sexta-feira, 27 de agosto de 2010


Lãminas
Proustinianas brasileiras


Acordo antes do celular despertar, me espreguiço, o prazer do sono está em suas fronteiras, no adormecer e no acordar.Abraço Aline, gosto de tocar em seu corpo, sentir seu calor rosa, sei que ela gosta de dormir mais um pequeno, mas gostoso sono,gosta de roubar para si a maciez deste pequeno tempo,se dá este luxo. O celular espera mais cinco minutos e avisa com mais alguns trinados.
-Bom dia - diz Aline.,
-Bom dia - respondo, nestas pequenas palavras matinais pode se sentir como está nosso relacionamento, as palavras são sempre as mesmas toda manhã, mas o sentimento que esculpe a expressão e põe música em seu tom é diferente, o bom dia pode soar doce, amargo, angustiado, sensual.
Dormi mal esta noite, fui e voltei da sala, rinite, insônia. Ligo a TV, a voz paternal do jornal vai me ajudar a dormir mais um pouco, quinze minutos vai me ajudar a escrever melhor. É bom sentir as cobertas quentes, é bom me contorcer. Como fazemos os mesmos gestos, os mesmos sons, para sensações antagônicas, temos gemidos similares de prazer e de dor, nos contorcemos de prazer ou de dor.
Ouço Aline chamar nossos filhos para ir para a escola, é preciso ser insistente, repetir como o celular, da cama escuto o barulho deles indo ao banheiro, e a procura arqueológica por meias e uniformes perdidos. Um dia vou sentir saudades destas manhãs, de ouvir as portas dos armários sendo abertas,das xícaras,as brigas pela partilha do chocolate quente, por mais justa que tenha sido a distribuição de Aline.Hoje nossa casa respira, vive, é colorida pelos desenhos animados, sons de vídeo- games, bonecas esquecidas pelo sala,copos quebrados e pelas reclamações constantes de Aline porquê as bolachas e chocolates duram pouco, quando a casa ficar silenciosa e sem filhos e os copos não mais se quebrarem, os chocolates durarem mais e meu violão ficar exatamente onde deixo, imóvel, morto, vou sentir uma saudade enorme, mas hoje me irrita, não consigo dormir. Leio algumas páginas, sobre física quântica em uma revista, sempre tive com a física uma relação pop, o que sei sobre a relatividade, quasar, matérias negras, assisti em algum documentário televisivo ou principalmente li em alguma revista, sempre gostei de matérias sobre o assunto simplificadas por jornalistas ou um físico didático, nunca comprei um livro de física, mesmo assim sou petulante, iconoclasta, fico irritado quando leio que a física quântica é desordenada, imprevisível, que as leis da física não atuam nas partículas subatômicas, acho que é uma questão de ponto de vista,olhamos como gigantes para estas partículas e como seres insignificantes para as dimensões do cosmos,e é este olhar o olhar do insignificante, do distante que dá lentidão aos processos extremamente rápidos do universo e nos permite estudá-los.Portanto,se pudéssemos diminuir nosso ponto de observação, e ponto de por sobre um núcleo de átomo como um asteca vendo estrelas,então poderíamos ver a escala atômica movendo-se calmamente e estudar sua previsibilidade, ou se pudéssemos filmar os processos e diminuir seus movimentos até deixá-los em câmera lenta íamos ver que as leis da física e da quântica não se diferenciaram,ou mínimo suas leis próprias poderiam ser desvendadas, porquê é sua velocidade não seus processos que nos desorientam.
Quando as crianças saem para escola e Aline para o trabalho, consigo dormir mais um pouco, acordo e fico assistindo o jornal da manhã,como futilidades faladas por alguém com terno e gravata passa por algo sério e inteligente, raramente assisto ou leio jornal, há muita notícia irrelevante como de uma professora que dançou nua em boate, índices econômicos descartáveis,a festa junina do presidente,um acidente de automóvel sem vitimas em São Paulo. Gosto de noticias que me ensinem algo durável ou que ao menos me divirta, informações que poderei usar para sempre.Tirando a previsão do tempo, raramente uma notícia que morrerá em uma semana ou em um dia me interessa,é só ler um jornal velho para ver que a maioria das notícias políticas e econômicas terão menos valor que uma receita culinária, por isto mesmo, por separar o que é relevante, quando leio um jornal ou revista não me importa que sejam antigos, porque sei retirar deles notícias ainda vivas, quando trabalhava com meu pai,o que detestava por ter que fazer poemas e desenhos escondido ou sob seu olhar de desaprovação, mas gostava dos dias de chuva,dos dias de tempestade com lindos raios era melhor ainda, o movimento caía muito e era uma delícia ir nas pilhas de jornais velhos e achar notícias frescas principalmente nas páginas culturais.
Escuto Arlete chegar, é ela quem domestica nossa casa, é a domadora que faz as cadeiras e sapatos voltarem ao lugar, tira as escamações de nossa pele das estantes e chão. Logo sinto a alma do café que Arlete está preparando pairar no quarto, após um banho cálido, desço as escadas, há muitas fotos na parede, como é bom ter uma máquina capaz de apanhar um momento delicado como um sorriso de meu filho, minha filha lavando louça, fazendo bolhas de sabão ou todos jogando banco imobiliário. Uma máquina fotográfica não machuca o tempo,o colhe sem incisões, sem o entalhar ou pintar, reproduz apenas com uma luz doce,tão suave, toca um segundo com tanta delicadeza e ternura que não o machuca,o deixa inteiro, como a mão de Gandhi segurando uma borboleta azul e nos permite emoldurar uma lembrança.
Tomo café na sala vendo os gols da rodada, subo novamente para escovar os dentes, me lembra espremer tinta óleo, branco de titânio, sempre me dá ânsia escovar os dentes, duas tossidas clássicas. Já inventei alguns sabores de pasta de dente, folha de laranjeira, de cidreira, camomila, acho que quase todos os sabores de chá combinam com sabores de pasta de dentes. Antes de sair procuro minha carteira, chave e celular, de tanto os perder, consigo os achar com mais facilidade, virei especialista, um detetive, sigo seqüências, primeiro interrogo pessoas, após procuro nos lugares mais óbvios, depois tento reconstituir a cena, só então perco tempo em uma varredura minuciosa. Pego apenas um cigarro e vou caminhando até o escritório, com vontade do primeiro cigarro me acariciando, de ler meus e-mails e de começar a escrever ,é isto que me faz levantar.
