segunda-feira, 4 de julho de 2011

Motivos orientais




Caos urbano, porém parecia
com tai chi chuan
a informação do chinês.


Sol traz
ao lago calmo,
constelações de reflexos.


Preocupou-me um problema insolúvel
até o dia que ouvi
a o passear no jardim
um ancião
dizer cheio de felicidade a uma libélula:
“Ainda temos todo este verão de vida”.


Retrato falado
de um velho japonês

Seus olhos são baços e pequeninos
delicadamente colocados
sobre a renda das rugas.
Mas seu olhar tem uma imensidão que
lembra o mar.
O ar de oitenta anos de sorrisos
desgastaram seus dentes
como o vento, uma rocha.


Determinação
é uma intransigência maleável

Para atingir a perfeição,
precisamos de defeitos.

Verdades
absolutas
mentem.

Sobre a indignação

Notei que
soco na mesa
é sempre na silaba tônica.

Não gosto de decorar poemas,
Prefiro falar poemas com um livro na mão
o livro é meu instrumento musical.

O profeta
recorda o futuro.

Neuzza
Pinheiro
com pássaros

Sal que
adoça meu dia

Pombas
fazem ninhos
no semáforo.


O mais importante em um poema são as perguntas,
mesmo que o poema não tenha perguntas.

Ancião tremulo
frágil e feio.
Lembra um pássaro
recém-nascido.


De solivan

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cotidiano




Agora
As linhas de nossas vidas
Estão juntas nas mãos dadas,
E posso te dizer bom dia
Enquanto
Acaricio teu cabelo que me lembra
Tocar as águas de uma nascente.
Olho admirado
Você passar com gestos cheios de musica e dança
Nos pulsos
E nuca,
Seu perfume com odor de rubis e ametistas.
Nas tardes falo bobagens de poeta
Comparo o vôo das borboletas
Com folhas no outono
E digo
Que seu sorriso é lindo,
Para flor só falta haste.
E você ri.
Eu gosto tanto de cultivar teu sorriso
É minha gardênia.

Sei também quantos espinhos retirou de mim.


Lembra o dia que chequei
Triste, cansado e tão cheio de cicatrizes
E você me aconchegou sobre seu peito
Num sono tranqüilo.
Como após beber o primeiro leite,
Descansei do enorme esforço de renascer

Mas quero esquecer a dor,
Venha comigo
Colher tangerinas.


