segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Futebol europeu




O brasileiro Noite
recebeu a bola no peito
dominou com acrobacias.
Correu.
Músculos magníficos
cobertos por uma pele cor do universo.
O pé regeu,
pastoreou a bola.
Samba, ginga de mestre-sala
entre miúras.
E chutou com telecinésia.
O que dividiu a multidão
em agonia e êxtase.


poema e ilustração de Solivan

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Carne celeste





Sinto algo de santificador no céu,
os pássaros e pipas
são batizados por algo sublime.

O metal do avião, o corpo do aviador
e dos passageiros,
quando molhado pelo azul
se tornam diferentes.

Há na pena,
no meteoro,
no satélite,
no alumínio esmagado de um acidente aéreo
algo de sagrado.

Mesmo o lixo
quando elevado pelo vento,
Sublima-se.
Como é lindo ver os papeis, as sacolas plásticas
Quando dançam sobre as cidades
num êxtase de cisnes.

Há em mim sempre
a vontade de apanhar granizos,
de guarda-los com cerimônias,
e de beber
a água benta da chuva.
De acariciar
balões,
e pára-quedas.

Sim, tenho
em na minha geladeira granizo,
e nas gavetas todas as passagens aéreas,
e qualquer pedaço de papel sujo, qualquer sacolas plásticas
que tenha visto dançar.
Em minha carteira esta uma semente,
destas emplumadas,
em uma manhã de domingo
olhei ela descer do céu calmamente, com graça,
e pousar tão próxima que a apanhei.

Guardo,
porque desconfio,
que como nos pregos
na lança e nos espinhos,
fica em tudo que voa um pouco do divino,
por terem todos também
transpassado o corpo de Deus.


Poema e ilustração Solivan

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Presos na liberdade(fragmento)

Fragmento do terceiro ato

GRÃO
-Será que isto é um sonho.

CRUZ
- Tenho fome.


GRÃO
-Pode ser um sonho mesmo assim,
ja sonhei que bebia água, bebia,e minha sede não cessava
acordei sedento.Se sonhamos é um sonho agarrado a realidade.

CRUZ
-A fome é o nada que se contorce e grita em mim
me lembra este vazio,
me sinto sem casulo,nu, no espaço, sem norte ou sul
céu ou chão,esquerda ou direita
um pombo cansado perdido em Andrômeda tentando
voltar para Terra
eu desejo tocar,desejo uma prisão,
me sinto soterrado no vácuo.
sou uma língua sadia proibida de falar,
um olho sadio obrigado a não abrir as pálpebras.
um devasso casto.
Paredes, preciso acariciar paredes
Nem meu olhar, meu olhar não consegue tocar em nada.

GRÃO
- Você tem a aliança, é algo para olhar.

CRUZ
- E você tem um nautillus (enquanto fala admira o brinco em sua mão )

GRÃO
- Perdi.

CRUZ
-Estou cansado de liberdade
dói ver tanta distancia
saber que estamos caminhando para o nada.
meus passo são tão pequenos
e meu olhar vai tão longe
meu olhos são batedores e me avisam do vazio
é difícil manter a esperança.
sabendo que só existe solidão no horizonte.

GRÃO
- Queria ter um cavalo, galopar.
CRUZ
- Eu queria ver uma miragem, mas não consigo.

GRÃO
-O azul é amargo, sinto ânsias se olhar o horizonte
então sonho,
Aqui fora não há nada, é tudo intangível, distante,
olho lembranças.

CRUZ
- A desolação já entrou em mim,
tenho por dentro a mesma paisagem.

De Solivan

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Uma descompostura em Diógenes




Útil, a arte não deve ser útil,
são os utensílios que deveriam ter inutilidades.
Que se faça em tudo que é útil,
belas inutilidades.
Um caixa eletrônico aonde o extrato venha dobrado em origamis em forma de peixe
e talheres com lente de aumento para examinarmos
com mais riqueza de detalhes como é belo o azeite
sobre a salada.
Que façam
estradas com aquelas descidas que causam inércia
e dão um friozinho na barriga
que as crianças gostam tanto .
E os navios cargueiros em formato de patinho de banheira,
ou contêineres em legos gigantes.
Tirem das prisões,
o minimalista reto e objetivo das grades,
que sejam substituídas por grades barrocas e exageradas,
grades cinzeladas, folheadas a ouro,
reproduzindo querubins com safiras nos olhos,
grades que elevem.

Porque o útil é uma mentira.
É uma mentira.
A utilidade das fábricas, é uma mentira,
e do aço da máquinas,
das precisas correntes, dos processos, da estrutura das linhas de produção,
é uma mentira a utilidade da automação.
Útil é a água, transformá-la em refrigerante, dar sabores, uma doce inutilidade.
Útil e a água, transformá-la em cerveja, dar-lhe o reconfortante álcool é uma inutilidade prazerosa.
São inúteis as grandes fábricas de tecidos,
o que move a indústria de roupas não é a utilidade,
mas a criativa moda.

E a utilidade das colheitadeiras,
também é uma mentira.
A utilidade das plantações, dos rebanhos,
a utilidade da soja é uma mentira, a utilidade do trigo é uma mentira.
Útil é o trigo, mas em donuts, em brioches e croissant,
são todos uma gostosa inutilidade.
É uma mentira a utilidade da medicina, uma mentira.
Mas com que coragem
enfrentam com suas insignificantes armas,
seus avanços postergadores, com suas máquinas
ineficazes, seus pequenos bisturis e analgésicos,
o inevitável.
Como é bonito
ver um corpo em uma oferenda inversa
e os ritos das operações,dos tratamentos,das quimioterapias,
tentando retirar o homem da morte.
É uma mentira a medicina,
mas como são destemidas,
como são renitentes e sábias
suas utópicas e caras tentativas heróicas de vencer o inevitável
sem nunca ter conseguido, uma só vitória.