Nove horas e quinze chego ao hospital, sempre estou um pouco atrasado, o que me incomoda, mas já incorporei o atraso, justificável até 9:30 depois disto não consigo mais iniciar nada,me perco completamente, não sei mais o que fazer.Assim que entro no escritório chaveio a porta,não estou me aprisionando,pelo contrário, fecho o mundo do lado de fora do meu Éden, enclausurado me sinto livre,fico cheio de uma imensidão onde posso soltar meu pensamentos, a solidão é um pergaminho de ovelha negra onde escrevo, ligo o computador e num ritual abro alguns e-mails, acendo meu cigarro como um incenso que me trás pensamentos,então começo escrever. Inicio meu poema “veludo” só tenho esta idéia primordial, agora dependo do seu poder gravitacional para atrair palavras, começo escrever, jazz de imagens: Veludo/Aqueduto da suavidade/agulhas macias/pesada leveza/campo de trigo avermelhado. Minha espontaneidade é uma massa amorfa, é preciso destilar e definir o estilo,o estilo do o poema é importante para que a frase seja moldada, a minha frase não vem pronta, precisa de sal ou adoçar. Aqueduto da suavidade não é uma boa frase, nem uma é uma boa frase, talvez “agulhas macias”.Quero palavras iridescentes, macias “Pluma” é uma boa palavra,suave, porem muito leve,não resiste ao sopro,quero palavras agarradas ao texto,se alimentando dos restos de banquete e orgias de um veludo episcopal,este será o estilo:O tapa do dominador é de veludo/o tapa para dar prazer/invertendo o sentido da violência,/agulhas macias. Boas frases, com defeitos, mas boas, tem inversões, porém “tapa” tem que ser substituído “chicote” talvez, não “chicote” também não. Fecho os olhos, passo um longo tempo em espreita,escondido na escuridão, procurando o rumor de uma imagem,sentir seu cheiro,não faço nem um gesto brusco, espero que o telefone não grite, nem quero ouvir três jeb’s na porta. Nada, apenas o trivial me ronda, incomoda. Fico inquieto, preciso me alimentar com algumas frases por dia, ou me debato, fico ansioso como numa noite de insônia. Luto contra a vontade de sair, de olhar as correspondências, tento me concentrar, há yoga nesta silenciosa espera felina. O relógio me espinha com suas setas de zarabatanas envenenadas. Tenho apenas umas idéias para ilustrações, um quadro chamado fotografia e uma estátua de uma Eva desesperada tentando devolver a Deus a maçã mordida, dizendo “foi apenas uma mordida.” “Onça negra” é puro veludo, fluidez e dá brasilidade ao poema: O veludo descansa sobre a cama/ Onça negra após o cio. Soou o gongo, escrevi apenas joio, mas estou acostumado com estas derrotas cotidianas, renitente, amanhã recomeço. Desço as escadas lembrando quando estava em um café, após uma palestra discutindo com a Luna, uma poeta do que surge, é o poema que a encontra, e eu o poeta do procurar,do caçar o poema,da insistência. Mas tanto seu método mais orgânico quanto o meu rigoroso,de expediente, somos presos na insegurança do lidar diretamente com o criativo,minha procura por poemas não é a garantia de que os encontre,como aconteceu hoje e Luna pode não mais ser surpreendida por um poema ao abrir uma janela, porque toda a criação vem do inesperado,emerge, e sobre isto, o escritor seja ele disciplinado ou displicente,não tem controle. Porém acredito que quanto mais guardamos sensações e conhecimentos, maior a capacidade para encontrar conexões com o improvável e é exatamente o improvável que faz a arte se movimentar,e os museus criarem novas alas.
Tenho que ficar na recepção por uma hora para a recepcionista ir almoçar, os corredores estão vazios, escuto apenas um bebê chorar e pardais, pego um cafézinho e vou ver o sol, mas logo volto para a frente do computador para poder escrever meu poema alternativo, com cara de quem está fazendo relatórios, se ninguém aparecer para marcar consulta ou internamentos,se o Dario não vir, ele gosta de conversar comigo sobre guerras,mulheres e carros,e sabe que sempre estou aqui neste horário, torço para que não apareça, mas não completamente se ele aparecer vou ter uma desculpa para parar de escrever e estou cansado, sem alma,com os espinhos do poema veludo engasgados na garganta, amanhã quero revanche.
O Dario, ele já viu discos voadores, tem um olhar messiânico ,um pouco louco,suas pálpebras abertas lembram uma mandíbula de cobra engolindo os olhos e usa uma barba com veios de prata, é bíblica ,porém não lembra apóstolos ou Moisés ,mas Barrabás, nunca veste roupas novas,na verdade gosto de conversar com Dario, o problema é que ele surge em horas inapropriadas, hoje exemplarmente, não apareceu, adivinha quando o poema não me surge e ele não atrapalharia. Após mais uma hora de tentativas inúteis vou para casa almoçar e ir para o quarto ler algo suave antes de dormir um pouco, é uma delícia dormir depois do almoço, ressuscito bem. Ao voltar a tarde ao escritório também sempre leio, ao contrário de quando estou em meu quarto, para meu escritório reservo leituras que precisem de mais concentração, o livro me amamenta com seu leite denso,se televisão ou um filme é uma espécie de telepatia que nos injeta uma idéia pronta com imagens e sons, ler falta algo, um ingrediente que o escritor não consegue fazer pelo leitor, mas é justamente nesta falta que esta sua força, ler obriga ao leitor pensar e produzir imagens, ler é pensar, ninguém lê sem pensar, podemos ler um livro ser perceber nossos pensamentos, mas estamos sempre pensando, criando imagens,editando imagens,sentindo, porque ler é interação podemos tocar o que se lê,o pensamento tem cinco sentidos, a leitura molda brinca com estes cinco sentidos, o cérebro tem o poder de criar realidades, se tem algo mais próximo do real é o sonho e ler é um sonho moldado,escrever é esculpir um sonho moldá-lo com palavras, ao ler usamos a memória do táctil, do olfativo, ler tem o gosto e imagens.A leitura fixa melhor um conhecimento,porquê seja ele bom ou não, verdadeiro ou falso é apreendido com os cinco sentidos, porquê isto é intrínseco do ato de ler.