Poema e ilustração Solivan

segunda-feira, 20 de junho de 2011

No planeta dos macacos cegos ,surdos ou mudos




O chimpanzé Lúcidus
observa os outros macacos.
A macaca que olha uma vitrine com as mãos nos ouvidos,
as balconistas com mãos nos olhos,
transeuntes engravatados com as mãos nas bocas,
um pastor–camelô
pregando em uma esquina com as mãos do sexo,
vendendo indulgências e milagres.
Inveja a todos,
todos estão com suas mãos
escondendo um dos sentidos.
E olha para seus braços tristemente pensos.
É verdade que as vezes tem o cuidado,
se a situação é muito perigosa
de levar suas mãos para os olhos,
sente-se um covarde,
mas já foi agredido a cotoveladas.
Já é tarde, Lúcidus está angustiado e atrasado,
procura o sol entre os prédios,
está anoitecendo e a noite é perigosa..
Tinha que voltar para casa logo.
Entra no metrô e senta na única cadeira reservada
para pessoas sem deficiências,
sente o desconforto da multidão,a raiva velada
dos macacos cegos ,dos surdos, dos mudos.
Cobra-se, podia ter disfarçado posto as mãos na boca
e sentar em qualquer lugar.
Olha para baixo, para o chão metálico
e pensa que olhar o chão
não é igual a esconder os olhos sob as mãos,
pensa se devia encarar,ser arrogante.
Lúcidus é ator ,os outros atores da sua trupe,
apesar de também terem
as mãos escondendo os sentidos,
o aceitaram. As vezes acha que o tratam bem demais
desconfia,sente-se novamente só.
Seu personagem na peça é um banqueiro
que tem as mãos na orelha,
então Lúcidus faz o personagem com as mãos na orelha.
Acha estereotipado,
é típico de personagens políticos ou empresários
terem a mão na orelha,
já os clientes e eleitores geralmente são cegos.
Seria mais verdadeiro se o seu personagem
mudasse, tapasse os olhos e em outras ocasiões,a boca.
assim como são os verdadeiros bancários ,
os verdadeiros empresários e políticos,
mudam a posição das mãos quando convêm.
Bom ,não se pode esperar muito da peça,esperar texturas,
é um drama-cômico, contado no passado,
uma daquelas estórias
que no momento que acontece parece trágica,
mas depois de passado algum tempo, se tornam cômicas.
Se contada em uma festa é motivo de gargalhadas.
Desce perto de seu apartamento, faltam poucas quadras.
Passa por alguns adolescentes,
o que está com a mão na boca encara Lúcidus,
no dorso de sua mão esquerda está tatuado um lábio.
Lúcidus sente o perigo, desvia,vai para outro lado da rua
anda um pouco mais sem olhar para trás
e só depois verifica se não está sendo perseguido.
Alívio, não está.
Estes que desenham, tatuam transgressões,
podem serem os mais dogmáticos.
Lembra de sua prima cega, que maquia o dorso das mãos
com dois olhos, é na família a que menos o aceita,
“Chegou o braço frouxo,” é seu comprimento.
Agora é passar pela praça da igreja e está quase em casa.
A igreja é linda, no altar está uma
estátua do macaco de seis braços
que consegue esconder com eles todos os sentidos.
Foi feita por artista famoso de braços pensos,
alguns poucos de braços pensos venceram na vida.
Dobra a esquina, rua quase vazia, olha as costas de catedral,
depois do muro que cheira urina
está no seu bairro,
nele há muitos de um braço no olho e outro na boca
ou na orelha e outro no na boca.
Mestiços, com um dos seus braços
normalmente direcionados a boca.
Na boca, se bem apertada, basta uma das mãos.
São todos orgulhosos
de terem um e meio sentidos escondidos,
o que os deixa mais religiosos.
Consequi- Pensa Lúcidus,
ao ver seu prédio mofado.
No elevador, finalmente sente segurança,
o ar denso parece um reconfortante líquido amniótico,
suspira,relaxa, solta os ombros.
Entra no seu apartamento
-Boa noite mãe, assistindo Tv?
-Boa noite filho,como foi?
-Bem,bom público.-Mentiu
-Venha ver filho,venha ver.
Lúcidus detesta programas de auditório,
contrai a boca fisgado por um leve asco.
-Depois mãe.Vou tomar um banho.
- Não. Assista,está no final.
A mãe explica que é uma história linda
de um macaquinho que nascido sem um dos braços,
tinha que ficar com o olho esquerdo sempre exposto,
o coitadinho,sua mamãezinha quer receber uma
prótese do programa” O Sonho é real”.
Lúcidus senta, contrariado para não contrariar.
Mas o apresentador faz suspense e pede os comerciais.
Lúcidus pensa
-O apresentador tem mãos no ouvido,
só que tem mãos pensas como eu
cuidam de onde estão as mãos dos outros.
Debocha intimamente de si mesmo.
e aproveita o intervalo para sair.
- Vou tomar banho-Diz abandonando a sua mãe na sala.
Quando o programa retorna,
As câmaras mostram a apreensão no rosto
da mãe do macaquinho.
-Será que conseguiu? -Entoa o apresentador.
-Será!?faz uma pequena parada- Sim,sim, você conseguiu!
Conseguiu !conseguiu!Colocando toda a euforia
que conseguiu na voz.
Close,Mostram as lágrimas de alegria da mãe
e depois a platéia emocionada, as lindas bailarinas
fazendo caricaturais sinais de vitória.
O macaquinho coloca seu novo bracinho artificial, rindo,
ficou perfeito como se nunca tivesse perdido o braço.
Pelos, cor, unhas,simétricos, idênticos a um de verdade,
Elevou pela primeira vez
ambas as mão aos olhos,
finalmente cego, é abraçado pela mãe,
O apresentador pede ao macaquinho para
abrir bem os antebraços, retira-los da frente do sorriso.
A câmara mostra seu sorriso encantador,
Sua alegria contagia a todos,platéia e telespectadores.
Lúcidus estava no banho e ainda não sabia da vitória do macaquinho
mas estava torcendo para que o menino recebesse a prótese.


Poema-conto de Solivan

terça-feira, 7 de junho de 2011

Coyote chega ao número 22 - meus poemas uivam nesta edição


Coyote chega ao número 22



Inéditos de Italo Calvino e dossiê com o poeta e letrista Geraldo Carneiro são alguns destaques do número 22 da revista editada em Londrina (PR)




"Sinto falta de radicalidade. É preciso encarar a prática poética com mais seriedade, violência e humor. Sinto falta de grandes polemistas, como Mário Faustino. Figuras que sejam capazes de tumultuar a cena poética brasileira, no melhor sentido" — diz o poeta e letrista Geraldo Carneiro, em dossiê publicado no novo número da revista Coyote, que chega às livrarias do Brasil esta semana.


Outros destaques do número 22 são dois textos de Italo Calvino, publicados postumamente em Romanzi e Racconti (1993), inéditos no Brasil (em tradução de Eclair Almeida e Bruna Ferraz). Jerusa Pires Ferreira e Josias Abdalla Duarte introduzem e traduzem a poesia do galego Manuel Antonio (1900-1930), também inédito por aqui.

Editada em Londrina (PR), o novo número traz ainda um conto em forma de peça teatral de Veronica Stigger (RS), a poesia nonsense de Edward Lear (1812-1888, traduzida por Vinícius Alves), contos de Sandro Saraiva (SP) e Márcia Barbieri (SP), inéditos de Paulo Moreira (RJ), Wilmar Silva (MG), Ygor Raduy (Londrina) e poemas de Solivan Brugnara (PR), estes dois últimos, novos talentos da poesia paranaense. Traz também o ensaio fotográfico "Desejo Eremita", do amazonense Rodrigo Braga. A contracapa é assinada por Beto.

Em seu nono ano de existência, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária.
A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina, e editada pelos poetas Rodrigo Garcia Lopes, Marcos Losnak e Ademir Assunção.


COYOTE 22 // 52 páginas // R$ 5,00 (Londrina) e R$ 10,00 (outras cidades) Uma publicação da Kan Editora. Distribuição nacional Editora Iluminuras.

Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161. Pode também ser adquirida pela internet através do site: www.iluminuras.com.br

COYOTE EM LONDRINA. Banca Flamengo (Mercado Municipal Shangri-lá) E Revistaria Odisséia (Rua Jorge Casoni, 2242 - Centro)

PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – PREFEITURA MUNICIPAL DE LONDRINA - SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE LONDRINA

Anotações para semana (revisado)

-A Lembrar de usar o som de pombas voando
como percussão em uma musica.