É uma mentira a utilidade
das minas de aço, da extração do petróleo,do cobre, do ouro,
todos retirados para fazer mover a magnífica futilidade dos homens.
Sim, Sim.
É a inutilidade que move os trens, os caminhões,
os aviões,os navios
que abre novas rodovias,
e nos trazem e levam ao lixo,
os magníficos eletrodomésticos descartáveis,
os lindos sapatos fúteis,
os supermercados cheios de alimentos tão saborosos
com seus indispensáveis
e atávicos sais e calorias,
os computadores
com sua grande quantidade de espaço para a deliciosa pornografia,
sexo virtual e música,
As televisões e seus jogos de futebol e filmes violentos,
panis et circus virtuais,
notícias quase sempre irrelevantes e entediantes novelas.
E o concreto,
o concreto
que constrói as casas,os edifícios, os shoppings
todos valorizados se excessivos e luxuosos
e desvalorizados se essencial.
É Verdade,é verdade existe o útil
Mas o útil é sempre primitivo e rude,
existe ou existiu,
é seu pé e sua mão, seus instintos,
a fruta colhida,
a carne crua.

Já a inutilidade foi descoberta junto com fogo, com a primeira semente plantada
com as lanças.
nasceu junto com a inteligência ,
com a inteligência,
que é a única inutilidade da natureza
e evoluíram juntos
descobriram metais, impérios ,calendários
e foram à lua.
Sim, foram à lua, a mais obscena loucura,
a mais linda loucura da humanidade,
que magnífico excesso
bilhões e bilhões para nos trazerem uma dúzia de pedras.

E as religiões desde os primórdios tão desnecessárias e ricas,
com seus sempre poderosos sacerdotes,seus deuses e ritos surreais.
Oh! A inútil fé, obrigado ,muito obrigado
por decoraram cavernas e fazerem monólitos,
por construírem as ociosas pirâmides
e catedrais com vitrais.


Ah, o inútil, a quem devemos toda a civilização,
Todos os avanços,
dói,mas é
preciso desmascará-lo
quando pedante e pretensioso,
quando finge-se necessário,
e engana os crentes há tantos milênios.
e se auto-engana há tantos milênios,
que acredita-se imprescindível
e legisla,cria países e exércitos, veste togas e crenças
é cheia de funcionários,de parques industriais, de salas comerciais,
de ritos de poder
mostra-se arrogante
com a leveza delicada da arte,
que é puramente desnecessária,
quando é áspera com o sorriso,com as férias
e os jogos eletrônicos.

Mas o inútil, o verdadeiro inútil, como é poderoso,
é mais indispensável que o útil.
Sim.Sim. Mais imprescindível que o útil.

Diógenes!
Diógenes!
Diógenes!
Como estava enganado Diógenes!
Quando menosprezou o belo, o exuberante inútil
e se voltou para o tão primitivo necessário.
Devia ter acumulado inutilidades,
devia ter feito muitas inutilidades,
estátuas, por exemplo ou mesmo poemas.
Acharia com mais facilidades os
verdadeiros homens que com sua ineficaz lanterna.
Porque estátuas,
porque poemas,
são mais eficazes armas que lanternas.
Há em frente aos quadros, em frente aos livros
mais homens bons ,que na frente dos cofres
e agências bancárias.


Poema e foto inúteis de solivan

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A arte não tem mais para onde Ir...

O primeiro crítico de
arte diante das pinturas
rupestres de Lascaux.





Charge-esculpida de Solivan

quinta-feira, 21 de julho de 2011

“Legião, almas para todo gosto”
Exposição individual com 25 gravuras digitais, retratos de pessoas imaginárias.
visitação: de 18 de julho a 14 de outubro de 2011
local: Galeria João Werner, rua Piauí, nº 191, sala 71, 86010-420, Londrina, PR.
horário: das 14h às 20h, com monitoria.
a entrada é gratuita, embora eu aceite doações.
link: http://www.joaowerner.com.br/exposicoes-de-joao-werner/exposicao_legiao_gravuras_digitais.htm
contato João Werner: (43) 3344-2207, werner.joao@gmail.com

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O balão que se transforma em circo

um pequeno pedaço de meu livro infantil
"A história do início"




Estava na janela quando vi chegar ao posto Hércules, um homem com roupa de leopardo, puxando com uma corda um comboio de um circo. Todos os carros, jaulas e caminhões estavam amarrados um ao outro, como vagões de um trem, porquê tinha acabado a gasolina de todos, e como ele era o mais forte, teve que trazer todos para abastecer.
Corri para o pátio e vi os leões e tigres saírem das jaulas. Os leões se espreguiçavam e diziam que estavam cansados da viagem. Um tigre me pediu onde ficava um açougue. Macacos, palhaços e anões desciam dos carros, e quando abriram as portas, voaram de dentro, pombas e saltavam coelhos. Um elefante indiano saiu de dentro de um fusca como contorcionista hindu de uma caixinha. No céu tinha uma trapezista que havia amarrado seu trapézio nos raios de sol e vinha sentada, e também um enorme balão colorido com faixa azul e amarelo.
O dono do circo me explicou que o balão iria para a cidade sul, perto da Plasticolar, lá já estava pronta uma armação onde o balão vai pousar e se transformar na tenda do circo. O palhaço Gargalhada pediu para eu ficar em cima da sombra dele. É como se a sombra fosse uma coberta, saiu me arrastando, imitando um motor de automóvel em alta velocidade, freadas, guinchos nas curvas fechadas, derrapagens. Parou pediu ao meu pai quanto custava para abastecer e mandou encher seu bolso furado. Começou procurar dinheiro, passarinhos saíram voando dele e pagou com dinheiro imaginário, mais três ingressos. Deu mais algumas voltas comigo, então parou, imitou um chofer abrindo a porta de um carro e se despediu. Todos voltaram para seus carros e jaulas e partiram. Fiquei acenando.
O resto da tarde esperei ansioso o espetáculo. Tomei banho mais cedo, comprei algumas balas e fui acampar dentro do carro. Quando chegasse a hora já queria estar pronto. Com os ingressos, que tinham um palhaço impresso, brinquei de baralho e fiz luta de um ingresso contra o outro. Olhei tanto, tanto, para meu relógio que ele ficou gasto e parou de funcionar. Quando escureceu, finalmente meus pais apareceram. Meu pai ligou o carro, torcendo a chave como fazia às vezes com minha orelha, e fomos.
Avistei de longe o circo envolvido em luzes coloridas como um pinheiro de natal. Meu coração batia como asas e inquieto queria escapar, chegar à frente e ficar voando sobre aquela montanha de listras amarelas e azuis, com as casas da cidade em sua volta. Quando cheguei perto fiquei com medo. Amarrei meus cinco dedos bem fortes na mão de minha mãe. Mas assim que atravessamos o portal, o meu medo floresceu a alegria. Ao lado do caminho de serragem parecida com a de Corpus Christi, haviam elefantes, tigres e o palhaço Gargalhada estavam vendendo algodão-doce feitos com juba de leão albino e açúcar. De um anão compro uma pipoca e bailarinas oferecem maçã do amor. Escalamos as arquibancadas. Experimento minha pipoca, parece isopor com sal.
A primeira atração foi o mágico, que ao entrar fez a gravata borboleta azul do apresentador sair voando. Logo iniciou um número chamado Evolução. Colocou três caixas, uma sobre a outra, e colocou chimpanzé dentro delas. Fez uns gestos mágicos e abriu a caixa de cima, apareceu o rosto de uma mulher. Abriu as outras duas e o corpo era do macaco. Fechou tudo novamente, abriu outra vez, desta vez a cabeça era do macaco o corpo da mulher e as pernas do macaco. Depois cobriu tudo com um manto de veludo vermelho, quando o retirou, saiu o chimpanzé vestido como bailarina se despedindo da platéia. Então entraram os palhaços Descarga e seu filho Bulica, mais sete anões em um Calhambeque que tinha no lugar de um dos pneus uma bóia de patinho. Desceram, contaram várias piadas, fizeram cambalhotas, caretas, tapas. Depois veio Luthar , o filho de dragão cuspindo fogo e engolindo espadas. Também veio o domador cavalgando um leão, um malabarista vestido de pirata que de repente tirou sua perna de pau e a fez girar com os outros pinos. Trapezistas com movimentos de golfinhos nadavam no ar. Motociclistas com suas motos, metade mariposas, metade vaga-lumes, giravam no globo da morte querendo apanhar a luz do seu próprio farol. Adormeci no meio deste sonho.
No domingo, soube que íamos mudar para outra cidade. Meu pai e minha mãe foram com o fusca joaninha. Eu peguei minha coleção de chaveiros e um carrinho e fui cavalgando no meu cinamomo até Quedas do Iguaçu, local de nossa nova casa.

