terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Dona Nelsa Rodrigues

Eu era empregadinha casa da Dona Tere, empregadinha mesmo, mocinha, O Soli era uma peste subia no foro fazia buraco para me ver tomando banho e ainda gritava:“Tó te vendo” se estava de saia deslizava no chão para ver minhas calcinhas e falava:“ Ta de azul” “Ta de vermelho” eu gritava:“Sai daí, que eu conto para tua mãe”, mas não contava, achava engraçado, gostava.Um dia ate deixei ele ficar em cima de mim, fingi que dormia.Moleque,quando comecei o Soli era um moleque, ao sair sua mão direita era sua amante e os seus soldadinhos tinham encontros com uma boneca Barbie sem uma perna, maneta e descabelada como uma prostituta barata.Só fui embora porque casei com o Adilsom, juntamos nossos acertos e algumas compotas que minha mãe nos deu de presente e fomos para São Paulo, o Adilson trabalhava de garçom e eu de diarista, alugamos numa quitinete, era minha casa de boneca, quente, cheia de pernilongo, com cheiro de frigideira por que o exaustor do restaurante abaixo que saia bem na nossa janela, mas era minha primeira casinha de boneca, gostava de arrumar tudo, por bibelô. Era feliz, sentia um pouco de solidão, a única pessoa que me cumprimentava pelo nome era o travesti que fazia ponto na entrada do prédio e também tinha saudades de minha mãe, a coitada morreu há pouco tempo de derrame, fui para o Paraná no velório, mas já era bem velha, enterro de velho se sente pouco, mesmo que seja a mãe. Amava o Adilsom, amava, acho que só nos separamos por causa das pamonhas, eu levantava cedinho só para fazer doces, queria agradar, com carinho, pamonha doce, passava horas envolta do fogão só para escutar dele “Gosto é de pamonha salgada” eu fazia tudo outra vez, com mais capricho ainda, fazia novamente a melhor pamonha doce que conseguia. Como eu queria que o Adilsom gostasse de pamonha doce, mas ele sempre repetia “Gosto é de pamonha salgada”. Logo o Adilsom não pedia mais pamonha salgada e nem experimentava as doces, nem um pedacinho. Das pamonhas passou para casa, contagiou o sexo que era quase infantil, brincadeira feliz de medico, de casinha, começou a ficar indecente por causa dos gibis do Carlos Zéfiro que o Adilson comprava, das pornochanchadas assistia no Cine Ritz, lembro muito bem quando chegou com cheiro de cachaça me agarrou e em cima de mim balbuciou “Assisti a dama da lotação,quer sair com outro,quer,eu deixo eu deixo” implorou:“Eu quero, eu quero ver” gostei, mas depois senti remorsos, nojo, jamais vou fazer isto, nunca,mas depois disso o Adilsom começou a me importunar,suplicar, desejava, pedia que eu levasse homem pra nossa casa, para nossa cama, queria me ver se entregando para outro,que saísse com outros, eu dissimulava, fazia promessas falsas, não queria ser devassa. Só trai o Adilsom quando não viu meu corte meu cabelo, trai, marido não nota corte de cabelo novo não merece fidelidade, não merece respeito, e depois estava sem ganhar um beijo, um carinho fazia tempo. Adilsom ficava emburrado porque queria me ver com outros e eu não queria, ai trai sim, mas fiz sozinha, bem escondido. Enganei o Adilsom com meu patrão e engravidei, engravidei. Com meu patrão conseguia ser vadia, que delicia, livre, vagabunda, com o coitado do Adilsom, ate tentei mas não conseguia,com ele queria ser a esposa, queria carinho, ser a Dona Nelsa, se meu marido quisesse meu amor eu não teria traído, não teria, mas ele desejava uma ordinária! Ai trai, para me vingar, trai por que queria ser fiel, eu o amava, queria só ele, não outros, então fiz o que o Adilsom mais desejava, mas sem ele saber, em segredo, lembro que gostava de roubar goiaba, era só pedir que o vizinho dava quantas goiabas quisesse, gostava de ver as meninas de vestidinhos subindo nas arvores mas eu preferia roubar que pedir, pedir é uma humilhação, uma esmola, roubar e mais digno.Gostei de trair, gostei ate da culpa, do remorso. Porque não era a mesma culpa que impedia, que proibia como a culpa que sentia quando fazia indecências com o Adilsom, a culpa, o remorso quando eu traia era diferente era uma culpa libertadora, me fazia gostar ainda mais, deixava tudo mais obsceno, gostava