Bom, está na hora de utilizar ao máximo o pouco pragmatismo que tenho e organizar papéis,ver os caixas. Manter as contas do hospital em ordem, até as quatro quando novamente em casa faço um lanche,acho que aguento minha dupla jornada porquê me dou ilhas de descanso absoluto durante o dia, dormir após o almoço e ir para casa no meio da tarde e escolher uma fruta, cada dia pego uma diferente, uma bergamota, um caqui ou um pedaço carnal de melância, se maçã, sempre sinto vontade de destilar seu perfume,de ter seu perfume apartado de sua carne, e vou me aconchegar na sala. Sinto todo o dia o prazer de, chegar na sala,de ver o vaso reconhecível em cima da estante,as pequenas estatuetas dos guerreiros de Xiam e de um cavaleiro medieval, como alguém perdido que reencontra que acha a segurança de um ponto de referência, o que sinto é uma felicidade diluída de quem se perde diariamente e tem que encontrar diariamente o caminho de casa,de quem já está acostumado com a insegurança, mas mão perdeu o gosto deste reencontro diário do perdido com o que lhe é familiar. Mesmo uma perda corriqueira, como uma chave do carro desaparecida tem sempre o potencial de ser para sempre, e é sempre bom o primeiro toque com o que se tinha perdido, é quase um sabor sentido pelas mãos. Então finalmente depois de me achar, posso descansar, por uma hora, neste pequeno pedaço de eternidade, reviro rapidamente os canais da TV, atiro com arma a laser do controle remoto atrás de um documentário,de filmes ou de um divertido seriado antigo, acompanho cretenses, a vida de Picarbia, de Lorca, sou especialista em animais, sempre me comove poder de minha sala ver leões caçando, escolho um canal e hiberno por uma hora em frente ao fogo virtual da televisão. Aprendo nesta posição vegetativa de ostra criando pérolas. Televisão é minha distração, no fim da tarde bebo uísque em sua frente e nas madrugadas de insônia e rinite. A TV me faz parar de pensar, algo como descansar após um esforço, na frente da TV consigo dormir ,relaxo, porque não preciso produzir imagens, tudo é simplificado, um pensamento já pronto,resolvido e editado, o que é um alívio para mim que sempre lutei contra minha alma inquieta. Quase sempre adormeço na frente da televisão vendo suas guerras de ninar, ao som de metralhadoras,bombas e sirenes de algum filme. Eu também gosto de assistir um filme quando o domingo fica tedioso pela aproximação perigosa da segunda-feira, talvez resquício de ir ao cinema na infância, das matines de domingo à tarde, prazer que começa ir a uma locadora ou comprar um bom filme, é um passeio semanal,passo por vitrines,olho as meninas passeando e rindo, acaricio árvores,compro revistas, sei onde tem uma pitangueira que deixa alguns galhos passar por cima do mur. Da calçada ,se for o tempo de frutificar é possível colher pitangas com um sabor de roubo inocente,se não há frutos ,tiro algumas folhas para sentir o odor. Também posso passar perto das camélias e sentir seu cheiro de moça perfumada. Quando chego a locadora, escolho cuidadosamente um filme,vejo diretores, sinopses, por ter múltiplas escolhas posso ser exigente e pegar o melhor, o mais suculento e dispensar as que tenham um mínimo defeito, geralmente pego um filme do qual já tenha lido a respeito, saber com antecedência aumenta meu desejo de conhecer, de tocar, sentir. O descobridor dos manuscritos do Mar Morto, não deve ter ficado muito eufórico com sua descoberta até saber do que se tratava, porquê não tinha conhecimento do que havia achado. Já os ossos pequenos de Lucy, devem ter enchido o arqueólogo de alegria, porquê ele sabia que aqueles ossos fragmentados, áridos e espalhados como um vaso partido eram cheios de importâncias, de interesses, foi seu conhecimento prévio e profundo de coisas similares, que leu nestes pedacinhos aparentemente sem significado, um elo e entendeu sua significação,sabia, mesmo sendo algo que nunca tinha sido tocado, que estes ossos eram o primeiro esboço de um ser humano. Tais ossos, se encontrado por um leigo, seriam algo a ser ignorado ou no maximo serem destas coisas que nos damos ao trabalho varrer ou jogar no lixo.
Então quando finalmente deito no sofá como um romano pronto para se deliciar num banquete godt de ver e ouvir tambores da 20th Century Fox, como um sem-culote assistindo uma execução, o rugir da Metro, as quase vídeo- instalações dos inícios dos filmes, assistir os pensamentos editados e visíveis dos diretores, um filme para os atores é um teatro onde as interpretações podem ser repetidas até a perfeição. Vou at depois do final, leio os créditos e sua disposição de poema,quero saber quem compôs as musicas,quem escreveu o roteiro.Mas hoje não é domingo, preciso voltar ao trabalho, manter tudo organizado, o hospital é meu mecenas, minha editora, eu acho até que o edifício lembra um pouco a angulosa face de Lourenço Médice. Sob suas asas consigo horas cálidas de proteção e posso escrever e ler, retribuo sua gentileza pra comigo cuidando o melhor que posso da minha galinha dos ovos de bronze.Não me sinto castigado, apesar que querer, e muito, ser alimentado somente pela poesia, porquê sei que é histórico a jornada dupla que se submetem os poetas, mesmo os melhores não viviam de poesia. Drumond em sua repartição pública, Cabral , Vinicius e Dante diplomatas, Lemiski traduzindo. Para se viver de poesia é preciso ser vegetariano e viver de pastar as folhas de sua coroa de louros. A poesia sofre de uma distorção mercadológica, atingiu uma excelência generosa, quis dar brioches para todos, mas o povo quer pão, e a poesia foi destronada, está no calabouço, mas mandélica, não perdeu seu brio,sua convicção e conspira, nem que seja falando com as paredes,na esperança que estas tenham ouvidos.
Para vender poesia,é necessário distribuir nossos livros, estar nas livrarias em lugares vistosos. O que tenho visto são livros de poesia escondidos em cantos,em lugares que dão torcicolo, precisamos de gôndolas de ofertas, que pareçam uma bananeira,com o slogan "Poemas a preço de banana".
A noite volto para casa, arrastando a alma, precisando descascar, relaxar, esquecer contas e poemas.Tenho um lema de auto-ajuda, os problemas existem e devemos tentar resolve-los,mas preocupação é algo inútil, perde-se com ela um tempo que deve ser oferecido a paz.
Aline está tricotando na sala.
-Tive um dia péssimo, sem frases novas, contas.-Reclamo amargo
-O meu também foi cheio. - Ela responde
-E as crianças onde estão?Há recebi mais uma recusa da editora Hienas.
-Mesmo? O Duda está no computador, Marcelo no banho e a Luiza assistindo novela no quarto.
-Como as coisas estão complicadas, não e fácil, me equilibrar.
Aline apenas acente, fico querendo mais palavras dela.
-Tive uma idéia para uma ilustração, não sei se vou ter talento mas quero pintar um desses nus fotográficos em preto e branco e fazer o mais parecido possível com a foto, seu nome será uma inversão fotografia
e uma estátua de Eva desesperada tentando devolver a maçã já mordida para Deus.
-Parece uma boa idéia, qual poema?
-Não sei, se precisar invento um. Idéia não e nada se a execução não for boa.