Conto e ilustração de Solivan

terça-feira, 12 de julho de 2011

Estudo sobre o voo dos pássaros




No rio Iguaçu as asas das garças afagam o céu
como se tocasse uma música difícil, mas que soa suave.
Num trilo de colcheias com movimentos elegantes
traçam um voo linear, ornamentado apenas no alçar e no pouso.


Nas fazendas os urubus têm um bater de asas lento
como o trocar de páginas de um livro.
Sobrevoam em aspirais de breve e semi-breves
com asas que parecem à haste dos equilibristas,
apenas ajustando-se as correntes ascendentes.
Os urubus não voam, levitam no mais alto céu.


Na cidade a trajetória dos pardais é reta e objetiva,
de raras curvas a meia-altura, mas seu voo tem uma
linha ondulante com asas em ascendentes fusas
e leves mergulhos de pausas em mínimas.
Sinuosos como uma pedra jogada num lago,
mesmo no chão não andam, saltitam como
pequeninos cangurus emplumados com cores sóbrias.


Nas pastagens é de linha irregular o voo da tesourinha
suas asas tropeçam em dissonantes fusas, dessincronizados
dos movimentos da cauda longa,mas os movimentos que
parecem desequilibrados são passos graciosos de um
dançarino fingindo-se coto. As tesourinhas não habitam o sul,
moram no verão e retornam sempre que o Paraná se veste de sol.


Em Quedas, as andorinhas quando solitárias
voam em altas linhas mistas, asas em colcheias retas e
planam em tortas pausas semibreves.Passeiam acima
de outros pássaros que apenas cruzam o céu ocupados.
E quando em cardumes as andorinhas revoam leve,
num céu marinho, como um véu em uma dança.


Mas plantações de soja é entediado o voo dos Carcarás,
adejam em editadas linhas curvas de carniceiros com asas
em negligentes colcheias e preguiçosas pausas em semibreves.
Alimentados só alçam vôo em parábolas contrariadas e curtas
se perturbados. Ave esculpida para o céu, prefere acomodar
nas curvas de nível, são como água de um lago indolente
que não quer voar, que não quer ser nuvem.


Nos bairros as pombas Juritis cruzam em retas objetivas
e cinzas,sem passeios, suas asas martelam o céu
em fusas viris e continuas que parecem sôfregas
por que são pequenas mas compensadas por um forte peito.
As vezes desviarem de uma pedra imaginaria,
Porém tem no alçar o traçado e o pouso,
flecha pragmática que ao ser lançada já tem definido o alvo.


Nos capões os Anús-pretos em retilíneos voos coletivos
vão de uma arvore à próxima em alarido prateado.
Voam com asas em elos de fúnebres semicolcheias
e pairadas de colcheias em cruz .
Apanhadores de gafanhotos, quando pousam nas laranjeiras
mortas em lamúrias agudas trazem um agouro de corvos,
Talvez pela anoitecida cor que ambos tem.
Levam o mesmo estigma dos morcegos frutívoros.


A saracura nos matagais entre cipoal e espinhos flui,
baila no solo desenvolta até emaranhados esconderijos.
Só voa em desesperado arco rampante com asas
em atrofiadas fusas se perseguida em estradas vicinais
por carro ou cão, sua fuga então e sem dribles,
começa em corrida veloz para apos abrir-se em busca
de sustentação e alça-se até o colo da árvore mais próxima.


Nos jardins o beija-flor voa em inquietas linhas aquáticas,
semifusas tornam suas asas etéreas,transparentes
como nadadeiras, cinzelado com o mesmo
ouro-verde ou prata-azul dos peixes ornamentais,
nadam nos quintais nas profundezas claras
do céu, este oceano doce para pássaros.

Fotografia e poema de Solivan

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Motivos orientais




Caos urbano, porém parecia
com tai chi chuan
a informação do chinês.


Sol traz
ao lago calmo,
constelações de reflexos.


Preocupou-me um problema insolúvel
até o dia que ouvi
a o passear no jardim
um ancião
dizer cheio de felicidade a uma libélula:
“Ainda temos todo este verão de vida”.


Retrato falado
de um velho japonês

Seus olhos são baços e pequeninos
delicadamente colocados
sobre a renda das rugas.
Mas seu olhar tem uma imensidão que
lembra o mar.
O ar de oitenta anos de sorrisos
desgastaram seus dentes
como o vento, uma rocha.


Determinação
é uma intransigência maleável

Para atingir a perfeição,
precisamos de defeitos.