- Olhar a linha da vida de meu filho.

- Aprender a fazer arco-íris domésticos
com a mangueira ao regrar o jardim.

- Criar um abaixo-assinado para
mudar o nome do poeta Manuel de Barros
para Manuel de Cerâmica.

-Adquirir um método de piano imaginário
Para poder aprender musica no escritório.

-Comprar ração para o pavão.

-Mandar restaurar as fotos rasgadas na separação.

-Dobrar origamis com os extratos bancários
e notas fiscais.

-Pagar a prestação do telescópio.

-Baixar um screensavers de caleidoscópio em 3D

-Enviar meu currículo para um parque
de diversões itinerante.

-Mudar escrivaninha para perto da janela.

De Solivan

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sonhos ante a vitrine da livraria




Chuva,
corro para frente da livraria.
A chuva cai
como cortinas de miçangas da platibanda.

Um frescor cola na pele desprotegida
do rosto e braços.
Dá vontade de ficar nu.


Olhos ávidos de desejo
na vitrine da livraria,
livros com fascínio de jóias.
Vontade de assaltar a livraria
andar livre entre as estantes
encher-me de poesia com gula
sem critérios.
Eu sempre tão comedido
entre estas estantes
sedento e tendo que
contentar-me apenas com um ou dois goles.
Pegar o que quisesse
um bárbaro saqueando.
As mãos livres a colher
maduros e suculentos
livros de fotografia
de fauna e flora.
Filosofia, sobre pintores
romances e pornografia.
Pelo fundo, teria que entrar pelo fundo.
Que felicidade
engolir todos,
estrebuchar em cima dos livros,
sentir a segurança da quantidade,
folhear todos com o polegar
e ouvir um barulho reconfortante
parecido com o de maços de dinheiro
e cheirar aquele arzinho de livro novo
novinho, novinho.
Meia hora
meia hora de delírio.

Nuvens já dissolvidas
apanho um último estilhaço de nuvem na palma da mão
e lambo o gosto insosso de céu.

Poema e ilustração Solivan

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A desconstrução do boi




Matar
o martelo afaga a testa do boi
bem entre seu olhar negro e bondoso
cheio de estrelas brancas
e a faca procura um resto de vida
escondida
dentro do seu pescoço
e como um sopro frio
apaga as estrelas assustadas
no olho do boi.
O corte tem um gosto
oxidado e gelado da lâmina
língua abusada metálica dentro da carne.
Do talho
ubre de ordenhações rubras
saem abstrações brutais
de um coração se debatendo
caem vermelhos, brilhos, lampejos
sobre o alumínio
com digitais e moscas verdes.

Estremecimentos
o sangue abundante acomoda-se
aninha-se
transborda pastoso, calmo.
Morte
ainda sai um colar de rubis
no fim lágrimas de um olho vazado.

Estaquear
erguer no galho da cabriúva
a rês de cabeça para baixo
quatro cascos suspensos
pelas pulseiras rudes
de corda de sisal
estranha flutuação de alma

Corear
arrancar o branco
colorir num processo inverso
de retirar
deixá-lo rascunho
de boi a crueza de um esboço
vermelho, inconcluso
riscado de nervos brancos.
Pendurado
ante o matagal enrediço rasurado de inverno
a suave sombra dos ramos
parece arder sobre a cor carne-viva
como mão áspera sobre queimadura.

Decepar a cabeça
pô-la sobre a mesa
o sangue procura os veios das tábuas.
Um corte no abdômen
abre-se num fácil sorriso
e vomita intestino pardo e fedido.
Na bacia.
após o parto
o coração dorme
sobre as vísceras.
O boi morto ainda adula
seu odor de presa
deixa o ar quente e ensebado
e espalha felicidade
moscas varejeiras zunem
coroam os coágulos
como esmeraldas ávidas.
O rabo do cão sorri.
Um menino, pernas e braços finos
magro de barriga grande
olha o pai
com um sorriso atento,
dentro dele uma alegria inocente de oncinha.

Carnear
a faca apaga
os membros dianteiros
deixa no lugar a terra que se escondia
atrás deles.
Abre-se a espinha.
Os posteriores ficam balançando enforcados
após recortados,
retirados
restam dois cascos, dançarinos
de um boi invisível, desconstruído.


Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Revista de literatura COYOTE 22

Amigos, na revista de literatura COYOTE 22 deste mês poemas meus.

Confissões de meus laivos infantis




Experimento
as possibilidades sonoras
das grades,
seus arpejos combinam com os latidos dos cães.
E batuco em garrafas de uísque
quando novas,
Acho
seu som é belo aquático, futurista.
Também ando com a garrafa no ouvido.
Tem um gorgolejo bonito,
metálico.

E ainda sobre garrafas de destilados,
procuro mas vazias
as pequenas esferas de vidro ou de plástico
que ficam no gargalo.
Coleciono, as retiro como se estivesse revirando uma ostra,
Sinto-me coletando perolas.

Também conheço
o interior do mar pelas peixarias.
(Ando estranhamente em uma peixaria,
passeio como em um museu marinho,
como se os balcões fosse redomas )
E se compro peixes sujos limpo demoradamente,
os disseco com uma faca de mesa
como faço com as frutas.
opero peras e maças,tiro as ovas do mamão,
gosto examinar o interior
o mesocarpo, a semente.