Conto e fotografia de Solivan

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Dança



Fotografia de Solivan

Monalisa e hipopótamos(fragmento)

Quero olhar, olhar
Com telescópios e microscópios
Que tenho os olhos boquiabertos com o mundo

Ver
o universo
esta negra bonita de mais perto
e o big beng que ejaculou mundos pedras e sóis no seu útero
e pelo menos um foi fecundado.

Observar com carinho o ínfimo
Por que toda a vida tem
seu inicio no minúsculo.


Os perfumes,respirar os perfumes
do pão e do orvalho,
das ruas com cheiros de roupa nova,
das ruas com o cheiro aconchegante das cozinhas e frituras,
das lojas com o delicioso aroma das sandálias e sapatos.
Nos shoppings procuro
as livrarias
emanando o tentador aroma de livros novos,
entro nas perfumarias
para sentir as delicadas composições dos perfumistas
estas musicas feitas com das seivas e madeiras,
com flores, tangerinas e glândulas.
Experimento a dosagem orquestral
das graves gotas de cedro e o agudo dos cítricos
com suavidade de flauta das alfazemas,
toco os frascos que
me parecem recipientes alquímicos
estojos para alaúdes
essências envoltos em mantos e conchas de vidro.

Poema de Solivan

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Cavalgo sempre no amanhecer



Meu cavalo é veloz
acompanha a nascente
cavalgo sempre no amanhecer.


Ilustração e poema de Solivan

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Manhã


Fotografia de Solivan

Na rua d’ouro durante uma chuva

Chovia e ventava
o casacão preto dava um ar sorumbático
a Fernando Pessoa.
O vento pareceu levar
seu chapéu
mas era sua alma,
que se desprendera do corpo
e brincava na chuva
de chapéu
rodopiava nua, invisível
com saltos de ginasta.
O corpo
de casacão preto a seguia
com passos envergonhados
como um pai atrás de seu filho levado.

De Solivan

Eu vou ficar

Eu vou ficar
e me aninhar
comodamente no desconforto.
O frio há de me aquecer
a fome me alimentar.


De Solivan

Poesia alheia: Neuzza Pinheiro

Gatos...
sempre mantém
aquela postura de pluma
e lá se vão
uma a uma
pé ante pé
pétala
sobre pétala
como se pedra
fosse espuma.


De Neuzza Pinheiro

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O Pai cinza e o Filho colorido



(Para Vinícius)

O homem cinza
de sombra ou rocha
leva
o menino vitral
que tem sua mão presa ao pai
como flor enraizada na pedra
a outra brinca no ar como pássaro liberto.
O indicador livre
aponta seu raio solar
para alegria
quer brincar dentro das cores
ou tingir a língua
com um picolé carmim.
O sorriso do menino
e uma flor de dente-de-leão
o pai sopra o
sorriso
o menino apaga-se.
O braço paternal
como um pincel
em falanges espalmadas
mancha com um tapa
de raiva vermelha
a alegria amarela no seu rosto do menino.
Mas seu coraçãozinho palpita como uma estrela
e pulsa
estrelinhas em cordames natalinos pelas veias
as luzinhas coloridas
reacendem renitentes.
O pai continua pedra ou sombra cabisbaixa
um gosto de culpa
incrusta
como pátina sobre sua língua.

Poema e ilustração de Solivan

Ponte da amizade

Ponte da amizade

O concreto da ponte flutua
tem algo de voar, de lento voar
algo que me deixa gasoso
ao andar sobre ela.
Porém parece só acontecer comigo,
os outros pedestres estão mais pedra.
Vejo engarrafamento, suor e contrabando,
mas a ponte se mantém tranqüila
com uma docilidade cetácea.
Embala os que mijam, roubam, buzinam e xingam
sobre suas costas.
Afago-a, emocionado com sua bondade.
É das coisas que conheço
a mais próxima da santidade.

De Solivan

Poesia alheia:Tininha

Poema escrito pela gata de minha filha, quando cruzou elegantemente sobre meu teclado.

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De Tininha

sábado, 24 de julho de 2010

Mulheres guaranis tomando chimarão



Fotografia de Solivan

Insegurança

Lembro quando estava em um café, após uma palestra discutindo com a Luna, um poeta do que surge, é o poema que a encontra, e eu o poeta do procurar, do caçar o poema, da insistência. Mas tanto seu método mais orgânico quanto o meu rigoroso, de expediente, somos presos na insegurança do lidar diretamente com o criativo, minha procura por poemas não é a garantia de que os encontre, como aconteceu hoje e Luna pode não mais ser surpreendida por um poema ao abrir uma janela, porque toda a criação vem do inesperado,emerge, e sobre isto, o escritor seja ele disciplinado ou displicente,não tem controle. Porem acredito que quanto mais guardamos sensações e conhecimentos, maior a capacidade para encontrar conexões com o improvável e é exatamente o improvável que faz a arte se movimentar,e os museus criarem novas alas.

De Solivan

Poema ao rio Iguaçu

Rio represado
domado
pela inflexível
posição marcial do concreto.
Rio com hora marcada,
espera contido,
espera angustiado
a hora de fluir feliz
por entre
estas vaginas metálicas.
Meu rio
de margens indefinidas,
e às vezes litigiosas.
Iguaçu de pouco peixe
que lança lambaris aos pescadores
como quem joga moedas
ao mendigo da praça.
Rio importunado
por projetos,
urbanizado
pela pouca poesia
das casas de veraneio.
Enquanto pesco
à sombra de um
out door da
Severo Materiais de Construção,
penso
que teu caule passa aqui,
mas tua rosa flor branca
abre-se em Foz do Iguaçu
e lembro do dia
que levou vilas e pontes
inclusive a zona do Chopim-Dois.
Foi-se o sofá das putas
deslizando rio abaixo.
Adeus sofá das putas
sentirei saudades.

