quinta-feira, 28 de junho de 2012
A Casa Azul
da curandeira Iracema
Entre outras iguais
cercada por um colar de velhas ripas
quebradas, caídas, apodrecidas
com manchas brancas de calfino e fungos
qual uma velha dentição
com um jardim
miscelânea de flores, mato e lixo
bordados sobre um quintal de terra.
Ao fundo
de uma vereda
ladeada por tufos
de grama preta e pedras
vejo a casa azul.
Entro e o sol
estende seu calor preguiçoso
e amarelado pelo chão
e sobre ele
hortênsias, guinés e capim
estampam seus sombreados escuros
e o caminho
torna-se um tapete tigrado.
Enquanto ando
vejo a terra tecer azaléias
reger em acordes lácteos
e dourados esparsas margaridas
e o aroma da cidreira
tinge o peito de um verde suave e doce.
De um canto pedregoso
vem o amarelo ofuscante
de muitas rosméias, são quase lâmpadas
(são nessas flores que os pintassilgos
alimentam a cor de suas penas)
entre elas
alguns picões e guanxumas
sacos de supermercado, frascos de Q-boa.
Olho a buganvília
presa no pilar da varanda
caem sobre o beiral num arco celeste
cintilações violetas
sobre um mar de folhas verdes.
À frente da casa
velhas roseiras vermelhas e brancas
projetam suas belas sombras,
arabescos florais
na parede azul
sobre os veios
e nós de araucária.
Um pé de jasmim
plantado no centro de um pneu velho
chama-me pelo perfume, sensualmente
minha alma vai até ele
segue descalça
pelo solo quente
abraça-o nu
e beija, a língua escandalosamente
em sua flor branca.
Eu sigo reprimindo meu desejo
sento-me num banco de tábuas
na varanda.
Varanda que mantém a manhã
por todo dia, cativa em seu interior
guarda-a fresca e límpida
com um sabor térreo
como cacimba
faz com a água.
Presas na parede azul
samambaias profusas
caem em delicadas rendas pelo ar
feitas pelas mãos simples
das raízes a colher o verde da terra
para suas majestosas jubas
plantadas em coloquiais
galões de tinta
e latas de leite em pó enferrujadas.
Latas
que também dispõem-se como favelas ou cemitérios
ao chão, indisciplinadas e abundantes
com begônias, guinés, rabos-de-gato
e avencas.
Potes plásticos
com dedos-de-anjo e violetas
pousam em cima
de um baixo muro lateral
e ao seu lado
está uma bacia de alumínio
cheia de mandiocas recém colhidas
ressentindo a terra.
Pelo lado de fora, junto ao tanque de lavar roupa
num canteiro de tijolos
estão Espadas-de-São-Jorge
e arqueados amores-perfeitos,
no chão úmido e esverdeado pelo musgo
rabiscados pelos prateados passos
das lesmas.
No pátio estende-se
o colar de contas
o sorriso colorido
de um varal de roupas
até um abacateiro.
Da área, por entre as plantas
penduradas no teto e no muro
enxergo os canários-terra
presos em suas gaiolas
no tronco de um cinamomo florido
com odor de mel, mel de mirins.
Num estranho retorno
aos galhos que sempre foram dedos
de uma mão aberta,
os canários cantam na árvore
e a música
os tornam polidos e radiantes,
seus pequenos corpos
cintilam orgulhosos amarelos
seus sons douram meus ouvidos.
Fico nessa varanda
entre
o aroma pungente branco do jasmim
e o canto dos canários
as samambaias, o jardim
a sentir-me
dentro
da música da poesia
enquanto espero reverente
pelas bênçãos de Iracema.
Entro na casa azul
pela escura e enfumaçada cozinha,
perfurando a sombra
dedos de sol penetram pelas frestas da parede
dentro deles brinca a fumaça
sangue etéreo em circunvoluções.
O indicador
passa rente
às cascas espiraladas de laranja
que secam
em cima do fogão à lenha,
lançando sobre elas
asteriscos de luz.
O anelar
estilhaçado cai
sobre as garrafas que luziam
e faz nascer florzinhas de macela de luz
frágeis a tremeluzir
nos cascos
cheios de ervas, raízes,
óleo de capivara e babosa
em cima da prateleira.
Entre as garrafas
a imagem de São Jorge.
Passo pela sala
a parte mais clara da casa
com seu sofá de corvim vermelho-marmoreado
rasgado, a espuma dele aflora
rosas sujas e poeirentas.
Atrás do sofá um quadro de Noé
e pôster do Grêmio campeão gaúcho.
Na estante
antiga, escura, riscada
fora do prumo e de portinholas sempre
semi-abertas
bibelôs e fotos ginasiais
(com globo e livro abertos)
sobre crochês vermelhos,
violetas sem flores
em potes de margarina
ficam uma na frente
de cinco livros vermelhos
empoeirados
e outra, em cima
da velha televisão.
Ao seu lado
há num vaso cerâmico
decorado com flores esmaltadas
desbotadas rosas de plástico.
Do rádio
saía a voz grave de um programa
policial.
Distraio-me ao olhar
pela janela que dava aos fundos
da casa
via ramas secas de mandioca
e sobre elas
sabiás e pardais
frutos livres que vêm e vão.
Após eles
vestem toda a parte de trás do lote,
as folhas do chuchuzeiro
iguais vinhas
cobrem a cerca de arame com suas escamas verdes
e como um menino
brincando num quintal
sobe nas tábuas velhas de uma patente e
no pessegueiro.
Na moradia, não havia portas internas
passa-se por uma cortina,
de tecido grosso e encardido, com estampa de bosque
que cheira a incenso
impregnada de pó, igual a asas de uma mariposa.
Entro às cegas
pelo altar zinabreado
respiro
o ar pesado das orações,
sinto um odor resinoso
sabor de prata enegrecida
cheiro parecido com o das velhas igrejas.
Sento-me com veneração
em uma cadeira de palha trançada
e as rezas de Iracema
murmuram como um riacho
em minha alma
o delicado vento
que fazia suas mãos inchadas e morenas
ao fazer o sinal da cruz por dez vezes
passam pelo meu rosto.
Segura arruda
e um terço gasto feito de contas azuladas
(de sementes azuis colhidas na sexta-feira santa
à beira de um córrego
de um arbusto chamado Lágrimas de Nossa Senhora).
Escuto somente a mística de
suas palavras rasuradas, incompreensíveis,
enquanto seus dedos pousam
sobre minha cabeça,
sinto o calor suado das palmas brancas de suas mãos
morenas
na minha fronte.
A sensação lembra-me folhas de hortelã
porque o que penetra em minha têmpora
é um carinhoso frio verde.
Olho seu altar escuro
no centro, num antigo calendário amarelado
do Sagrado Coração de Jesus
em cima de uma mesa pequena
sobre uma toalha rendada
a imagem de Cosme e Damião
à frente balas, como oferenda
outra de Iemanjá, com o olhar altivo
manto azul-celeste
cheio de estrelas do mar.
Ao meio das imagens
no copo d’água
três ramos de samambaia, uma rosa
e um jasmim.
E saio
da casa azul,
da sua penumbra interna
nos meus olhos, na minha face
sinto o calor e a claridade branca
ofuscante do quintal.
O sol me acaricia.
De Solivan
terça-feira, 19 de junho de 2012
O cubo
Não sei se é real ou sou um prisioneiro vivendo numa ilusão,
mas me sinto confortável, apesar das luzes, de sua nitidez quase
ofuscante, ácida para as sombras. Gostaria de recolher um pouco
de enorme escuridão à minha volta para maquiar a velhice dos meus
braços, incomodam-me estas duas cobras velhas, rápidas e furtivas,
antebraços com sardas marrons, pele ressecada e puída.
Já meu rosto, escolhi não ver o monstro enrugado no espelho.
Queria ficar entocado na escuridão, quanto ao resto, já acostumei,
a solidão, diria até que me delicia, mas ao entrar neste cubo.
Vim pelo irreal
as nascentes da saliva secas.
O peito cheio de palavras mortas
como peixes apodrecidos no peito
seu odor besunta minha boca.
As mãos inquietas
tamborilavam a agonia.
A gema dentro do crânio
gorada.
A porta fechou com zunido
de samurai cortando
a manhã sedosa com sua espada.
Estava no estômago de um pássaro mítico
entre estrelas.
Após Plutão
refreado pela gravidade do sistema solar
senti o tênue rompimento do cordão umbilical.
Apreensivo
olhei a terra dando voltas descontraídas
mosca ingênua
em frente ao camaleão solar.
E Fiz uma oração azul.
Em nome do Pai do Filho e Espírito Santo
Em nome do Pai do Filho e Espírito Santo
Amém
Tive um breve êxtase, quando adquiri confiança em minhas asas, era o argonauta precursor, que colhera no fundo do universo a história perdida da humanidade, desde sua concepção, provar a teoria na qual é possível capturar as imagens do passado, pois se vemos o brilho de uma estrela que morreu há milhões de anos e portanto, vemos apenas seu passado que chega a terra, é provável, que se formos aos confins do Cosmo poderemos capturar todas as imagens do passado da terra, resgatar mamutes, batalhas, heróis crucificações, povos e trivialidades como um chinês rindo, preciso engolir tudo e voltar com a barriga cheia de imagens. Maravilhado com o Cosmo, passei pela primeira nebulosa. Bilhões de ouvidos esperavam beber minha descrição estudada, pasmo, não consegui moldar o ar dos meus pulmões, esculpir palavras claras, só balbuciei as interjeições disformes do deslumbramento. Mas logo o Cosmo ficou tedioso, nem olho mais esta besteira colossal. O que vejo, quase sempre não difere muito de olhar pela janela em uma noite estrelada. Estou enojado desta imensidão cheia de um interminável e inodoro veneno escuro chamado vácuo, que esteriliza a vida, o Cosmo inteiro é cianureto, fogo ou colisões, que procura e detetiza tudo o que é orgânico e o mineraliza.Vi o incontável, vi o interminável, e ele estava inundado de maldade, nele não havia um só lugar, um enclave, onde a vida pudesse ser cultivada, estamos sós. Inquieto à procura de um passatempo criei teorias.
Sobre a menor partícula da matéria e renovação
“O Big-bang expande, depois contrai a matéria
num ciclo eterno. É a pulsação do coração de Deus”.
- A matéria pode ser dividida infinitamente, há sempre partículas menores, formando uma maior e qualquer substância micro ou macro é complexa com inúmeras formas e
componentes, sejam elas um planeta ou uma partícula.
- Há sempre vácuo entre a matéria, mesmo as mais condensadas, por isso é possível encolher um corpo cada vez mais (de fora para dentro). Mas não é a matéria que encolhe e sim o espaço vácuo entre ela, por isso a densidade continua a existir.