Verdades
absolutas
mentem.

Sobre a indignação

Notei que
soco na mesa
é sempre na silaba tônica.

Não gosto de decorar poemas,
Prefiro falar poemas com um livro na mão
o livro é meu instrumento musical.

O profeta
recorda o futuro.

Neuzza
Pinheiro
com pássaros

Sal que
adoça meu dia

Pombas
fazem ninhos
no semáforo.


O mais importante em um poema são as perguntas,
mesmo que o poema não tenha perguntas.

Ancião tremulo
frágil e feio.
Lembra um pássaro
recém-nascido.


De solivan

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cotidiano




Agora
As linhas de nossas vidas
Estão juntas nas mãos dadas,
E posso te dizer bom dia
Enquanto
Acaricio teu cabelo que me lembra
Tocar as águas de uma nascente.
Olho admirado
Você passar com gestos cheios de musica e dança
Nos pulsos
E nuca,
Seu perfume com odor de rubis e ametistas.
Nas tardes falo bobagens de poeta
Comparo o vôo das borboletas
Com folhas no outono
E digo
Que seu sorriso é lindo,
Para flor só falta haste.
E você ri.
Eu gosto tanto de cultivar teu sorriso
É minha gardênia.

Sei também quantos espinhos retirou de mim.


Lembra o dia que chequei
Triste, cansado e tão cheio de cicatrizes
E você me aconchegou sobre seu peito
Num sono tranqüilo.
Como após beber o primeiro leite,
Descansei do enorme esforço de renascer

Mas quero esquecer a dor,
Venha comigo
Colher tangerinas.


Poema e ilustração Solivan

segunda-feira, 20 de junho de 2011

No planeta dos macacos cegos ,surdos ou mudos




O chimpanzé Lúcidus
observa os outros macacos.
A macaca que olha uma vitrine com as mãos nos ouvidos,
as balconistas com mãos nos olhos,
transeuntes engravatados com as mãos nas bocas,
um pastor–camelô
pregando em uma esquina com as mãos do sexo,
vendendo indulgências e milagres.
Inveja a todos,
todos estão com suas mãos
escondendo um dos sentidos.
E olha para seus braços tristemente pensos.
É verdade que as vezes tem o cuidado,
se a situação é muito perigosa
de levar suas mãos para os olhos,
sente-se um covarde,
mas já foi agredido a cotoveladas.
Já é tarde, Lúcidus está angustiado e atrasado,
procura o sol entre os prédios,
está anoitecendo e a noite é perigosa..
Tinha que voltar para casa logo.
Entra no metrô e senta na única cadeira reservada
para pessoas sem deficiências,
sente o desconforto da multidão,a raiva velada
dos macacos cegos ,dos surdos, dos mudos.
Cobra-se, podia ter disfarçado posto as mãos na boca
e sentar em qualquer lugar.
Olha para baixo, para o chão metálico
e pensa que olhar o chão
não é igual a esconder os olhos sob as mãos,
pensa se devia encarar,ser arrogante.
Lúcidus é ator ,os outros atores da sua trupe,
apesar de também terem
as mãos escondendo os sentidos,
o aceitaram. As vezes acha que o tratam bem demais
desconfia,sente-se novamente só.
Seu personagem na peça é um banqueiro
que tem as mãos na orelha,
então Lúcidus faz o personagem com as mãos na orelha.
Acha estereotipado,
é típico de personagens políticos ou empresários
terem a mão na orelha,
já os clientes e eleitores geralmente são cegos.
Seria mais verdadeiro se o seu personagem
mudasse, tapasse os olhos e em outras ocasiões,a boca.
assim como são os verdadeiros bancários ,
os verdadeiros empresários e políticos,
mudam a posição das mãos quando convêm.
Bom ,não se pode esperar muito da peça,esperar texturas,
é um drama-cômico, contado no passado,
uma daquelas estórias
que no momento que acontece parece trágica,
mas depois de passado algum tempo, se tornam cômicas.
Se contada em uma festa é motivo de gargalhadas.
Desce perto de seu apartamento, faltam poucas quadras.
Passa por alguns adolescentes,
o que está com a mão na boca encara Lúcidus,
no dorso de sua mão esquerda está tatuado um lábio.
Lúcidus sente o perigo, desvia,vai para outro lado da rua
anda um pouco mais sem olhar para trás
e só depois verifica se não está sendo perseguido.
Alívio, não está.
Estes que desenham, tatuam transgressões,
podem serem os mais dogmáticos.
Lembra de sua prima cega, que maquia o dorso das mãos
com dois olhos, é na família a que menos o aceita,
“Chegou o braço frouxo,” é seu comprimento.
Agora é passar pela praça da igreja e está quase em casa.
A igreja é linda, no altar está uma
estátua do macaco de seis braços
que consegue esconder com eles todos os sentidos.
Foi feita por artista famoso de braços pensos,
alguns poucos de braços pensos venceram na vida.
Dobra a esquina, rua quase vazia, olha as costas de catedral,
depois do muro que cheira urina
está no seu bairro,
nele há muitos de um braço no olho e outro na boca
ou na orelha e outro no na boca.
Mestiços, com um dos seus braços
normalmente direcionados a boca.
Na boca, se bem apertada, basta uma das mãos.
São todos orgulhosos
de terem um e meio sentidos escondidos,
o que os deixa mais religiosos.
Consequi- Pensa Lúcidus,
ao ver seu prédio mofado.
No elevador, finalmente sente segurança,
o ar denso parece um reconfortante líquido amniótico,
suspira,relaxa, solta os ombros.
Entra no seu apartamento
-Boa noite mãe, assistindo Tv?
-Boa noite filho,como foi?
-Bem,bom público.-Mentiu
-Venha ver filho,venha ver.
Lúcidus detesta programas de auditório,
contrai a boca fisgado por um leve asco.
-Depois mãe.Vou tomar um banho.
- Não. Assista,está no final.
A mãe explica que é uma história linda
de um macaquinho que nascido sem um dos braços,
tinha que ficar com o olho esquerdo sempre exposto,
o coitadinho,sua mamãezinha quer receber uma
prótese do programa” O Sonho é real”.
Lúcidus senta, contrariado para não contrariar.
Mas o apresentador faz suspense e pede os comerciais.
Lúcidus pensa
-O apresentador tem mãos no ouvido,
só que tem mãos pensas como eu
cuidam de onde estão as mãos dos outros.
Debocha intimamente de si mesmo.
e aproveita o intervalo para sair.
- Vou tomar banho-Diz abandonando a sua mãe na sala.
Quando o programa retorna,
As câmaras mostram a apreensão no rosto
da mãe do macaquinho.
-Será que conseguiu? -Entoa o apresentador.
-Será!?faz uma pequena parada- Sim,sim, você conseguiu!
Conseguiu !conseguiu!Colocando toda a euforia
que conseguiu na voz.
Close,Mostram as lágrimas de alegria da mãe
e depois a platéia emocionada, as lindas bailarinas
fazendo caricaturais sinais de vitória.
O macaquinho coloca seu novo bracinho artificial, rindo,
ficou perfeito como se nunca tivesse perdido o braço.
Pelos, cor, unhas,simétricos, idênticos a um de verdade,
Elevou pela primeira vez
ambas as mão aos olhos,
finalmente cego, é abraçado pela mãe,
O apresentador pede ao macaquinho para
abrir bem os antebraços, retira-los da frente do sorriso.
A câmara mostra seu sorriso encantador,
Sua alegria contagia a todos,platéia e telespectadores.
Lúcidus estava no banho e ainda não sabia da vitória do macaquinho
mas estava torcendo para que o menino recebesse a prótese.


