segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pensamentos dispersivos sobre minha reencarnação

Esta manhã quis que
meu rosto fosse
cega pedra de nascente
e sentisse a água fresca
temperada com musgos e folhas,
correr eterna sobre minha face.

E meu olhar distâncias
ou linha do horizonte
para ver o sol
estender sua luz limpa e quente sobre a terra,
como um lençol recém passado sobre
a cama.

Que de meus braços emplumados de folhas
e dedos transformados em galhos de árvores
pingassem tangerinas.

De Solivan

Dandi Vampire

A Baudelaire


Prefiro o gosto tão delicado do amor,
O doce carmim feminino ao velho e azedo.
É rançoso, amargo o sangue de pecador,
Avinagrado e rústico o sabor do medo.

Aguardo a ninfa mulher surgir da criança
E com ouro, tempo e charmosa adulação
Rubro néctar é preparado e descansa
No coração cheio, impregnado de paixão.

Identifico-me com brônzeos colibris,
Bebo alvas nucas e pulsos perfumados,
Destes seres faço meu brasão e Ex libris.
Tenho asco dos doentios notívagos alados.

Com beijo suave,o carmim vivo é degustado,
Sinto o melodioso coração adormecer
E sobre meu ombro cai o rosto reclinado.
É sempre alma, não o sangue saboreado.

Então no colo, levo as para jardins,
Lagos ou brancos e esvoaçantes dóceis.
São pálidas, combinam com rosas carmins.
Como que pousando as deixo em vergeis.

De Solivan

Poesia alheia:Helena Kolody

No Silêncio luminoso da tarde
as árvores desfolham-se em pardais.

De Helena Kolody

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Curitiba em dia cinza




De Solivan

Quando planejei um roubar uma livraria

Chuva,
corri para frente da livraria.
A chuva cai
como cortinas de miçangas da platibanda.

Um frescor cola na pele desprotegida
do rosto e braços.
Dá vontade de ficar nu.

Olhos ávidos de desejo
na vitrine da livraria,
livros com fascínio de jóias.
Vontade de assaltar a livraria
andar livre entre as estantes
encher-me de poesia com gula
sem critérios.
Eu sempre tão comedido
entre estas estantes
sedento e tendo que
contentar-me apenas com um ou dois goles.
Pegar o que quisesse
um bárbaro saqueando.
As mãos livres a colher
maduros e suculentos
livros de fotografia
de fauna e flora.
Filosofia, sobre pintores
romances e pornografia.
Pelo fundo, teria que entrar pelo fundo.
Que felicidade
engolir todos,
estrebuchar em cima dos livros,
sentir a segurança da quantidade,
folhear todos com o polegar
e ouvir um barulho reconfortante
parecido com o de maços de dinheiro
e cheirar aquele arzinho de livro novo
novinho, novinho.
Meia hora
meia hora de delírio.

Nuvens já dissolvidas
apanho um último estilhaço de nuvem na palma da mão
e lambo o gosto insosso de céu.

De Solivan

Maiakovski latinizado

Incakovski
Maiakovski
Astecakovski

De Solivan

Poesia alheia:Yao Feng

Peixe Salgado

Como um peixe salgado retornaria a vida?
em busca daquela agulha de prata
percorreu todo o mar,prometeu amor,
que só findaria,no caso de as montanhas despencarem
ou o mar secar
e,para o horizonte,saltou da água.

Agora,pendurado sob o sol,
deixa que a brisa o absorva até a última gota de mar.
E o sal que o destino o impõe
salga o tempo para além do mar.

Não conseguiu no entanto fechar os olhos
mesmo depois da morte.
Vendo que a chuva cai do telhado
para os rios,
o peixe amargo sonha
seu salgado regresso ao mar.

De Yao Feng,poeta chinês contemporâneo

Tradução de Yao Feng e Régis Bonvincino

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Arlequim ou Hamlet?