- A matéria é elástica, quanto mais se retrai, mais irá se expandir e tomar espaços (de dentro para fora). A matéria mais comprimida é levada ao excesso de expansão e o excesso de expansão a transforma em matéria negra (tão pequena que atravessa o vácuo de outras), porém, a matéria expandida ou condensada exerce a mesma atração gravitacional.
- Buracos negros são agentes de renovação, levam a matéria para um estágio primordial. Seu empuxo atrai corpos, depois outros buracos negros até formar um macro buraco negro dominante, que comprime as galáxias e restitui a força que a expansão dilui, então explode e faz renascer o Cosmo.
- O Cosmo contém dois ou mais desses macros buracos negros, o Big-bang não foi
uma única explosão, estrelas mais velhas que o universo conhecido são oriundas de
uma explosão mais antiga, há troca de substâncias entre blocos cósmicos, assim não há
perda de matéria.
Então veio a irritação, nada mais conseguia fazer.
Eram galhos, heras desfolhadas, ressequidas pelo tédio
as artérias e veias que emaranhavam meus ossos.
Tatuei nas paredes, risquei na pele
Flechas
Palavrões Jogo da velha
Facas Desenhos obscenos
Coração rasurado, escolhi um canto de pássaro para decorar um silêncio
denso e irrespirável como gás, mas aquele canto de faíscas prateadas o explodiu, recebi um coice gasoso no peito, que quebrou as costelas, esmagou o coração de minha alma. Nunca senti tanta tristeza, agora amarro o silêncio com vozes da multidão, do trânsito, estes sons me fazem sentir bem, diminuem a solidão, adormeço ouvindo, nunca mais, nunca mais, uma só voz. Desejava ainda ser o herói que todos esperavam, mas não conseguia, a absurda falta de acontecimentos me impedia, meu orgulho estava oxidado corroído, e sem o suporte do orgulho a espinha não consegue deixar o corpo ereto. Passei a ser cínico e amargo, escarnecia a humanidade, aliás, nem somos humanos ainda, somos híbridos de instintos siamescos apenas atenuados, semi-selvagens, uma raça na puberdade, cheia de ereções, que precisa conquistar, derrotar, de júbilo não de paz, encha de paz e segurança a humanidade e os índices de suicídios aumentam. Como híbridos não temos a verdadeira liberdade do selvagem, que está na luta franca dos animais pelo poder, uma luta que longe de ser apenas a lei do mais forte, e também da velocidade, agilidade, fugas, de camuflagem e venenos, uma luta sofisticada como conspirações palacianas, uma liberdade bem mais elaborada e real, que não é tolhida por leis, dúbias, cheias de interpretações, um engodo que aprisiona lobos para que os leões possam engordar seus cordeiros. Se o natural é perfeito e busca seu equilíbrio, o que é tocado pelo monstro híbrido chamado homo sapiens, torna-se grosseiro, a árvore é perfeita, mas sua lenha tem algo de tosco, porque tocada por semi-selvagens, deixamos tudo que tocamos rude, inacabado, nada é conclusivo, sejam, leis, sistema político, filosofia, tecnologia, em tudo temos que evoluir, e se temos que evoluir, substituir, é porque não chegamos ao perfeito, talvez quando alcançar a condição de homens voltaremos ao perfeito, mas enquanto híbrido, não confio neste símiomem, em sua evolução convulsa, que cria sistemas achando culpados superficiais, sem levar em conta seu verdadeiro inimigo, os instintos, a vontade que temos de nos sobressair, a sede de poder, quando o socialismo acabou com o poder econômico, este foi rapidamente preenchido pelo ainda mais truculento poder político, os instintos infelizmente sempre acham seu lugar.
Passo o dia vendo o teto da nave, conheço as nuances, os tons no branco aparentemente uniforme, as manchas, nomeei territórios mais sombreados, dei nomes de mar aos luminosos, achei vulvas e fantasmas.
Cheio de pensamentos vívidos, curtos, ilógicos, percebi que todos, não só eu vivemos em
Cubos.
Cubos com sofás, cubos onde
cozinham, cubos escritórios,
cubos com janelas para o mar,
cubos com camas, cubos, cubos
saem de um cubo a outro cubo,
jantam em um cubo, comendo
em um círculo, então assistem
ao cubo da sala, também cubo.
Finalmente plácido, aceitei minha situação. Passei a cultivar brilhos polindo tudo, fico absorto nesta jardinagem, cada brilho é uma flor, mas ainda necessitava da companhia de algo vivo.
Se entrasse uma mosca
teria a contemplação dada ao vôo do condor.
Queria poder brincar com um
prisma, lambuzar meus dedos
de arco-íris.
E como desejo uma maçã verde
seu cheiro, morder sua carne
fechar outros sentidos
e ser só gosto.
Teria um êxtase sexual como receber
um jorro potente de esperma na boca.
Então finalmente a paz sem risos, sem prazer ou tristeza, uma preguiça constante. Não quero sair daqui, canto canções infantis e jingles, tentei recitar a odisséia, me deu asco como se mastigasse carne mumificada. Raramente levanto, se meu braço fica dormente penso minutos antes de trocar de posição, durmo muito, não me importo com nada, a terra e o Cosmo que vão para o nada que os criou. Vi uma prostituta sob a luz de um sol e peixes abissais respirarem vácuo. Brinco com os fios de cabelo na cama, não são mais negros, são lindos filamentos de prata. As máquinas começam a chupar a sopa das imagens do passado da terra, nada, nada me interessa, meu casulo é confortável, gosto de desenhar sons abstratos e coloridos, coisas da solidão. Quando me alimentava, escolhia as pílulas pela cor, como se estivesse escolhendo um sabor, com meus olhos, sentia o sabor ácido do amarelo, o sangüíneo do vermelho, o salgado marrom, o suave azul, o refrescante verde, mas agora não gosto de me alimentar, esqueço. Não quero sair deste cubo, nada me interessa, quero dormir, gosto de dormir, lá fora é frio e aqui dentro aconchegante, sono, só sinto sono. A vontade de voltar, está cada vez mais tênue, só a luz me incomoda.
De Solivan
Não sei se é real ou sou um prisioneiro vivendo numa ilusão,
mas me sinto confortável, apesar das luzes, de sua nitidez quase
ofuscante, ácida para as sombras. Gostaria de recolher um pouco
de enorme escuridão à minha volta para maquiar a velhice dos meus
braços, incomodam-me estas duas cobras velhas, rápidas e furtivas,
antebraços com sardas marrons, pele ressecada e puída.
Já meu rosto, escolhi não ver o monstro enrugado no espelho.
Queria ficar entocado na escuridão, quanto ao resto, já acostumei,
a solidão, diria até que me delicia, mas ao entrar neste cubo.
Vim pelo irreal
as nascentes da saliva secas.
O peito cheio de palavras mortas
como peixes apodrecidos no peito
seu odor besunta minha boca.
As mãos inquietas
tamborilavam a agonia.
A gema dentro do crânio
gorada.
A porta fechou com zunido
de samurai cortando
a manhã sedosa com sua espada.
Estava no estômago de um pássaro mítico
entre estrelas.
Após Plutão
refreado pela gravidade do sistema solar
senti o tênue rompimento do cordão umbilical.
Apreensivo
olhei a terra dando voltas descontraídas
mosca ingênua
em frente ao camaleão solar.
E Fiz uma oração azul.
Em nome do Pai do Filho e Espírito Santo
Em nome do Pai do Filho e Espírito Santo
Amém
Tive um breve êxtase, quando adquiri confiança em minhas asas, era o argonauta precursor, que colhera no fundo do universo a história perdida da humanidade, desde sua concepção, provar a teoria na qual é possível capturar as imagens do passado, pois se vemos o brilho de uma estrela que morreu há milhões de anos e portanto, vemos apenas seu passado que chega a terra, é provável, que se formos aos confins do Cosmo poderemos capturar todas as imagens do passado da terra, resgatar mamutes, batalhas, heróis crucificações, povos e trivialidades como um chinês rindo, preciso engolir tudo e voltar com a barriga cheia de imagens. Maravilhado com o Cosmo, passei pela primeira nebulosa. Bilhões de ouvidos esperavam beber minha descrição estudada, pasmo, não consegui moldar o ar dos meus pulmões, esculpir palavras claras, só balbuciei as interjeições disformes do deslumbramento. Mas logo o Cosmo ficou tedioso, nem olho mais esta besteira colossal. O que vejo, quase sempre não difere muito de olhar pela janela em uma noite estrelada. Estou enojado desta imensidão cheia de um interminável e inodoro veneno escuro chamado vácuo, que esteriliza a vida, o Cosmo inteiro é cianureto, fogo ou colisões, que procura e detetiza tudo o que é orgânico e o mineraliza.Vi o incontável, vi o interminável, e ele estava inundado de maldade, nele não havia um só lugar, um enclave, onde a vida pudesse ser cultivada, estamos sós. Inquieto à procura de um passatempo criei teorias.
Sobre a menor partícula da matéria e renovação
“O Big-bang expande, depois contrai a matéria
num ciclo eterno. É a pulsação do coração de Deus”.
- A matéria pode ser dividida infinitamente, há sempre partículas menores, formando uma maior e qualquer substância micro ou macro é complexa com inúmeras formas e
componentes, sejam elas um planeta ou uma partícula.
- Há sempre vácuo entre a matéria, mesmo as mais condensadas, por isso é possível encolher um corpo cada vez mais (de fora para dentro). Mas não é a matéria que encolhe e sim o espaço vácuo entre ela, por isso a densidade continua a existir.
- A matéria é elástica, quanto mais se retrai, mais irá se expandir e tomar espaços (de dentro para fora). A matéria mais comprimida é levada ao excesso de expansão e o excesso de expansão a transforma em matéria negra (tão pequena que atravessa o vácuo de outras), porém, a matéria expandida ou condensada exerce a mesma atração gravitacional.
- Buracos negros são agentes de renovação, levam a matéria para um estágio primordial. Seu empuxo atrai corpos, depois outros buracos negros até formar um macro buraco negro dominante, que comprime as galáxias e restitui a força que a expansão dilui, então explode e faz renascer o Cosmo.
- O Cosmo contém dois ou mais desses macros buracos negros, o Big-bang não foi
uma única explosão, estrelas mais velhas que o universo conhecido são oriundas de
uma explosão mais antiga, há troca de substâncias entre blocos cósmicos, assim não há
perda de matéria.
Então veio a irritação, nada mais conseguia fazer.
Eram galhos, heras desfolhadas, ressequidas pelo tédio
as artérias e veias que emaranhavam meus ossos.
