terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A mineração do eu no outro




D’ia
Trabaiei poco co pai dele, eu morava nas lonjuras
dos canhadão do Mato Queimado,nos cafundó,
uns arguere adiante donde o diabo perdeu as bota.
Ia di a pé pra cidade, galo inda cantava,
triste decha a roça,virava pra oia otra veis
a veia co chimarão no rancho luniado de lanpião,
e sumia na seração.
Tinha de cruza quizaza, potrero, pirambera, pinherá,
taguará de tudo lado pra chega na Queda.
Daí dormia no patrão, nos fundão, na dispensa junto co traiedo,
pertado, parecia patente, briava de varejeira,
eu dipindurava unas carça, japona, tudo ensacado
no prego das lingüiça e ia pro serviço.
A moradia era de pinhero prantado por graia azur,
dubado de bosta de anta,mijo de tigre.
Pinhero dos grande,unhava céu,
florado muita pinha te se serrado.
De a frente da casa era cidade, atráis mato,
te os passarinho erum deferente,
pardar dum lado ,nos poste de luiz
e canarinho dotro, mos matagar.
Pra diante
ia pras bodega,trabaia de bastece as tobata,os toreiro,
nus domingo vê firme,nas matine do Mazzaropi,do Texerinha.
Sábado pros baile ranca rabo, dança vanera, panha dos polaco
corre das tiraiada.
Nos fundo
arma rapuca, roba mio, melancia.
Sistia poco teve, era benzida pelo Padre Sismundo
problema que invergonhava, vermeava de i na sala
e do mais, na teve não tinha butiá, quero-quero nem lambari.
Tinha a tar da novela e firme de tiroteio,
de bichinho que falava.não gosto, mais o Soile gostava,
tarde intera, despois pintava osso do peito
de galinha e dizia que era nave espaciar azul.
Bão também Jogava bulica, futebor nas estrada, nos campinho,
voltiava de bicicreta, ia pega bergamota nos confins do Judá.
Quando tinha pechada de carro, velório,
baleado no samambaial, em bodega.
um pia espaiava pro’tro e ião de turmada na novidade.
Ate vaca morta cheia de urubo, iam vê.
Pia é bicho do jchãnho.
Despois se pelava de medo de baleado parece de noite
pegava a durmi só de luiz acessa.
Te parece, luiz não espanta sombração
tem que faze benzimento, joga água benta pra resorve.
Via lobisome,
e oia que lobizome daqui não é bicho brabo,
chupa ovo, pega galinha manca, distrambeia na primeira acoada.
Deve ser cruza de home com quaipeca manso.
Pra esses lado nunca vi fala de lobizome taca gente..
Boitatá intão, qui nos canhadão, nois doma,
usa pras lida,traze tropa de melore,da vortiada,
faze pinhão no fogaredo da crina,
pinhão mio só assado na grimpa.
Que sombrava memo era a Kombi branca que seqüestrava,
marava na soga, bem,dava nó,levava pra taquarazuzar,
tirava as morcia, os bofe da piazada e vendia pros estrangeiro,
despois atirava os guri no Iguaçu, na seva das traira.
De visage, repiava a muié de seração que rodiava o cemitério veio.
Otro, que de veiz em quando
parece na praça de buchada pra fora
diz que tira madera na sexta fera santa,
o pinhero caiu em riba dele, istribucho.
O Soile não queria sabe de i pra aula, burro que era uma anta,
rodava, istudiava só na suiterada,no laço.
O dele é cata fruitinha do mato, se metia nas capoira
trais de sete capote,maria-preta,coquinho,ponta de grimpa verde.
Tinha té carero pro vacum,tudo que male mar dava pra vê,
tudo piqueno,vacum intão é pingo d’sangue.
De boa jaracatiá,banana de mico,ariticum,só no mais longe.
Era mintiroso, gargantiava que tinha luitado cum jiboia
numa quizaza de preá.
Amostrava ranhado de taguaruçu e dizia que era dentada de onça.
As veiz se fazia de índio, cum pena de carijó,
se a negada do posto via, gozava,vinha de pedrada.
Mais gostava memo era de gibi,
ia pega na livraria do Seu João.
Seu João tinha prédio bão, de primera,feita de materiá,
teiado de ternite, teia é coisa veia, casa boa tem ternite.
Tamanho de duas, uma cima dotra,
baxo gibi,caderno,cima moradia,
de zulejo bunito ,enfeitado de flor.
De veiz eu garrava compra um caderno, mais nas vendaiada,
Pra faze palhero, de foia caderno é mais atuar,
inte parece cigarro da holiude.
Seu João ensinava cartilha n’aula
interigente, sabia das Bibria,dos jorna.