Experimento todas as frutas desconhecidas que encontro,
Cuspo as amargas,
frutas são como pessoas.

E sempre, sempre faço incansáveis procuras antropológicas
nas casa que visito ,nas cidades,
pelos cardápios
e gôndolas de supermercado.

Poema e ilustração
Solivan

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Interação no Masp



Farejei
o mais perto que pude
o um quadro de Van Gogh,
tem um rico cheiro de roupas velhas, de suor
e tabaco.
Tem ainda o cheiro quente de Arles
e do quarto fechado e quente
em que foi feito.
As telas de Picasso cheiram a touro.

É importante, é importante
farejar,
Todo o quadro ou foto
toda imagem se boa,
tem um odor rico.
Se o cheio é ruim, a imagem é ruim.

Se puder, olho para os lados
e se não tiver ninguém
lambo
gosto de sentir o gosto das tintas.
Sinto necessidade de engolir
um pedaço da Capela Sistina.

E escuto,
coloco meu ouvido bem pertinho
batuco com os dedos,
tamborilar é atávico no homem
ouço o pulsar,
é maravilhoso sentir o coração de tela reviver.

E sim, toco ,toco porque
é o toque que transmite a compreensão.
O toque é um carinho,
não é um vândalo quem sente a necessidade de tocar um quadro
mas sim aquele que está sublimado.


Poema de Solivan

Ilustração de Van Gogh

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A leveza o êxtase e a rudeza



A Artur Rimbaud

A Leveza

Vai pela estrada Rimbaud, lendo a paisagem
estava escrito no caminho de pedra
disposta em escamas de víboras
que seu andar trôpego de alegria
será barco bêbado sobre um rio
só por Dante navegado.
E no trigo com letras manuscritas
dos monges medievais lia, numa página com
iluminogravuras.
- Minha semente mastigou a terra, fiz-me de terra
e a espiga fulva e relicário onde aguarda o pão.
Nas faces dos ceifadores, o texto
linhas da vida
como palma da mão exposta
nas rugas profundas, rendas ou raízes
em volta desses duros olhos.
Viu o local onde um dia perdeu-se
traduzir-se em ponto de referência
como água vertida em vinho
e seu olhar era criança, despreocupada
num doce balanço sob as páginas da divina comédia.

O êxtase

Vai pela estrada Rimbaud
vê a montanha mergulhar no céu e tingir-se de céu,
membro dentro de um céu fêmea,
e entra num bosque
que se aninha nas suas encostas
e bebe um ar místico
a névoa de tule pintado por Botticelli
estampado com canto de pássaros,
recende a ramagens
a âmbar das resinas e ao suor dos faunos escondidos.
Desce a nascente
e com gestual de tigre
lambe a própria imagem no espelho d’água
enquanto a língua sente o gosto
do bosque diluído em água
dentro dele formam-se imagens
primeiro, Narciso
um instante de escuridão
depois a flor branca.
Então volta com passos crocantes
sobre as folhas secas
deita-se sob os álamos
olha as copas transpassadas
por feixes de luz amarela
com a neblina fulva a passear sinuosa dentro deles
nos cimos tremeluziam
enxame de estrelinhas
pinceladas uma a uma pelo sol.
Fecha as pálpebras quentes
vê então um São Sebastião
de seu corpo magnífico
nu, leitoso, cheio de luz
púbis exuberante, negra e cacheada
alvejado por flechas
de onde o sangue verte elegante como uma lágrima
com rosto pendido e olhar de súplica
veste apenas a sombra das folhas
sob a pálida pele do peito e das coxas.

A rudeza

Vai pela estrada, Rimbaud
no peito o ouro sem metáfora
bebe a si próprio no suor que cai dos seus lábios
e a fome come-lhe o corpo.
O calor faz a alma presa no corpo agitar-se feito um feto inquieto e febril
logo vai despetalar a roxa perna.
No quarto
de odor enfermo como hálito de um celibatário
com a angústia de um pássaro sem asas,
seu coração já coto debate-se ante o céu azul visto da janela.

Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Profecia



Na minha morte
milhões de pássaros vão cantar
por que milhões de pássaros cantam sempre.

Crianças nascerão,
por que crianças nascem todos os dias.
e como combinado também
muitos homens morrerão na mesma hora

que homens morrem a todo minuto.

flores se abrirão
por mais que aqui possa ser inverno

mas em algum lugar do mundo será primavera
e lá as flores se abrirão.

E rosas secarão em jardins e floriculturas
Porque há muito tempo que rosas secam nos jardins
e causam prejuízo nas floriculturas.

neste dia uma pomba fará seu primeiro voo
e nos cantos escuros e camas de toda a terra
haverá êxtases e fecundações
e terá em algum lugar chuva em outro sol
em metade do planeta será claro em outro escuro
como no ing-iang.

E posso profetizar
Que na exata hora da minha morte

alguns copos e pratos se quebrarão
para sempre
por que é corriqueiro que pratos quebrem.


Poema e ilustração de Solivan

terça-feira, 19 de abril de 2011


Anotações para a semana



Lembrar de usar o som de pombas voando
como percussão em uma musica.

Olhar a linha da vida de meu filho.

Aprender a fazer arco-íris domésticos
com a mangueira ao regar o jardim.

Estudar o vôo dos pássaros para um poema.

Entrar com um processo na justiça para tentar
mudar o nome do poeta Manuel de Barros
para Manuel de Cerâmica.

Investir numa
fabrica de caleidoscópios.