Tatuei nas paredes, risquei na pele
Flechas
Palavrões Jogo da velha
Facas Desenhos obscenos
Coração rasurado, escolhi um canto de pássaro para decorar um silêncio
denso e irrespirável como gás, mas aquele canto de faíscas prateadas o explodiu, recebi um coice gasoso no peito, que quebrou as costelas, esmagou o coração de minha alma. Nunca senti tanta tristeza, agora amarro o silêncio com vozes da multidão, do trânsito, estes sons me fazem sentir bem, diminuem a solidão, adormeço ouvindo, nunca mais, nunca mais, uma só voz. Desejava ainda ser o herói que todos esperavam, mas não conseguia, a absurda falta de acontecimentos me impedia, meu orgulho estava oxidado corroído, e sem o suporte do orgulho a espinha não consegue deixar o corpo ereto. Passei a ser cínico e amargo, escarnecia a humanidade, aliás, nem somos humanos ainda, somos híbridos de instintos siamescos apenas atenuados, semi-selvagens, uma raça na puberdade, cheia de ereções, que precisa conquistar, derrotar, de júbilo não de paz, encha de paz e segurança a humanidade e os índices de suicídios aumentam. Como híbridos não temos a verdadeira liberdade do selvagem, que está na luta franca dos animais pelo poder, uma luta que longe de ser apenas a lei do mais forte, e também da velocidade, agilidade, fugas, de camuflagem e venenos, uma luta sofisticada como conspirações palacianas, uma liberdade bem mais elaborada e real, que não é tolhida por leis, dúbias, cheias de interpretações, um engodo que aprisiona lobos para que os leões possam engordar seus cordeiros. Se o natural é perfeito e busca seu equilíbrio, o que é tocado pelo monstro híbrido chamado homo sapiens, torna-se grosseiro, a árvore é perfeita, mas sua lenha tem algo de tosco, porque tocada por semi-selvagens, deixamos tudo que tocamos rude, inacabado, nada é conclusivo, sejam, leis, sistema político, filosofia, tecnologia, em tudo temos que evoluir, e se temos que evoluir, substituir, é porque não chegamos ao perfeito, talvez quando alcançar a condição de homens voltaremos ao perfeito, mas enquanto híbrido, não confio neste símiomem, em sua evolução convulsa, que cria sistemas achando culpados superficiais, sem levar em conta seu verdadeiro inimigo, os instintos, a vontade que temos de nos sobressair, a sede de poder, quando o socialismo acabou com o poder econômico, este foi rapidamente preenchido pelo ainda mais truculento poder político, os instintos infelizmente sempre acham seu lugar.
Passo o dia vendo o teto da nave, conheço as nuances, os tons no branco aparentemente uniforme, as manchas, nomeei territórios mais sombreados, dei nomes de mar aos luminosos, achei vulvas e fantasmas.
Cheio de pensamentos vívidos, curtos, ilógicos, percebi que todos, não só eu vivemos em
Cubos.
Cubos com sofás, cubos onde
cozinham, cubos escritórios,
cubos com janelas para o mar,
cubos com camas, cubos, cubos
saem de um cubo a outro cubo,
jantam em um cubo, comendo
em um círculo, então assistem
ao cubo da sala, também cubo.
Finalmente plácido, aceitei minha situação. Passei a cultivar brilhos polindo tudo, fico absorto nesta jardinagem, cada brilho é uma flor, mas ainda necessitava da companhia de algo vivo.
Se entrasse uma mosca
teria a contemplação dada ao vôo do condor.
Queria poder brincar com um
prisma, lambuzar meus dedos
de arco-íris.
E como desejo uma maçã verde
seu cheiro, morder sua carne
fechar outros sentidos
e ser só gosto.
Teria um êxtase sexual como receber
um jorro potente de esperma na boca.
Então finalmente a paz sem risos, sem prazer ou tristeza, uma preguiça constante. Não quero sair daqui, canto canções infantis e jingles, tentei recitar a odisséia, me deu asco como se mastigasse carne mumificada. Raramente levanto, se meu braço fica dormente penso minutos antes de trocar de posição, durmo muito, não me importo com nada, a terra e o Cosmo que vão para o nada que os criou. Vi uma prostituta sob a luz de um sol e peixes abissais respirarem vácuo. Brinco com os fios de cabelo na cama, não são mais negros, são lindos filamentos de prata. As máquinas começam a chupar a sopa das imagens do passado da terra, nada, nada me interessa, meu casulo é confortável, gosto de desenhar sons abstratos e coloridos, coisas da solidão. Quando me alimentava, escolhia as pílulas pela cor, como se estivesse escolhendo um sabor, com meus olhos, sentia o sabor ácido do amarelo, o sangüíneo do vermelho, o salgado marrom, o suave azul, o refrescante verde, mas agora não gosto de me alimentar, esqueço. Não quero sair deste cubo, nada me interessa, quero dormir, gosto de dormir, lá fora é frio e aqui dentro aconchegante, sono, só sinto sono. A vontade de voltar, está cada vez mais tênue, só a luz me incomoda.
De Solivan
quinta-feira, 14 de junho de 2012

Quando conheci uma estrela(trecho do conto infantil" A historia do inicio")
Os meninos giram de braços abertos. Eu também giro, giro, giro, ao parar vejo girar os rostos sorridentes e toda a cidade inteira atrás deles a rodar colorida. Quando vejo as nuvens brancas, no alto do furacão, também a rodopiar, grito que vou para a terra de Oz! Olha o saci no meio do redemoinho! Parávamos apenas para esperar tudo voltar ao normal, as casas se encaixarem no mesmo lugar que antes estavam, e voltávamos a girar e a brincar de ficar bêbado. Depois dos rodopios, fui mostrar no bosque das sete árvores o lugar onde tinha visto a transformação de um homem em lobisomem. Mostrei a árvore onde tinha ficado escondido, espiando. Contei que tinha visto chegar gente, e depois de se esfregar num pé de urtiga foi virando homem, lhomem, lobomem, lobiomem, lobisomem e saiu numa corrida parecida com de um chimpanzé sumindo no meio do samambaial. Depois que conto a história vamos embora, porque já está perto da hora do almoço e é perigoso ficar no bosque esta hora. O lobisomem pode estar com fome de crianças.
À tarde estava caçando moscas, depois de ter olhado um livro com a história de João Mata Sete, quando meus tios Luiza, Luci, Gelfe e Neufe chegaram para me levar conhecer uma estrela que tinha caído do céu. Vou dirigindo meu triciclo vermelho cor de morango, com meu tio servindo de motor, até chegarmos a casa verde-mar da minha avó Adele, que estava na varanda, vendo os golfinhos saltarem acompanhando os carros na rua em frente. Minha avó era uma italiana que virava Yemanjá, a rainha do mar nas quartas-feiras. Em seus longos cabelos anoitecidos tinha estrelas do mar e beija-flores que voavam em sua volta para pegar pólen e néctar no seu doce olhar azul. Segurava o incenso de um cigarro na mão, e sua fumaça azulada ondulava como cabelos de sereia levados pela maré. Abracei minha avó, e coloquei meu ouvido nela, porque se encostasse ao seu corpo dava para ouvir o barulho das ondas, como acontece nas conchas. Peço onde está a estrela cadente, e ela me responde que está no viveiro, presa junto com os passarinhos.
O viveiro fica nos fundos do lote, entro na sala sozinho, sou vigiado por uma foto de um tio falecido. Era um retrato em preto e branco, mas foi pintado, e agora a fotografia parece estar com maquiagem e usando batom.
Estava passando quando as estátuas dos santos meninos Cosme e Damião me pediram para ligar a TV em um desenho animado. Também parei na cozinha para ver uma chaleira fumegante, que brincava de trem maria-fumaça puxando uma fila de panelas. Sobre a mesa, pratos passeavam usando como remos duas colheres. Perto estavam açúcar e o sal, que são irmãos gêmeos para os meus olhos, mas tão diferentes para minha língua. Coloco minha cabeça dentro da cristaleira espelhada, para ver a imagem do meu rosto aparecer duzentas vezes, sempre diminuindo, até desaparecer no infinito. Só então abro a porta dos fundos e vou
até o viveiro de passarinhos do tio Gelfe. Vejo os canários, pintassilgos, sangue de boi, tão coloridos. Os passarinhos aproveitavam toda a cor da semente da qual se alimentam, como se a cor fosse uma vitamina. Sugam todo amarelo do milho, todo o vermelho do urucum, para pintar suas penas. Deve ser por isto que só cagam em preto e branco, o que deixava o chão do viveiro chuviscada, carijó parecendo uma TV fora do ar.
O tio Gelfe estava soltando um tucano porque comia os ovos dos outros passarinhos. Porém, o tucano não queria ser libertado, era feliz preso como um lobo vivendo entre ovelhas. Ele queria voltar para a gaiola, mas foi apedrejado, pareceu perdido no céu, debatendo-se desajeitado, parecia alguém se afogando, até ir finalmente embora em um voo triste como um náufrago nadando.
Peço pela estrela cadente, e meu tio Gelfe diz que está na loja de peças de meu avô. Então para vê-la, tenho que ir pelo parreiral, o sol passa pelas folhagens e desenha em meus braços uma pele de girafa. Está sem frutos, mas cheio de abelhas. Elas gostam de chupar uvas quando elas ainda são cachinhos de flores. Um bando destes tigrinhos de asas zunem brabos perto de mim. Corro até os fundos da loja de acessórios, galinhas comem, ciscam entre escapamentos e baterias velhas. Um motor ainda sangrando óleo mancha a terra, parece um coração de um robô gigante. Entro por trás da loja cheia de pó como uma tumba abandonada. Meu avô vende pedaços de carro. Tem olhos e intestinos de automóveis expostos, para-lamas balançam, como pernis em um açougue cheios de moscas entorno dele. O avião, que comecei fazer com caixas de papelão, está ainda no fundo das prateleiras.
Pergunto. Onde está a estrela cadente? Meu avô me aponta uma pedra em cima de uns papéis velhos amarelos e empoeirados. A pobre estrela cadente tinha morrido, perdeu sua cauda brilhante, está fria. Procuro ouvir seu coração, não bate mais. Acho lâmpada do teto mais parecida com uma estrela que aquela pedra. Prometo para a estrela, que quando meu avião ficar pronto vou levá-la para sua constelação, e sua mãe vai amamentá-la com bastante luz até ela voltar a brilhar.
Ilustração e texto de Solivan
sexta-feira, 1 de junho de 2012
Despeito
Chega
de lamber livros sujos e insossos
nas bibliotecas municipais. Não bebo mais leite empoeirado
de tetas velhas.
Quis meu lugar
mas livrarias e medalha, medalha,medalha como Mutley.
Agora vou jogar para o primeiro cão que aparecer
o osso de Homero
que comprei de um camelo de relíquias. Eu e as pombas estamos
cagando para as estátuas das praças. Quero cuspir na cara de um
auto-retrato de Rembrandt.
E fazer salada
de ciprestes impressionistas roubados. Sair
com um bando selvagem,
e matar a flechadas o touro de bronze da Wall Street.
