sexta-feira, 12 de março de 2010

Demissão de um posto de gasolina

Não quero mais limpar
fadas mortas
nos para-brisas.


Solivan

Fragmentos do diário de Ariel

1. Entre
o dia e a noite
pelo jogo de xadrez
o claro e o negro
contornados por horas coloridas
cheguei
a um dia de claridade intensa, de início
fui sublime
esperando ser ao menos
Ícaro entre os anjos,
com movimentos involuntários e inocentes
iguais ao de um coração,
minhas asas agarraram-se ao céu
e escalaram o firmamento.
Ouvi o canto das águias
e passei por um caminho
no fundo de um desfiladeiro monumental de nuvens
brancas e ofuscantes.
Subi maravilhado,
então onde o cerúleo
transforma-se em um negro estampado de
estrelas,
caí, como Lúcifer após a batalha.
Nas mãos, nas unhas sujas de azul,
pedaços de céu apanhados no desespero da queda.
Mas sou cheio de vida
e descobri o prazer do vinho barato
e da guimba pega no cinzeiro
e entre pernas generosas
solto o odor quente e viscoso do meu sêmen
impregnando um quadro pobre
com meu êxtase viril.
Então sou cisne traidor e divino
sobre Leda.

De Solivan

sexta-feira, 5 de março de 2010

Vanessa


De Solivan para a revista Clic

Manhã em Payador

Torcicolo, tento escrever um poema.
A Janela esta aberta.
Uma pomba rola desconfiada fez um ninho
no beiral da varanda.
Está inquieta e nervosa com a minha presença.
chegou a voar até a árvore mais próxima,
mas voltou logo para seu ninho, para seus ovos.
Tanta determinação, tanto cuidado
por algo que não pede comida,que não exige atenção.
Tento ser meigo, mostrar que ela não precisa ter medo,
mas não vou sair de perto da janela.
Meu computador está na janela,
meu poema aparecerá pela janela,
ela que se acostume com minha presença.
Também estou no meu ninho,
e além do mais
ela também me causa embaraço,
não gosto de seu olhar tão inocente
com medo de mim.
Minhas costa doem, baleada por um torcicolo,
mas não vou sair daqui sem meu poema.
Eu e a pomba somos teimosos.

De Solivan

Sobre pensamentos que tive da Av. Cândido Lopes ou o Alto da Quinze. (fragmento)

Van Gogh
vivo,
já dava sinais do que veria a ser,
andava pelas ruas de Arles
manchado de tinta, doentias manchas de tinta
na pele.
Tinta nas mãos, roupa,
tinta no rosto.
Respirava ar pintado com odor de tinta.
O absinto verde espalhado pelo corpo.
Quando morreu,
a transubstanciação se concretizou
não há mais carne.
Ninguém mais lembra dele
como homem,
mas como um auto-retrato
de orelha cortada.
Van Gogh
o homem que se transformou em pintura.


De Solivan

Blasfêmias de um sacerdotes ébrio

A língua de Deus não é a palavra
a língua de Deus é o momento do gozo
onde vida surge da delicia.
A língua de Deus é a morte
nela o velho morre e o novo nasce.
A língua de Deus é a dor
a espada no cordeiro
que gera o alimento.
Deus não é uno
mora em cada semente, em cada sêmen.
Deus não é vivo
porque tudo o que é vivo finda
Deus é o caos criador das coincidências
E a coincidência, criadora de vida.

De Solivan

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Neuzza Pinheiro



Neuzza Pinheiro e sua irmã Leidi
Visitaram Quedas do Iguaçu,
Conversamos sobre poemas e músicas,
Vimos pássaros e cachoeiras.
Foram dias felizes.


Rio Iguaçu
Teu caule passa aqui,
mas tua rosa flor branca
abre-se em Foz do Iguaçu

Foto e poema
De Solivan

Arenitos vermelhos

Quente
nestes arenitos imensos.
Para beber
apenas água de miragem.
Lembro dos ventos
frios como menta
do inverno.
Destas rochas
só evapora calor,
e para comer apenas
os peixes fossilizados
que apanhei.

De Solivan

O cubo(Fragmento)

(..)Passei a ser cínico e amargo, escarnecia a humanidade, aliás, nem somos humanos ainda, somos híbridos de instintos siamescos apenas atenuados, semi-selvagens, uma raça na puberdade, cheia de ereções, que precisa conquistar, derrotar, de júbilo não de paz, encha de paz e segurança a humanidade e os índices de suicídios aumentam. Como híbridos não temos a verdadeira liberdade do selvagem, que está na luta franca dos animais pelo poder, uma luta que longe de ser apenas a lei do mais forte, e também da velocidade, agilidade, fugas, de camuflagem e venenos, uma luta sofisticada como conspirações palacianas, uma liberdade bem mais elaborada e real, que não é tolhida por leis, dúbias, cheias de interpretações, um engodo que aprisiona lobos para que os leões possam engordar seus cordeiros. Se o natural é perfeito e busca seu equilíbrio, o que é tocado pelo monstro híbrido chamado homo sapiens, torna-se grosseiro, a árvore é perfeita, mas sua lenha tem algo de tosco, porque tocada por semi-selvagens, deixamos tudo que tocamos rude, inacabado, nada é conclusivo, sejam, leis, sistema político, filosofia, tecnologia, em tudo temos que evoluir, e se temos que evoluir, substituir, é porque não chegamos ao perfeito, talvez quando alcançar a condição de homens voltaremos ao perfeito, mas enquanto híbrido, não confio neste símiomem, em sua evolução convulsa, que cria sistemas achando culpados superficiais, sem levar em conta seu verdadeiro inimigo, os instintos, a vontade que temos de nos sobressair, a sede de poder, quando o socialismo acabou com o poder econômico, este foi rapidamente preenchido pelo ainda mais truculento poder político, os instintos infelizmente sempre acham seu lugar(...)