Poema-conto de Solivan

terça-feira, 7 de junho de 2011

Coyote chega ao número 22 - meus poemas uivam nesta edição


Coyote chega ao número 22



Inéditos de Italo Calvino e dossiê com o poeta e letrista Geraldo Carneiro são alguns destaques do número 22 da revista editada em Londrina (PR)




"Sinto falta de radicalidade. É preciso encarar a prática poética com mais seriedade, violência e humor. Sinto falta de grandes polemistas, como Mário Faustino. Figuras que sejam capazes de tumultuar a cena poética brasileira, no melhor sentido" — diz o poeta e letrista Geraldo Carneiro, em dossiê publicado no novo número da revista Coyote, que chega às livrarias do Brasil esta semana.


Outros destaques do número 22 são dois textos de Italo Calvino, publicados postumamente em Romanzi e Racconti (1993), inéditos no Brasil (em tradução de Eclair Almeida e Bruna Ferraz). Jerusa Pires Ferreira e Josias Abdalla Duarte introduzem e traduzem a poesia do galego Manuel Antonio (1900-1930), também inédito por aqui.

Editada em Londrina (PR), o novo número traz ainda um conto em forma de peça teatral de Veronica Stigger (RS), a poesia nonsense de Edward Lear (1812-1888, traduzida por Vinícius Alves), contos de Sandro Saraiva (SP) e Márcia Barbieri (SP), inéditos de Paulo Moreira (RJ), Wilmar Silva (MG), Ygor Raduy (Londrina) e poemas de Solivan Brugnara (PR), estes dois últimos, novos talentos da poesia paranaense. Traz também o ensaio fotográfico "Desejo Eremita", do amazonense Rodrigo Braga. A contracapa é assinada por Beto.

Em seu nono ano de existência, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária.
A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina, e editada pelos poetas Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assunção.


COYOTE 22 // 52 páginas // R$ 5,00 (Londrina) e R$ 10,00 (outras cidades) Uma publicação da Kan Editora. Distribuição nacional Editora Iluminuras.

Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161. Pode também ser adquirida pela internet através do site: www.iluminuras.com.br

COYOTE EM LONDRINA. Banca Flamengo (Mercado Municipal Shangri-lá) E Revistaria Odisséia (Rua Jorge Casoni, 2242 - Centro)

PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – PREFEITURA MUNICIPAL DE LONDRINA - SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE LONDRINA

Anotações para semana (revisado)

-A Lembrar de usar o som de pombas voando
como percussão em uma musica.

- Olhar a linha da vida de meu filho.

- Aprender a fazer arco-íris domésticos
com a mangueira ao regrar o jardim.

- Criar um abaixo-assinado para
mudar o nome do poeta Manuel de Barros
para Manuel de Cerâmica.

-Adquirir um método de piano imaginário
Para poder aprender musica no escritório.

-Comprar ração para o pavão.

-Mandar restaurar as fotos rasgadas na separação.

-Dobrar origamis com os extratos bancários
e notas fiscais.

-Pagar a prestação do telescópio.

-Baixar um screensavers de caleidoscópio em 3D

-Enviar meu currículo para um parque
de diversões itinerante.

-Mudar escrivaninha para perto da janela.

De Solivan

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sonhos ante a vitrine da livraria




Chuva,
corro para frente da livraria.
A chuva cai
como cortinas de miçangas da platibanda.

Um frescor cola na pele desprotegida
do rosto e braços.
Dá vontade de ficar nu.


Olhos ávidos de desejo
na vitrine da livraria,
livros com fascínio de jóias.
Vontade de assaltar a livraria
andar livre entre as estantes
encher-me de poesia com gula
sem critérios.
Eu sempre tão comedido
entre estas estantes
sedento e tendo que
contentar-me apenas com um ou dois goles.
Pegar o que quisesse
um bárbaro saqueando.
As mãos livres a colher
maduros e suculentos
livros de fotografia
de fauna e flora.
Filosofia, sobre pintores
romances e pornografia.
Pelo fundo, teria que entrar pelo fundo.
Que felicidade
engolir todos,
estrebuchar em cima dos livros,
sentir a segurança da quantidade,
folhear todos com o polegar
e ouvir um barulho reconfortante
parecido com o de maços de dinheiro
e cheirar aquele arzinho de livro novo
novinho, novinho.
Meia hora
meia hora de delírio.

Nuvens já dissolvidas
apanho um último estilhaço de nuvem na palma da mão
e lambo o gosto insosso de céu.

Poema e ilustração Solivan

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A desconstrução do boi




Matar
o martelo afaga a testa do boi
bem entre seu olhar negro e bondoso
cheio de estrelas brancas
e a faca procura um resto de vida
escondida
dentro do seu pescoço
e como um sopro frio
apaga as estrelas assustadas
no olho do boi.
O corte tem um gosto
oxidado e gelado da lâmina
língua abusada metálica dentro da carne.
Do talho
ubre de ordenhações rubras
saem abstrações brutais
de um coração se debatendo
caem vermelhos, brilhos, lampejos
sobre o alumínio
com digitais e moscas verdes.