Comprar um prisma e um pavão.
e um cd com a musica Bachianas n 5
para aromatizar meu domingo pela manha.

Anotar o haicai
“ um velho feio
e frágil
como um filhote de pássaro.”

Poema e Ilustração
de Solivan

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Como certos pássaros


Minha alma
arrancou um pedaço de minha própria carne
e alimentou uma águia
para que pelo menos uma parte de mim seja livre.
Que parte de mim voe.
Que parte de mim saiba o que é ser águia.

E quer ser
Como certos pássaros quando se esquecem que são pássaros e se pensam vento.
Como certos pássaros se esquecem que são pássaros e vivem
como peixes.
Como certos pássaros se esquecem que são pássaros
e se deixam frutificar.
Como certos peixes quando se esquecem que são peixes
e se pensam oceano.

Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Projeto Tijuca para a criação de parques municipais.





A imagem de Nossa senhora Aparecida que
foi despedaçada e reconstituída.


1. Legisladores biomas eram imperiais e a mata vigorosa
conseguia alimentar toda vida com frutos e relva, cevando
as presas, protegendo as águas. Ouviam-se as orgulhosas
canções dos acasalamentos e das fecundações, a mortes
regeneravam a vida com seus ciclos. O leite, elam da vitalidade
e crescimento, reconfortava e era farto. Ah como é sempre
bela imagem de filhotes sendo amamentados. E as sementes
pequeninas podiam amiúde fazer sua valente tentativa de crescer.


2.As leis vigentes deixam os biomas em pedaços, rasgados,
esparsos, Ilhados, e cada propriedade com seu restringido
retalho proibido de crescer. É envenenada ou decepada
cada árvore que tente crescer fora de sua pequena reserva.
Impede-se assim as tentativas renitentes da mata de
restaurar-se, de anexar, e sem unidade, tira-lhe a essência,
tira-lhe o fundamental. A diversidade é mutilada e a vida
fica acuada, confinada, desprotegida, condenada pelo crime
de tentar se alimentar. Da fauna sobram apenas os esquivos,
os furtivos, os pequeninos o que é tão é usual nas
extinções,em todos os extermínios que a vida sofreu.


3. Proponho que o produtor possa adquirir sua reserva
e nela produzir. Mas deve conter nos rituais do contrato
que esta mata seja imolada pelo Estado e sua carne vendida,
e este valor redobrado seja a semente levada com cuidado
como um filhote de pássaro para seu ninho a uma conta
bancaria chamada Tijuca, e quando este relicário estiver
cheio de oferendas a vida, se possa comprar terras. E o bioma
mutilado, possa ser agregado em um único parque, e que a
floresta seja recriada em cada município,se possível abraçado
a outro, por localização ou de braços dados.

Adendo1. Melhor ter um bioma reconstruído que nem um.


Poema e ilustração
de Solivan

segunda-feira, 28 de março de 2011

Uma representação do vácuo




Molde com inexistência uma representação do vácuo,
olhe para o invisível,
precisa sentir a presença do nada
em sua frente.
Não há perguntas, não se encontra enigmas,
descomplexa é a inexistência.
É leve, de fácil restauração e abundante.
Com facilidade se preenchem os vãos.
Veja ,
como é o nada o alicerce de tudo
e como é abundante sua presença.
Mas emocione-se
enquanto sua representação
do vácuo toma forma
ou seu trabalho não terá contundência.

De Solivan

segunda-feira, 21 de março de 2011

A transubstanciação de Van Gogh



Van Gogh
vivo,
já dava sinais do que viria a ser,
andava pelas ruas de Arles
manchado de tinta, doentias manchas de tinta
na pele.
Tinta nas mãos, roupa,
tinta no rosto.
Respirava ar pintado com odor de tinta.
O absinto verde espalhado pelo corpo.
Quando morreu,
a transubstanciação se concretizou
não há mais carne.
Ninguém mais lembra dele
como homem,
mas como um auto-retrato
de orelha cortada.
Van Gogh
o homem que se transformou em pintura.


Poema de Solivan
Ilustração de Van Gogh

segunda-feira, 14 de março de 2011

Incorpóreos





O homem

quase que não existe

é etéreo volátil

apenas pensamentos

sensações fugazes
somos imateriais

insólitos

incorpóreos
entidades ou essências

lendo as mensagens da carne


seres feitos de passado e passado não existe mais
dispersos

aglutinando-se temporariamente em alguma vontade



agarrando-se tenuamente ao símbolo do que é matéria

por que somente o símbolo do que sólido nos penetra

ou o homem

flutuaria no seu imenso interior




desprenderia



Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 7 de março de 2011

A rudeza




Vai pela estrada, Rimbaud
no peito o ouro sem metáfora
bebe a si próprio no suor que cai dos seus lábios
e a fome come-lhe o corpo.
O calor faz a alma presa no corpo agitar-se feito um feto inquieto e febril
logo vai despetalar a roxa perna.
No quarto
de odor enfermo como hálito de um celibatário
com a angústia de um pássaro sem asas,
seu coração já coto debate-se ante o céu azul visto da janela.