Repartir em postas, assar
e comer com vinho barato
em um beco sujo.
Não aguento mais ver nos museus a cara centenária, mumificada do novo em sua tumba. Hora de procurar por outra coisa menos rançosa.
Vou colocar
um dedo de uma estátua grega
dentro de lata de salsichas. E com o dinheiro da indenização
tomar cerveja, transar e assistir pica-pau
nas tarde quentes. E quando estiver entediado
dobrar origamis e aviõezinhos com folhas retiradas da divina comédia
e jogar pela janela do apartamento.
Impedirei que alimentem as obras de Botero
até elas virarem El Grego.
Não cederei meu lugar neste metro lotado. Nem que entre
uma Virgem Maria renascentista como o menino.
Paguei pelo ticket.
E num dia de bebedeira, por fogo inquisitorial em uma livraria de shopping e gritar para os comparsas.
Exagerem na gasolina que os livros são aguados. Ah, sentar bebendo vodka e
sentir o cheiro bom de livros de bruxas e magos queimando, queimando,
deliciosamente queimando.
De Solivan
Chega
de lamber livros sujos e insossos
nas bibliotecas municipais. Não bebo mais leite empoeirado
de tetas velhas.
Quis meu lugar
mas livrarias e medalha, medalha,medalha como Mutley.
Agora vou jogar para o primeiro cão que aparecer
o osso de Homero
que comprei de um camelo de relíquias. Eu e as pombas estamos
cagando para as estátuas das praças. Quero cuspir na cara de um
auto-retrato de Rembrandt.
E fazer salada
de ciprestes impressionistas roubados. Sair
com um bando selvagem,
e matar a flechadas o touro de bronze da Wall Street.
Repartir em postas, assar
e comer com vinho barato
em um beco sujo.
Não aguento mais ver nos museus a cara centenária, mumificada do novo em sua tumba. Hora de procurar por outra coisa menos rançosa.
Vou colocar
um dedo de uma estátua grega
dentro de lata de salsichas. E com o dinheiro da indenização
tomar cerveja, transar e assistir pica-pau
nas tarde quentes. E quando estiver entediado
dobrar origamis e aviõezinhos com folhas retiradas da divina comédia
e jogar pela janela do apartamento.
Impedirei que alimentem as obras de Botero
até elas virarem El Grego.
Não cederei meu lugar neste metro lotado. Nem que entre
uma Virgem Maria renascentista como o menino.
Paguei pelo ticket.
E num dia de bebedeira, por fogo inquisitorial em uma livraria de shopping e gritar para os comparsas.
Exagerem na gasolina que os livros são aguados. Ah, sentar bebendo vodka e
sentir o cheiro bom de livros de bruxas e magos queimando, queimando,
deliciosamente queimando.
De Solivan
terça-feira, 22 de maio de 2012
O monomotor
O monomotor
Juntei-me
aos meninos
que corriam
atrás de um avião.
Atiravam nele com o indicador,
davam adeus,
apontavam
e torciam
para ele cair.
Um Atlas levava uma bola
de plástico.
Os de chinelos de dedo
iam à frente,
os de pé no chão
saltitavam logo atrás
nos pedregulhos.
Um último menininho
chorava e pedia para esperar.
Lembro que tinha uma pérola de ranho
no nariz.
E vimos o avião sumir.
Quase todos faziam
da mão uma aba,
quase todos pareciam
em posição de sentido
calados.
Todos admiravam aquele brilho distante
parecido ao encontrado num caco de vidro.
O menininho ainda chorava.
Voltamos
as bocas imitavam barulho de motores
e os braços asas.
Eu erguia meu braço o mais alto possível,
segurava uma cruz improvisada.
Estilização rude, só o esqueleto
porque o corpo que dava perfeição
ao aviãozinho de gravetos era de imaginação.
De Solivan
quarta-feira, 16 de maio de 2012
No shopping center
Abre-te Sésamo automático,
esta porta de translúcido vidro
para min, o Moisés de tuas águas sólidas.
Será que suas engrenagens,
suas roldanas esmaga-formigas, seus sensores
funcionam com passarinhos?
Ou a andorinha bate no vidro como
em qualquer outra vidraça
e morre na delícia de morrer em um voo
despreocupado.
Gosto de caminhar no shopping
este museu de roupas e calçados contemporâneos.
Meus olhos acham os decorativos deuses indianos.
Meus olhos flecham o calcanhar dos narguilés.
Meus olhos acariciam as meninas.
Meus olhos veem a noite pelas janelas
e navego
cruzando Andrômeda
cruzeiro transespacial.
Balanço do do marmmmMnsera quenoi esopsçao tem balndlço de marnm MnM barcobebbadoGIusgliuglurub lka voub jdhueueueucrzaudndo anfdromedasolto^ v ^ v ajdgi***#3m@r?/??< >
A labirintite passou
e ando agora com alma de Bosch,
por este estômago cheios de lojas
pronto para sugar todas, todas as vitaminas de meu cartão de crédito.
Experimento perfumes,
safiras líquidas, rubis aquoso, outro cor de urina.
Sou sexagésima sexta reencarnação de um alquimista
e sinto vontades
de misturar
o odor da manhã com fezes de beija-flor,
juntar os cheiros de uma vulvas em cio
e uma noite com óvnis.
Por tudo em frascos Mirós.
Ascendo em escadas rolantes
braços imitando um urubu.
Paro para ver
nas vitrines da loja de brinquedos
o super-homem,
o que pode
cavalgar em cometas
e se alimentar de vácuo,
o que pode tomar um sorvete feito de massa solar.
E Batmam, o frutívoro espalha pólen.
Barbies em esquifes rosas
e vídeos- games onde
as crianças podem
decapitar virtualmente
estripar virtualmente
lobos, anões e madrastas.
Nos cinemas
olho os cartazes
como quadros em exposição.
Multidão de livros na livraria.
E toda a multidão está cheia de cretinos e magos.
E toda a multidão tem economistas e astrólogos.
E em toda a multidão tem um poeta.
Meus livros não estão na livraria,
nem do Thadeu de estrelas no bigode,
nem do Thadeu dez-dedos
na mão esquerda quando toca violão.
Nem do Jairo,
o centauro que atravessa os oceanos a galope.
nem do Jairo
que abençoou as águas do rio Iguaçu
com poemas
e comeu pão com nanquim nas manhãs.
Seuss filhos da p*#+_0*&&}$$CORNOS
DO*@33##PKU$ilibinoshdnsG0Q3PIFU98WBICHA CAPINEWGIUB087 ESTA BURRIOIqeru,fne in tME IRRITAeeiirriHJGIDGIUtavao tomar IJVYU4746387¨*$%%&*($MNO CUlokhnfsçoiuoip90843l98w@%$t376
Compro hq do Homem-Aranha
e um livro do Schopenhauer.
Filósofos estão em promoção,
mais baratos que o gibi.
Pague um, leve dois.
Karl Marx em promoção,
o CAPITAL está em promoção.
Passo pela praça de má alimentação.
Barulho de atol das rocas.
Nos luminosos e placas em cores primárias
uma salsicha de fraque e cartola.
Um palhaços oferecendo hambúrgueres
e monge comida chinesa.
Sobre um cone o Everest granulado com confeitos
vende sorvetes.
Sou teletransportado por elevadores
de botões azuis fluorescentes.
3,2,1
Ejeção completada com sucesso.
De Solivan
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Crucificação de Vilela
Ano 33, dia 2
Crucificaram Vilela.
Crucificaram o poeta cínico
pobre e esnobe
de sorriso lascivo e abusado.
Crucificaram o poeta
pregaram-no em uma cruz
feita de garfo e faca.
Crucificaram o poeta
cheio de escárnio
e devassidão.
O poeta crucificado
pede frugalmente água
dão-lhe fel
suga o fel oferecido.
O derradeiro não
corta seu estômago
sangra uma mistura de
feijão, arroz e comprimidos para dormir.
Vilela inocentemente
nos dá ainda
a beleza de seu último milagre
faz sua coroa de espinhos
de roseiras florescer rosas vermelhas
e fala suas últimas e introspectivas
palavras
- Perdoa-me PAI,
mas eles sabem o que fazem.
Ano 33, dia 5
Vilela é editado no terceiro dia.
De Solivan
Crucificaram Vilela.
Crucificaram o poeta cínico
pobre e esnobe
de sorriso lascivo e abusado.
Crucificaram o poeta
pregaram-no em uma cruz
feita de garfo e faca.
Crucificaram o poeta
cheio de escárnio
e devassidão.
O poeta crucificado
pede frugalmente água
dão-lhe fel
suga o fel oferecido.
O derradeiro não
corta seu estômago
sangra uma mistura de
feijão, arroz e comprimidos para dormir.
Vilela inocentemente
nos dá ainda
a beleza de seu último milagre
faz sua coroa de espinhos
de roseiras florescer rosas vermelhas
e fala suas últimas e introspectivas
palavras
- Perdoa-me PAI,
mas eles sabem o que fazem.
Ano 33, dia 5
Vilela é editado no terceiro dia.
De Solivan
terça-feira, 17 de abril de 2012
Libélula azul
Canto com um azul
da melopéia concreta
a libélula azul,
brilho azul,
reverberações azuis metálicas
de peixe azul prateado
azul, azul, azul
no seu exoesqueleto
as cintilações
têm um tilintar azul.
Luz azul
Luz azul
Passa num assobio azul
libélula azul,
cavalo de fada,
broche de safira no vento.
Libélula azul
que enfeita a boca do camaleão
na minha,
quando mastigo tuas sílabas
com um gosto
azul-amargo metálico de âmago,
deixa um persistente
hálito de libélula azul.
Logopéia azul
penso, logo não existo
que existir é coisa concreta
você apenas sente
libélula
e existe um pouco mais.
O osso não pensa, não sente
ele existe, mais que nós
dois juntos.
libélula,
quando eu for ossos
passo a existir libélula,
quando minhas substâncias
mesclarem-se ao planeta
e moverem-se somente pelos dedos
das leis da física,
libélula
esses dedos musicais
são única parte que conhecemos
do corpo de Deus,
libélula.
Fanopéia,
e se meu indicador
fosse azul, seria sua fêmea,
libélula azul
e se as minhas cordas vocais fossem de cristal
e cantassem como pássaro,
uma única nota vibrante longa e aguda,
e a respiração tivesse
sonoridade de água corrente
pousaria no meu peito
sobre
o meu coração de pedra
coberto de musgos
pousaria nele, libélula?
Quero
porque toda a pedra em que pousa
vira adjetivo, libélula azul.
De Solivan
da melopéia concreta
a libélula azul,
brilho azul,
reverberações azuis metálicas
de peixe azul prateado
azul, azul, azul
no seu exoesqueleto
as cintilações
têm um tilintar azul.