Estremecimentos
o sangue abundante acomoda-se
aninha-se
transborda pastoso, calmo.
Morte
ainda sai um colar de rubis
no fim lágrimas de um olho vazado.

Estaquear
erguer no galho da cabriúva
a rês de cabeça para baixo
quatro cascos suspensos
pelas pulseiras rudes
de corda de sisal
estranha flutuação de alma

Corear
arrancar o branco
colorir num processo inverso
de retirar
deixá-lo rascunho
de boi a crueza de um esboço
vermelho, inconcluso
riscado de nervos brancos.
Pendurado
ante o matagal enrediço rasurado de inverno
a suave sombra dos ramos
parece arder sobre a cor carne-viva
como mão áspera sobre queimadura.

Decepar a cabeça
pô-la sobre a mesa
o sangue procura os veios das tábuas.
Um corte no abdômen
abre-se num fácil sorriso
e vomita intestino pardo e fedido.
Na bacia.
após o parto
o coração dorme
sobre as vísceras.
O boi morto ainda adula
seu odor de presa
deixa o ar quente e ensebado
e espalha felicidade
moscas varejeiras zunem
coroam os coágulos
como esmeraldas ávidas.
O rabo do cão sorri.
Um menino, pernas e braços finos
magro de barriga grande
olha o pai
com um sorriso atento,
dentro dele uma alegria inocente de oncinha.

Carnear
a faca apaga
os membros dianteiros
deixa no lugar a terra que se escondia
atrás deles.
Abre-se a espinha.
Os posteriores ficam balançando enforcados
após recortados,
retirados
restam dois cascos, dançarinos
de um boi invisível, desconstruído.


Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Revista de literatura COYOTE 22

Amigos, na revista de literatura COYOTE 22 deste mês poemas meus.

Confissões de meus laivos infantis




Experimento
as possibilidades sonoras
das grades,
seus arpejos combinam com os latidos dos cães.
E batuco em garrafas de uísque
quando novas,
Acho
seu som é belo aquático, futurista.
Também ando com a garrafa no ouvido.
Tem um gorgolejo bonito,
metálico.

E ainda sobre garrafas de destilados,
procuro mas vazias
as pequenas esferas de vidro ou de plástico
que ficam no gargalo.
Coleciono, as retiro como se estivesse revirando uma ostra,
Sinto-me coletando perolas.

Também conheço
o interior do mar pelas peixarias.
(Ando estranhamente em uma peixaria,
passeio como em um museu marinho,
como se os balcões fosse redomas )
E se compro peixes sujos limpo demoradamente,
os disseco com uma faca de mesa
como faço com as frutas.
opero peras e maças,tiro as ovas do mamão,
gosto examinar o interior
o mesocarpo, a semente.

Experimento todas as frutas desconhecidas que encontro,
Cuspo as amargas,
frutas são como pessoas.

E sempre, sempre faço incansáveis procuras antropológicas
nas casa que visito ,nas cidades,
pelos cardápios
e gôndolas de supermercado.

Poema e ilustração
Solivan

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Interação no Masp



Farejei
o mais perto que pude
o um quadro de Van Gogh,
tem um rico cheiro de roupas velhas, de suor
e tabaco.
Tem ainda o cheiro quente de Arles
e do quarto fechado e quente
em que foi feito.
As telas de Picasso cheiram a touro.

É importante, é importante
farejar,
Todo o quadro ou foto
toda imagem se boa,
tem um odor rico.
Se o cheio é ruim, a imagem é ruim.

Se puder, olho para os lados
e se não tiver ninguém
lambo
gosto de sentir o gosto das tintas.
Sinto necessidade de engolir
um pedaço da Capela Sistina.

E escuto,
coloco meu ouvido bem pertinho
batuco com os dedos,
tamborilar é atávico no homem
ouço o pulsar,
é maravilhoso sentir o coração de tela reviver.

E sim, toco ,toco porque
é o toque que transmite a compreensão.
O toque é um carinho,
não é um vândalo quem sente a necessidade de tocar um quadro
mas sim aquele que está sublimado.


Poema de Solivan

Ilustração de Van Gogh

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A leveza o êxtase e a rudeza



A Artur Rimbaud

A Leveza

Vai pela estrada Rimbaud, lendo a paisagem
estava escrito no caminho de pedra
disposta em escamas de víboras
que seu andar trôpego de alegria
será barco bêbado sobre um rio
só por Dante navegado.
E no trigo com letras manuscritas
dos monges medievais lia, numa página com
iluminogravuras.
- Minha semente mastigou a terra, fiz-me de terra
e a espiga fulva e relicário onde aguarda o pão.
Nas faces dos ceifadores, o texto
linhas da vida
como palma da mão exposta
nas rugas profundas, rendas ou raízes
em volta desses duros olhos.
Viu o local onde um dia perdeu-se
traduzir-se em ponto de referência
como água vertida em vinho
e seu olhar era criança, despreocupada
num doce balanço sob as páginas da divina comédia.

O êxtase

Vai pela estrada Rimbaud
vê a montanha mergulhar no céu e tingir-se de céu,
membro dentro de um céu fêmea,
e entra num bosque
que se aninha nas suas encostas
e bebe um ar místico
a névoa de tule pintado por Botticelli
estampado com canto de pássaros,
recende a ramagens
a âmbar das resinas e ao suor dos faunos escondidos.
Desce a nascente
e com gestual de tigre
lambe a própria imagem no espelho d’água
enquanto a língua sente o gosto
do bosque diluído em água
dentro dele formam-se imagens
primeiro, Narciso
um instante de escuridão
depois a flor branca.
Então volta com passos crocantes
sobre as folhas secas
deita-se sob os álamos
olha as copas transpassadas
por feixes de luz amarela
com a neblina fulva a passear sinuosa dentro deles
nos cimos tremeluziam
enxame de estrelinhas
pinceladas uma a uma pelo sol.
Fecha as pálpebras quentes
vê então um São Sebastião
de seu corpo magnífico
nu, leitoso, cheio de luz
púbis exuberante, negra e cacheada
alvejado por flechas
de onde o sangue verte elegante como uma lágrima
com rosto pendido e olhar de súplica
veste apenas a sombra das folhas
sob a pálida pele do peito e das coxas.