Morada na bera da igreja.
Igreja bonita,parecia com das Europias,das de foinha,
co vermeio das chaga de Jesuis.
Mais do longe, nem parecia se de anjico.
Padre Sismundo, ia pras linha de matungo veio, cabado.
Quele tempo, de trais,nem tinha estrada,
ia pelo carrero feito no fação pros interio,
no caminho da onça, facir pisa em urutu,cascaver,
tinha de travesa matagar brabo, chegava ardido de urtiga,
espinhado de cipó unha de gato, inchado de abeia.
Hoje já tem condução tudo facir.
Rezava missa bunita ,enveredava pros conseio,
dava sermão pras muié que ia de saia curta pra igreja.
Tinha ocurus de grussura,tanto lé, acho,cansa as vista.
Assunta como se comprava ocurus d’grau.
Ia na venda mió,maió, nas do Franzoni,
lá tinha balaio de taguara cum monte de ocurus,
escoia,ficava pondo e tirando dos óio té um acenta,
té vê bem as coisa,se não nuviava mais as vista
comprava,o Falecido pai comprava ansim.
Então,vortando, o Soile garrava no gibi
um veiz em quanto,eu zoiava um tar de Tequis,
de outro, co de pitanga ,sombração,
alembrei Fantasma, prestado do Irson.
Mais i os dele era outro,via os não seioquelá dos homeranha
e saia luita com samambaia, mandioca, mata-campo,
entrava pra pega pão moiado com açúcar
e gasosa Serramalte e vortava pras guerra.
Eu tenho radinho, de prastico marelo bunito.
Escuito futebor, jogo do inter ,violero, pograma de pulicia.
Quando fui pra Sarto do Lontra
toquei de compra na rodoviária um vrinho de fareste.
Sabe que inte foi bão vé o vrinho,
quando vortei deitei no pelego
e oiei debaixo da cabriúva de carnea vaca.
Mas não comprei mais,demais de caro,
tinha que guarda pras pia.
Tinha uns de muei pelada,de teta tudo de fora,
Escundi no paió, os rato roeram as mio parte.
Desgraça de rataiedo.
A mãe campeava se catasse ia pro fogo, virava lenha.
O Soile
parecia que nunca tava onde tava,
na rede dizia que tava num caico
e balangava inte no teto,
o teto tinha mais de pezada
que a entrada da moradia.
Subia no teiado,qui era a lua e despois.
se destrambeiava de guarda chuva lá do arto.
Oia,não sei como não se quebrava,
piá tem bicho carpintero no coro.
A casa? era bunita, a dele, grande.
Qui em Queda, eitá lugar de moradia tudo iquar,
parece um c’otro,num tem sobrado cum sotam,nem porão.
Tudo quanto é teiado abre asa pra direita, faze área.
O gente pra gosta de uma área.
“Entra” é só modo de dize, se traiz as cadera
e as visita fica no fresco.
Área é o abraço da casa,
lugar de recebe os cunpadre, toma chimarão.
Tem servendia de garage também,
se chega a parentaida e só vastra o fusca.
A moradia dos bonado são parecida, muda só tamanho
ou feita de materiá, teiado de ternite,
mais o jeito é mema coisa.
Otra deferença me toca dize
é onde se pranta as pranta,
samambaia, espada de São Jorge tudo mundo tem,
só que nos de dinheiro é no vasos,
as outra, dos minquera, é no galão de tinta Rene.
A do Soile era de samambaia no vaso
é rico é bicho fraco memo,
o piazedo não gostava, decha de lado.
No futebor parece chuta purungo,
na bolica, não certa na caseada, no bulico,
num sabe sorta pandorga fica distranbeiada,num avoa.
Ai pegava de fica tempo enchaviado,
cós sordadinho de paper tizorado, guerriando.
Escuitava da porta tando tiro de metralhaiadora ca boca
era ingraçado escuita, num dexava entra de jeito manera.
O Soile era lazerento de ruim no bodoque.
Veis co primo dele chego, fizero um de borracha cansada
e forquia de basorinha, oia não prestava pra nada.
E saíram campiá passarinho, não certaro um,
Daí, aresorverum de pega da gaiola o papagaio peito roxo da famia
cortaro as pena da asa e sortaro,
e dele pedrada no coitado te mata
truchero o bicho depenado
pra mostra que consequi caça
despois que a Dona Tere descubriu que era o Papagaio Peitoroxo
dela as piazada panharum, mais panharum de fica vergão.
Eu quando era novo,lá nos canhadão
carpia as roçada debaxo de sor,
o de friu de racha os beiço,a zorelha.
Gostava de vê carro passa,corre di atrais,te não pude,
despois ficava vendo os rastro dos peneu.