Luz azul
Luz azul
Passa num assobio azul
libélula azul,
cavalo de fada,
broche de safira no vento.
Libélula azul
que enfeita a boca do camaleão
na minha,
quando mastigo tuas sílabas
com um gosto
azul-amargo metálico de âmago,
deixa um persistente
hálito de libélula azul.
Logopéia azul
penso, logo não existo
que existir é coisa concreta
você apenas sente
libélula
e existe um pouco mais.
O osso não pensa, não sente
ele existe, mais que nós
dois juntos.
libélula,
quando eu for ossos
passo a existir libélula,
quando minhas substâncias
mesclarem-se ao planeta
e moverem-se somente pelos dedos
das leis da física,
libélula
esses dedos musicais
são única parte que conhecemos
do corpo de Deus,
libélula.
Fanopéia,
e se meu indicador
fosse azul, seria sua fêmea,
libélula azul
e se as minhas cordas vocais fossem de cristal
e cantassem como pássaro,
uma única nota vibrante longa e aguda,
e a respiração tivesse
sonoridade de água corrente
pousaria no meu peito
sobre
o meu coração de pedra
coberto de musgos
pousaria nele, libélula?
Quero
porque toda a pedra em que pousa
vira adjetivo, libélula azul.
De Solivan
terça-feira, 10 de abril de 2012
Autopiedade
Vinte três facas de prata em meu coração.
Vinte três cantos de minha dor.
E eram as três de la tarde.
E eram as três da la tarde.
Vinte três raios em meu coração.
Vinte três vesses implorei pela morte
de joelhos dobrados.
E eram as três da la tarde.
Vinte três crisóis de magna em meu coração.
Vinte três cascavéis que me odiavam aninhadas em meu peito.
E Fui carregado pelos meus pés e mãos de bronze
como as alças de um caixão.
E manchei com gritos os ouvidos de meu irmão
e eram três de la tarde.
Vinte três leões rubros mastigavam meu coração.
Vinte três piranhas nadavam dentro de mim.
Madre minha, madrezita,
vi teus olhos desolados como o céu azul
sobre os ciprestes.
Filho meu,
vi teus olhos assustados e quis afagar teus cabelos,
mas meus braços estavam mortos
e eram as três de la tarde.
Vinte três mil tocandiras em trançados de caranã envolverão meu coração.
Vinte três enxames de vespas ferroaram minha carne.
E bebi um cálice de morfina com água de miragem
e eram três de la tarde.
Porém uma garça branca pousou sobre meu peito
e disse fica.
E as sirenes ganiram,
e mãos cuidaram de mim
como pomba delicada cuida de seu ninho.
Mas na gruta de mármore negro havia números nos olhos do jaguar
e meus sinais vitais gotejavam irritantes por toda a noite
e no meu braço agulhas frias
moldadas com caninos de vampiros
e na minha boca um gosto de alecrim e metal.
Os mortos sentem em sua boca um gosto de alecrim e metal.
Então levantei no terceiro dia
e vi o sol puro e uma banca de jornal,
vi as moças bonitas
e sorri,
mesmo com passos de quem passeia
em um campo minado jardinado com açucenas,
e eram as três de la tarde.
De Solivan
Vinte três cantos de minha dor.
E eram as três de la tarde.
E eram as três da la tarde.
Vinte três raios em meu coração.
Vinte três vesses implorei pela morte
de joelhos dobrados.
E eram as três da la tarde.
Vinte três crisóis de magna em meu coração.
Vinte três cascavéis que me odiavam aninhadas em meu peito.
E Fui carregado pelos meus pés e mãos de bronze
como as alças de um caixão.
E manchei com gritos os ouvidos de meu irmão
e eram três de la tarde.
Vinte três leões rubros mastigavam meu coração.
Vinte três piranhas nadavam dentro de mim.
Madre minha, madrezita,
vi teus olhos desolados como o céu azul
sobre os ciprestes.
Filho meu,
vi teus olhos assustados e quis afagar teus cabelos,
mas meus braços estavam mortos
e eram as três de la tarde.
Vinte três mil tocandiras em trançados de caranã envolverão meu coração.
Vinte três enxames de vespas ferroaram minha carne.
E bebi um cálice de morfina com água de miragem
e eram três de la tarde.
Porém uma garça branca pousou sobre meu peito
e disse fica.
E as sirenes ganiram,
e mãos cuidaram de mim
como pomba delicada cuida de seu ninho.
Mas na gruta de mármore negro havia números nos olhos do jaguar
e meus sinais vitais gotejavam irritantes por toda a noite
e no meu braço agulhas frias
moldadas com caninos de vampiros
e na minha boca um gosto de alecrim e metal.
Os mortos sentem em sua boca um gosto de alecrim e metal.
Então levantei no terceiro dia
e vi o sol puro e uma banca de jornal,
vi as moças bonitas
e sorri,
mesmo com passos de quem passeia
em um campo minado jardinado com açucenas,
e eram as três de la tarde.
De Solivan
terça-feira, 3 de abril de 2012
A reecarnação de Lorca-Poema 2
Ultima milonga para Paloma
Me vou,
Muda seu sobrenome
Paloma,
Que me vou,
Seva teu mate com outro.
Vou Paloma, que só os egoístas perdoam
Só os egoístas
Querem o manacá que não é mais dele.
Vou com três adagas no peito,
mas vou,
Buemo,melhor assim,
Pelas chagas te tiro,
Como fiz com uma bala chimanga
Que a revolução deixou em minha carne.
Conheço das feridas Paloma, já tive muitas,
As feridas gritam pela parte do corpo não existe mais,
Gritam pela parte que foi retirada pela faca.
E em ferida de amor,
Um gole de canha arde, mas ajuda a melhorar.
Tentei mudar o que eram rosas,
Mas as rosas não mudam nunca, Palomita.
Mas eu posso mudar
E ordenar minha boca
A sentir amargo tudo que antes era mel.
Me calo, vou cuspir minha língua,
Que o corpo apenas engole, mas a alma rumina
E só uma boca calada escuta a alma.
Alem do mas, tudo que tenho a dizer é o rude relho de um fim,
suavidades são cosas de um começo.
Não me olhes assim
Com estes olhos cor de folha de macieira
Que me vou galopar e o meio do mundo fica distante.
Vou só ate o meio Paloma,
Porque num passito alem do meio, já é retorno
E já chega de retornos
E já chega de palavras,
Que isto não é uma payada
Mas uma despedida.
Me vou,adeus Paloma.
Missões 1968
De Solivan
Me vou,
Muda seu sobrenome
Paloma,
Que me vou,
Seva teu mate com outro.
Vou Paloma, que só os egoístas perdoam
Só os egoístas
Querem o manacá que não é mais dele.
Vou com três adagas no peito,
mas vou,
Buemo,melhor assim,
Pelas chagas te tiro,
Como fiz com uma bala chimanga
Que a revolução deixou em minha carne.
Conheço das feridas Paloma, já tive muitas,
As feridas gritam pela parte do corpo não existe mais,
Gritam pela parte que foi retirada pela faca.
E em ferida de amor,
Um gole de canha arde, mas ajuda a melhorar.
Tentei mudar o que eram rosas,
Mas as rosas não mudam nunca, Palomita.
Mas eu posso mudar
E ordenar minha boca
A sentir amargo tudo que antes era mel.
Me calo, vou cuspir minha língua,
Que o corpo apenas engole, mas a alma rumina
E só uma boca calada escuta a alma.
Alem do mas, tudo que tenho a dizer é o rude relho de um fim,
suavidades são cosas de um começo.
Não me olhes assim
Com estes olhos cor de folha de macieira
Que me vou galopar e o meio do mundo fica distante.
Vou só ate o meio Paloma,
Porque num passito alem do meio, já é retorno
E já chega de retornos
E já chega de palavras,
Que isto não é uma payada
Mas uma despedida.
Me vou,adeus Paloma.
Missões 1968
De Solivan
terça-feira, 27 de março de 2012
Sobre a interessante reação das senhoras a um poema
O Poema que virou animação"As senhoras e a puta".

Batista entrou sem ser convidado
no sarau com chás, torradas e alguns maridos.
Terno amassado com cheiro de brechó,
camisa bege encardida.
Recusou o chá, procurou vinho
e como está acostumado a achar espaços
em ônibus lotados,
foi fácil subir ao palco.
Com a voz beirando o grito
iniciou o poema:
-A puta!
Soou como sirene com cárie.
Olhos voltaram-se, como girassóis raivosos
para a palavra, tão vermelha
que manchou de rubro a face das senhoras.
E o constrangimento se manteve
até o arremate de Batista:
-A puta, de Carlos Drummond de Andrade!
Alívio entre as senhoras, sorrisos, e mesmo aplausos.
É Batista, confirma-se a tese
que o maldito está no poeta
e não na poesia.
Tuas doces poesias são consideradas malditas
só porque não lava as mãos antes de fazê-las.
De Solivan

Batista entrou sem ser convidado
no sarau com chás, torradas e alguns maridos.
Terno amassado com cheiro de brechó,
camisa bege encardida.
Recusou o chá, procurou vinho
e como está acostumado a achar espaços
em ônibus lotados,
foi fácil subir ao palco.
Com a voz beirando o grito
iniciou o poema:
-A puta!
Soou como sirene com cárie.
Olhos voltaram-se, como girassóis raivosos
para a palavra, tão vermelha
que manchou de rubro a face das senhoras.
E o constrangimento se manteve
até o arremate de Batista:
-A puta, de Carlos Drummond de Andrade!
Alívio entre as senhoras, sorrisos, e mesmo aplausos.
É Batista, confirma-se a tese
que o maldito está no poeta
e não na poesia.
Tuas doces poesias são consideradas malditas
só porque não lava as mãos antes de fazê-las.
De Solivan
quarta-feira, 14 de março de 2012
Dicas culinárias
Prefira bisteca de anjos ou suas costeletas
às asas, ou retire a pele antes de preparar seu prato.
Se fizer estas partes juntas,
açafrão disfarça as diferenças da carne branca da asa
das vermelhas no resto do corpo.
Cabeça de anjo pode ser assada na tradicional ceia da virada do ano,
coma um pedaço do nariz, trará sorte.
Coloque algumas lagrimas de moça lendo romance
sobre o hambúrguer de fadas. Criadas em confinamento
sua carne é cheia de angústias,as gotas torna o hambúrguer mais tenro.
Experimente servir fadas desidratadas como petiscos,
prefira as defumadas ou com sabor de bacon.
Postas de sereias são mais saudáveis que ondinhas enlatadas.
Escolha sirenes com as guelras vermelhinhas,
os olhos devem estar brilhantes e os cabelos sedosos.
Se frescas dão bons grelhados e Sashimis,
e suas ovas são saborosas,
uma delicatesses de gosto refinado e ambíguo,
mas descarte a boca no geral infeccionada pelos anzóis.