A rudeza

Vai pela estrada, Rimbaud
no peito o ouro sem metáfora
bebe a si próprio no suor que cai dos seus lábios
e a fome come-lhe o corpo.
O calor faz a alma presa no corpo agitar-se feito um feto inquieto e febril
logo vai despetalar a roxa perna.
No quarto
de odor enfermo como hálito de um celibatário
com a angústia de um pássaro sem asas,
seu coração já coto debate-se ante o céu azul visto da janela.

Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Profecia



Na minha morte
milhões de pássaros vão cantar
por que milhões de pássaros cantam sempre.

Crianças nascerão,
por que crianças nascem todos os dias.
e como combinado também
muitos homens morrerão na mesma hora

que homens morrem a todo minuto.

flores se abrirão
por mais que aqui possa ser inverno

mas em algum lugar do mundo será primavera
e lá as flores se abrirão.

E rosas secarão em jardins e floriculturas
Porque há muito tempo que rosas secam nos jardins
e causam prejuízo nas floriculturas.

neste dia uma pomba fará seu primeiro voo
e nos cantos escuros e camas de toda a terra
haverá êxtases e fecundações
e terá em algum lugar chuva em outro sol
em metade do planeta será claro em outro escuro
como no ing-iang.

E posso profetizar
Que na exata hora da minha morte

alguns copos e pratos se quebrarão
para sempre
por que é corriqueiro que pratos quebrem.


Poema e ilustração de Solivan

terça-feira, 19 de abril de 2011


Anotações para a semana



Lembrar de usar o som de pombas voando
como percussão em uma musica.

Olhar a linha da vida de meu filho.

Aprender a fazer arco-íris domésticos
com a mangueira ao regar o jardim.

Estudar o vôo dos pássaros para um poema.

Entrar com um processo na justiça para tentar
mudar o nome do poeta Manuel de Barros
para Manuel de Cerâmica.

Investir numa
fabrica de caleidoscópios.

Comprar um prisma e um pavão.
e um cd com a musica Bachianas n 5
para aromatizar meu domingo pela manha.

Anotar o haicai
“ um velho feio
e frágil
como um filhote de pássaro.”

Poema e Ilustração
de Solivan

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Como certos pássaros


Minha alma
arrancou um pedaço de minha própria carne
e alimentou uma águia
para que pelo menos uma parte de mim seja livre.
Que parte de mim voe.
Que parte de mim saiba o que é ser águia.

E quer ser
Como certos pássaros quando se esquecem que são pássaros e se pensam vento.
Como certos pássaros se esquecem que são pássaros e vivem
como peixes.
Como certos pássaros se esquecem que são pássaros
e se deixam frutificar.
Como certos peixes quando se esquecem que são peixes
e se pensam oceano.

Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Projeto Tijuca para a criação de parques municipais.





A imagem de Nossa senhora Aparecida que
foi despedaçada e reconstituída.


1. Legisladores biomas eram imperiais e a mata vigorosa
conseguia alimentar toda vida com frutos e relva, cevando
as presas, protegendo as águas. Ouviam-se as orgulhosas
canções dos acasalamentos e das fecundações, a mortes
regeneravam a vida com seus ciclos. O leite, elam da vitalidade
e crescimento, reconfortava e era farto. Ah como é sempre
bela imagem de filhotes sendo amamentados. E as sementes
pequeninas podiam amiúde fazer sua valente tentativa de crescer.


2.As leis vigentes deixam os biomas em pedaços, rasgados,
esparsos, Ilhados, e cada propriedade com seu restringido
retalho proibido de crescer. É envenenada ou decepada
cada árvore que tente crescer fora de sua pequena reserva.
Impede-se assim as tentativas renitentes da mata de
restaurar-se, de anexar, e sem unidade, tira-lhe a essência,
tira-lhe o fundamental. A diversidade é mutilada e a vida
fica acuada, confinada, desprotegida, condenada pelo crime
de tentar se alimentar. Da fauna sobram apenas os esquivos,
os furtivos, os pequeninos o que é tão é usual nas
extinções,em todos os extermínios que a vida sofreu.


3. Proponho que o produtor possa adquirir sua reserva
e nela produzir. Mas deve conter nos rituais do contrato
que esta mata seja imolada pelo Estado e sua carne vendida,
e este valor redobrado seja a semente levada com cuidado
como um filhote de pássaro para seu ninho a uma conta
bancaria chamada Tijuca, e quando este relicário estiver
cheio de oferendas a vida, se possa comprar terras. E o bioma
mutilado, possa ser agregado em um único parque, e que a
floresta seja recriada em cada município,se possível abraçado
a outro, por localização ou de braços dados.

Adendo1. Melhor ter um bioma reconstruído que nem um.


Poema e ilustração
de Solivan

segunda-feira, 28 de março de 2011

Uma representação do vácuo




Molde com inexistência uma representação do vácuo,
olhe para o invisível,
precisa sentir a presença do nada
em sua frente.
Não há perguntas, não se encontra enigmas,
descomplexa é a inexistência.
É leve, de fácil restauração e abundante.
Com facilidade se preenchem os vãos.
Veja ,
como é o nada o alicerce de tudo
e como é abundante sua presença.
Mas emocione-se
enquanto sua representação
do vácuo toma forma
ou seu trabalho não terá contundência.

De Solivan

segunda-feira, 21 de março de 2011

A transubstanciação de Van Gogh



Van Gogh
vivo,
já dava sinais do que viria a ser,
andava pelas ruas de Arles
manchado de tinta, doentias manchas de tinta
na pele.
Tinta nas mãos, roupa,
tinta no rosto.
Respirava ar pintado com odor de tinta.
O absinto verde espalhado pelo corpo.
Quando morreu,
a transubstanciação se concretizou
não há mais carne.
Ninguém mais lembra dele
como homem,
mas como um auto-retrato
de orelha cortada.
Van Gogh
o homem que se transformou em pintura.


Poema de Solivan
Ilustração de Van Gogh

segunda-feira, 14 de março de 2011

Incorpóreos





O homem

quase que não existe

é etéreo volátil

apenas pensamentos

sensações fugazes
somos imateriais

insólitos

incorpóreos
entidades ou essências

lendo as mensagens da carne


seres feitos de passado e passado não existe mais
dispersos

aglutinando-se temporariamente em alguma vontade



agarrando-se tenuamente ao símbolo do que é matéria

por que somente o símbolo do que sólido nos penetra

ou o homem

flutuaria no seu imenso interior




desprenderia



Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 7 de março de 2011

A rudeza




Vai pela estrada, Rimbaud
no peito o ouro sem metáfora
bebe a si próprio no suor que cai dos seus lábios
e a fome come-lhe o corpo.
O calor faz a alma presa no corpo agitar-se feito um feto inquieto e febril
logo vai despetalar a roxa perna.
No quarto
de odor enfermo como hálito de um celibatário
com a angústia de um pássaro sem asas,
seu coração já coto debate-se ante o céu azul visto da janela.