De Solivan

O velho e o tempo

para José Kurek

Eu olho meu relógio
(os práticos olham no relógio)
para saber as horas
outros o sol
ou a sombra.
Seu José não, seu José
entende-se com o tempo
mede o tempo
pela sua vontade
de beber cachaça.
A gente pergunta que horas são seu José?
Ele olha para dentro de si, mede sua vontade
dá um sorriso franco e amarelo
mexe seus poucos dentes soltos pensativamente
balança-os com a língua
e responde.
He, He, He
deizepouco
deizepouco

De Solivan

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Dante e Virgilio em uma conversa informal




De Solivan

Matadores de borboletas azuis

Não perdôo, não perdôo os soldados franceses
que colocaram suas línguas ferinas
nos canhões
e destruíram
a estátua eqüestre de Leonardo.
Argila mais bela desde Adão.
Destruíram
a escultura
que era das coisas mortas, a mais viva.
Porque não recolheram os fragmentos amorosamente
ate a invenção do superbonder?
Os críticos que jogam ausências são filhos e netos destes soldados.


Não perdôo os fascistas, não perdôo
com fuzis atiram dentes de leopardo em Lorca
e a multidão de poemas ainda em casulos
dentro dele
agora são mortalhas.
Matar um poeta é queimar livros antes da publicação.


Não perdôo, não perdôo o vândalo
que destroçou o rosto de Pasolini como um vaso vermelho.
Dentro deste canopo tinha tantos filmes e poemas viscerais
que foram quebrados antes da descoberta.


Não perdôo Maiakovski, não perdôo,
teu sangue tem cheiro de poemas mortos.
Você também assassinou um poeta
com seu suicídio.


De Solivan

Informe policial

Heroína

O soldado
que o retirou das ferragens
foi condecorado.
A mãe que irá cuidar do tetraplégico
pelo resto da vida, não.

De Solivan

Aleijadinho

A carne e a pedra

Era só o que fez, carne tive que procurar
pois não havia corpo só obra quando pensava
no Aleijadinho à Medusa inversa, ao olhar
para a pedra ela em homem se transformava.

A roxa meia mão esculpia de mão cheia
via profetas por dentro da ostra-pedra
sua idolatria não peca, pois, encandeia
e por alquimia o divino em nós engendra.

Quem o cerne vestiu de Cristo martirizado
na face prendeu toda a dor de quem foi cruz
diante do espelho sem braços e bêbado
fez com estátuas torsas metáforas-luz.

E corou o cerro pôs neste altar igreja
deu mão que não teve ao monte num alvo lume
lá a hóstia dada pela estátua alveja
o peito sudário e seu semblante imprime.

O retábulo move-se, a ornada ação
voa sacra e graciosa como sólida música
no céu com anjos crioulos a premonição
a nossa negra aparecida lúdica.

Onde caríatides sustentam o esplendor
com músculos fortes de Atlas, não de Sansão
fez o gesto eterno e santificou o escultor
a rocha do caminho seu mel, fel e pão.

No leitor tela do poeta quis pintar
com palavras, tinta da minha arte
barrocas visões e emoções a girar
como febris imagens dantes da morte.

De Solivan

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Banco da poesia

Meus poemas estão no Banco da Poesia
http://cdeassis.wordpress.com
com belas ilustraços de Cleto.
Espero sua visita.

Solivan

De solivan

Será este sonho eu?

Sou o que desejo ou o que sou?
O que desejo ou o que faço?
Será este sonho eu,
Ou sou o que possuo,
meus braços,minhas pernas e o que tenho como meu,
Serei eu?
Serei eu insatisfação
e falta ou o excesso?
Então me falto ou me sobro?
Será que sou o terceiro olho que não tenho?
Será que ser é uma essência alimentada
pelo que não existe,
enraizada no nada e quando este nada
vai se transformando aos poucos
em substância,
a essência morre,
porque a essência bebe seu néctar
nas inflorescências do nada.

De Solivan

Saravá paranaista(Fragmento)

Havia uma pepita no meio do caminho,
no meu caminho uma pepita havia,
minhas retinas estavam tão fatigadas que nem a via.

De Solivan

Motivos orientais

Preocupou-me um problema insolúvel
até o dia que ouvi
ao passear no jardim
um ancião
dizer cheio de felicidade a uma libélula:
“Ainda temos todo este verão de vida”.

Noite de primavera,
florescem
estrelas no céu.

Poço profundo,
salvo
pelas suas cordas vocais.

Sol traz
ao lago calmo,
constelações de reflexos.

Caos urbano, porém parecia
com tai chi chuan
a informação do chinês.

Com um grito grafitei
um hai-kai
no vento marinho.

O distraído
tem uma águia
dentro do olhar.

De Solivan

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010




De solivan

Espinhos

Poetas discutem nomes
numa guerra inútil de conhecimentos.
A criatividade é a espada do poeta,
não o conhecimento,
o conhecimento é sua faca.
E
O artista louco ganhou respeito
desde Van Gogh, Artaud.
O poeta que não deciframos,
a tela que não compreendemos
deixa-nos ansioso,
em dúvida,
todos ficam sem saber se o que vem
é loucura ou genialidade.
Mas o artista louco é muitas vezes só um louco,
não um gênio louco.
Um louco
também pode ser apenas um idiota



De solivan

Frases para chaveiros

1.Sinto-me ao piano
quando componho poemas
no teclado
do computador.

2.Sim, sou eu todo este não eu.


3.Meu coração é feito de pedra
da mesma pedra
de que são feitos
os santos que choram.
De Solivan

O quadro de Satoro

Já vem contido semanticamente nos genes da palavra Satoro,
sua cor o tipode seus olhos e o formato do rosto. E veste a trocável
descrição últimas tendências. Era manhã e tilintava um copo de suco de
laranja em sua mão, sua bem cuidada mão. Levou-o à boca e
ficou sentindo a borda fria do vidro tocando a ponta de seu nariz.