Aproveite as entranhas,
rins e bife de fígado de unicórnio são nutritivos e baratos,
seu mocotó também pode ser usado em sopas.
Escolha estômago de serafim para sua dobradinha ou sarapatel,
mosto de seu sangue é um segredos das fabricas de maçarão instantâneo.
Partes genitais como testículos de gnomos e clitóris de princesas em pasta,
vão bem com croûton num couvert.
Esta disponível nos melhores mercados os novos vegetais
que estão sendo chamadas de frutas cartuns.
A variedade tem coração, amamenta, sangra, tem sentimentos, sente dor
é assim podemos abatê-las incentivando o consumo.
Praticas já vem em porções higienizadas e prontas
e são encontradas em vários sabores como picanha e T-bone.
De Solivan
às asas, ou retire a pele antes de preparar seu prato.
Se fizer estas partes juntas,
açafrão disfarça as diferenças da carne branca da asa
das vermelhas no resto do corpo.
Cabeça de anjo pode ser assada na tradicional ceia da virada do ano,
coma um pedaço do nariz, trará sorte.
Coloque algumas lagrimas de moça lendo romance
sobre o hambúrguer de fadas. Criadas em confinamento
sua carne é cheia de angústias,as gotas torna o hambúrguer mais tenro.
Experimente servir fadas desidratadas como petiscos,
prefira as defumadas ou com sabor de bacon.
Postas de sereias são mais saudáveis que ondinhas enlatadas.
Escolha sirenes com as guelras vermelhinhas,
os olhos devem estar brilhantes e os cabelos sedosos.
Se frescas dão bons grelhados e Sashimis,
e suas ovas são saborosas,
uma delicatesses de gosto refinado e ambíguo,
mas descarte a boca no geral infeccionada pelos anzóis.
Aproveite as entranhas,
rins e bife de fígado de unicórnio são nutritivos e baratos,
seu mocotó também pode ser usado em sopas.
Escolha estômago de serafim para sua dobradinha ou sarapatel,
mosto de seu sangue é um segredos das fabricas de maçarão instantâneo.
Partes genitais como testículos de gnomos e clitóris de princesas em pasta,
vão bem com croûton num couvert.
Esta disponível nos melhores mercados os novos vegetais
que estão sendo chamadas de frutas cartuns.
A variedade tem coração, amamenta, sangra, tem sentimentos, sente dor
é assim podemos abatê-las incentivando o consumo.
Praticas já vem em porções higienizadas e prontas
e são encontradas em vários sabores como picanha e T-bone.
De Solivan
segunda-feira, 5 de março de 2012
poemas para uma banda de heavy metal que nunca existiu
1. Crime e castigo
Eletrocutado por meus crimes
entro no inferno.
Cérbero rosna, late,
mostra as estalactites de sua boca.
Seu hálito é de cova coletiva.
O balseiro nos deixa em um ermo.
Vento quente como
sopro de dragão queima minha face.
O guia acorrenta a todos,
sou levado do com outros mortos
pelos círculos.
Porém minhas algemas
são diferentes.
Tem meus crimes cinzelados em ouro
e sangrentos rubis incrustados.
Parece com um bracelete.
Alguns cevados foram deixados
em celas solitárias e sentiam tanta gula,
que começaram a devorar os próprios braços.
Em um fosso com raivosos animais.
Leão e hiena num mesmo corpo,
lideravam uma estranha matilha
De cães mesclados com felinos.
Mostravam seus caninos quebrados,
porque quando faltava presas
atacavam os rochedos.
Eram tão furiosos porque detestavam
a metade de si mesmo.
Para estas bestas foram arremessados
os que desejavam serem santos,
mas foram devassos.
Uma mulher que teve vida cheia de luxúria
foi acorrentada,
e um estripador começou a copular em sua carne
com uma faca.
Foi obrigada a chupar uma serpente.
Ferrões de arraias penetravam em seus olhos.
Meu último acompanhante,
um maledicente, foi abandonado em árido deserto.
Abutres punham ovos em sua boca.
Fiquei apenas com meu guia,
temi pelo meu castigo,
era o que tinha feito os crimes mais horríveis.
Multidões de demônios vermelhos como sangue fresco
abriam-se como o mar para Moisés
em nossa passagem.
Fui levado até o trono de Satã,
ouvi sua voz enlameada
ordenando sua guarda imperial
a jogar fetos para a multidão esfomeada.
Beijo sua mão com cheiro do ânus
de um efebo que estava em seu colo.
O Imperador então me fala docemente.
- Nada temas meu protegido,
castigos são para pequenos pecadores,
matadores se tornam meus príncipes.
E como conhecia meus desejos,
pede para me trazerem uma lactente.
Como um vampiro sedento
mordo os seios intumescidos.
Sugo leite e sangue.
Peço vinho e sou atendido.
Poema de Solivan
Eletrocutado por meus crimes
entro no inferno.
Cérbero rosna, late,
mostra as estalactites de sua boca.
Seu hálito é de cova coletiva.
O balseiro nos deixa em um ermo.
Vento quente como
sopro de dragão queima minha face.
O guia acorrenta a todos,
sou levado do com outros mortos
pelos círculos.
Porém minhas algemas
são diferentes.
Tem meus crimes cinzelados em ouro
e sangrentos rubis incrustados.
Parece com um bracelete.
Alguns cevados foram deixados
em celas solitárias e sentiam tanta gula,
que começaram a devorar os próprios braços.
Em um fosso com raivosos animais.
Leão e hiena num mesmo corpo,
lideravam uma estranha matilha
De cães mesclados com felinos.
Mostravam seus caninos quebrados,
porque quando faltava presas
atacavam os rochedos.
Eram tão furiosos porque detestavam
a metade de si mesmo.
Para estas bestas foram arremessados
os que desejavam serem santos,
mas foram devassos.
Uma mulher que teve vida cheia de luxúria
foi acorrentada,
e um estripador começou a copular em sua carne
com uma faca.
Foi obrigada a chupar uma serpente.
Ferrões de arraias penetravam em seus olhos.
Meu último acompanhante,
um maledicente, foi abandonado em árido deserto.
Abutres punham ovos em sua boca.
Fiquei apenas com meu guia,
temi pelo meu castigo,
era o que tinha feito os crimes mais horríveis.
Multidões de demônios vermelhos como sangue fresco
abriam-se como o mar para Moisés
em nossa passagem.
Fui levado até o trono de Satã,
ouvi sua voz enlameada
ordenando sua guarda imperial
a jogar fetos para a multidão esfomeada.
Beijo sua mão com cheiro do ânus
de um efebo que estava em seu colo.
O Imperador então me fala docemente.
- Nada temas meu protegido,
castigos são para pequenos pecadores,
matadores se tornam meus príncipes.
E como conhecia meus desejos,
pede para me trazerem uma lactente.
Como um vampiro sedento
mordo os seios intumescidos.
Sugo leite e sangue.
Peço vinho e sou atendido.
Poema de Solivan
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
O Acidente automobilístico em cinco takes

1
Confere sua maquiagem no retrovisor,
tira um gota de sangue do rosto,
ajeita o cabelo negro, channel.
(Quer parecer bonita para o marido)
2
Olha seu marido morrer.
- Interessante.
3
Nota um corte no seu braço.
- Pouco fluxo menstrual.
4
Sai do carro,
a porta range como se estivesse com dor,mas abre.
5
Insight!
imagina-se num vestido sensual
feito com os estilhaços do para-brisa
colhe-os (da preferência pelos vermelhos)
Guarda na sua bolsa Versage
- Não preciso de muitos, será curto. Bem curto.
Ilustração e poema de Solivan
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Futebol

descem
os meninos morenos
pelas ruelas sinuosas
passam por bares
o cheiro de cerveja choca e urina
lembra o cheiro do pai.
Eles trazem
grandes e ingênuos sorrisos
asas brancas de alegria
a fazer o barulho de pombos a alçar vôo.
Vêm os meninos morenos
brincando de futebol
chutando as pedras
no meio do caminho
até a sangüínea flor
do semáforo
e a moeda, cabeça de prego
na palma da mão.
Ilustração e poema de Solivan
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Aleijadinho
A carne e a pedra
Era só o que fez, carne tive que procurar
pois não havia corpo só obra quando pensava
no Aleijadinho à Medusa inversa, ao olhar
para a pedra ela em homem se transformava.
A roxa meia mão esculpia de mão cheia
via profetas por dentro da ostra-pedra
sua idolatria não peca, pois, encandeia
e por alquimia o divino em nós engendra.
Quem o cerne vestiu de Cristo martirizado
na face prendeu toda a dor de quem foi cruz
diante do espelho sem braços e bêbado
fez com estátuas torsas metáforas-luz.
E corou o cerro pôs neste altar igreja
deu mão que não teve ao monte num alvo lume
lá a hóstia dada pela estátua alveja
o peito sudário e seu semblante imprime.
O retábulo move-se, a ornada ação
voa sacra e graciosa como sólida música
no céu com anjos crioulos a premonição
a nossa negra aparecida lúdica.
Onde caríatides sustentam o esplendor
com músculos fortes de Atlas, não de Sansão
fez o gesto eterno e santificou o escultor
a rocha do caminho seu mel, fel e pão.
No leitor tela do poeta quis pintar
com palavras, tinta da minha arte
barrocas visões e emoções a girar
como febris imagens dantes da morte.
De Solivan
Era só o que fez, carne tive que procurar
pois não havia corpo só obra quando pensava
no Aleijadinho à Medusa inversa, ao olhar
para a pedra ela em homem se transformava.
A roxa meia mão esculpia de mão cheia
via profetas por dentro da ostra-pedra
sua idolatria não peca, pois, encandeia
e por alquimia o divino em nós engendra.
Quem o cerne vestiu de Cristo martirizado
na face prendeu toda a dor de quem foi cruz
diante do espelho sem braços e bêbado
fez com estátuas torsas metáforas-luz.
E corou o cerro pôs neste altar igreja
deu mão que não teve ao monte num alvo lume
lá a hóstia dada pela estátua alveja
o peito sudário e seu semblante imprime.
O retábulo move-se, a ornada ação
voa sacra e graciosa como sólida música
no céu com anjos crioulos a premonição
a nossa negra aparecida lúdica.
Onde caríatides sustentam o esplendor
com músculos fortes de Atlas, não de Sansão
fez o gesto eterno e santificou o escultor
a rocha do caminho seu mel, fel e pão.
No leitor tela do poeta quis pintar
com palavras, tinta da minha arte
barrocas visões e emoções a girar
como febris imagens dantes da morte.
De Solivan
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
a fabrica de lápis de cor(Fragmento do conto infantil a historia do inicio)

Alguns meninos me chamam para jogar futebol. Vou pegar minha bolha de sabão, grande e colorida, e vamos ao campinho que fica no potreiro da vaca holandesa. Só paramos de jogar para correr atrás de um avião que passa. Depois do jogo, enquanto descansamos conto para eles como é Curitiba.