Te cubria as marca cum foia de parmera
pra dura mais,protege dos temporá.
Ficava chola de mostra pros outro
que passava artomover na nossa roça.
Catava pedra caprixada pro bodoque
e ia mira no peito dos sabiá na amorera,
na pinha das juriti nos gaio da canafrista seca.
Perdoava nem curuira, bicho nanico,tem de se bão
certa curuira e qui nem certa no zoio do boi.
I pro rio pula de cipó na’qua, merguiá
e pesca,faze sem-vergonhice.
Sabe lambari? pexe prata e azur,
piqueno ma bastante no Iguaçu tem de monte,
pega facir,de kilo, se joga quirela.
Ma io o bão é faze lambari arecém pescado,
numa fritada,mais radite e polenta,e de lambe os beiço.
O probrema do lambari é as brigaida de casar.
Causa de Lambari oiei os tempo muda.
Pra’onte inda, home pescava e muié limpava,
hoje’dia, mudo, home não manda mais,
causa das novela da Grobo,sabe?
Muierada ficam bizoiando as tar de novelas,
daí prende das modernidades, que trabaia fora.
A minha qué por qué ser zeladora da iscola Castro Arves.
Hoje’dia o home tem que pesca e garra de tira buchada
ainda frita, se muié toca de limpar, oia da desquite.
E torresmo, eitá torresmo, de porco sorto,
criado na lavage, de encraxa os bigode.
Torresmo se escoie, garimpa o mais meio.
Têm muito só graxa e coro duro
de quebra dente do fundo, poco de carne,
negocio é cata que rareia.
Bão é co a companheirada de bodega, cum pinga,
na torresmada tudo iguar , não tem rico,
cada que se ajeite pra acha pedaço que preste.
Passa pra todu o mundo,
gara um, ponha no sar co vinagre e pra dentro.
Torresmo da problema de congistã,
mas não é como outra, que quando torce as tripa,
se pega nojo, torresmo despois de meiorá,
já da vontade de novo, torresmo é assim.
Na bodega vorta e meia parece arquem com torresmo,
Pra deixa os amigo contente.
Vo pra bodegade veiz em quando, joga um pontinho,truco
se esconde de tormenta.
Que dia de chuva não da pra carpi,
e dia de sol é de mais de quente.
Vo pedi um galeto,ovo na salmora, paster
pra come cum gasosa.
Só não me vai pinga com mistura,
mania, estraga pinga cum gaio,cum quizaza,
ponha mestruis, preteia com jaboticaba,
marga com milome, doça com butiá.
Me petece cachaça da pura,de lambique
dose da boa,desse ranhando,de enguli gato de ré.
Só tomo uma cum aio só guando me taca gripe,
o cum losna pro estomego.
Oia bodega não e só pra home,home fica,
bebe, joga sinuca,baraio,faiz gritacera de truco
fica queito no treis sete,na moita.
Mais guri vai compra doce e sai.
O Soile se cabava no doce, não jogava chicle fora,
colava o baita de debaxo da mesa,na geladera
notro’dia pegava de vorta, pra masca de novo.
Bodega se iscuita caso.
Meu cumpradre conto que pesco onça.
O home tinha pego baita pexe,
não é que a pintada se taco na carpa-capim
e o anzor fico prendido na boca dela, bandonei.
Mataram o coitado do meu cumpatre.
Se meteu numa tramóia,
fizero espera na piramberra, perto do córrego.
O capanga sabia o carrero da paca,atiro.
Triste vê, cheio de bala, uma bem no zoio.
Era bão, alembro bastante dele.
Dia ele ia bebe uma pinquinha,dozinha,
falei pra mangá
-Não joga poco pro santo?
num talagazo entorto tudo e prozeo
- Vô não, joga você que é infier,
meu Santo mora qui dentro do meu peito.
Eee sardade, vorti e meia penso nele,
de quanto nois ia pesca,caça, nos bailedo,
cum ele não tinha tristeza.
Se carniava porco,me dava um pedaço,do meió,
mais umas vorta de lingüiça, se coiá borora trazia,
Mandioca intão, de braçada, e quejo, mio verde,
inte galinha limpa,cos miúdo tudo rumadinho no vazio.
Foi coitado, dá nó no peito paifioespiuritosantoamem.
Vá cum Deus cumpadre.
Eu não costumei na cidade, vortei pros canhadão.
Gente vai pra cidade, só pra trupica,
chupa picolé,perde lotação.
Se crio no mato, no mato tem de mora,
cuida da criação, joga mio da galinhada, gosto, vem tudo em vorta.
Cria porco sorto, desenferruja
a quarentinha nos cambuta, nas paca.
Pega quabirova e ovaia no potrero,
sopra as bosta da vaca é manda pro bucho,
Sai e vorta cós borso cheio de butiá,vida boa.
Inte mais.