Sentia-se sonolento, preguiçoso, em descompasso com a mesa pomposa onde brilhavam cristais, cores, pães e frutas, dispostos com tal perfeição que mais pareciam arrumados e iluminados por um fotógrafo.
Satoro tinha uma ocidental displicência, que era mais teatral que real, porém sentia prazer na pele deste personagem e o vestia várias horas por dia.
Uma ereção distraída inflou durante seu tardio café da manhã e passou quase sem ser notada, se espreguiçou, depois estralou os ossos do pescoço como um boxeador. Com uma voz pastosa murmurou para si, na língua ainda um mau hálito agora sabor laranja.
- Preciso de temas para outra instalação, temas.
O suco tinha um sabor insosso apesar de perfeito, pela falta de um ingrediente em Satoro, não no suco, chamado sede. Ele preferia prestar atenção nos bambus atrás da enorme vidraça. Seus olhos como dedos acariciavam o verde gracioso dos bambus num preguiçoso exercício de relaxamento, como pés nus brincando na areia.
- Preciso trabalhar. Falou sua voz interna, mas depois dos olhos sentia-se vazio e a frase ecoou sem imagens numa escuridão cavernosa própria para hibernar.
A repulsa desenhou-se por um segundo no rosto de Satoro, porque ele lembrou de quando teve de trabalhar com seu pai (que mantinha um incomunicável e amarelo-canário Van Gogh prisioneiro) na abstrata função de filho. Do seu estilo metódico amargurado com cocaína. Foi em um dia claro, às 10:00 horas, que abriu os lábios, e de sua boca libertou uma revoada de pássaros-palavras pelo escritório do pai.
O copo de suco, foi o único objeto tocado daquela intrincada mesa. Satoro levantou-se, deu alguns passos e foi surpreendido pelo soco, pelo tiro de uma idéia, havia criado uma Madona com o menino. Sentiu-se cambalear, apesar de não tê-lo feito. Ainda desnorteado, entrou no seu ateliê enorme, que mais parecia uma funilaria, acendeu a solda do seu rústico pincel com ponta de fogo, mas não conseguiu trabalhar em suas instalações. Deitou em seu divã e começou a imaginar o quadro, seu pensamento pincelava, melhorando alguns detalhes, mudou um pouco a disposição do conjunto e retirou as auras. À tarde, a tela estava pronta. Satoro havia trabalhado como um pintor, a diferença é que tudo ocorreu dentro do seu crânio, pois ele nunca havia desenhado ou pintado.Tudo que fazia era de uma indisciplina férrea e obrigatória. Mas o quadro estava tão claro em sua mente, tão maduro, que chegou a pensar que conseguiria fazê-lo.
Esfregou seu mágico cartão de crédito, fez três pedidos e logo apareceram, telas, tintas e pincéis. Porém, logo no primeiro risco, o auto engano se desfez. Mas sua alma intransigente, paternal obrigou-o a terminar o quadro. Então pintou rápido, grosseiramente, com raiva, era uma criança, executando um castigo da pior forma possível. Quando terminou, rosnou:
- Siamesco, grosseiro, besuntado, feito por um orangotango!
Foi ao banheiro irritado, sujou o pênis de tinta, e sua baixa auto-estima narcisista o fez ver um auto-retrato dada refletido na água do vaso sanitário. Arrumou o cabelo num gesto automático.
Quando voltou esfaqueou e cremou cerimoniosamente a pintura, sem notar que havia nela qualidades. Seu pincel tinha as chicoteadas emotivas de um Van Gogh e suas figuras a singeleza primitiva de Chagal.
Angustiado, achou que seu talento não tinha braços, que seus desenhos eram tão trêmulos e caricaturais como um arremedo de passos de um aleijado. Sentiu-se tão impotente e sem talento para transferir a pintura que seus neurônios haviam feito dentro dele, que desistiu da tela.
No dia seguinte voltou a trabalhar na sua obra intitulada “Andaimes”e agendar viagens e exposições. Mas o quadro era a imagem que separava um pensamento do outro. Muitas vezes, flagrou-se perguntando obsessivamente como fazer, como fazer! E chacoalhava a canina cabeça encharcada com a imagem, na tentativa de livrar-se do pensamento fixo. Até que sem poder mais resistir, entregou-se ao perverso médico oriental, metódico e racional que havia dentro de si, e que suplantou seu artificial e displicente monstro bondoso ocidental.
Tinha agora a obrigação de encontrar uma solução. Passou uma semana sorumbático, inquieto e arqueado, os sons de seus passos mudaram sob o peso da obsessão plúmbea.
Satoro encontrou varias soluções milenares e contemporâneas, mas nenhuma que fosse completa, que resistisse ao interrogatório de sua autocrítica. Teve acessos de raiva, insônias, pesadelos coloridos com soluções distorcidas, enxaquecas. O quadro era uma irritante e magnífica ave dentro de sua cabeça, querendo nascer, mas o ovo de seu crânio era demasiado duro. E seu talento não se dilataria para um parto normal, mamífero entre seu indicador e polegar.
Quando as soluções começaram a ser repetitivas e irritantes, cobra mordendo o próprio rabo, resolveu buscar ajuda nos livros, e não só na razão. Após folhear e esfaquear nervosamente alguns com marca páginas, abriu um sobre o Renascimento. Ao ler que atribuíam o anjo da esquerda que figura em o “Batismo de Cristo” de Verrocchio, a Leonardo, emergiu a solução, a certeza , o salto de alegria. Ao comemorar gritou em inglês rasurado de japonês.
- Mas é claro, é isso mesmo, pagar um pintor, Satoro, um pintor, é isso mesmo!!! - Inquieto, tentou repassar, analisar a idéia com calma, mas o fez em meio à bagunça da euforia.
- Pagar um pintor, direi em vermelho e ele pintará vermelho, minha língua será meu pincel, pedirei um rosto suave e ele fará um rosto suave, isso, é isso, é isso! - Pensou em falar em japonês, mas dessa vez não se permitiu, o êxtase já havia passado.
- Uma heureca, uma heureca. - Disse, adjetivando a palavra e continuou.
- Só preciso achar alguém com talento, alguém que tenha a técnica que me falta. Nada de escuso muito pelo contrário, na mídia, na grande mídia, daqui em diante me dedicarei apenas a criar, outro fará o trabalho e trará para eu assinar.
Amigos das galerias, logo acharam os candidatos que Satoro precisava. Após ver cópias que cada um fez de pintores renascentistas, como quem examina um currículo, assinou um contrato com dois pintores. Porque gostou dos corpos que um pintava e outro, pela beleza radiante que conseguia dar às vestes.
Os três trabalharam por meses, no quadro, do desenho inicial e composição até a última pincelada. Satoro agia como uma caricatura de um diretor de cinema, nervoso, porém extasiado com a alegria de poder exprimir-se, sem permitir opiniões, ordenava: quero mais serenidade neste olhar, que seja mais Rafael, o menino não precisa ser obeso, o azul é mais vivo, põe mais vida neste azul.
Mas chorou abraçado com os pintores constrangidos, quando a tela ficou pronta. E assim que ficou só, contemplou o quatro extasiado. Olhou o fundo escuro como de Caravaggio, onde só aparecia um beiral de porta marrom, que emoldurava apenas penumbra, um beiral que nem termina, dilui-se no escuro. No chão de terra, serragem e alguns instrumentos de carpintaria lustros pelo manuseio, indicavam que aquele lugar era a carpintaria de José. Uma luz suave perolada de poeira, caia sobre Maria. Na sua face em “sfumato” de Leonardo, pairava uma preocupação terna.Vestia véus azuis, vivos azuis de Rafael sobre a roupa vermelha. Ela está em pé e olha para as suas nãos estendidas e iluminadas, para seus dedos soltos porém cuidadosos, como quem recolhe um frágil filhote de pássaro ferido. Suas mãos reverentes estão um tanto viradas, porque querem mostrar para um observador, algo muito sagrado, que seguram a mãozinha dolorida de seu filho. O menino está nu, quase de lado, seu rosto voltado para Maria, tem um olhar carinhoso que tenta preservar a mãe. Mas de esguelha, parece que vemos no lábio inferior um tremor de choro contido. Ele ergue seu braço e pousa sua mãozinha sobre o ninho dos dedos maternais, e mostra na ponta do dedo indicador um espinho.
No canto direito em preto o nome do quadro “premonição”, e a assinatura. Satoro lê seu nome como se fosse a coda de uma sinfonia. A sensação que tem ao admirar a sua obra era de quem escuta encantado, uma sinfonia. Sentia no ar os harpejos delicados e fluidos dos desenhos que saiam da tela. Podia até mesmo pegar cachos das notas musicais que se esfarelavam entre seus dedos com a sensação tátil de um pó dourado.
Sente também, uma trindade de tempos, porque o quadro não está preso a um presente estático. Há nele uma impressão, que alguns segundos antes, o menino havia chamado a mãe. O futuro é acorrentado pelo título, é incluso na composição. Quase que justaposto com o presente, um futuro tão imutável quanto o passado. Na delicadeza da cena mostrada, está o momento da cruenta crucificação, com cheiro do cordeiro morto, couraças lambuzadas de sangue, e soldados limpando as mãos avermelhadas nas vestes.
Satoro foi matéria em revistas de arte, participou de programas televisivos, falou sobre sua próxima criação: Leda, em que Zeus ao invés de cisne é um pavão. Causou polêmica, foi odiado por aquele tipo de ódio frívolo só encontrado em alta costura e na arte.
Era uma tarde de um domingo tedioso, quando pegou sua cabeça decepada na capa de uma revista semanal, e engoliu alguns elogios diluídos em ressalvas, mas como não estava acostumado com este tipo de embriaguez sentiu vontade de dirigir pela via rápida vazia e extravasar seu sentimento de poder.Tudo parecia estar imobilizado, só o leão de sua alegria andava inquieto, rondava as grades das costelas. O resto eram blocos enormes e compactos de prédios silenciosos, estrada e céu. De repente, tudo girou em rasuras abstratas, as cores vibraram ao som de uma semicolcheia de fá. O carro felino caiu em pé. Satoro não teve tempo de sentir medo, sentiu antes uma sensação de bem estar, os milionésimos de segundos pulsaram nítidos, perceptíveis. Mesmo a pancada na cabeça foi indolor quase prazerosa. Mas o sangue espirrou no pára-brisa trincado como que jogado por Pollock.
Satoro ficou desacordado sobre o puff branco do air-bag atrasado. No cd, um intérprete de Chopin, ainda datilografava no piano.
O acidente ocorreu quando o mundo ainda mastigava-lhe, sentia o sabor estranho de sua obra, ou melhor, da execução de sua obra. Rasgava-o com seus caninos, acariciava com a língua, e triturava com os molares.
Estaria tudo resolvido se Satoro estivesse morto. Mas ele não morreu, ficou em estado de coma, causando ânsias, porque não houve a resolução, a digestão da morte.
Não se pode esquecer ou glorificar Satoro. Tudo ficou num meio estado, onde nada se define.