de enganar com sentimento de culpa, como gostava, me sentia culpada e tinha mais prazer por isto mesmo. Delicia chorar de culpa quando era possuída pelo amante, era bom falar: “Porque faz isto comigo? Eu sou casada, não devia, não devia’’chorava e gozava. Tive que seduzir meu patrão, me atraia, era um senhor respeitável, calvo, com barriga, vermelho de pressão alta e calvo parecia um uacari de óculos, era aposentado com problemas no coração e obedecia caninamente sua esposa, mesmo com a Dona Yena trabalhando fora, precisei me insinuar para conseguir o que queria, comecei a mostrar meus seios quando limpava a mesa de centro, derrubava café no chão só para limpar de quatro com a saia um pouco erguida, ate que um dia na cozinha, lavando a louça, senti ele ajoelhado atrás de mim me beijando, desesperado, choramingando, choramingando balbuciava :“ Deixa, deixa” levantei a saia e deixei, depois disso passeia dominar, mandava nele, fazia limpar a casa, mandava ele ficar bêbado e me esfregava bem na cara dele, ficava vendo meu óculos, mas sabia o limite, sabia e não queria perder meu escravo,que escravo é quem manda, eu cuidava para que tudo ficasse organizado, de lingerie, mas tudo bem arrumado para a Dona Yena não desconfiar de nada, nunca desconfiou.Levava o Patrão pra cama do casal e dizia:“ Imagine que sou a Dona Yena, quero que você pense que eu sou esposa” como eu gostava de sentir ele em cima de mim imaginando que estava com outra,com sua mulher.Com o Adilsom não, não queria, não conseguia,Adilsom já era pecador, eu queria era desvirtuar, meu patrão nunca tinha sentido o prazer de ser humilhado,cuspido, o prazer de apanhar,de ser possuído,nem eu de humilhar,de ser a mulher o macho e ele a mulherzinha. Máscara, talvez, meu problema seja as máscaras que uso,varias, uma para cada pessoas, criei minha máscara para o Adilsom ainda quando namorávamos, quando nos conhecemos, com o Adilsom, não conseguia ficar sem a máscara, me sentia desprotegida, mais que nua, descarnada, mostrando a caveira, com meu chefe também tinha uma máscara, mas era de devassa, só sabia ser isto com ele,uma puta.Um elogio usava um elogio como um molde de minhas máscaras, um elogio já bastava, um professor me disse que era boa em matemática pois foi o único ano que sempre tirei notas boas em matemática. Para minha mãe eu era a católica, mesmo com ela morta, no enterro puxei o rosário, rezei diante do caixão falava para os poucos parentes, nos pêsames: “Deus quis assim, recebeu o chamado de Jesus” depois do féretro nunca mais fui a uma missa no domingo, nem uma oração saiu de minha boca. Os Domingos eram iguais na Dona Tere, fazia maionese para acompanhar o churrasco do almoço e as onze tinha que tirar o Soli da frente dos desenhos animados para me ajudar a comprar as bebidas no deposito da Serramalte, era perto, um barracão de araucária grande, fresco e escuro meio apodrecido e tinha cheiro de cerveja,eu e o Soli torciamos muito para o time da Serramalte lembro da decisão contra a Giacomar, o jogo foi um desses acontecimentos épicos que a historia não conta, de heróis anônimos, que morrem sem odes, a Serramalte entrou com sua camisa azul como sangue de nobres, valentes, cheios de brio, foram acossados no primeiro tempo mas o goleiro Galo em pulos certeiro de onça em paca pegava todo os tiros que vinham contra sua meta, retrocederam,mas o retroceder dos valentes não é se render e sim um retesar, como o recuo do arco que impulsiona a flecha, no segundo tempo avançamos indomáveis, mas o adversário também era valoroso e forte, a batalha parecia destinada ao empate quando o Nego armador elegante recebeu uma bola xucra, domesticou no peito, olhou como um general e passou dócil obediente pro Pingo que repassou para o ponteiro Cafu, Cafu dominou, correu livre pelo flanco esquerdo e lançou, a esfera subiu suave,com movimentos de lua passou por cima dos zagueiros, o centroavante Sarna subiu e num bote de cascavel cabeceou venenoso na gaveta. A alegria explodiu como fogos em mil peitos, um estrondo de campeão, o Sarna correu para a torcida batendo no peito, no escudo, então os heróis se abraçavam, jubilo, a taça do municipal de 78 era nossa.