O mais sublime gosto

Quero fazer silibações para que Zeus
me entregue um pedaço de sua majestosas coxa
porque invejo Cronos,
o único
que teve em sua boca
o sabor dos deuses.
Experimentou o mais sublime alimento.
A magnífica carne de Zeus,
o gosto mediterrâneo de Netuno
e o terroso Hates
neste êxtase sentiu em todos
um pouco de seu próprio gosto.

De Solivan

Você que ladra motins

Você que ladra motins, rosna intentonas
sua ira não me engana
não é um revolucionário,
apenas um contrariado.
Sua revolta é porque quer
suas ovas de esturjão.
Se for aceito
tomara chá de servos as quatro da tarde.

De Solivan

Poesia Alheia:Ievguêni Ievtuchenko

Encontro em Copenhague


Sentados no aeroporto em Copenhague
atacávamos juntos o café.
Ali tudo era belo,
confortável —

Ambiente refinado como quê!
E de súbito
aquele velho surgiu,
japona simples e capuz verde oliva,
pele curtida
por lufadas salinas,
ou melhor,
não surgiu,
exsurgiu.
Caminhava,
singrando por turistas,
como se houvesse largado o leme faz pouco,
feito espuma do mar
a barba híspida
branca
emoldurava-lhe o rosto.

Com sombria decisão de vitória
caminhava,
erguendo uma onda volumosa,

através de antiqualhas
de um moderno postiço,

através do moderno posiçando o antigo.

E abrindo a gola da camisa rústica,
ele, rejeitando o vermute e o pernaud,
pediu ao balcão uma vodca russa
e repeliu a soda com um gesto:
“No...”
Mãos gretadas, com cicatrizes,
curtidas,
sapatos grossos, arrastando solas,
calças incrivelmente encardidas, —
era mais elegante
do que todos em roda!

A terra sob ele como que afundava,
com o peso daquelas passadas.
Um dos nossos sorriu-me:
“Ei!
Veja se não parece Hemingway!”
Caminhava,
expresso em gestos curtos,
andar de pescador, pesado, lento,
todo talhado num rochedo bruto,
como através das balas,
através dos tempos.

Caminhava, encurvado, como na trincheira,
abria caminho entre pessoas e cadeiras...
Parecia-se tanto com Hemingway!
— Depois fiquei sabendo:
era Hemingway.


IEVTUCHENKO, Ievguêni. Encontro em Copenhague. Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Varanda



De Solivan

Agora que te perdi

Estavas ao meu lado
Mas partiu,
E agora que não te tenho
Entrou em mim sua imagem
E de mim não sai, e em mim fica.
Agora que te perdi,
Esta tão dentro, que já é minha carne.
Com sua partida,
Já não sou apenas eu, também sou você,
No meu corpo trago tua alma
E teu rosto toma-me o peito sempre.
A cada alimento, preparo
Conforme sua vontade
E pergunto-me
Se nossa casa
Esta arrumada a teu gosto.
Com carinho dobro as toalhas
Do jeito que queria.
As vezes conforta-me esta sensação
Que não partiu,
Que na verdade mesclamo-nos
Mas minha tristeza repete com insistência
você se foi.


De Solivan

A pintura é surda e a música é cega.

Um trecho deste poema abre o livro"Um brinde a três amigos"
de o Nilton Bobato.
Obrigado amigo

Vazem o olho da humanidade,
perfurem seu tímpano
e o poema continuará intacto.
Pode-se mesmo, quebrar a terceira vértebra
[da humanidade
e o poema continuará intacto.
Que poema não precisa necessariamente dançar.
Já a pintura é surda e a música cega.
O poema não, o poema é sempre saudável.
Pode ser lido como um todo
pelo olhar, pela audição, pelo toque.
Poemas duram mais que as pedras.
A Ilíada sobrou intacta,
enquanto da Grécia antiga, feita de mármore,
sobraram colunas quebradas, templos em ruínas,
estátuas desmembradas.

De Solivan

Poesia Alheia: Poema de Bertolt Brechet

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

De Bertold Brecht 1913-1956

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Canos de PVC



De Solivan

Lua de mel

Vamos amor
Para um recife de corais
Respirar mar.
Onde só nos é permitido
Falar luxurias ou carinhos,
E toda a palavra áspera ou espinhosa
Machuca nossas delicadas guelras.