Uma cidade com muitos prédios e gente passeando com leões nas calçadas. As praças e marquises estão cheias de pavões, azuis, verdes e brancos. Os carros paravam para uma luz vermelha doce como suco de groselha, chamada semáforo. Que muitas pessoas vivas se vestem com ternos e gravatas, igual dos mortos nos caixões. Conto sobre o mar que cuspia conchinhas na areia como nos dentes de leite, e por último, que conheci o dono de uma fábrica de lápis de cor, quando estava na praia.
Ele tinha ido recolher, com um barco de pescadores, a cor do mar para fazer lápis verdes e me convidou para conhecer a fábrica e mostrou-me como ela funciona. Disse que o azul pegam no céu de avião e o preto na noite com o mesmo avião. O branco é tirado do leite. Na fábrica eles têm cem vacas, só para tirar esta cor. Um dia eu e o dono da fábrica fomos viajar, buscar de caminhão, um arco íris que tinha aparecido em outra cidade.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
A mineração do eu no outro
D’ia
Trabaiei poco co pai dele, eu morava nas lonjuras
dos canhadão do Mato Queimado,nos cafundó,
uns arguere adiante donde o diabo perdeu as bota.
Ia di a pé pra cidade, galo inda cantava,
triste decha a roça,virava pra oia otra veis
a veia co chimarão no rancho luniado de lanpião,
e sumia na seração.
Tinha de cruza quizaza, potrero, pirambera, pinherá,
taguará de tudo lado pra chega na Queda.
Daí dormia no patrão, nos fundão, na dispensa junto co traiedo,
pertado, parecia patente, briava de varejeira,
eu dipindurava unas carça, japona, tudo ensacado
no prego das lingüiça e ia pro serviço.
A moradia era de pinhero prantado por graia azur,
dubado de bosta de anta,mijo de tigre.
Pinhero dos grande,unhava céu,
florado muita pinha te se serrado.
De a frente da casa era cidade, atráis mato,
te os passarinho erum deferente,
pardar dum lado ,nos poste de luiz
e canarinho dotro, mos matagar.
Pra diante
ia pras bodega,trabaia de bastece as tobata,os toreiro,
nus domingo vê firme,nas matine do Mazzaropi,do Texerinha.
Sábado pros baile ranca rabo, dança vanera, panha dos polaco
corre das tiraiada.
Nos fundo
arma rapuca, roba mio, melancia.
Sistia poco teve, era benzida pelo Padre Sismundo
problema que invergonhava, vermeava de i na sala
e do mais, na teve não tinha butiá, quero-quero nem lambari.
Tinha a tar da novela e firme de tiroteio,
de bichinho que falava.não gosto, mais o Soile gostava,
tarde intera, despois pintava osso do peito
de galinha e dizia que era nave espaciar azul.
Bão também Jogava bulica, futebor nas estrada, nos campinho,
voltiava de bicicreta, ia pega bergamota nos confins do Judá.
Quando tinha pechada de carro, velório,
baleado no samambaial, em bodega.
um pia espaiava pro’tro e ião de turmada na novidade.
Ate vaca morta cheia de urubo, iam vê.
Pia é bicho do jchãnho.
Despois se pelava de medo de baleado parece de noite
pegava a durmi só de luiz acessa.
Te parece, luiz não espanta sombração
tem que faze benzimento, joga água benta pra resorve.
Via lobisome,
e oia que lobizome daqui não é bicho brabo,
chupa ovo, pega galinha manca, distrambeia na primeira acoada.
Deve ser cruza de home com quaipeca manso.
Pra esses lado nunca vi fala de lobizome taca gente..
Boitatá intão, qui nos canhadão, nois doma,
usa pras lida,traze tropa de melore,da vortiada,
faze pinhão no fogaredo da crina,
pinhão mio só assado na grimpa.
Que sombrava memo era a Kombi branca que seqüestrava,
marava na soga, bem,dava nó,levava pra taquarazuzar,
tirava as morcia, os bofe da piazada e vendia pros estrangeiro,
despois atirava os guri no Iguaçu, na seva das traira.
De visage, repiava a muié de seração que rodiava o cemitério veio.
Otro, que de veiz em quando
parece na praça de buchada pra fora
diz que tira madera na sexta fera santa,
o pinhero caiu em riba dele, istribucho.
O Soile não queria sabe de i pra aula, burro que era uma anta,
rodava, istudiava só na suiterada,no laço.
O dele é cata fruitinha do mato, se metia nas capoira
trais de sete capote,maria-preta,coquinho,ponta de grimpa verde.
Tinha té carero pro vacum,tudo que male mar dava pra vê,
tudo piqueno,vacum intão é pingo d’sangue.
De boa jaracatiá,banana de mico,ariticum,só no mais longe.
Era mintiroso, gargantiava que tinha luitado cum jiboia
numa quizaza de preá.
Amostrava ranhado de taguaruçu e dizia que era dentada de onça.
As veiz se fazia de índio, cum pena de carijó,
se a negada do posto via, gozava,vinha de pedrada.
Mais gostava memo era de gibi,
ia pega na livraria do Seu João.
Seu João tinha prédio bão, de primera,feita de materiá,
teiado de ternite, teia é coisa veia, casa boa tem ternite.
Tamanho de duas, uma cima dotra,
baxo gibi,caderno,cima moradia,
de zulejo bunito ,enfeitado de flor.
De veiz eu garrava compra um caderno, mais nas vendaiada,
Pra faze palhero, de foia caderno é mais atuar,
inte parece cigarro da holiude.
Seu João ensinava cartilha n’aula
interigente, sabia das Bibria,dos jorna.
Morada na bera da igreja.
Igreja bonita,parecia com das Europias,das de foinha,
co vermeio das chaga de Jesuis.
Mais do longe, nem parecia se de anjico.
Padre Sismundo, ia pras linha de matungo veio, cabado.
Quele tempo, de trais,nem tinha estrada,
ia pelo carrero feito no fação pros interio,
no caminho da onça, facir pisa em urutu,cascaver,
tinha de travesa matagar brabo, chegava ardido de urtiga,
espinhado de cipó unha de gato, inchado de abeia.
Hoje já tem condução tudo facir.
Rezava missa bunita ,enveredava pros conseio,
dava sermão pras muié que ia de saia curta pra igreja.
Tinha ocurus de grussura,tanto lé, acho,cansa as vista.
Assunta como se comprava ocurus d’grau.
Ia na venda mió,maió, nas do Franzoni,
lá tinha balaio de taguara cum monte de ocurus,
escoia,ficava pondo e tirando dos óio té um acenta,
té vê bem as coisa,se não nuviava mais as vista
comprava,o Falecido pai comprava ansim.
Então,vortando, o Soile garrava no gibi
um veiz em quanto,eu zoiava um tar de Tequis,
de outro, co de pitanga ,sombração,
alembrei Fantasma, prestado do Irson.
Mais i os dele era outro,via os não seioquelá dos homeranha
e saia luita com samambaia, mandioca, mata-campo,
entrava pra pega pão moiado com açúcar
e gasosa Serramalte e vortava pras guerra.
Eu tenho radinho, de prastico marelo bunito.
Escuito futebor, jogo do inter ,violero, pograma de pulicia.
Quando fui pra Sarto do Lontra
toquei de compra na rodoviária um vrinho de fareste.
Sabe que inte foi bão vé o vrinho,
quando vortei deitei no pelego
e oiei debaixo da cabriúva de carnea vaca.
Mas não comprei mais,demais de caro,
tinha que guarda pras pia.
Tinha uns de muei pelada,de teta tudo de fora,
Escundi no paió, os rato roeram as mio parte.
Desgraça de rataiedo.
A mãe campeava se catasse ia pro fogo, virava lenha.
O Soile
parecia que nunca tava onde tava,
na rede dizia que tava num caico
e balangava inte no teto,
o teto tinha mais de pezada
que a entrada da moradia.
Subia no teiado,qui era a lua e despois.
se destrambeiava de guarda chuva lá do arto.
Oia,não sei como não se quebrava,
piá tem bicho carpintero no coro.
A casa? era bunita, a dele, grande.
Qui em Queda, eitá lugar de moradia tudo iquar,
parece um c’otro,num tem sobrado cum sotam,nem porão.
Tudo quanto é teiado abre asa pra direita, faze área.
O gente pra gosta de uma área.
“Entra” é só modo de dize, se traiz as cadera
e as visita fica no fresco.
Área é o abraço da casa,
lugar de recebe os cunpadre, toma chimarão.
Tem servendia de garage também,
se chega a parentaida e só vastra o fusca.
A moradia dos bonado são parecida, muda só tamanho
ou feita de materiá, teiado de ternite,
mais o jeito é mema coisa.
Otra deferença me toca dize
é onde se pranta as pranta,
samambaia, espada de São Jorge tudo mundo tem,
só que nos de dinheiro é no vasos,
as outra, dos minquera, é no galão de tinta Rene.
A do Soile era de samambaia no vaso
é rico é bicho fraco memo,
o piazedo não gostava, decha de lado.
No futebor parece chuta purungo,
na bolica, não certa na caseada, no bulico,
num sabe sorta pandorga fica distranbeiada,num avoa.
Ai pegava de fica tempo enchaviado,
cós sordadinho de paper tizorado, guerriando.
Escuitava da porta tando tiro de metralhaiadora ca boca
era ingraçado escuita, num dexava entra de jeito manera.
O Soile era lazerento de ruim no bodoque.
Veis co primo dele chego, fizero um de borracha cansada
e forquia de basorinha, oia não prestava pra nada.
E saíram campiá passarinho, não certaro um,
Daí, aresorverum de pega da gaiola o papagaio peito roxo da famia
cortaro as pena da asa e sortaro,
e dele pedrada no coitado te mata
truchero o bicho depenado
pra mostra que consequi caça
despois que a Dona Tere descubriu que era o Papagaio Peitoroxo
dela as piazada panharum, mais panharum de fica vergão.
Eu quando era novo,lá nos canhadão
carpia as roçada debaxo de sor,
o de friu de racha os beiço,a zorelha.
Gostava de vê carro passa,corre di atrais,te não pude,
despois ficava vendo os rastro dos peneu.
Te cubria as marca cum foia de parmera
pra dura mais,protege dos temporá.
Ficava chola de mostra pros outro
que passava artomover na nossa roça.
Catava pedra caprixada pro bodoque
e ia mira no peito dos sabiá na amorera,
na pinha das juriti nos gaio da canafrista seca.
Perdoava nem curuira, bicho nanico,tem de se bão
certa curuira e qui nem certa no zoio do boi.
I pro rio pula de cipó na’qua, merguiá
e pesca,faze sem-vergonhice.