Ia assistir os jogos da Serramalte com o Adilsom, Adilsom, Adilsom,gosto de falar o nome dele,tem gosto,o nome dele tem gosto.Foi uma pena ter acabado como acabou. Eu, na cama com o Adilson desejava,queria muito um marido doce,não desejava ser safada, mulher tem que ser safada, homem com tesão é homem carinhoso,agora eu sei, Não adianta cobrar romance ,não espere nem cafuné de um homem que não te deseja,quer romance minha filha? Quer beijo na boca? Quer ser chamada de meu amor? Se faça desejada, de o proibido, faça sacanagem. Mas primeiro finja inocência. Fingir inocência é o inicio de todo um casamento feliz e depois caia no pecado, agora eu sei, mas é tarde, perdi meu amor ,perdi, disse muito não, logo tudo ficou tedioso, o Adilsom passou a fazer tudo em um silencio emburrado, padronizado, fazia só para provar que não queria mais. Mas eu sabia o que desejava era desdém de quem quer muito, de quem quer comprar, mas no por defeitos, no desdenhar, foi descobrindo que os defeitos eram mesmo defeitos, apanhei levei uma bofetada, quando falei no meio da transa com medo de o perder :“ Vamos fazer suruba” ele me respondeu com raiva: “Mentirosa”me bateu e saiu de cima de mim. Foi nossa ultima relação, falei só porque tive medo de perder, eu amava o Adilsom, mas não adiantava mais prometer, ele resistia à tentação obstinado, resistia, quando vi que ele desistiu, tentei mudar, não cumpria, mas prometia, não funcionou, nada mais funcionava, mesmo quando tentava fazer cara de prostituta para agradar era cara de Santa Maria Madalena,de Santa Maria do Egito. Tentei de tudo, pamonha salgada, carinho, beijo,ser infiel, nada resolvia, teve uma trégua quando engravidei, menti que era do Adilsom, mas engravidei do meu patrão, engravidei, porque quis, menti que tomava comprimido, lembro como foi disse: “Pensa que sou sua filha” e meu chefinho enlouqueceu, fez a única coisa que me negava, desobedecia, que era gozar dentro de mim, dava tudo que pedisse jóias, roupas mas não gozava, ate quando falei :“Pensa que sou sua filha” ai ele gozou,e gritou:“Desgraçada”e gozou,me encheu de esperma,que prazer, que prazer, o melhor orgasmo e engravidei. Era dele não do Adilsom tenho certeza, mas perdi com cinco meses, falei que ia tirar, não ia, enrolei, queria aquele filho, não ai tirar, mas o aborto foi espontâneo, o Adilson nunca desconfiou, nunca. Engravidar de outro fez bem para meu casamento, gostava de ir pra cama com meu marido embuchada de outro, gostava, gemia, mas perdi, logo me separei, meu amor foi embora não consegui mais segurar o Adilsom, tentei, chorei, implorei de joelhos, mas não consegui, viúva me senti uma viúva, triste, lembrava de quando começou a namorar, me comprava sorvete, passeava comigo,me beijava. Sabe outro motivo minha infidelidade, o Adilsom detestava meu chefe, tinha ciúmes, eu sentia atração por quem o Adilsom não gostava, trair com o inimigo é pior que trair com o melhor amigo. Quanto mais sacana a traição maior o prazer, sair com a sogra, irmão, inimigo, com o enteado o gozo é alucinante. O Adilsom não percebia, homem é cego, chifre nasce sobre os olhos, o Adilsom achava que eu era pudica, que não gostava de safadeza só porque não fazia com ele, coitado, depois que me separei,fui trabalhar em uma boate. Tinha raiva de amar o Adilsom, tinha raiva não dele, tinha raiva era de mim, por ter me apaixonado por ele, quando podia ter casado de véu e grinalda com um