De Solivan

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Menino brincando de voar




De Solivan

No shopping center

Jairando um jazz

Abre-te Sésamo automático,
esta porta de translúcido vidro
para min,o Moisés de tuas águas sólidas.
Será que suas engrenagens,
suas roldanas esmaga-formigas, seus sensores
funcionam com passarinhos?
Ou a andorinha bate no vidro como
em qualquer outra vidraça
e morre na delicia de morrer em um vôo
despreocupado.
Gosto de caminhar no shopping
este museu de roupas e calçados contemporâneos.
Meus olhos acham os decorativos deuses indianos.
Meus olhos flecham o calcanhar dos arquiles.
Meus olhos acariciam as meninas.
Meus olhos vêm a noite pelas janelas
e navego
cruzando Andrômeda
cruzeiro transespacial.
Balanço do do marmmmMnsera quenoi esopsçao tem balndlço de marnm MnM barcobebbadoGIusgliuglurub lka voub jdhueueueucrzaudndo anfdromedasolto^ v ^ v ajdgi***#3m@r?/??< >
A labirintite passou
e ando agora com alma de Bosch
por este estômago cheios de loja
pronto para sugar todas,todas as vitaminas de meu cartão de credito.
Experimento perfumes
safiras liquidas, rubis aquoso,outro cor de urina.
Sou sexagésima sexta reencarnação de um alquimista
e sinto vontades
de misturar o odor da manha,
com fezes de beija-flor,
vulvas em cio
e noite com ovnis.
Por tudo em frascos Mirós.
Ascendo em escadas rolantes
braços imitando um urubu.
Paro para ver
na vitrines da loja de brinquedos
o super-homem
o que pode
cavalgar em cometas
e se alimentar de vácuo,
o que pode tomar um sorvete feito de massa solar.
E Batmam o frutívoro espalha pólen.
Barbies em esquives rosas
e vídeos- games onde
as crianças podem
decapitar virtualmente
estrirpar virtualmente
lobos, anões e madrastas.
Nos cinemas
olho os cartazes
como quatros em exposição.
Multidão de livros na livraria.
E toda a multidão esta cheia de cretinos e magos
E toda a multidão tem economistas e astrólogos.
E em toda a multidão tem um poeta.
Meus livros não estão na livraria
Nem do Thadeu de estrelas no bigode
Nem do Thadeu dez-dedos
na mão esquerda quando toca violão.
Nem do Jairo
O centauro que atravessa os oceanos a galope.
Nem do Jairo
Que abençoou as águas do riu Iguaçu
com poemas
e comeu pão com nanquim nas manhas.
Seuss filhos da p*#+_0*&&}$$CORNOS
DO*@33##PKU$ilibinoshdnsG0Q3PIFU98WBICHA CAPINEWGIUB087
ESTA BURRIOIqeru,fne in tME IRRITAeeiirriHJGIDGIUtavao tomar IJVYU4746387¨*$%%&*($MNO CUlokhnfsçoiuoip90843l98w@%$t376
Compro hq do homem-aranha
e um livro do Schoenhauner.
Filosofos estão em promoção,
mais baratos que o gibi.
Paque um, leve dois.
Karl Marx em promoção
o capital em promoção.
Passo pela praça de má alimentação.
Barulho de atol das rocas.
Nos luminosos e placas em cores primarias
Uma salsicha de fraque e cartola.
Palhaços oferecendo hamburguês
e monge comida chinesa.
Sobre um cone o Evereste granulado com confeitos
vende sorvetes.
Sou tele-transportado por elevadores
de botões azuis fluorescentes.
3,2,1
Ejeção completada com sucesso.