Poema e fotografia de Solivan

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Conversa sobre o Senhor Prutok




Não, senhor Prutok
infelizmente, seu plano de saúde
não lhe dará eternidade.
Pensei cinicamente,
enquanto ouvia
durante nossa partida de xadrez
o senhor Prutok
falar longamente sobre seu plano de saúde,
e das sete maravilhas tecnológicas
feitas para prolongar o sofrimento.
Eu estava voltado para o portão, com meus sapatos
imantados pela rua.
E achei novas ranhuras no visor do relógio.
Gosta de mim o velho, traz pistaches, narguile.
Deus, como é tedioso ser amado por insossos.
Como me irritei,
mas fixei uma agradável máscara da comédia,
quando me perguntou.
- Gostou do vinho?
- Sim, sim algo frutado, de um rubro intenso.
Calei, mas minha alma continuou.
É também marcante a presença
de acidulantes e conservantes
e tem um bem definido odor de aromatizante para
[automóveis.
Só Liszt dava-me certo alívio
engraçado esses pianistas
cumprimentam a platéia, sentam-se
e tiram sons maravilhosos
dedilhando presas de elefante.
Tem um analgésico?
Minha têmpora lateja como um coração.

Poema e fotografia de Solivan

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O cubo (Fragmento)



Desejava ainda ser o herói que todos esperavam, mas não conseguia, a absurda falta de acontecimentos me impedia, meu orgulho estava oxidado corroído, e sem o suporte do orgulho a espinha não consegue deixar o corpo ereto. Passei a ser cínico e amargo, escarnecia a humanidade, aliás, nem somos humanos ainda, somos híbridos de instintos siamescos apenas atenuados, semi-selvagens, uma raça na puberdade, cheia de ereções, que precisa conquistar, derrotar, de júbilo não de paz, encha de paz e segurança a humanidade e os índices de suicídios aumentam. Como híbridos não temos a verdadeira liberdade do selvagem, que está na luta franca dos animais pelo poder, uma luta que longe de ser apenas a lei do mais forte, e também da velocidade, agilidade, fugas, de camuflagem e venenos, uma luta sofisticada como conspirações palacianas, uma liberdade bem mais elaborada e real, que não é tolhida por leis, dúbias, cheias de interpretações, um engodo que aprisiona lobos para que os leões possam engordar seus cordeiros. Se o natural é perfeito e busca seu equilíbrio, o que é tocado pelo monstro híbrido chamado homo sapiens, torna-se grosseiro, a árvore é perfeita, mas sua lenha tem algo de tosco, porque tocada por semi-selvagens, deixamos tudo que tocamos rude, inacabado, nada é conclusivo, sejam, leis, sistema político, filosofia, tecnologia, em tudo temos que evoluir, e se temos que evoluir, substituir, é porque não chegamos ao perfeito, talvez quando alcançar a condição de homens voltaremos ao perfeito, mas enquanto híbrido, não confio neste símiomem, em sua evolução convulsa, que cria sistemas achando culpados superficiais, sem levar em conta seu verdadeiro inimigo, os instintos, a vontade que temos de nos sobressair, a sede de poder, quando o socialismo acabou com o poder econômico, este foi rapidamente preenchido pelo ainda mais truculento poder político, os instintos infelizmente sempre acham seu lugar.