ricaço, então só para me mostrar que tinha errado, escolhido mal, que preferi um banana, um corno, era infiel. Casei virgem e era bonita, bonita e virgem pode escolher homem, escolher, casar com o Prefeito e o gerente de banco como padrinhos, flertei com um abonado era bonita e virgem, rico aceita fácil seu filho casar com moça pobre desde que seja bonita, já pai de menina de classe não aceita genro pobre, da encrenca. Edson, era o nome do filhinho do papai, fui burra, juntei os trapos com um garçom, seduzida por sorvete de lentilha, demorei a abrir as pernas, ficava só nos amassos, fazer isto deixa os homens presos, na palma de mão, fazendo tudo que podem para agradar, hímen tem poder, deixar eles apenas acariciam o paraíso hipnotiza, permitir só que lambam um pouquinho, que cheirem a maçã deixa os homens apaixonados, acho que tentei fazer isto com outros desejos do Adilsom, não entregar é uma maneira de prender, mas eu não sabia disso quando era moça, sabia era que tinha medo de perder minha virgindade, parecia que era atacada por uma faca, era como ter um assassino em cima, um sorriso parecia um rosnado, o Adilsom era bonito, depende do ângulo,mas quando tentava, para mim ficava feio,desfigurado,sentia uma angustia de soterrada, não queria, sozinha, eu conseguia, desejava, imaginava o Adilsom todinho dentro de mim. Quando eu casei já não era mais virgem, falei que era, mas não era, eu mesmo tirado com minha escova de cabelo, na lua de mel esperei ate o ultimo dia das regras dificultei um pouco e o noivo nem percebeu. Quando trabalhei na boate Sensual, depois que me separei, sempre lembrava quando morava com a Dona Tere, e que na casa dela tinha uns discos do Abba,do Village People, dançávamos na sala eu a Tere e o Jonh Travoltinha, e no natal fazíamos presépios, era bom apanhar no mato o musgo verde ,tosquiar arvores, puxar sua barba, o musgo parece mesmo uma graminha, ate hoje acho que natal tem cheiro de musgo,eu falei para o Soli:“ Quer saber se um papai Noel e de verdade ou mentira cheire a barba, barba de Papai Noel de verdade tem cheiro de musgo Solivan”.Iamos eu a dona Tere e o Soli, o soli então gostava muito,era como soltar um pássaro, corria de lá pra cá, cheirava tudo, subia nas arvores para pegar bromélinhas e cipozinhos,tudo que parecesse com uma miniatura, que fosse dentro da escala do presépio e por ultimo íamos pegar um pinheiro era sempre um araucária, o pinheiro araucária é feio quando pequenos, magrinho de galhos que parecem um tentáculo, as folhas acabam finas acabam como um espinho, mesmo com de enfeites de bolinhas,de algodão de pisca-pisca, ficava feio, mas aquele feio que a gente olha com compaixão, aquele feio tão feio que da vontade de fazer carinho.Íamos também lavar roupa no rio apesar de ter tudo em casa, o soli ficava correndo atrás das borboletas amarelas.Quando era menina, fugimos da escola para ir ao rio, uma vez deixei que os meninos ficassem em cima de mim, uma fila, deixei, mas eles contaram para todo o mundo, gozavam de mim, a professora ficou sabendo, minha mãe ficou sabendo, apanhei,tomei uma sova, nunca mais confiei em ninguém, aprendi, faço tudo, mas escolho bem, não saio com um canalha, mesmo que deseje, todo o canalha é um retrógado, faz parecer que toda a mulher, todo o homem que se entrega é uma idiota.Assim espalha repressão no bar, envergonha o prazer, o marido que escuta o canalha leva esta repressão para a mulher para