Trago comigo ambrósia, maçãs do Édem
E estou ansioso
Para seus seios amamentar meus desejos,
Ler no seu olhar
A partitura dos desejos
E sentir tua
Pele que é fogo sedoso e fresco e orvalhado.

Vem
Meu leopardo e pomba,
Ave- aquática e peixe- voador.
Eu sou apenas beija-flor
Em sua orquídea
Com gosto de néctar e perfume.

Sente
Minhas mãos quentes são estrelas com cinco raios
Em suas costas,
E meu olhar massageia seu corpo

Então danço sobre você
Como vento sobre
As marés de alfazemas
E com meu êxtase
Polinizo seu útero


De Solivan

1º Dezesseis Marylin Monroe morta(fragmento)

Marylin era uma
esposa frustrada
pediu divórcio,
e tornou-se
uma diva frustrada.


Poor Marylin
a máscara da tragédia
quimicamente
transformada
em comédia.

As substâncias
na imagem de
Marylin aderem
do glamour à
canecas de café.

Retratos de Marylin
deviam vir
musicalizados
por uma gota de chanel 5.

De Solivan

Pequena oração de agradecimento à maternidade

Divino e sublime
é DEUS
que cria almas
por intermédio do prazer.

De Solivan

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Nascente



De Solivan

Jazz session(Fragmento)

Sentado em uma pedra com as mãos no queixo
penso em pavões cor de rosa,
agulhas para suturar líquidos,
cigarros feitos com água de mar.

De Solivan

Retrato falado de um velho japonês

Seus olhos são baços e pequeninos
delicadamente colocados
sobre a renda das rugas.
Mas seu olhar tem uma imensidão que
lembra o mar.
O ar de oitenta anos de sorrisos
desgastaram seus dentes
como o vento, uma rocha.

De Solivan

O lobisomem e o mel

Espiava da copada da guajuvira
escondia até meu olho que é azul
e parecia com o céu atrás das folhagens.
Dizem, lobisomem gosta de ave
porque tem gosto de carne de anjo,
mas aquele gostava era de mel
passou nambu, nem notou.
O bicho mordia o favo
arfava, como cio, queria sentir o cheiro
que era de remela de flor de maria-mole.
Se lambuzava e gania
olho grande,
achava bonito
o mel farto, grosso
que caia lerdo, cheio de preguiça,
florido de brilho na sua boca.
Comia com abelha e tudo,
apimentava o mel com ferroada.
Quando acabou, lambeu os respingos na terra,
depois as mãos e chupou os pêlos.
Então deitou, doeu, gemeu, doeu, gemeu.
Muito mel arde na barriga,
é comer urtiga.
Revirado em homem, foi, mãos nas tripas.
Desci da guajuvira,
meu olho já não era céu.

De Solivan

sábado, 1 de maio de 2010

caricia



Meu olhar
acaricia horizontes.

Solivan

Olhos boquiabertos

Quero olhar, olhar
com telescópios e microscópios,
que tenho os olhos boquiabertos com o mundo

Ver
o universo
esta negra bonita de mais perto
e o Big-bang que ejaculou mundos, pedras e sóis no seu útero
e pelo menos um foi fecundado.

Observar com carinho o ínfimo
porque toda a vida tem
seu início no minúsculo.


De Solivan

Sobre a interessante reação das senhoras a um poema

Batista entrou sem ser convidado
no sarau com chás, torradas e alguns maridos.
Terno amassado com cheiro de brechó,
camisa bege encardida.
Recusou o chá, procurou vinho
e como está acostumado a achar espaços
em ônibus lotados,
foi fácil subir ao palco.
Com a voz beirando o grito
iniciou o poema:
-A puta!
Soou como sirene com cárie.
Olhos voltaram-se, como girassóis raivosos
para a palavra, tão vermelha
que manchou de rubro a face das senhoras.
E o constrangimento se manteve
até o arremate de Batista:
-A puta, de Carlos Drummond de Andrade!
Alívio entre as senhoras, sorrisos, e mesmo aplausos.
É Batista, confirma-se a tese
que o maldito está no poeta
e não na poesia.
Tuas doces poesias são consideradas malditas
só porque não lava as mãos antes de fazê-las.