Conto e ilustração de Solivan

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Minhas Fotos ao som de Debussy.

video

Talvez a jabuticabeira seja feliz


Banho de Sol

Numa manhã fria
tomando sol
num pedaço de quintal
entre uma jabuticabeira
e um resto de horta abandonada,
velhas roseiras
e entulhos.
Fechei meus olhos
fiquei ali,
o ardente amarelo
transpassando
minhas pálpebras fechadas,
inerte,
só sentindo
o calor agradável,
sem pensar em nada,
sem ser nada.
Não existir
foi delicioso.
Quando abri meus olhos,
pensei:
Talvez
a jabuticabeira
seja feliz.

Foto e poema de Solivan

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Crucificaram Jesus no Cristo Redentor



Um protesto para os novos fariseus que fazem das leis brandas que Jesus deixou
uma lei de pedra,por isto Jesus esta crucificado em um Cristo de pedra.

De Solivan

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Mimetização




Chore apenas sob a chuva
ou dessalinize sua lagrima
e a esconda em sua piscina.
( Se a esconder no mar é desnecessária a dessanilização)
Só abra os olhos no escuro
ou pelo menos apague a luz para ler.
Goze para um banco de esperma
e leve a lanterna e o isqueiro
quando viajar ao centro do sol.
Escute Bach quando o aparelho de som estiver estragado.
Fale somente após colocar a mordaça
e diga sempre:“ Não pertenço a um cardume”
já que todos do cardume tem este mesmo lema.
Mas não se esqueça de desconsiderar
o surdo que fez a nona sinfonia.

Poema e fotografia de Solivan

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Apontamentos sobre minha dislexia e daltonismo.




O daltonismo
amputou algumas cores
do meu olho.
Por isto
esta dor perante o arco íris.

A dislexia faz minha mão gaguejar erros quando escrevo.

A dor é colorida,
havia dor no quarto amarelo e nos ciprestes retorcidos de angustia.
Dor quando cinza é uma dor daltônica.

Livros me foram incompreensíveis e fascinastes,
os lia com imaginação mística que quem lê búzios.

Quando não consigo saber uma cor, cheiro,
sei o odor do vermelho e qual é o perfume do verde.

Não sei quando o flamboyant sangra flores,
nem onde esfaquear uma palavra com acento agudo.

Poema e ilustração de solivan

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Diretrizes para um poema ao modo de Sylvia Beirute



não tema a emoção no poema,
pese,conte, analise sua dose, e a multiplique se precisar
e lembre-se, multiplicar é um calculo.
aliás, não tema o calculo, mas com cuidado
os números podem ser excessivamente sentimentais e esotéricos.
e também não tema o humor no poema,
a ignorância, a morte, a violência, as traições
são tão engraçadas, vide as comedias e as piadas.
não tema a beleza, a procure a direita do alvo ou a esquerda
nunca no centro,porque o mais provável, com mais chance de
acerto é o errado.
mas se esta acertando muito ou mirar a direita ou a esquerda
então mire no centro,lembre-se, a maior chance
de acerto é o errado.
ainda sobre o beleza, é fácil encontrá-la no feio.
e outra não tema a influência, sem a influencia
o poema nunca terá originalidade.
e um das causas do antagonismo é uma paixão mutua.
não tema o antiquado,a procura do novo é antiquada,
nem tema o futuro, ache-o com escavações arqueológicas.
e por ultimo não tema o escândalo,exponha o poema ao
escândalo, o escândalo é o inicio da aceitação.
e saiba da transmutação dos antônimos em sinônimos,
e fazer da exceção a regra.

Poema e ilustração de
Solivan

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

trecho da peça "Presos na liberdade".

GRÃO
- E bom descansar, vou ficar aqui até aparecerem escaras.

CRUZ
-Céu, oceano, sem decoração,
não suporto, eu sou exuberante.

GRÃO
-Reencontramos as cadeiras, elas me dão paz
são as mesmas de ontem.


CRUZ
- Será?
ontem não tinha uma flor.