Pensamentos dispersivos sobre minha reencarnação

Esta manhã quis que
meu rosto fosse
cega pedra de nascente
e sentisse a água fresca
temperada com musgos e folhas,
correr eterna sobre minha face.

E meu olhar distâncias
ou linha do horizonte
para ver o sol
estender sua luz limpa e quente sobre a terra,
como um lençol recém passado sobre
a cama.

Que de meus braços emplumados de folhas
e dedos transformados em galhos de árvores
pingassem tangerinas.

Libélula azul

Canto com um azul
da melopéia concreta
a libélula azul,
brilho azul,
reverberações azuis metálicas
de peixe azul prateado
azul, azul, azul
no seu exoesqueleto
as cintilações
têm um tilintar azul.
Luz azul

Luz azul

Passa num assobio azul
libélula azul,
cavalo de fada,
broche de safira no vento.
Libélula azul
que enfeita a boca do camaleão
na minha,
quando mastigo tuas sílabas
com um gosto
azul-amargo metálico de âmago,
deixa um persistente
hálito de libélula azul.

Logopéia azul
penso, logo não existo
que existir é coisa concreta
você apenas sente
libélula
e existe um pouco mais.
O osso não pensa, não sente
ele existe, mais que nós
dois juntos.

Libélula,
quando eu for ossos
passo a existir libélula,
quando minhas substâncias
mesclarem-se ao planeta
e moverem-se somente pelos dedos
das leis da física,
libélula
esses dedos musicais
são única parte que conhecemos
do corpo de Deus,
libélula.

Fanopéia,
e se meu indicador
fosse azul, seria sua fêmea,
libélula azul
e se as minhas cordas vocais fossem de cristal
e cantassem como pássaro,
uma única nota vibrante longa e aguda,
e a respiração tivesse
sonoridade de água corrente
pousaria no meu peito
sobre
o meu coração de pedra
coberto de musgos
pousaria nele, libélula?
Quero
porque toda a pedra em que pousa
vira adjetivo, libélula azul.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010


De Solivan

Um lamento por Federico

Como lamento
tua morte Lorca,
como me dói,
como sinto até hoje,
já passado tantos milênios.

Atiraram em tua cabeça!
Atiraram em sua cabeça!
Que era tão suave,
um ovo de colibri
tão cheio de poemas.

Em mim tua morte não desbota,
é dor recente.
Mas não aconteceu esta manhã,
em mim é sempre,sempre
um dia após o teu funeral,
é sempre, sempre
a hora da solidão
em que vimos tua caneta caída.

Tua morte em mim aconteceu ontem
a las cinco de La tarde.

De Solivan

Sabedoria

A voz do povo
é a voz de DEUS.
Disse certo dia Barrabás.

Solivan

Quadro descrito para cegos

III. Kandinsky
Composição VIII (1923)
1.38 x 2.00 m - Museu Solomom R. Guggenheim - Nova Iorque

Líquidos ou concretos,
círculos, triângulos, eclipses, riscos, quadrados
em orbital malabarismo.

Triangulação é perpassada por
semicírculos,
retas pretas, quentes
e paralelas.
Compasso com um odor verde e lanças.

No musgo útero escaleno
ovula,
círculo calcário de âmago negro
anelado
com frias-quentes texturas.
Nele
entram tríade de cunhas por fusão.

Linha longa e delgadas estacas
transformam-se em quadriculados
ásperos, lisos, pontilhados, riscados
que são diluídos
em pauta de retangulares semibreves esparsas.

Trígono prende entre hastes, neblina celeste
na sua frente.
Risco em cínica torção.
Retidão é enleada pelo sinuoso.
Xadrez distorcido, coda de angustiosa metamorfose.

Globo em preto-cego emana evaporação sangüínea.

E o sol tem felpudo halo frio.

Cubo equilibra no seu gume
esfera, triângulo
e pertiga, na qual
semicírculos
caem em surpreendente
disposição
de móbiles.
De Solivan

sábado, 2 de janeiro de 2010

Canto com cd



De Solivan

Como certos pássaros(fragmento)

Como certos pássaros quando se esquecem que são pássaros e se pensam vento.
Como certos pássaros se esquecem que são pássaros e vivem
como peixes.
Como certos pássaros se esquecem que são pássaros
e se deixam frutificar.
Como certos peixes quando se esquecem que são peixes
e se pensam oceano.

Modos de ver o tempo(fragmento)

Tempo
medido
pelo vôo de mariposa da terra
em torno do sol.
Transcorre
num dia e noite
tabuleiro quadriculado
ordenado.
Um jogo de xadrez
com milhões de jogadas.
Jogo
1 cavalgo em um guepardo chamado minuto
Jugo
Irritado chicoteava
meu manso coração
com pílulas a seco
para cumprir a agenda.
Horas e dias
eram capítulos e versículos
deste livro sagrado.

Mas a esperança perdeu seu verde no outono
Tudo ficou
Seco e árido.


De Solivan

De como as coisas adquirem uma nova beleza

O novo resplandece, tem odor
há nele uma aura contemporânea.
Mas os anos que parecem apagar seu brilho,
deixá-lo inútil, feio e inodoro
formam as décadas
e elas vão sobrepondo em camadas
pacientes e cuidadosas,
nobreza sobre o antiquado.
Uma nobreza que atinge o sagrado.
Qualquer fragmento milenar
exerce um fascínio que beira a idolatria.