Poema e ilustração de solivan

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Obrigado Silverio da Costa

Coluna de Silverio da Costa para o jornal Sul Brasil
Solivan,O Encantador


“Encantador de Serpentes”,de Solivan Brugnara,conhecido apenas como Solivan,é um livro de poemas de alta voltagem,capaz,portanto,de aleijar os leitores menos avisados.O livro abarca uma enorme gama de temas,todos eles recorrentes ao mofino e transcendente cotidiano.Sua poesia quebra os padrões estabelecidos,para dar azo à criatividade e escapar dos fantasmas tradicionais,entrecruzando o real com o fantástico!Sua poesia é ácida, impiedosa, asfixiante, depressiva, lançando mão, inclusive, do nonsense,do insólito,do absurdo kafkiano,do chocante e do delírio,mas é cosmopolita, universal ,dado o rigor da linguagem demolidora, surrealista,e da forma,que abrange o visual, com fotos e desenhos;os poemas geometrificados,com amplas configurações típicas da estética do (neo)concretismo;e usa,ainda, versos polimétricos,em poemas densos ou prolixos,sobressaindo-se a anáfora e os versos que se repetem,dando-lhes uma aura evocativa.Tudo se submetendo ao jorro de ritmos alternativos.
Graças a esses recursos, os poemas de Solivan acabam transcendendo o seu próprio ponto de vista, para mostrar as facetas, muitas vezes cruéis,da existencialidade,transformando-a numa aventura humana diferente,que se volta para dentro de si mesmo,onde ocorre a simbiose que devolverá ao leitor a pungência da perversa condição humana,uma espécie de confronto entre a razão e a emoção,que alfineta a sociedade sem compaixão.
Não conheço o autor em tela, mas quero dizer que adorei o livro, não só pela multiplicidade de assuntos e pela maneira de os abordar,mas também por ser um livro diferente,a começar pela capa.Parabéns!

De Silverio da Costa

Do porque não se encontram a almas



Se

Na mão dissecada não encontraram afago.
Na carne estudada
nenhum vestígio de composições .
Se
no sangue analisado
é negativa presença do amor
e mesmo em biopsias
nunca constataram
ternura.

Eis a razão
do porquê não se encontram as almas.

Poema e ilustração
De solivan

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Lídia obrigado por ler meu pergaminhos
um abraço amiga e seja bem-vinda.

O quarto do musico morto e sua comparação com um mundo antisséptico.

Para João Cabral de Mello Neto.


Na mesa, seca de toda
a música está a flauta
eviscerada,em silêncio
como um canário morto.

Não há mais o sopro
de erva-doce e manjericão
que tem o som
das flautas vivas.

No dentro da flauta
um deserto salino
um branco osso de
mar descarnado de água

Uma imensidão vazia
de planeta deserto
Se parece caber na mão
é porque denso, de sol morto.

Mas este vazio na flauta
é um vazio que se sente
o vazio da barriga vazia
o vazio cheio de fome.

Ou mais agudo sentir
de dor mais aguda
mas sem o estridente grito
a dor sem ganido de um cão mudo.

É também o oco da flauta
um oco de osso de pássaro
calcificado, limpo de carne
pelo minucioso urubu e o carcará.

Se ainda identifica-se
a forma flauta sobre a mesa
é como identificar flor
destilada de seu perfume.



A areia que invadiu o
quarto não é areia, é miragem
de areia e por ser miragem
por não existir é apenas sentir

Mas por ser forte este sentir
é fraco para esta areia
descrevê-la miragem cabe
mais no estojo da palavra alucinação

Com a dura e real presença
que tem a alucinação
de cromar a espinha
ossos com frio metal do medo.

Por ser de tal matéria
esta areia entra onde areia
se real não poderia inocular-se.
Desrespeita a areia o sólido.

Sente-se tal areia
não só sobre os móveis
mas no centro das coisas
como sal entra na carne de sol.

Tinge as páginas dos livros
de um amarelo de desertos.
e mais no centro ainda
porquê no âmago do homem.

No coração pulsa
sangue com areia
lixa o peito que a respira
nos pulsos arranha o que articulação.

A voz com areia é áspera
ulceram boca e ouvidos
por isto poucas e medidas
palavras são ditas no quarto.



Pela janela entra instrumentos
Facas- lâminas de puro sol
facas-sol esterilizadas
agudas, de corte limpo e reto

Precisas facas que retiram,
seccionam as sombras
reviram as vísceras-sombra,
as entranhas úmidas do quarto

Se a ferida escalpelada
tem ainda cor de sombra
é porquê engana o olho o escuro
alcatrão colocado sobre a ferida.

Após retirada, toda a sombra
tem seu couro estaqueado
raspado com vidro
posto em pedra hume ou sal.

Agora o sol não usa mais
seu tentáculo faca,
usa outro instrumento cânula
feito do mesmo metal sol.

E assim suga o que úmido
só após ser ressequida
a sombra é recolocada
por isto o seco dentro das gavetas.

E a estante, cadeira
o que madeira
tem aquele seco
acirrado e denso.

O demasiado seco
do lenho petrificado
Que nem mesmo inflama
Que não vive nem morre.



Nos pesa ainda sobre
os ombros se no quarto
desolado a gravidade
de outro mundo maior.

Estilhaça o que cristal
sorriso,amparo, afeto,
sobra no peito a pedra
resistente da solidão.

Transplanta em todos
um coração de náufrago.
transpassado de agulhas
amoladas em angústias.

E as pálpebras sentem
o gosto amargo nos
olhos, agora daltônicos
para tudo que seja esperança.

É febril, o quarto mas
não a febre da infecção
que mata por proliferar
por se exceder em vida.

O quarto tem a febre
ainda mais malévola
de Marte e seu rude
calor anti-séptico

Tem a esterilização
cuidadosa e tenaz
La não vive um germe,
la não vive o homem.

La há apenas uma
floresta de árvores
Sem folhas, sem galhos,
sem tronco, sem sombra.

De Solivan