeto dos teclados.


De Solivan

Todos os livros

Quero ler
todos os livros, todos,
mas não só os livros,
também os papiros e pergaminhos
todos os sites,
ler mãos,estrelas e búzios.
Ler música,
adormecer lendo as majestosas partituras de uma sinfonia.
Ler, ler ate não saber mais nada
e ter a alma jogada
no caos
que é a ordem do universo.

De Solivan

Pégaso

Escrevo com uma pena de tua asa Pégaso.

Quando te vi
pensei que era anjo
de algum cavalo morto.
Tinha a cor de uma nuvem branca
quando resplandece.
Num gesto intuitivo rompi meu colar
e você veio comer os rubis na palma de minha mão.

Coloquei minha armadura de
escamas azuis e montei.
Voamos sobre um campo de lírios,
cavalgamos sobre um lago
e sobre os Alpes.
aqueles caninos do mundo, porque você queria
sentir a neve dos cumes em seus cascos.
Depois mergulhou no céu
com giros alegres de delfim,
feliz como um peixe de volta ao mar.
Quando pousamos
senti no rosto vento resinoso e fresco
de uma floresta de pinheiros.

Circunvagávamos no céu,
quando sentiu um cheiro salgado de cio.
Relinchou
e seus cascos transformaram-se
em pés de cisne.
O oceano nos recebeu corcoveando
como fêmea furiosa.
Domado, ficou dócil como um lago,
e mergulhamos.
Galope no frescor abissal do fundo do mar.
Fui sultão das sereias, elas gostavam de acariciar
as escamas metálicas de minha armadura.

Nas savanas
aticei Pégaso como se fosse
meu falcão.
Ele abateu uma cegonha
em pleno vôo, caiu como um anjo rebelde,
baque de Ícaro.
E leoas serviram de almofadas
para meu descanso.

Entre dunas, ondas escaldantes de mar amarelo
em tendas Tuaregues.
Músicas, dançarinas, tâmaras
e carne de camelo na frincha dos dentes.

Os vinhedos floresciam no Mediterrâneo.
Uma rainha lasciva
acariciou suas crinas
sentiu de seu perfume selvagem
e pôs seu membro dentro do útero
sentiu seu quente gozo.
O rei gostou de ver sua rainha satisfeita e prenhe
do deus cavalo.
e a cobriu de tesouros.

Em pirâmides Astecas
vimos pulsantes corações infantis.
E me vestiram com um manto de canários vivos
feitos de um trançado de asas e caudas.

Refinado e orgulhoso como qualquer deus
só queria beber icebergs,
pastar caudas de pavão
e beija-flores com o estômago cheio de mel.
Voava entre bandos imensos de andorinhas
e as engolia em pleno vôo.
Todas cantavam ao serem mastigadas para melhorar
o gosto de sua carne.
Seus estridentes cantos eram especiarias picantes.
Também fui confundido com um deus.
Tornei-me petulante,
aceitei oferendas
e passei a acreditar que era divino,
fiz exigências arrogantes.
Quando necessitava de sal
lambia o suor
que porejava como orvalho
no corpo das dançarinas Árabes e Coptas.
Comia somente ostras com pérolas
e hímens em baixelas de prata.
Bebia só um magnífico e raro vinho judeu
feito por um nazareno chamado Jesus,
a pedido de sua mãe em um casamento.
Entediado,
distraia-me com refinadas brutalidades.
Certa vez,
encantado com os olhares maliciosos que recebi ao
entrar no harém de meu anfitrião,
exigi que cegassem as odaliscas
e enriquecessem o banquete
com um prato daquelas íris verdes
azuis e negras.

Então voltei para casa sem tesouros.


De Solivan

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Retratos de uma viagem



De Solivan

Futebol europeu

Para Armando Nogueira

O brasileiro Noite
recebeu a bola no peito
dominou com acrobacias.
Correu.
Músculos magníficos
cobertos por uma pele cor do universo.
O pé regeu,
pastoreou a bola.
Samba, ginga de mestre-sala
entre miúras.
E chutou com telecinésia.
O que dividiu a multidão
em agonia e êxtase.


De Solivan

Eis a palavra da salvação

Unge tua cabeça
a palavra santa
verdade de ferro em lava.
Conforme o molde
de sua alma
funde-se,
espada ou cálice.

De Solivan

Na rua d’ouro durante uma chuva

Chovia e ventava
o casacão preto dava um ar sorumbático
a Fernando Pessoa.
O vento pareceu levar
seu chapéu
mas era sua alma,
que se desprendera do corpo
e brincava na chuva
de chapéu
rodopiava nua, invisível
com saltos de ginasta.
O corpo
de casacão preto a seguia
com passos envergonhados
como um pai atrás de seu filho levado.

De Solivan