De Solivan

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Um ano de paz para todos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Tela em decúbito ventral



Óleo sobre tela

De Solivan

Oxigênio

Não quis mutilar um cilindro
de oxigénio enferrujado.
Senti pena
abri-o
e disse
vá mudar nuvens de lugar,
soprar árvores e veleiros
balançar oceanos.

Informe policial

Heroína

O soldado
que o retirou das ferragens
foi condecorado.
A mãe que irá cuidar do tetraplégico
pelo resto da vida, não.

De Solivan

Fragmentos do diário de Ariel

Caminho pela praia
com minhas calças brancas arregaçadas
e chinelos nas mãos
arregaçassem-se as mangas da camisa para trabalhar
e as calças para andar na praia.
Meu olhar coletor
junta conchas,
barcos de pescadores ancorados na areia
gaivotas e velhos casais passeando.
Bares à beira mar,
fechados e sendo abertos.
Minha sombra vai a minha frente,
desliza como um delfim
sobre a areia
abraça os barcos como uma pele
imprime-me neles
na cor deles,
é transpassada por águas
e espumas
que às vezes
chega a meus pés.
Invejo-a, quero também este mimetismo.
Algo no presente
os prédios novos, modernos
restaurantes
placas oferecendo frutos do mar
e crianças brincando
foi me trazendo o passado:
pai, mãe, minha infância, casas de veraneio
passeios, calçadas, ruas, conchas apanhadas,
viagens, shoppings
vitrines, livrarias, cinemas, casas de artesanato
e de artigos de praia, odor de bronzeador.
Sou um homem com ilustrações na alma
ando com ilustrações e passos vagarosos
um banco ao lado de uma árvore
convida-me a olhar a imensidão
sinto-me enorme, sou até aonde
minha visão alcança.
Olho um pássaro no alto, distante
no céu azul com nuvens brancas
e me pergunto
quem é mais livre neste instante
o pássaro lá no alto
com olhos fixos na terra
ou eu de olhos perdidos e livres no firmamento
e neste momento
em que a retina engole o oceano
o céu e a linha do horizonte,
ouço o mar
e o barulho do mar
lembra-me
o som do interior das conchas.

De Solivan

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Velório na Vila dias


De Solivan

Cinema

Gosto de ver cartazes nos cinemas
como se fossem uma exposição,
por um longo tempo olhei o cartaz do filme do Homem-aranha,
que linda a perspectiva, o nadir.
O uniforme entrou em mim até a segunda babuska.
Compro entrada,
será um suvenir.
Entro no banheiro
sinto o perfume do sabonete líquido,
morango,
cai sobre as mãos como calda,
devia ser comestível.
Compro coca
beber coca-cola é uma performance pop,
salgo a pipoca
a deixo com gosto do Mar Morto.

Dúvida nostálgica
entre mentos fruit box ou confetes m&m`s,
Discutem a terceira e a segunda babuska.

Com olhos esfomeados
entro no cinema.

Quero sentir, toco as paredes do corredor,
procuro detalhes bonitos, bebo o néctar dos detalhes.

Como é fresco, algo de templo,
o clima deve ter sido importado de uma montanha tibetana
veio de iaque, avião, navio, caminhão até aqui

Reverente, vontade de nadar, passear como peixe num aquário
sobre as poltronas, passar perto da tela, do projetor.
As luzes me atraem, tenho algo de mariposa, queria morrer na luz.

O filme tem
de movimentos graciosos algo de balé
mas gostaria de ter mais tempo para ver os cenários, a cidade,
acho que as edições são muito rápidas para uma alma contemplativa.
The end
Arranco um pedaço da alma do cinema
e saio,
tirar a alma não mata, alma é como fígado se regenera.



De Solivan

Supermercado(fragmento)

No supermercado
A uva embebeda, a cana embebeda,
cevada embebeda.
Tentam sempre inovar, de novo repetições
tentar inovar sempre é uma repetição.
Tem um pouco de mar
em cada produto
e o mar aqui causa hipertensão.
Pego na gôndola uma maçã
diluída de seus significados, mordo
e recoloco diferenciada, simbólica, engraçada,
porém estou ciente
de que a maçã perdeu todo seu valor comercial.