De Solivan

Música

É uma fotossíntese,
qualquer cantor
aspira ar e expira notas musicais.
Já o blues man emite sons feitos de barro.
Vi um cego tocar acordeom,
a música o sacudia como uma ventania ou maré.
E por falar em cego
a música materializa os sentimentos,
reconhecemos um sentimento dentro do peito
como um cego apalpa e reconhece um objeto.
Músicos precisam do silêncio,
do silêncio branco como linho
para esculpir sentimentos.
Pergunto-me:
quem nasceu antes a música ou o rouxinol?
Acho que a música pousou num galho e compôs
um rouxinol.
E a beleza
a beleza nada mais é que música
de objetos não sonoros.

De Solivan

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Exegese de Eva



Eva, Eva
o Éden gritou de dor
quando você
Imolou o que mais amava,
Eva, Eva
Agora em sua boca ressaibos de carne crua.
Eva, Eva
seu cabelo foi a serpente
Eva Eva
sangra tua lágrima azul.
Eva,Eva
tua face; uma escultura bela
Foi remodelada pela angustia
Eva,Eva.
Trançados de espinhos envolvem o útero
Eva,Eva
tua pele é um sudário tecido de angustias e dor
Eva, Eva.
Com o coração mordido,
como uma gazela por um leão,
Eva, pobre Eva
tenta devolver
a maça a maça ferida.

Ilustração e poema de Solivan

Fragmentos do diário de Ariel

Sou um homem com ilustrações na alma
ando com ilustrações e passos vagarosos
um banco ao lado de uma árvore
convida-me a olhar a imensidão
sinto-me enorme, sou até onde
minha visão alcança.
Olho um pássaro no alto, distante
no céu azul com nuvens brancas
e me pergunto
quem é mais livre neste instante
o pássaro lá no alto
com olhos fixos na terra
ou eu de olhos perdidos e livres no firmamento
e neste momento
em que a retina engole o oceano
o céu e a linha do horizonte,
ouço o mar
e o barulho do mar
lembra-me
o som do interior das conchas.


De Solivan

Mimeógrafo: poesia marginal dos anos 70

Idílica Estundantil-III

Nossa geração teve pouco tempo
começou no fim
mas foi bela nossa procura
ah!moça,como foi bela nossa procura
mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
onde até hoje
a gente se corta.

De Alex Polari


A(R)MAR(?)

De Marcos silva


que viagem
ficar aqui parada

De Alice Ruiz



quem tem a mão decepada
levante o dedo

De Nicolas Behr


poética do cotidiano:5

Num domingo desses,
correu por entre os barracos,
som dos futebóis e cheiros de maçarão,
uma noticia triste:
(de uma rua escura de Nova York )
O sonho acabou.

De Flávio Checker




Sobre o momento atual e a tática proletária


Panfletamos a noite toda
-o nome mais belo do medo-
e alguma coisa nos fazia
lembrar uma música

somos ainda jovens
e o suco de laranja estava

ótimo

De Maira

sexta-feira, 9 de julho de 2010

grãos de areia

grãos de areia que reclamam do mundo
grãos de areia que discutem sobre o universo
grãos de areia presidentes
grãos de areia escritores
há um grão de areia pintado com um sorriso enigmático
nas paredes de um museu
e outro com a orelha cortada.
temos grãos de areia de esquerda
grãos de areia islâmicos
grãos de areia com problemas cardíacos
grãos de areia rico e grãos
de areia que compram a prestações.

De Solivan

Falange

Canções de uma banda de heavy metal que nunca existiu


1)Grito biográfico

Eu que obedecendo aos gritos de uma dama de ferro
parei de escalpelei os meus cabelos,
vesti sudários estampados com serigrafia
e fiz de uma bandeira bucaneira minha jaqueta.
Que com os rastos de uma caneta
tatuei nos braços temporárias cobras e cruzes
E na ultima das cadeiras elétricas da escola
fazia canções e iluminuras hereges nos cadernos,
enquanto outros engoliam equações que ainda coaxavam.
Eu que com minha alcatéia,
bebia espumantes poções amargas
recostado em trelizas brancas.
E nos sabados fazíamos pirâmides humanas nas ruas
ou em celebrações tribais ao lado de um riu
bebianos sangue de cana
e assávamos pedaços de manutes
comprados no super-mercado.
Que entediados alugamos um avião velho, já sem azas
e viajamos, bebendo, brigando e parando nas danceterias.
Ate o paraquai onde comprei chicletes coloridos.
Eu que transformei uma armadura medieval em moto
e galopando este magro vento de metal
atravessei a avenida brincando com uma tempestade
e rasquei uma neblina âmbar tingida pelas luzes das estrelas elétricas.
Que desci pelas escadarias do templo
com uma linda menina de cabelos vermelhos
pira sedosa tratado com xampus e amaciastes.
Eu que numa esquina suspeita de Curitiba
receptei um grifo que ficou no meu ombro como uma rêmora
e o alimentei com pedaços de aço.
E viajei para o sul ouvir venenos,mas o saba foi cancelado
então fui ao cinema ver sons violinos esfaqueando
uma moça no banho,
e me auto-condecorei com bootons
em negras lojas.
Eu que fui preso por acariciar um
peixe ornamental na rua.
Meus dedos ainda tinham cheiro de peixe
quando um soldado do exercito de bobos da corte
me disse “vou te soltar pelo seu pai”
e respondi. “Se for pelo vendedor de combustíveis fosseis
pode soterrar a entrada novamente”.
Então passei a noite com uma ladra vestida de noiva.
e ouvindo os gritos de um assassino tento pesadelos.
“Alice com laços vermelhos saindo do corte,
Alice caindo,Alice se transforma em ofélia no fundo do poço.”
Eu que fui apedrejado pelas lagrimas de minha mãe,
mas evitei sua santificação pelos meus pecados
recusando me a injetar o bico do beija flor no meu braço
para espremer seu corpo ate ele vomitar nectar dentro de mim.
Eu que quebrei suavemente um diamante
que sangrou rubis e fui embora atravessando arvores retorcidas.
Que guardei uma mansão abandonada,
solitário sem nem uma mesa de centro para afagar,um sofá para me dar colo
e fiquei deitado em estado vegetativo,
me alimentado por fotossíntese e café solúvel requentado.
Eu que vendi recipientes feitos de seiva
que serviam para se por um pedaço de atmosfera.
E trabalhei em uma loja de materiais de construção
cheia casulos de maldade, charques e pernis de ódio pendurados,
onde lutei com um Ogro cheio de varejeiras,
ate jorrar rosas vermelhas pela minha boca como uma estatua de fonte.
Eu que atravessei a transamazônica em um navio negreiro,
como não tinha lugar nos rotos e remendados tapetes voadores
estendi meu lençol de faquir no corredor.
E na madrugada masturbei uma lactente no cio.
Que vi do outro lado do riu ing e iang
uma cidade cheia de vida como um antigo cemitério no dia dos mortos,
com urubus sobre as casas tumulares,
e conheci suas lojas
que vendiam cocares e vídeo-games ,bordunas e televisores.
Eu que voltei para casa com saudades
de folhear meus recipientes de musica,
de rever sua decoração e beber os sons pesados num brinde nórdico
e limpar os cantos da boca com o antebraço.
Eu que morei num lobo branco de geada
e fiz aulas de pintura no seu estomago com estantes e bibelôs.
E com meu cinzel amei uma das três graças de Rubens
em uma casa feita com de carne de pinheiros.
Que conheci um amigo que também
era uma ovelha vestindo pele de lobo,
e jogamos ruprestes vídeos- games
ouvindo bocas-crisóis cuspindo lava
e conhecemos um templo Egípcio sombreado por araucárias.