De Solivam

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Não gosto de decorar poemas

Não gosto de decorar poemas,
Prefiro falar poemas com um livro na mão
o livro é meu instrumento musical.

De Solivan

Relojoaria

Impossível saber que horas são numa relojoaria,
discordantes, vaidosos, pretensiosos
os relógios marcam horas divergentes.
Faz anos que libertei meu braço desta coleira,
detesto mesmo os corretos, os precisos.
Seu meio-dia não é o meu meio-dia
nem meu sono, termina em algum ponto programado
e estridente da manhã.
Porém,
tenho certa simpatia pelos relógios parados
errados sempre
salvo, por um instante, por um segundo
durante o dia no qual estão certos.
Um certo, que tem a beleza do acidental
do impossível que acontece
como o exato lance ou arremesso longínquo.
O perfeito ocorrido por um acaso mágico.

De Solivan

Aboios

Os aboios longínquos
voam pelo céu azul
ocres aves de vozes,
tênues pássaros
que pousam na arapuca de meus ouvidos
e são aprisionados
pela minha lembrança
para que voltem a cantar
para mim toda a manhã.
A música dos aboios
vem dos distantes tropeiros
brilhando em torno deles,
como raios em torno do sol
ou perfume em volta do jasmim.
Os aboiadores se aproximam,
embelezando a estrada de terra
em meio à mata,
assim como o canto do canário
embeleza uma árvore ao amanhecer.
Os aboios
trançam com as vozes
um balaio onde
prendem a tropa.
Aboio é música
que rostos curtidos
de olhar com rugas
iguais a raízes,
sulcos arados
pelo brilho e calor do sol,
pela vida dura
e por sorrisos francos
escrevem no vento e no pó,
o seu canto rude como couro,
salgado como suor,
ríspido como poeira.
São retratos de suas faces morenas.
Têm aboios
que são
repetidos
como contas de um rosário.
Aboios
compridos
como o canto das bocas escancaradas vermelhas
das carrancas do rio São Francisco.
Um canto que não quer acabar mais
ou de sons dissonantes, roucos, rasgados
agudos, encardidos
feito marcas de espinhos do sertão,
na roupa dos vaqueiros.

De Solivan

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Oração para São Francisco




É uma guirlanda de pássaros tua aura
uma aura cantante
e a juta de tuas vestes voltou a florir.
O cervo veio beber tolerância
em tua mão
e o lobo mansidão.
Teu beijo na testa do bêbado
transformou o desejo de vinho em água,
porque tocas o coração de todos
com a mesma facilidade
de quem colhe uma maçã vermelha
entre as ramagens verdes da macieira.
E quando afagou o leproso
a voz de Deus falou-lhe no íntimo do peito:
“Apenas o consola, que esta é sua hora
que um dia fez-se novamente
presente, a morte a Lázaro
e o cego outra vez vê minha face
e o coxo que fiz andar, veio a mim envolto em linho”.
Então somente abraçou-lhe a ferida
e fê-lo descansar
sentiu o peso da cruz na cabeça agradecida
deitada sobre seu ombro
e chorou com seu irmão.

De Solivan

Tempo

Dentro de um relógio
toquei no tempo.
Vácuo pulsante circulava nas artérias,
num cálice vazio estavam suas entranhas inodoras.
Em seus nervos inexistentes
marcas,calosidades
tentativas de segurá-lo
como se fossem rédeas.

De Solivan

Convenções

Desconfio do nexo, das convenções.
No jogo do encaixe
estrelas deviam caber no círculo.
Que estrelas são circulares
o que não se enquadra é o brilho.