De Solivan

Zé Limeira e o diabo

Dentro do ano de 1975
Zé Limeira
despediu-se
de seus filhos morenos
com brincos de ranho no nariz.
Eles brincavam no quintal,
sob a sombra da casa,
ossos e gravetos
eram boiadas e cercas.
Estavam ao lado de um cão magro
enrodilhado como caramujo,
todos rodeados pela caatinga.
A mulher da janela
ergueu a mão, porém mais parecia tremer que
dar adeus,
logo voltou a varrer.
Estavam todos acostumados por
herança das gerações de retirantes
anteriores a despedidas.
Zé Limeira
começou sua viagem
pela estradinha longa, reta e empoeirada
entre arbustos secos ásperos e emaranhados.
Corria quando menino
nessas matas de arame farpado
como delfim salta o mar.
Deixava a casa,
mas sua imagem ia dentro dele
forte, se a evocava
trazia a mesma segurança
que sentia ao tocar seu amuleto.
Parecia acariciar
a casa preguiçosa
a porta sempre aberta em bocejo,
as paredes quentes de barro avermelhado
ressequido e rugoso.
Tato e aparência de casca de árvore
sempre envolvida por um ar parado ressequido,
num silêncio denso,
engarrafado dentro deste silêncio morno
moscas de zumbido sonolento.
A lembrança da casa era seu oratório
onde amorosamente colocava sua família.
Um passo após a linha do horizonte
a caatinga clareou.
Tudo pareceu novo,
estranhou aquela paisagem tão familiar
de repente mais brilhante, viva
sua alegria de viajar
incidia como um sol,
deixava tudo mais alegre e claro.
O ar seco empoeirado
filtrado por suas narinas felpudas
caia limpo, fresco em seu pulmão
como água de nascente.
Um pé de espinheiro
projetou na parede
interna do osso da testa
as duas aparições que teve.
A primeira,
quando era criança com suas duas irmãs
atrás da casa,
depois de sua desfolhada plantação de mandioca
no começo da caatinga.
Apareceu a eles uma Nossa Senhora de Aparecida
de gesso
suspensa sobre os espinheiros
aquela gigantesca estátua
nem arqueava os raquíticos galhos,
parecia
uma leve mariposa pousada.
Nossa Senhora de gesso entre nuvens de gesso
pairava sobre o espinheiro
negra, seus olhos parados pintados de azul celeste
mãos em oração
só a boca autômata, movia-se
com voz gutural pastosa
vinda de uma garganta de gesso.
Os bodes passeavam à frente dela
ruminavam folhas, calmos.
Zé Limeira e suas irmãs
não escutaram a mensagem
após os olhos arregalados de medo
captarem tudo, rápido e nítido
e o susto estampar e fixar as imagens
em suas almas.
Um temor tosco de lavrador
em frente de um rei
fez todos fugirem.
Na segunda aparição
anos depois
vindo embora, à tarde
em dia de São João
a caatinga estava avermelhada
sol forte
Zé dançava sozinho na estrada
os pífaros ainda soavam nítidos,
como um radinho de pilha
dentro de sua cabeça
quando viu numa encruzilhada da estrada,
Padre Cícero Romão
também enorme
estampado numa folha calendário
tentou falar com Zé.
Este se conteve o máximo que pôde,
mas o medo dentro dele
tinha vontade própria
mandava em suas pernas
fora possuído pelo medo,
seu medo mais parecia uma entidade
que um sentimento.
Tentou manter-se
olhou para baixo
tentou se concentrar nas datas
seus olhos no desespero
acharam com mais facilidade
os feriados em vermelho.
Procurava distrair-se,
não ousava encarar os olhos do padre,
mas nada adiantou.
Suas pernas possuídas correram
era tanto medo que por mais que corresse
parecia não sair do lugar
depois, sentou-se e acalmou o seu próprio coração
com palavras de mãe para um filho assustado.
E fez um diabinho de madeira
pintou de vermelho, pôs em uma garrafa
se levasse o amuleto
na algibeira de couro e odor de cavalo,
nas missas
benzedeiras e enterros
acreditava que não veria mais santos.
Assim caminhava distraído
numa visão bifocal
via lembranças
coloridas do passado
e a estrada no presente.
Mas as recordações que mastigava
salgadas, cheias de emoções
foram engolidas
a caixa craniana escureceu
ficou somente o que enxergava
quando chegou à BR.
O sempre, mais estéril, presente
geralmente insosso
que só cria sabor
depois de ficar de molho na alma.
E continuou andando no acostamento
seguiu o asfalto como quem anda à beira de um rio.
Como única distração acompanhava
a sua sombra,
movendo-se a sua volta, lentamente
como um ponteiro de relógio
enquanto andava
e após passar por
dias secos, como carne de sol
dias amarelos, desidratados
de raios solares ressequidos
e noites estreladas
de receber estilhaços de nuvens pelo corpo
e beber na palma da mão pedaços de nuvem,
Zé Limeira
nem sente
seus pés escorregarem no suor
das sandálias,
não percebe
os automóveis
que começam a passar rente
em filas coloridas
como bandeirinhas de São João
e os caminhões
que urram e sibilam
estremecem a terra
e bafejam um sopro quente
de borracha e diesel em seu rosto.
Apenas recordações rodam
como um carrossel
um cavalo após outro
cada qual com uma cor, histórias
imagens e sentimentos diferentes.
Paravam ao sabor da sorte atrás de seus olhos
passagens de sua viagem
agora sem ele notar quase no fim.
Primeiro
da sua felicidade
numa pequena rodoviária
das quatro árvores a sua frente
com pulseiras de pedra caiada
do longo pátio, lago de terra
areada e ondilhada
onde flutuam tufos de gramas esparsas.
Nas paredes e vidraças sujas
marcas de pés e mãos
desenhos de caverna
os vidros embaçados
de incrustações de saliva ressecada
das respirações.
Pessoas morenas
andam, comem, dormem.
nos bancos
numa fila hospitalar.
Ouve-se
tosses, conversas, suspiros, gritos, risos infantis
e murmúrios
exalam um cheiro de ansiedade
junto do suor
aguardam inquietos
a viação Careonte.
Lembra depois
da sua alegria infantil
contente só por ver as luzes, cores e movimento
ao conhecer a grande estação rodoviária
com odor de vômito
de estar no meio da correnteza
incerta das multidões,
de seu encantamento
na vitrine
da loja de artigos mágicos
truques de baralho, canetas que desaparecem
chicletes que deixam a boca azul,
imitações de fezes, máscaras de monstros.
Em outra,
de lembranças da cidade e brinquedos,
da mercearia
com redinhas de náilon amarelas expostas
de laranjas ou maçãs,
a gôndola cheia
com frascos plásticos de refrescos
imitando framboesas em azul,
revólveres vermelhos,
elefantes amarelos
causavam a seus olhos
fascínio e avidez de jóias.
Se algum dia,
estivesse na frente de um quadro colorido
sua mente se lembraria
desse momento, desse deslumbre.
Da fome
devido ao cheiro dos pastéis
presos num aquário gorduroso
da lanchonete.
Da sua ereção ingênua na frente
da banca com revistas eróticas, gibis
e palavras cruzadas,
de ver no segundo piso
os ônibus entrarem e saírem
das gengivas das plataformas.
De estar no ônibus
com o mesmo odor de vômito da rodoviária
e assistir à janela
que lembrava uma televisão
a caatinga transformar-se em cerrado,
as vilas
passarem em rápidas manchas coloridas
a tarde incendiar-se
numa monumental abstração
sobre o azul
amarelos e vermelhos orquestrais
um Kandinsky momentâneo
pintado no seu vidro rasurado com impressões digitais.
Depois ir de encontro
à boca da noite,
ver atrás das negras silhuetas recortadas das árvores
um fundo gris enevoado.
Olhar as galáxias das cidades distantes
cintilantes cravejadas no meio da escuridão
depois a casa solitária, misteriosa à frente
sua curiosidade de saber quem mora nela, que fazem
quem lava e estende a roupa
como se chama o cão.
O motor ronronava uterino
seus olhos sonolentos
nublava
e raiava com pétalas agudas
igual ao imaculado coração de Jesus,
as luzes amarelas das janelas
de um casarão entre grandes mangueiras.
Adormeceu quando a paisagem
era completamente negra
submarina.
O ônibus ia imerso, solitário
suas luzes tateavam
no mais abissal e escuro fundo de oceano
visão de seu perispírito
nadando na estratosfera.
De acordar
já atravessando periferias
de ver maravilhado os prédios ao longe.
Lembra
que descansou
em frente de um bar
com hálito de cerveja saindo
de suas boca-porta
de ouvir o barulho gorgulhante
das bolas de bilhar
sendo engolidas.
Que pousou
em postos de gasolina
entre caminhões
e descansou
à sombra de uma placa
de sinalização amarela
e adormeceu, à tarde
ouvindo o trânsito
sobre a braquiária poeirenta
da beira da estrada,
vendo o céu azul
raios brancos de sol
atravessavam a fresta de seus dedos
em seus dedos floresceram estrelinhas de luz.
Da cabeça cheia de água
por causa da sede
enquanto andava
cheia de água límpida
torneiras, cacimbas
copos brilhando como diamantes.
Zé Limeira pensava em tudo isso
quando viu uma placa verde em formato de portal:
Bem-vindos a São Paulo
e ergueu os olhos e vislumbrou assustado
com o mesmo sentimento
de quando viu a enormidade verde, temerosa
do mar pela primeira vez,
as favelas
que subiam e desciam morros
numa planície de casebres
e depois uma longínqua e enfumaçada
linha de horizonte inteiramente feita de prédios.
Parou inquieto nervoso
sentiu fortes vontades antagônicas
queria voltar e seguir
indeciso, perdido
perdeu sua certeza
que era sua bússola, sua segurança.
Desorientado
sentou no acostamento e esperou
sua alma acalmar e se decidir
o asfalto fervia, soltava seus vapores invisíveis
e sufocantes,
o lixo das favelas cheirava
como um arroto
o trânsito intenso, rente
dava a mesma vertigem
o mesmo medo da morte
de estar à beira de um precipício.
Foi quando o diabo apareceu
um diabo nu, em vermelho vivo lustroso
como madeira polida, lambuzada
com óleo de peroba
seus cascos fizeram um barulho
de tropel de cavalos
ao caírem no acostamento,
Zé sentiu um cheiro
que sentia quando disparava
sua espingarda quarentinha
e viu-se, face a face, com o capeta
de guampas lisas, pontudas,
negras, compridas, luzidias
como berrantes.
- Entra. - Falou o diabo,
e ofereceu suas tentações
com uma voz radiofônica de um programa policial
amplificada e grave
e gestos de garçom,
apontando para a auto-estrada que ia dar
em São Paulo.
O som retumbou dentro do peito
de Zé Limeira
o medo
rompeu os comandos medulares
ficou paralisado e mudo,
pássaro hipnotizado por cobra luzente.
O diabo não é condescendente como os santos
e sem desaparecer
esperou uma resposta, aguardou até que
Zé, trêmulo começasse a falar
com a cabeça baixa
gacarejantes sons repetitivos
sem poderes para dizer não
como se tivesse uma arma apontada para sua cabeça.
O capeta
diluiu-se no ar
só após o contrato
ser tremulamente assinado
então, Zé jogou
o diabinho do amuleto fora
preferia ver santos
e retornou para a casa.
Pode ter vendido a alma,
mas não sua vida
sua vida ainda
pertence a ele
e continuou
a viver com singeleza
até ser recebido
em um auto pela Compadecida.