filhas. Para mim a única imoralidade do sexo e escolher mal. Sair com um canalha é um retrocesso obsceno e amoral é traição, como um comuna contribuído com a direita, é insectofilia, é transar com barata, é emprestar dinheiro para caloteio gabola, o malandro pega seu dinheiro e ainda te difama. Sabe não trabalhei muito na boate, lugar gostoso de pecar é no céu, no céu, porque no inferno o pecado é comum é sem graça, mas aprendi, aprendi muito na boate. Eu sou bonita, sempre fui muito, bonita e gostosa, todos me olhavam, os pedreiros, os bêbados, os ricos, os velhos, sou loira e linda, mas na boate perdia a sedução que tinha na rua, num baile, não só eu, todas, todas aquelas mulheres deliciosas, fora, podiam escolher homem, na boate, naquela luz vermelha enfraqueciam eram as escolhidas. Todas aquelas meninas num bar tinham os machos de quatro, era só olhar que vinham fácil vinham rastejando, na boate todas as moças tinham que se oferecer, dar descontos, pague por um e coloque em três lugares. Mulher bonita que sabe usar a cabeça e o corpo de verdade não fica na zona, na zona se inverte os poderes,são os homens é que ficam seletivos, cheios de nove horas, reclamam, colocam defeito.Logo que compreendi isto sai, na minha primeira noite que fui a uma discoteca sentir senti minha atração voltar e os marmanjos queriam lamber o chão que eu pisava com seus sapatos vermelhos, homem é tudo igual ,tudo igual,era desejada novamente, sim, fora da boate eu poderia escolher novamente, logo achei um advogado,Dr. Gustavo foi só fazer cara de triste, por ter perdido meu marido, não transar por algumas noites, deixar que ele me ensinasse o que eu já sabia, menti muito para ele, que mentir é a verdade essencial a mais franca e sincera declaração do que queremos ser, ouça sua mentira, a siga, seja o que a mentira ordena, e o caminho mais claro para alguém saber o que quer da vida.E pronto casei e casei bem.casei com um advogado, rodávamos São Paulo, sabe primeira vez que vi São Paulo, foi de passagem, em uma excursão O Soli parecia um abduzido vendo do disco voador a metrópole de Jeová. Fomos para Aparecida do Norte, lembro da basílica, da Rainha Negra, das salas de milagres cheia de fotos, muletas e muitas pernas, cabeças e braços de cera decepadas. O Soli comprou um monóculo e roubou cartões postais e uma caneta em forma de espingarda das lojinhas de lembrancinhas, roubou que eu vi, entrou num museu e cobiçou as pedras preciosas, visitou um zôo caseiro, num terreno vago entre os prédios, com onça, jibóia e um urubu rei encaixotados. E no almoço, ficamos admirando da grande janela do restaurante, a passarela e a basílica, era a foto do cartão postal roubado, milagrosamente viva. Eu ainda gostava do Adilsom quando casei novamente, mas casei,entrei na faculdade de enfermagem, tive meus casos, o advogado também gostava de ser traído, todos os homens gostam, pelo menos os normais gostam de ver sua mulher com outro, gostam gemem de prazer, ao dar a santificada a esposa para outro.Fiquei uma década com o Advogado ele, tinha apartamento, carro e com ele conseguia ser puta e mulher, nunca contei de minhas traições nem que tinha trabalhado em boate, acabou, mas eu fiquei com um apartamento no bairro da liberdade e uma pensão, e ainda somos amigos, acabou porque perdi a juventude, tive uma vida boa com ele, advogado ganha bem ensinando como cometer crimes, sempre dentro da lei. Dr. Gustavo só teve dois