De Solivan

sexta-feira, 9 de abril de 2010



Auto-retrato

Meu rosto é um triângulo
com barba por fazer.
Meus olhos, gelo
e no degelo, lágrimas.
Minha boca
tragicômica banana,
e a orelha bicolor.
Meu peito
tem um coração quadrado
dentro deste recipiente
o infinito
que é destilado
pelos dois retângulos dos braços,
chega à minha mão, melífluo pentagrama
e goteja das digitais letras
no reorganizado alfabeto dos teclados.


De Solivan

Todos os livros

Quero ler
todos os livros, todos,
mas não só os livros,
também os papiros e pergaminhos
todos os sites,
ler mãos,estrelas e búzios.
Ler música,
adormecer lendo as majestosas partituras de uma sinfonia.
Ler, ler ate não saber mais nada
e ter a alma jogada
no caos
que é a ordem do universo.

De Solivan

Pégaso

Escrevo com uma pena de tua asa Pégaso.

Quando te vi
pensei que era anjo
de algum cavalo morto.
Tinha a cor de uma nuvem branca
quando resplandece.
Num gesto intuitivo rompi meu colar
e você veio comer os rubis na palma de minha mão.

Coloquei minha armadura de
escamas azuis e montei.
Voamos sobre um campo de lírios,
cavalgamos sobre um lago
e sobre os Alpes.
aqueles caninos do mundo, porque você queria
sentir a neve dos cumes em seus cascos.
Depois mergulhou no céu
com giros alegres de delfim,
feliz como um peixe de volta ao mar.
Quando pousamos
senti no rosto vento resinoso e fresco
de uma floresta de pinheiros.

Circunvagávamos no céu,
quando sentiu um cheiro salgado de cio.
Relinchou
e seus cascos transformaram-se
em pés de cisne.
O oceano nos recebeu corcoveando
como fêmea furiosa.
Domado, ficou dócil como um lago,
e mergulhamos.
Galope no frescor abissal do fundo do mar.
Fui sultão das sereias, elas gostavam de acariciar
as escamas metálicas de minha armadura.

Nas savanas
aticei Pégaso como se fosse
meu falcão.
Ele abateu uma cegonha
em pleno vôo, caiu como um anjo rebelde,
baque de Ícaro.
E leoas serviram de almofadas
para meu descanso.

Entre dunas, ondas escaldantes de mar amarelo
em tendas Tuaregues.
Músicas, dançarinas, tâmaras
e carne de camelo na frincha dos dentes.

Os vinhedos floresciam no Mediterrâneo.
Uma rainha lasciva
acariciou suas crinas
sentiu de seu perfume selvagem
e pôs seu membro dentro do útero
sentiu seu quente gozo.
O rei gostou de ver sua rainha satisfeita e prenhe
do deus cavalo.
e a cobriu de tesouros.

Em pirâmides Astecas
vimos pulsantes corações infantis.
E me vestiram com um manto de canários vivos
feitos de um trançado de asas e caudas.

Refinado e orgulhoso como qualquer deus
só queria beber icebergs,
pastar caudas de pavão
e beija-flores com o estômago cheio de mel.
Voava entre bandos imensos de andorinhas
e as engolia em pleno vôo.
Todas cantavam ao serem mastigadas para melhorar
o gosto de sua carne.
Seus estridentes cantos eram especiarias picantes.
Também fui confundido com um deus.
Tornei-me petulante,
aceitei oferendas
e passei a acreditar que era divino,
fiz exigências arrogantes.
Quando necessitava de sal
lambia o suor
que porejava como orvalho
no corpo das dançarinas Árabes e Coptas.
Comia somente ostras com pérolas
e hímens em baixelas de prata.
Bebia só um magnífico e raro vinho judeu
feito por um nazareno chamado Jesus,
a pedido de sua mãe em um casamento.
Entediado,
distraia-me com refinadas brutalidades.
Certa vez,
encantado com os olhares maliciosos que recebi ao
entrar no harém de meu anfitrião,
exigi que cegassem as odaliscas
e enriquecessem o banquete
com um prato daquelas íris verdes
azuis e negras.

Então voltei para casa sem tesouros.