Poema e ilustração de solivan

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Obrigado Silverio da Costa

Coluna de Silverio da Costa para o jornal Sul Brasil
Solivan,O Encantador


“Encantador de Serpentes”,de Solivan Brugnara,conhecido apenas como Solivan,é um livro de poemas de alta voltagem,capaz,portanto,de aleijar os leitores menos avisados.O livro abarca uma enorme gama de temas,todos eles recorrentes ao mofino e transcendente cotidiano.Sua poesia quebra os padrões estabelecidos,para dar azo à criatividade e escapar dos fantasmas tradicionais,entrecruzando o real com o fantástico!Sua poesia é ácida, impiedosa, asfixiante, depressiva, lançando mão, inclusive, do nonsense,do insólito,do absurdo kafkiano,do chocante e do delírio,mas é cosmopolita, universal ,dado o rigor da linguagem demolidora, surrealista,e da forma,que abrange o visual, com fotos e desenhos;os poemas geometrificados,com amplas configurações típicas da estética do (neo)concretismo;e usa,ainda, versos polimétricos,em poemas densos ou prolixos,sobressaindo-se a anáfora e os versos que se repetem,dando-lhes uma aura evocativa.Tudo se submetendo ao jorro de ritmos alternativos.
Graças a esses recursos, os poemas de Solivan acabam transcendendo o seu próprio ponto de vista, para mostrar as facetas, muitas vezes cruéis,da existencialidade,transformando-a numa aventura humana diferente,que se volta para dentro de si mesmo,onde ocorre a simbiose que devolverá ao leitor a pungência da perversa condição humana,uma espécie de confronto entre a razão e a emoção,que alfineta a sociedade sem compaixão.
Não conheço o autor em tela, mas quero dizer que adorei o livro, não só pela multiplicidade de assuntos e pela maneira de os abordar,mas também por ser um livro diferente,a começar pela capa.Parabéns!

De Silverio da Costa

Do porque não se encontram a almas



Se

Na mão dissecada não encontraram afago.
Na carne estudada
nenhum vestígio de composições .
Se
no sangue analisado
é negativa presença do amor
e mesmo em biopsias
nunca constataram
ternura.

Eis a razão
do porquê não se encontram as almas.

Poema e ilustração
De solivan

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Lídia obrigado por ler meu pergaminhos
um abraço amiga e seja bem-vinda.

O quarto do musico morto e sua comparação com um mundo antisséptico.

Para João Cabral de Mello Neto.


Na mesa, seca de toda
a música está a flauta
eviscerada,em silêncio
como um canário morto.

Não há mais o sopro
de erva-doce e manjericão
que tem o som
das flautas vivas.

No dentro da flauta
um deserto salino
um branco osso de
mar descarnado de água

Uma imensidão vazia
de planeta deserto
Se parece caber na mão
é porque denso, de sol morto.

Mas este vazio na flauta
é um vazio que se sente
o vazio da barriga vazia
o vazio cheio de fome.

Ou mais agudo sentir
de dor mais aguda
mas sem o estridente grito
a dor sem ganido de um cão mudo.

É também o oco da flauta
um oco de osso de pássaro
calcificado, limpo de carne
pelo minucioso urubu e o carcará.

Se ainda identifica-se
a forma flauta sobre a mesa
é como identificar flor
destilada de seu perfume.



A areia que invadiu o
quarto não é areia, é miragem
de areia e por ser miragem
por não existir é apenas sentir

Mas por ser forte este sentir
é fraco para esta areia
descrevê-la miragem cabe
mais no estojo da palavra alucinação

Com a dura e real presença
que tem a alucinação
de cromar a espinha
ossos com frio metal do medo.

Por ser de tal matéria
esta areia entra onde areia
se real não poderia inocular-se.
Desrespeita a areia o sólido.

Sente-se tal areia
não só sobre os móveis
mas no centro das coisas
como sal entra na carne de sol.

Tinge as páginas dos livros
de um amarelo de desertos.
e mais no centro ainda
porquê no âmago do homem.

No coração pulsa
sangue com areia
lixa o peito que a respira
nos pulsos arranha o que articulação.

A voz com areia é áspera
ulceram boca e ouvidos
por isto poucas e medidas
palavras são ditas no quarto.



Pela janela entra instrumentos
Facas- lâminas de puro sol
facas-sol esterilizadas
agudas, de corte limpo e reto

Precisas facas que retiram,
seccionam as sombras
reviram as vísceras-sombra,
as entranhas úmidas do quarto

Se a ferida escalpelada
tem ainda cor de sombra
é porquê engana o olho o escuro
alcatrão colocado sobre a ferida.

Após retirada, toda a sombra
tem seu couro estaqueado
raspado com vidro
posto em pedra hume ou sal.

Agora o sol não usa mais
seu tentáculo faca,
usa outro instrumento cânula
feito do mesmo metal sol.

E assim suga o que úmido
só após ser ressequida
a sombra é recolocada
por isto o seco dentro das gavetas.

E a estante, cadeira
o que madeira
tem aquele seco
acirrado e denso.

O demasiado seco
do lenho petrificado
Que nem mesmo inflama
Que não vive nem morre.



Nos pesa ainda sobre
os ombros se no quarto
desolado a gravidade
de outro mundo maior.

Estilhaça o que cristal
sorriso,amparo, afeto,
sobra no peito a pedra
resistente da solidão.

Transplanta em todos
um coração de náufrago.
transpassado de agulhas
amoladas em angústias.

E as pálpebras sentem
o gosto amargo nos
olhos, agora daltônicos
para tudo que seja esperança.

É febril, o quarto mas
não a febre da infecção
que mata por proliferar
por se exceder em vida.

O quarto tem a febre
ainda mais malévola
de Marte e seu rude
calor anti-séptico

Tem a esterilização
cuidadosa e tenaz
La não vive um germe,
la não vive o homem.