De Solivan

Poesia alheia:João Cabral de Melo Neto

Morte e vida Severina(Auto de Natal Pernambucano)



O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

De João Cabral de Melo Neto

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Sobre Quedas e digressões



Sobre Quedas e digressões


Os Polacos ao chegar
fatiaram araucárias
construíram
com este lenho puro imaculado
suas casas.
Católicos martelavam com vigor
porque sabiam que neste lenho puro imaculado
não tinha as mãos de Jesus.
A araucária não tinha o pecado do cedro.
Neste tempo
as ruas de Quedas mudavam
de plumagens ao ano
no verão áspero pó vermelho
no inverno uma nupcial neblina.
Mas dos eslavos e capivaras e pinheirais
da comunidade mítica
desta primeira dentição de madeira
restam apenas
algumas casas apodrecidas.
Hoje as ruas são praticas e cinzas
e prédios matemáticos
feitos de cimento e cálculos.
porem em
suas calçadas de hexágonos sem mel
aparecem índios
vendendo balaios.
sua solidão lembra
que esta cidade quando vista de um alto
ainda parece
uma destas cidades perdidas na mata.
Não gosto do sabor insosso
das linhas retas.
Artificialidades, não gosto de artificialidades.
Gosto de Gaudí
que fez o frio concreto cometer excessos
cometer luxurias.
Já a voluptuosidade de Niemayer
é uma voluptuosidade seca, estilizada.
voluptuosidade tem que ter exuberância.
seus edifícios parecem esterilizados, sem germes.
Não confio em lugares que não tenha germes
lugares santos são cheios de germes
a beleza e sempre cheia de germes.
Porem artificialidade não e desumana
a artificialidade e algo racional
portanto mais humana que a exuberância.
A exuberância esta sim e algo mais animal
mais artística.
Os bares de Quedas
são os nascedouros das lendas
a cachaça com ervas e lascas de sassafrás
e um santo daime, um peiote.
O Orixá Mario de Andrade desce
como espírito santo
a linguagem entra em transe
peixes tornam-se monstruosos
e em quantidade milagrosas
os tiros são mágicos
e matam uma onça mitológica
e o caçador e o cavalo da anta morta
no êxtase, na língua do sonhar.
E alguém imita um polaco
coro de risos.
Das livrarias
gosto da livraria de seu João
heroicamente agarrada ao passado
um carrapato agarrado ao ano de 1967.
Mesmo o jornal do dia
se comprado na livraria do seu João
já sai um jornal cinqüentenário
e muito mais sábio que mesmo jornal
comprado na outra esquina.
Já é um jornal
para ser guardado
uma relíquia
uma peça de antiquário.

Vila dias
E uma favela paranaense
favela branca, de europeus pobres
com um pouco do marrom terra dos caboclos.
Lá e em todo o oeste e sudoeste do Paraná
a cultura gaúcha
encontrou-se com a do caipira.
E quando culturas se encontram
espera-se choque, divisão ou amálgama.
Nas não houve embate
nem o gaúcho e o caboclo mesclaram-se culturalmente
somente desenvolveram uma coexistência única
O paranaense singularmente adotou como sua
duas culturas que continuam distintas e puras
dentro dele
em uma dualidade tão natural
que nem é percebida.
Nos velórios da Vila Dias
o caixão fica dentro das casas
sala aberta como templo.
Reverenciado pela curiosidade
o morto como um santo no oratório
decorado com coroas de alumínio
cuja as flores cheiram a tinta esmaltadas.
Conversas, chimarrão, rezas e choro
fermentam num bolo sonoro
salgado com suor.
Percebe-se em alguns
um certo sentimento de triunfo festivo
os vivos senten-se vitoriosos
perante a morte.
No bar, musica embriagada
e a vizinha assiste à novela
porque na vila dias a morte é cotidiana
e a morte sem os dramas
das mortes dos semideuses da classe media
a morte é comum, domestica
é parte da vida
não causa traumas.
Gosto de artemistificar a morte
Compara-la a quintais abandonados.
Porque vejo
na briga de galo
entre a guaxuma e o picão
renitência do sempre renascer.
Da inútil na insistência de florir
sua flor feia e dissonante
sua flor desperfumada.
Sempre que vejo quintais abandonados
sinto vontade de ser novamente
o menino
que via revoada de rainhas vestidas
Com azas núpciais
em dias de sol e chuva juntos
que enluarava telhados
engrutava porões
para-dificava guarda chuvas
cachoeirizava torneiras
e savanizava quintais abandonados.
De o meu brincar sem nunca individualizar
sem nomear, sem especificar
todas as formigas eram formigas.
Assim nada morre
tudo continua, se um gafanhoto morre
não importava
os gafanhotos não morreram
outro igual nascia e o pedaço era reposto.
Meus soldados também eram renitentes
morriam e renasciam
como gaxumba.
Só a perca era uma espécie de morrer
e o achar ressurreição.
Outros quintais abandonados
Em outros lugares são só quintais abandonados
Quintais oníricos
São os quintais de Quedas
Quintais com guaxuma e picão que reencarnam.


De Solivan

O alimento da vida

A vida,
é o predador da morte.
É a vida que mastiga, engole e digere a morte.
A morte é o passivo, o generoso
alimento da vida.
A relva da qual
a vida se alimenta.

De Solivan

Poesia alheia:Carl Sandburg

A GRADE

Agora,a mansão à beira do lago já está
concluída, e os trabalhadores estão
começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
de tirar a vida de qualquer um que se
arrisque sobre elas.
Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
entrada de todos os famintos e vagabundos
e de todas as crianças vadias à procura de
um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
Amanhã.