problemas na vida, um é que era traumatizado, mas isto ele resolveu ainda moço, acontece que tinha o membro feio, muito feio, mas veja a vida como ela é, quando jovem só pensava em fazer uma operação plástica para deixar seu pênis mais apresentável, e se tivesse dinheiro teria feito, tinha vergonha de mostrar, muita, só fazia no escuro comentava antes“ Gosto só no escuro meu bem” dizia para as raras parceiras que conseguia porque não tinha grana para as mulheres de vida fácil, mesmo as mais baratas tinha que escolher entre sexo ou um prato feito.Conseguiu esconder seu defeito por muito tempo,mesmo de seus companheiros de pensão, mas um dia conquistou uma mulher casada, Cecília,isto que era mulher, cheia de curvas, no auge,no esplendor, uma daquelas exuberâncias que estão no máximo um pouco mais e seria exagerada,mas perfeição esta sempre perto do ridículo mesmo, e aquela maravilha de fêmea miraculosamente aceitou entrar na sua pobre pensão, porem na hora que Gustavo quis desligar a luz Cecilia foi incisiva:“Quero fazer é no claro ou é assim ou nada.ou é assim ou nada”. Era muita mulher para dispensar, Gustavo constrangido resolveu obedecer, tentou se esconder, mas não teve jeito Cecília viu,viu: “Pronto, agora ela vai embora,perdi” pensou Gustavo, mas Cecília não foi, ficou é cheia de piedade, fez carinhos inimagináveis e gostou, gostou tanto que contou para as amigas e todas começaram a procurar Gustavo, já na segunda mulher com quem saio começou a sentir orgulho do meu membro deformado como o Quasímodo, ate mostrou para ao amigos da pensão e nunca mais teve problemas para arranjar mulheres,elas é que brigavam para ver ao vivo como era aquele membro feio que dava dó.
O segundo problema que o advogado teve na vida é que bebia muito, reclamei, mas discutia sozinha e o bêbado sempre calado, só uma vez respondeu, me olhou dentro dos olhos e disse duro: “ Falsa,você é uma falsa, pare de se encher de pílulas que eu paro com meu uísque.” Começamos a beber juntos, enchi a cara por décadas, meu marido bebia apenas a noite, eu solitária naquele apartamento dos sonhos começava a beber vodka pela manhã, envelheci, perdi minha beleza.
Só consegui parar quando nos separamos, fiz tratamento, lembro quando andei pela cidade pela primeira vez sóbria, e vi as ruas claras, coloridas, pareciam novas, estava tão acostumada de ver tudo bêbeda, este era meu estado normal, que a sobriedade foi meu estado alterado, sentir a lucidez depois de tanto tempo foi uma viajem psicodélica, me senti tão feliz, tão bem, que me lembrou a primeira vez que cheirei pó. Era perto do natal, nunca mais soube da Dona Tere nem do Soli, recebi tristes noticias do Adilsom ouvi que tinha voltado para o Paraná e que a mulher dele tinha o enganado bem quando se recuperava de uma cirurgia no coração,a safada deixou ele na cama e foi em uma destas festas de escritório e beijou o chefe, ninguém tinha visto, beijo escondido, mas ela voltou e orgulhosa de seu feito e contou para as amigas, quanto o Adilsom soube pegou os fios elétricos da televisão, do ventilador, do ferro de passar, trançou uma corda e se enforcou. Faz uns anos comprei um vinil estranho na praça Dr. João Mendes era a marcha fúnebre de Chopin, mas em ritmo de valsa quando soube que o Adilsom tinha se enforcado coloquei o disco na vitrola e dancei sozinha na sala, ainda amava o Adilsom. Sempre amei.

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