La há apenas uma
floresta de árvores
Sem folhas, sem galhos,
sem tronco, sem sombra.

De Solivan

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Amigos ficarei fora por uns dias
talvez demore para responder seus comentários.
Obrigado pelos novos amigos Lurdes, Fátina e Drielly
que todos sejam bem-vindos.

Gênese







No início existia apenas Deus, o escultor

e a palavra.

E foi a palavra

a massa que Deus usou para moldar o universo.



Disse Deus: Luz

e o som da palavra luz

se corporificou, iluminou

e se fez sol.



Disse Deus: Terra

e o som da palavra terra

se corporificou,

e se aconchegou perto do sol



Disse Deus: Água

e a palavra água se transformou

em oceanos e nuvens, em rios

e nascentes.



Disse Deus: Ar

e a palavra ar e envolveu e protegeu a terra

como uma pele e se preparou

para ser o mais farto e o mais precioso dos alimentos.



Disse Deus: Vida

e a palavra vida

tomou inúmeras formas e se desenvolveu

e frutificou como uma árvore generosa.

E a vida

se aqueceu ao sol,

habitou a terra

bebeu e respirou.



Só então

pode Deus, o escultor

tocar na terra e na água

e deste barro fazer o homem,

e da mais linda costela, a mulher.

Disse Deus:Bendita e cheia de olor

seja para sempre esta mistura da qual

foi feito Adão.

A chuva será o sêmen

com a qual fecundarei o universo.

Poema e ilustração Solivan

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Auto- retrato escrevendo um poema



Exemplo de concentração e diluição

Ter um é mais que ter muito.
Diógenes tinha apenas dois pertences,
uma mochila velha e dentro dela
um prato amarelo,
apenas um prato amarelo
com alguns trincos.
Dois pertences, mas de seu considerava
apenas o prato amarelo,
sua mochila era apenas o estojo.
Diógenes era sempre sujo
mas seu prato era limpo
mais que limpo,polido.
Juntou moedas,não bebeu
para comprar um polidor de prata
para seu prato de cerâmica.
(estranharam um mendigo
comprando um polidor de prata
num supermercado.)
Diógenes comia com as mãos
para não sujar
seu prato amarelo.
Seu prato amarelo era para ser admirado,
Diógenes queria apenas olhar
seu resplandecer.
esta era a única função do prato.
As vezes espelhava-se,
via-se refletido amarelado no prato.
Não era narcisismo
apenas gostava de assistir.
Via também árvores, ruas, caminhões
Tudo amarelado pelo seu prato,
depois embrulhava com cuidado
e maestria em muitos jornais.
Sabia que era frágil o seu prato,
ganhou num restaurante
a muito tempo.
-Dê com prato e tudo!
Ouviu alguém ordenar.
Sem saber o motivo
talvez destino,
talvez porque tinha algumas trincas
ou porque tinha milhares de pratos.
Todos portanto insignificantes.

poema e tela "Auto- retrato escrevendo um poema"de solivan

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Meus arames farpados de molho em um amaciante






Vou recolocar o mesmo som.
Virar do avesso um rosnado
e por meus arames farpados de molho em um amaciante.

Com esculturas diluíveis na boca
mudar seu nome para maça
e encaixar a eternidade dentro de um segundo,
então contemplar minha obra,
bela e frágil como o dedo mindinho de um bebê.

E pensar no maior volume que conseguir pensar
uma canção:
Nas vendas negras coloquei algumas estrelas,
Nas mordaças um sabor de mirtilos,
E dancei com os ouvidos acariciados por sinfonias
E dancei
com ao meu corpo sensível como um falo
no cosmos tão feminino.

Poema e ilustração
Solivan

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Brancos sol e chuva


Vejo da sala
crianças na chuva.
Minha alma pede para brincar
eu a repreendo com severidade.

poema
e ilustração Solivan

As profecias de Igor (fragmento)


e o povo abandonará suas
casas como um filhote de cervo a mãe
Devorada.
No êxodo, poucos sobrevirão
bebendo o veneno das serpentes
E enriquecendo com sua passagem,
os tecelões de mortalhas baratas.

Poema de Solivan
Fotografia de sebastião salgado

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Carnes amargas



Mãos com palmas e afagos
Amputados
Carnes amargas
Que amarga os poemas
E mesmo pêssegos em calda
E eu distraído
Com o porquê que a língua não sente o gosto da língua?
E o ouvido não escuta o ouvido?
Não ouvi o mar rosnar, o vento uivar
E agora só me resta
Este léxico de náufrago
E beber num só gole um copo de guimbas
E gemer
Ai ,antítese anda tão parecida com a tese
E gemer
Ao ver no seu prato principal
Galetos com minhas asas
Tudo, tudo
Deixaram meus braços pensos
E os braços de minha alma mutilados
Como uma estátua grega
E gritei
Uma canção de protesto
Tentou calar-me com uma espingarda
Em minha boca
Mas com alguns furos
Fiz dela minha flauta
E o amor?
E a suavidade?
Está no interior da serpente.

Ilustração e poema
de solivan

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Todos os livros


Quero ler
todos os livros, todos
mas não só os livros
também os papiros e pergaminhos,
todos os sites,
apagar o abajur e ler em braille.
ler mãos, estrelas, búzios, vísceras e ideogramas,
ler música
adormecer lendo as majestosas partituras de uma sinfonia.
Traduzir sonhos e gestos
e pelos móveis de uma casa saber descrever as pessoas.