De Carl Sandburg
Tradução: Carlos Machado

A FENCE


Now the stone house on the lake front is
finished and the workmen are beginning
the fence.
The palings are made of iron bars with steel
points that can stab the life out of any
man who falls on them.
As a fence, it is a masterpiece, and will shut off
the rabble and all vagabonds and hungry
men and all wandering children looking
for a place to play.
Passing through the bars and over the steel
points will go nothing except Death
and the Rain and To-morrow.

De Carl Sandburg

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Foto embaçada



Correspondente de guerra

Se a fotografia estava embaçada
é por que a maquina
chorava.



Fotografia e poema de Solivan

Estudos simbólicos sobre o público

A multidão é a mesma,
mas o poeta fala sem amplificação
para um exército de nucas indiferentes,
enquanto o ídolo está de frente para os rostos e aplausos.


Saiba, os pedantes são os alicerces econômicos da cultura.


Cruza o inferno até uma editora,
o impostor com a mesma gravata púrpura dos demônios,
quem pode pagar anjos mercenários com seu cartão de crédito,
o movimento com Sarissas:Um novo inseticidas
com um novo príncipe ativo.
Ou um Virgílio,
mas Virgílios são tão raros como Dantes


Cantores abóiam,
já os escritores tem que dissolver a manada
e fazer que cada vaca encontre um canto e leia seu livro.É uma tarefa mais árdua.

A platéia é aviário de águias recém-nascidas,
ávidas por engolir cobras e lagartos
jogadas por alguns rebeldes.
Já de uma ovelha no palco, só aceita doces.

Como morsas,
nas livrarias e bibliotecas, os livros dos vivos lutam contra os poderosos mortos
pelo feio harém de intelectuais.
Geralmente os jovens livros dos vivos são expulsos. I’ll be back.


Lembra,a inteligência santifica a inteligência,
criar é uma insinuação para o eterno.

De Solivan

Conversa com a esposa sobre meu dia

Não, senhor Prutok
infelizmente, seu plano de saúde
não lhe dará eternidade.
Pensei cinicamente,
enquanto ouvia
durante nossa partida de xadrez
o senhor Prutok
falar longamente sobre seu plano de saúde,
e das sete maravilhas tecnológicas
feitas para prolongar o sofrimento.
Eu estava voltado para o portão, com meus sapatos
imantados pela rua.
E achei novas ranhuras no visor do relógio.
Gosta de mim o velho, traz pistaches, arguile.
Deus, como é tedioso ser amado por insossos.
Como me irritei,
mas fixei uma agradável máscara da comédia,
quando me perguntou.
- Gostou do vinho?
- Sim, sim algo frutado, de um rubro intenso.
Calei, mas minha alma continuou.
É também marcante a presença
de acidulantes e conservantes
e tem um bem definido odor de aromatizante para
[automóveis.
Só Liszt dava-me certo alívio
engraçado esses pianistas
cumprimentam a platéia, sentam-se
e tiram sons maravilhosos
dedilhando presas de elefante.
Tem um analgésico?
Minha têmpora lateja como um coração.

De Solivan

Poesia alheia:Charles Bukowski

velho limpo

daqui a
uma semana farei
55.

sobre o que
escreverei
quando ele não
levantar mais
pela manhã?

meus críticos
vão adorar
quando minha diversão
passar a ser
tartarugas
e estrelas -do-mar.

chegarão inclusive a
dizer
coisas boas sobre
mim

como se eu tivesse
finalmente
alcançado a
razão.

De Charles Bukowski
Tradução:Pedro Gonzaga

terça-feira, 22 de junho de 2010

Taquaras




Fotografia de Solivan

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Pensamentos dispersivos sobre minha reencarnação

Esta manhã quis que
meu rosto fosse
cega pedra de nascente
e sentisse a água fresca
temperada com musgos e folhas,
correr eterna sobre minha face.

E meu olhar distâncias
ou linha do horizonte
para ver o sol
estender sua luz limpa e quente sobre a terra,
como um lençol recém passado sobre
a cama.

Que de meus braços emplumados de folhas
e dedos transformados em galhos de árvores
pingassem tangerinas.

De Solivan

Dandi Vampire

A Baudelaire


Prefiro o gosto tão delicado do amor,
O doce carmim feminino ao velho e azedo.
É rançoso, amargo o sangue de pecador,
Avinagrado e rústico o sabor do medo.

Aguardo a ninfa mulher surgir da criança
E com ouro, tempo e charmosa adulação
Rubro néctar é preparado e descansa
No coração cheio, impregnado de paixão.

Identifico-me com brônzeos colibris,
Bebo alvas nucas e pulsos perfumados,
Destes seres faço meu brasão e Ex libris.
Tenho asco dos doentios notívagos alados.

Com beijo suave,o carmim vivo é degustado,
Sinto o melodioso coração adormecer
E sobre meu ombro cai o rosto reclinado.
É sempre alma, não o sangue saboreado.

Então no colo, levo as para jardins,
Lagos ou brancos e esvoaçantes dóceis.
São pálidas, combinam com rosas carmins.
Como que pousando as deixo em vergeis.

De Solivan

Poesia alheia:Helena Kolody

No Silêncio luminoso da tarde
as árvores desfolham-se em pardais.

De Helena Kolody

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Curitiba em dia cinza




De Solivan

Quando planejei um roubar uma livraria

Chuva,
corri para frente da livraria.
A chuva cai
como cortinas de miçangas da platibanda.

Um frescor cola na pele desprotegida
do rosto e braços.
Dá vontade de ficar nu.

Olhos ávidos de desejo
na vitrine da livraria,
livros com fascínio de jóias.
Vontade de assaltar a livraria
andar livre entre as estantes
encher-me de poesia com gula
sem critérios.
Eu sempre tão comedido
entre estas estantes
sedento e tendo que
contentar-me apenas com um ou dois goles.
Pegar o que quisesse
um bárbaro saqueando.
As mãos livres a colher
maduros e suculentos
livros de fotografia
de fauna e flora.
Filosofia, sobre pintores
romances e pornografia.
Pelo fundo, teria que entrar pelo fundo.
Que felicidade
engolir todos,
estrebuchar em cima dos livros,
sentir a segurança da quantidade,
folhear todos com o polegar
e ouvir um barulho reconfortante
parecido com o de maços de dinheiro
e cheirar aquele arzinho de livro novo
novinho, novinho.
Meia hora
meia hora de delírio.

Nuvens já dissolvidas
apanho um último estilhaço de nuvem na palma da mão
e lambo o gosto insosso de céu.