De Solivan

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A beleza e o tempo




De Solivan

Pesadelo

Garotos brincam
de pintar pessoas
de vermelho
com seu fuzil.

De Solivan

Oração pela santificação do sublime

Senhor
das humildes e singelas
estátuas santificadas
que dão fé e milagres ao povo
concedamos pedir graças ao magnífico.
Oh! Virgem Maria sublime de Leonardo da Vinci.
Rogai por nós.
Sagrada Família de Rafael.
Rogai por nós.
Os Profetas de Aleijadinho.
Rogai por nós.
Oh! Cristo que veio do maculado
coração de Caravaggio.
Rogai por nós.
Auto-retrato de Frida Kalo que parece
dolorosa MARIA sem concepção.
Rogai por nós.

De Solivan

Ribeirão Preto

Hopper,
foi minha primeira associação
quando entrei no hotel.
Lembra um quadro de Hopper.
O corredor escuro
parece levar ao infinito
como num jogo de espelhos
e tem odor de gavetas cinqüentenárias,
um túnel
mal iluminado desabitado
de fiação exposta
os fios, riscos coloridos
são as únicas alegrias do teto.
Passo por inúmeras portas grandes, insondáveis
esses vultos negros
perfilados guardiões
repetiam-se em ecos visuais
esfaqueei um deles no quadril
com a chave
e entrei
no meu quarto antiquado
com porta chapéu.
Móveis semelhantes à alaúdes
escuros, gigantescos
fazem me sentir pequeno.
uma escova de dente amarela
cheia de pó
sobre o guarda roupa
deixa uma impressão
de objeto abandonado numa cripta.
A janela dá para velhos telhados
e caixas d‘água com musgos ressequidos
aprisionados num retângulo
entre o prédios do hotel e outro,
depois dos telhados cor de dunas
com manchas negras
dia salpicado de noite,
flamam num oásis verde as árvores da praça.
Após esquadrinhar quarto e vista
saio
percorro novamente o corredor, sempre sozinho
percebo que acaba numa vidraça longínqua
hoje está azul, tingido pelo céu
porque o vidro
tem a cor camaleônica das transparências.



De Solivan

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Luwak cocaine

Poema para Mário Bortolotto


Engulo coca, foda-se a condicional.
Com tacadas mato a caixa de correio,
hipotecas no chão, vendo a televisão
e viajo ouvindo os gritos do rock roll.

Jogo latas de cerveja no asfalto.
Atiro em placas, baleio um outdoor,
atropelo cães, fecho e ultrapasso.
Meu carro cheira a baralho velho.

Dou carona para uma puta estradeira.
Num motel de piscina suja e vazia
e o luminoso com uma letra queimada,
bebo, fodo e vejo desenhos animados.

Não olho a porra do Gran Canyon.
Quero gasolina, num velho posto,
bebo tequila, encaro a garçonete,
jogo pinball, roubo um ray bam.

Esmagando o acelerador cruzo desertos,
cidades empoeiradas,cemitérios de aviões.
Em Las Vegas vendo ovos e sou rei.
Livre, a falta de esperança liberta.



De Solivan