De Solivan

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Retratos de uma viagem



De Solivan

Futebol europeu

Para Armando Nogueira

O brasileiro Noite
recebeu a bola no peito
dominou com acrobacias.
Correu.
Músculos magníficos
cobertos por uma pele cor do universo.
O pé regeu,
pastoreou a bola.
Samba, ginga de mestre-sala
entre miúras.
E chutou com telecinésia.
O que dividiu a multidão
em agonia e êxtase.


De Solivan

Eis a palavra da salvação

Unge tua cabeça
a palavra santa
verdade de ferro em lava.
Conforme o molde
de sua alma
funde-se,
espada ou cálice.

De Solivan

Na rua d’ouro durante uma chuva

Chovia e ventava
o casacão preto dava um ar sorumbático
a Fernando Pessoa.
O vento pareceu levar
seu chapéu
mas era sua alma,
que se desprendera do corpo
e brincava na chuva
de chapéu
rodopiava nua, invisível
com saltos de ginasta.
O corpo
de casacão preto a seguia
com passos envergonhados
como um pai atrás de seu filho levado.

De Solivan

sexta-feira, 26 de março de 2010

Força maxima

Autopsia em um shopping-center morto.

Após incisão no concreto,
retirada as lojas desoladas,
os escritórios.
Foi encontrado nos cofres
ouro enferrujado, diamantes cariados.
De valor apenas
um bezoar nos esgotos.


De Solivan

Motivos indígenas

A kaingang explica como trançar um balaio

A kaingang
pegou um fecho da palavra taquara
raspou com o substantivo faca,
o verde áspero
e repartiu em tiras pálidas.
Com gestos,
fez alguns trançados dançantes, precisos.
O número incerto “muitos” multiplicou
a trama e montou o corpo do cesto.
Algumas tiras
tinge de amarelo, azul e vermelho,
comparando com três pássaros.
E com tiras tingidas
pelas comparações
contornou desenhos indígenas
no centro do balaio.

De Solivan

Vermelho objetivo

Via nas árvores e farmácias
nos supermercados
garrafas e giletes
modos de suicidar-se.
Mas só precisou ter câncer
para amar e lutar
por sua vida.

De Solivan

sábado, 20 de março de 2010


De Solivan

O prego no pé do menino

O prego no pé do menino
Sob os olhos a venda estampada
da distração.
O prego canino oxidado o espera
escondido na realidade.
No pé do menino
floresceu uma rosa
pétalas saem do corte
em um rosário rubro.
Em seu colo, maternal
embala seu pé tingido de dor
que lateja
no mesmo compasso dos segundos.
Se a concha tem o som do mar
no canto de seus olhos tem
sabor de água do mar.

De Solivan

Sobre o amor

Em uma das suas facetas
O amor
engana com seu olhar de eternidade
e Éden
mas é pombo estranho,
sua renuncia deixa algemas, raízes secas
e uvas passas.

O amor também
Calau ou Calandra
e antropofágico enquanto gardênia
mas se negro
cresce como píton engolindo apenas desprezo.

Em versões aladas
a maciez o espinha
e a constrição esmaga seu coração

Quando prestidigitador,
seu truque mais banal
é na proximidade tornar-se invisível
e na distância se corporificar.

De Solivan

Há felicidade

Há felicidade
No poder inquisitorial das editoras
de queimar livro com recusas
ou aprisioná-los em gavetas escuras como masmorras,
seguindo cegamente o Sumo Pontífice Mercado.


De Solivan

sexta-feira, 12 de março de 2010

Poesia dói



De Solivan

Dark side

Prédios velhos e cariados,
suas portas e janelas
gritam como hospitais.
Boates com luminosos
feitos com lulas e
águas-vivas bioluminescentes.
Guizos, hienas, vodus nas esquinas,
crateras de fuzil nas paredes.
Becos mijados, úmidos escuros,
cheios de morcegos
e fetos nos lixeiros.
Mendigos no cio sobre
jornais velhos
ao lado de um cavalo morto.
Carros com arritmia,
ganido de sirenes e tiros.
Nas calçadas seringas e sangue,
crianças viciadas,
travestis siameses,
prostitutas em suspensão corporal
e um vendedores de hot dog,

De Solivan