De Solivan

Maiakovski latinizado

Incakovski
Maiakovski
Astecakovski

De Solivan

Poesia alheia:Yao Feng

Peixe Salgado

Como um peixe salgado retornaria a vida?
em busca daquela agulha de prata
percorreu todo o mar,prometeu amor,
que só findaria,no caso de as montanhas despencarem
ou o mar secar
e,para o horizonte,saltou da água.

Agora,pendurado sob o sol,
deixa que a brisa o absorva até a última gota de mar.
E o sal que o destino o impõe
salga o tempo para além do mar.

Não conseguiu no entanto fechar os olhos
mesmo depois da morte.
Vendo que a chuva cai do telhado
para os rios,
o peixe amargo sonha
seu salgado regresso ao mar.

De Yao Feng,poeta chinês contemporâneo

Tradução de Yao Feng e Régis Bonvincino

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Arlequim ou Hamlet?

O mais sublime gosto

Quero fazer silibações para que Zeus
me entregue um pedaço de sua majestosas coxa
porque invejo Cronos,
o único
que teve em sua boca
o sabor dos deuses.
Experimentou o mais sublime alimento.
A magnífica carne de Zeus,
o gosto mediterrâneo de Netuno
e o terroso Hates
neste êxtase sentiu em todos
um pouco de seu próprio gosto.

De Solivan

Você que ladra motins

Você que ladra motins, rosna intentonas
sua ira não me engana
não é um revolucionário,
apenas um contrariado.
Sua revolta é porque quer
suas ovas de esturjão.
Se for aceito
tomara chá de servos as quatro da tarde.

De Solivan

Poesia Alheia:Ievguêni Ievtuchenko

Encontro em Copenhague


Sentados no aeroporto em Copenhague
atacávamos juntos o café.
Ali tudo era belo,
confortável —

Ambiente refinado como quê!
E de súbito
aquele velho surgiu,
japona simples e capuz verde oliva,
pele curtida
por lufadas salinas,
ou melhor,
não surgiu,
exsurgiu.
Caminhava,
singrando por turistas,
como se houvesse largado o leme faz pouco,
feito espuma do mar
a barba híspida
branca
emoldurava-lhe o rosto.

Com sombria decisão de vitória
caminhava,
erguendo uma onda volumosa,

através de antiqualhas
de um moderno postiço,

através do moderno posiçando o antigo.

E abrindo a gola da camisa rústica,
ele, rejeitando o vermute e o pernaud,
pediu ao balcão uma vodca russa
e repeliu a soda com um gesto:
“No...”
Mãos gretadas, com cicatrizes,
curtidas,
sapatos grossos, arrastando solas,
calças incrivelmente encardidas, —
era mais elegante
do que todos em roda!

A terra sob ele como que afundava,
com o peso daquelas passadas.
Um dos nossos sorriu-me:
“Ei!
Veja se não parece Hemingway!”
Caminhava,
expresso em gestos curtos,
andar de pescador, pesado, lento,
todo talhado num rochedo bruto,
como através das balas,
através dos tempos.

Caminhava, encurvado, como na trincheira,
abria caminho entre pessoas e cadeiras...
Parecia-se tanto com Hemingway!
— Depois fiquei sabendo:
era Hemingway.


IEVTUCHENKO, Ievguêni. Encontro em Copenhague. Trad. de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Varanda



De Solivan

Agora que te perdi

Estavas ao meu lado
Mas partiu,
E agora que não te tenho
Entrou em mim sua imagem
E de mim não sai, e em mim fica.
Agora que te perdi,
Esta tão dentro, que já é minha carne.
Com sua partida,
Já não sou apenas eu, também sou você,
No meu corpo trago tua alma
E teu rosto toma-me o peito sempre.
A cada alimento, preparo
Conforme sua vontade
E pergunto-me
Se nossa casa
Esta arrumada a teu gosto.
Com carinho dobro as toalhas
Do jeito que queria.
As vezes conforta-me esta sensação
Que não partiu,
Que na verdade mesclamo-nos
Mas minha tristeza repete com insistência
você se foi.


De Solivan

A pintura é surda e a música é cega.

Um trecho deste poema abre o livro"Um brinde a três amigos"
de o Nilton Bobato.
Obrigado amigo

Vazem o olho da humanidade,
perfurem seu tímpano
e o poema continuará intacto.
Pode-se mesmo, quebrar a terceira vértebra
[da humanidade
e o poema continuará intacto.
Que poema não precisa necessariamente dançar.
Já a pintura é surda e a música cega.
O poema não, o poema é sempre saudável.
Pode ser lido como um todo
pelo olhar, pela audição, pelo toque.
Poemas duram mais que as pedras.
A Ilíada sobrou intacta,
enquanto da Grécia antiga, feita de mármore,
sobraram colunas quebradas, templos em ruínas,
estátuas desmembradas.

De Solivan

Poesia Alheia: Poema de Bertolt Brechet

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

De Bertold Brecht 1913-1956

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Canos de PVC



De Solivan

Lua de mel

Vamos amor
Para um recife de corais
Respirar mar.
Onde só nos é permitido
Falar luxurias ou carinhos,
E toda a palavra áspera ou espinhosa
Machuca nossas delicadas guelras.

Trago comigo ambrósia, maçãs do Édem
E estou ansioso
Para seus seios amamentar meus desejos,
Ler no seu olhar
A partitura dos desejos
E sentir tua
Pele que é fogo sedoso e fresco e orvalhado.

Vem
Meu leopardo e pomba,
Ave- aquática e peixe- voador.
Eu sou apenas beija-flor
Em sua orquídea
Com gosto de néctar e perfume.

Sente
Minhas mãos quentes são estrelas com cinco raios
Em suas costas,
E meu olhar massageia seu corpo

Então danço sobre você
Como vento sobre
As marés de alfazemas
E com meu êxtase
Polinizo seu útero


De Solivan

1º Dezesseis Marylin Monroe morta(fragmento)

Marylin era uma
esposa frustrada
pediu divórcio,
e tornou-se
uma diva frustrada.


Poor Marylin
a máscara da tragédia
quimicamente
transformada
em comédia.

As substâncias
na imagem de
Marylin aderem
do glamour à
canecas de café.

Retratos de Marylin
deviam vir
musicalizados
por uma gota de chanel 5.

De Solivan

Pequena oração de agradecimento à maternidade

Divino e sublime
é DEUS
que cria almas
por intermédio do prazer.

De Solivan

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Nascente



De Solivan