Sabe lambari? pexe prata e azur,
piqueno ma bastante no Iguaçu tem de monte,
pega facir,de kilo, se joga quirela.
Ma io o bão é faze lambari arecém pescado,
numa fritada,mais radite e polenta,e de lambe os beiço.
O probrema do lambari é as brigaida de casar.
Causa de Lambari oiei os tempo muda.
Pra’onte inda, home pescava e muié limpava,
hoje’dia, mudo, home não manda mais,
causa das novela da Grobo,sabe?
Muierada ficam bizoiando as tar de novelas,
daí prende das modernidades, que trabaia fora.
A minha qué por qué ser zeladora da iscola Castro Arves.
Hoje’dia o home tem que pesca e garra de tira buchada
ainda frita, se muié toca de limpar, oia da desquite.
E torresmo, eitá torresmo, de porco sorto,
criado na lavage, de encraxa os bigode.
Torresmo se escoie, garimpa o mais meio.
Têm muito só graxa e coro duro
de quebra dente do fundo, poco de carne,
negocio é cata que rareia.
Bão é co a companheirada de bodega, cum pinga,
na torresmada tudo iguar , não tem rico,
cada que se ajeite pra acha pedaço que preste.
Passa pra todu o mundo,
gara um, ponha no sar co vinagre e pra dentro.
Torresmo da problema de congistã,
mas não é como outra, que quando torce as tripa,
se pega nojo, torresmo despois de meiorá,
já da vontade de novo, torresmo é assim.
Na bodega vorta e meia parece arquem com torresmo,
Pra deixa os amigo contente.
Vo pra bodegade veiz em quando, joga um pontinho,truco
se esconde de tormenta.
Que dia de chuva não da pra carpi,
e dia de sol é de mais de quente.
Vo pedi um galeto,ovo na salmora, paster
pra come cum gasosa.
Só não me vai pinga com mistura,
mania, estraga pinga cum gaio,cum quizaza,
ponha mestruis, preteia com jaboticaba,
marga com milome, doça com butiá.
Me petece cachaça da pura,de lambique
dose da boa,desse ranhando,de enguli gato de ré.
Só tomo uma cum aio só guando me taca gripe,
o cum losna pro estomego.
Oia bodega não e só pra home,home fica,
bebe, joga sinuca,baraio,faiz gritacera de truco
fica queito no treis sete,na moita.
Mais guri vai compra doce e sai.
O Soile se cabava no doce, não jogava chicle fora,
colava o baita de debaxo da mesa,na geladera
notro’dia pegava de vorta, pra masca de novo.
Bodega se iscuita caso.
Meu cumpradre conto que pesco onça.
O home tinha pego baita pexe,
não é que a pintada se taco na carpa-capim
e o anzor fico prendido na boca dela, bandonei.
Mataram o coitado do meu cumpatre.
Se meteu numa tramóia,
fizero espera na piramberra, perto do córrego.
O capanga sabia o carrero da paca,atiro.
Triste vê, cheio de bala, uma bem no zoio.
Era bão, alembro bastante dele.
Dia ele ia bebe uma pinquinha,dozinha,
falei pra mangá
-Não joga poco pro santo?
num talagazo entorto tudo e prozeo
- Vô não, joga você que é infier,
meu Santo mora qui dentro do meu peito.
Eee sardade, vorti e meia penso nele,
de quanto nois ia pesca,caça, nos bailedo,
cum ele não tinha tristeza.
Se carniava porco,me dava um pedaço,do meió,
mais umas vorta de lingüiça, se coiá borora trazia,
Mandioca intão, de braçada, e quejo, mio verde,
inte galinha limpa,cos miúdo tudo rumadinho no vazio.
Foi coitado, dá nó no peito paifioespiuritosantoamem.
Vá cum Deus cumpadre.
Eu não costumei na cidade, vortei pros canhadão.
Gente vai pra cidade, só pra trupica,
chupa picolé,perde lotação.
Se crio no mato, no mato tem de mora,
cuida da criação, joga mio da galinhada, gosto, vem tudo em vorta.
Cria porco sorto, desenferruja
a quarentinha nos cambuta, nas paca.
Pega quabirova e ovaia no potrero,
sopra as bosta da vaca é manda pro bucho,
Sai e vorta cós borso cheio de butiá,vida boa.
Inte mais.
Poema e fotografia de Solivan
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Conversa sobre o Senhor Prutok
Não, senhor Prutok
infelizmente, seu plano de saúde
não lhe dará eternidade.
Pensei cinicamente,
enquanto ouvia
durante nossa partida de xadrez
o senhor Prutok
falar longamente sobre seu plano de saúde,
e das sete maravilhas tecnológicas
feitas para prolongar o sofrimento.
Eu estava voltado para o portão, com meus sapatos
imantados pela rua.
E achei novas ranhuras no visor do relógio.
Gosta de mim o velho, traz pistaches, narguile.
Deus, como é tedioso ser amado por insossos.
Como me irritei,
mas fixei uma agradável máscara da comédia,
quando me perguntou.
- Gostou do vinho?
- Sim, sim algo frutado, de um rubro intenso.
Calei, mas minha alma continuou.
É também marcante a presença
de acidulantes e conservantes
e tem um bem definido odor de aromatizante para
[automóveis.
Só Liszt dava-me certo alívio
engraçado esses pianistas
cumprimentam a platéia, sentam-se
e tiram sons maravilhosos
dedilhando presas de elefante.
Tem um analgésico?
Minha têmpora lateja como um coração.
Poema e fotografia de Solivan
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
O cubo (Fragmento)

Desejava ainda ser o herói que todos esperavam, mas não conseguia, a absurda falta de acontecimentos me impedia, meu orgulho estava oxidado corroído, e sem o suporte do orgulho a espinha não consegue deixar o corpo ereto. Passei a ser cínico e amargo, escarnecia a humanidade, aliás, nem somos humanos ainda, somos híbridos de instintos siamescos apenas atenuados, semi-selvagens, uma raça na puberdade, cheia de ereções, que precisa conquistar, derrotar, de júbilo não de paz, encha de paz e segurança a humanidade e os índices de suicídios aumentam. Como híbridos não temos a verdadeira liberdade do selvagem, que está na luta franca dos animais pelo poder, uma luta que longe de ser apenas a lei do mais forte, e também da velocidade, agilidade, fugas, de camuflagem e venenos, uma luta sofisticada como conspirações palacianas, uma liberdade bem mais elaborada e real, que não é tolhida por leis, dúbias, cheias de interpretações, um engodo que aprisiona lobos para que os leões possam engordar seus cordeiros. Se o natural é perfeito e busca seu equilíbrio, o que é tocado pelo monstro híbrido chamado homo sapiens, torna-se grosseiro, a árvore é perfeita, mas sua lenha tem algo de tosco, porque tocada por semi-selvagens, deixamos tudo que tocamos rude, inacabado, nada é conclusivo, sejam, leis, sistema político, filosofia, tecnologia, em tudo temos que evoluir, e se temos que evoluir, substituir, é porque não chegamos ao perfeito, talvez quando alcançar a condição de homens voltaremos ao perfeito, mas enquanto híbrido, não confio neste símiomem, em sua evolução convulsa, que cria sistemas achando culpados superficiais, sem levar em conta seu verdadeiro inimigo, os instintos, a vontade que temos de nos sobressair, a sede de poder, quando o socialismo acabou com o poder econômico, este foi rapidamente preenchido pelo ainda mais truculento poder político, os instintos infelizmente sempre acham seu lugar.
Conto e ilustração de Solivan
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Talvez a jabuticabeira seja feliz
Banho de Sol
Numa manhã fria
tomando sol
num pedaço de quintal
entre uma jabuticabeira
e um resto de horta abandonada,
velhas roseiras
e entulhos.
Fechei meus olhos
fiquei ali,
o ardente amarelo
transpassando
minhas pálpebras fechadas,
inerte,
só sentindo
o calor agradável,
sem pensar em nada,
sem ser nada.
Não existir
foi delicioso.
Quando abri meus olhos,
pensei:
Talvez
a jabuticabeira
seja feliz.
Foto e poema de Solivan
segunda-feira, 26 de dezembro de 2011
Crucificaram Jesus no Cristo Redentor
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Mimetização
Chore apenas sob a chuva
ou dessalinize sua lagrima
e a esconda em sua piscina.
( Se a esconder no mar é desnecessária a dessanilização)
Só abra os olhos no escuro
ou pelo menos apague a luz para ler.
Goze para um banco de esperma
e leve a lanterna e o isqueiro
quando viajar ao centro do sol.
Escute Bach quando o aparelho de som estiver estragado.
Fale somente após colocar a mordaça
e diga sempre:“ Não pertenço a um cardume”
já que todos do cardume tem este mesmo lema.
Mas não se esqueça de desconsiderar
o surdo que fez a nona sinfonia.
Poema e fotografia de Solivan
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Apontamentos sobre minha dislexia e daltonismo.
O daltonismo
amputou algumas cores
do meu olho.
Por isto
esta dor perante o arco íris.
A dislexia faz minha mão gaguejar erros quando escrevo.
A dor é colorida,
havia dor no quarto amarelo e nos ciprestes retorcidos de angustia.
Dor quando cinza é uma dor daltônica.
Livros me foram incompreensíveis e fascinastes,
os lia com imaginação mística que quem lê búzios.
Quando não consigo saber uma cor, cheiro,
sei o odor do vermelho e qual é o perfume do verde.
Não sei quando o flamboyant sangra flores,
nem onde esfaquear uma palavra com acento agudo.
Poema e ilustração de solivan
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Diretrizes para um poema ao modo de Sylvia Beirute

não tema a emoção no poema,
pese,conte, analise sua dose, e a multiplique se precisar
e lembre-se, multiplicar é um calculo.
aliás, não tema o calculo, mas com cuidado
os números podem ser excessivamente sentimentais e esotéricos.
e também não tema o humor no poema,
a ignorância, a morte, a violência, as traições
são tão engraçadas, vide as comedias e as piadas.
não tema a beleza, a procure a direita do alvo ou a esquerda
nunca no centro,porque o mais provável, com mais chance de
acerto é o errado.
mas se esta acertando muito ou mirar a direita ou a esquerda
então mire no centro,lembre-se, a maior chance
de acerto é o errado.
ainda sobre o beleza, é fácil encontrá-la no feio.
e outra não tema a influência, sem a influencia
o poema nunca terá originalidade.
e um das causas do antagonismo é uma paixão mutua.
não tema o antiquado,a procura do novo é antiquada,
nem tema o futuro, ache-o com escavações arqueológicas.
e por ultimo não tema o escândalo,exponha o poema ao
escândalo, o escândalo é o inicio da aceitação.
e saiba da transmutação dos antônimos em sinônimos,
e fazer da exceção a regra.
Poema e ilustração de
Solivan
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