Ilustração e poema de Solivan

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Quintais oníricos


Gosto de artemistificar a morte
Compara-la a quintais abandonados.
Porque vejo
na briga de galo
entre a guaxuma e o picão
renitência do sempre renascer.
Da inútil na insistência de florir
sua flor feia e dissonante
sua flor desperfumada.
Sempre que vejo quintais abandonados
sinto vontade de ser novamente
o menino
que via revoada de rainhas vestidas
Com azas núpciais
que enluarava telhados
engrutava porões
para-dificava guarda chuvas
cachoeirizava torneiras
e savanizava quintais abandonados.
De o meu brincar sem nunca individualizar
sem nomear, sem especificar
todas as formigas eram formigas.
Assim nada morre
tudo continua, se um gafanhoto morre
não importava
os gafanhotos não morreram
outro igual nascia e o pedaço era reposto.
Meus soldados também eram renitentes
morriam e renasciam
como gaxumba.
Só a perca era uma espécie de morrer
e o achar ressurreição.
Outros quintais abandonados
Em outros lugares são só quintais abandonados
Quintais oníricos
São os quintais de Quedas
Quintais com guaxuma e picão que reencarnam.

Ilustração e poema de
Solivan

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O link da minha entrevista para o programa de Oscar Dambros
Perfil Literário, da Rádio Unesp FM,

http://aci.reitoria.unesp.br/radio/perfil_literario

entrevista 607.

Nossa casa





Esta e a nossa casa
Com minhas mãos
Colhi meteoros e ergui as paredes
E iluminei todos os cômodos
com estrelas,
Mas nosso quarto
com vênus.
Os movéis
São feitos de videiras
Que florecem e frutificam
Podemos
Numa tarde de domingo
Fazer vinho.

Apanhei as sombras mais frescas das arvores
Para colocar na varanda,
Com suaves raios do sol da manha
Transei a nossa rede
E agora podemos vamos ver juntos
Os peixes ormamentais
Que nadam entre as tulipas do jardim.
E a noite os pavões pousam
Num arco íris
Ao lado da lua.

Veja da janela
Podemos ver os ciprestes
Onde uma leoa fez seu ninho
E cuida de seus magníficos ovos.
No verão os leozinhos nasceram
Então podemos brincar com eles
no quintal.

De solivan

Déjà vu:Repostagens

A odisséia ou o erro do pavão

O pavão
de olhinhos nervosos
irrequieto bípede
tirou dolorosamente
suas queridas penas
uma a uma
e colou
em folhas de papel sulfite.
Despiu-se de suas jóias
transgrediu o pudor
sentiu frio
ficou só
sua família não agüentou
a verdade nua.
Não satisfeito
regurgitou a pouca quirela
do jantar
e vendo o vômito convulso e amarelo
lembrou-se de Van Gogh
e chorou.
Colou sua bile no sulfite
e com as folhas e penas e vômitos
profissionalmente encadernados,
a pobre ave implume
saiu a procura de editor.
Seria mais fácil, pássaro
achar editor
se deixasse as penas no corpo
e levasse as folhas em branco
profissionalmente encadernadas
sempre
profissionalmente encadernadas.


De Solivan

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Andy warhol revisado:16 Marilyn Monroe Morta



De Solivan

Dissecação da felicidade

Há felicidade
no passear por babilônicos shoppings.

Nos ambientalistas hospedados no Hiltom hotel
como lideres comunista em seus palácios
que qualquer poder é aristocratizante.

No vender ovelhas para o frigorífico,
por que matamos os lobos pelo mesmo motivo
que leões matam hienas.


Há felicidade
no abortar
com segurança na luxuosa clinica de obstreticia Medeia.


Há felicidade
no crime com o processo envelhecido
como manuscritos do mar morto.

No soco daviniano num estacionamento.

Nos paleolíticas êxtases religiosos,
porque Deus nasceu numa gruta decorada
com euroques e cavalos.

Na estrela pop deificada como Nero
que cheira coca nos intervalos dos shows.
Mas cuidado, que o inferno
é seus desejos elevados ao máximo.


De Solivan

déjà vu:Repostagens

Esta rua não devia se chamar Mario Quintana

Não gosto do sabor insosso
das linhas retas.
Um poeta não devia nomear
uma rua reta.
A rua Mario Quintana não devia ser reta,
devia ter joelhos,
dobrar esquinas,
passar por um barbeiro e livrarias,
por uma árvore centenária,
por um bar,
cruzar uma praça,
desorganizar o retilíneo das homenagens.
Uma rota de pássaros migratórios, sim
poderia se chamar Mario Quintana.
De Solivan

Interferência:Um poema de Sylvia Beirute

PEQUENO POEMA PARA A MORTE

que a palavra te redima do erro. que a palavra seja o erro.

luís quintais

primeiro: preparar a sombra. rumorejá-la. desflorá-la.
segundo: escolher o objecto. fixá-lo. intuí-lo. medi-lo.
terceiro: retirar o objecto lentamente. analisar a sombra.
quarto: estender o corpo populoso no solo, sobre a sombra.
quinto: imaginar o objecto excluído.
sexto: sentir o corpo adquirir a forma do objecto excluído.
sétimo: sentir a sombra percorrer a distância
entre o corpo e o objecto excluído como se tivesse
havido contemporaneidade entre os dois.
oitavo: analisar a sombra do ponto de vista dos relevos
adquiridos e danos residuais.
nono: excluir a sombra. {o terno é a antítese do eterno}
décimo: fechar o corpo.

Sylvia Beirute