GRÃO
-São as mesmas,
as mesmas que encontramos todos os dias,
as mesmas desconfortáveis, velhas e com as marcas de sempre
que nos esperam todos os dias como dois cães doentes mas amigáveis.

CRUZ
-Você olhou para as marcas da cadeira?

GRÃO
-Quando começaram a se repetir, repetir, repetir
prestei atenção, as marcas, há nomes nelas,
palavrões e corações com iniciais.

CRUZ
- Outros perdidos já mortos e suas marcas ruprestes.
as cadeiras parecem duas putas velhas tatuadas
abandonadas num presídio.
Uma delas enfeitada com uma flor.

GRÃO
-Será que o casal, quem?tem curiosidade?(incompressível como quem quer
falar três frases em uma)

CRUZ
-Que?Que casal?

GRÃO
-O coração com inicias, será que ainda são um casal?(mais articulado)

CRUZ
- Duvido, isto e muito rude, estéril, amor precisa
de pelo menos uma pluma,
um traço de perfume,um pedacinho de cetim.

GRÃO
-Certos pássaros fazem ninhos com pedras.

CRUZ
-Esta vendo alguma pedra?

GRÃO
(Mudando de assunto)
- Gosto de retornar,
voltar ao início,
sair da rota migratória nos levará ao nada.

CRUZ
-Ou ao antônimo.

GRÃO
- Aqui é mais confortável,
pelo menos chegamos.E há a flor.


CRUZ
- Chegamos a duas cadeiras velhas,
com um coração rasurado, palavrões
e uma flor. Notou como corações amorosos
e xingamentos estão novamente juntos,
(Desdenhando)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Decantação ou águas coloridas






Antes de serem bebidas
pelas cidades
as águas deveriam
refletir o verde amargo das arvores
iria fazer bem para os estômagos
e serem coloridas
pelo amanhecer
e o entardecer.
. Então esta água
terá muitas cores, mesmo sendo incolor.
Com o homem que viu quadros abstratos
tem cores dentro dele.


fotos do Rio iguaçu e Poemas de Solivan

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Poema feito com sobras de outros poemas.






Não gosto de decorar poemas,
prefiro falar poemas com um livro na mão
o livro é meu instrumento musical.

É uma insensatez
seu bom senso.

Vinho
feito com uvas do Edém.

Assepsia me causa
intoxicação alimentar


Retorna a Ithaca NY
Enfrentado uma jornada
de ventos e perigos
a frágil
a borboleta monarca.


São Paulo quase não tem estrelas.
Eu e as estrelas preferimos
as cidades pequenas.

Que seja lei,
as estatuas
de Manuel de Barros
devem ser sempre de argila.

Mesmo no inverno
o mar tem cheiro de verão.

Sou o mesmo incoerente de sempre.

Cortem todas as arvores,
mas por favor deixem as sombras.

A morosidade
é inimiga da perfeição.

Havia uma pedra
no caminho de Davi.
Havia uma pedra,
felizmente havia uma pedra.



O sol faz
malabarismos com os planetas.

Extrai mel do sal.

Sobre a indignação,
notei que
soco na mesa
é sempre na silaba tônica.

Um tiro
e o poeta
sangrou uma bandeira soviética.

Anjo marinho
com as barbatanas amputadas.

Fico aqui
lapidando vidro.

Tudo é melhor quando feito com carinho
ate mesmo sadomasoquismo.

A chuva
cai como crinas,
nuvens galopando.

Todo o grande romancista é poeta.
Todo e grande dramaturgo é poeta.
Todo o grande poeta é poeta.

Pintar uma marinha me lembrou
quando acariciei seus cabelos.


É bom o pesado livro de Bolanõs,
e me deixou com o ante-braço mais forte.

Ó Virgem Maria
cresce no teu ventre
a perola
que falará de paz.


Amor quebrado em mil pedaços,
porem ela sabe montar quebra-cabeças.

O profeta
recorda o futuro.

Vida é um cavalo dócil
que enlouquece
ao sentir o cheiro da velhice
sobre suas ancas.

Faço meu chá com águas do abismo.

Platéia de carrancas
do São Francisco para sua comedia.

Sal que adoça meu dia.

Gargalhar tem um som
parecido com o de soltar pombos.

Beethoven,
A sinfonia é tua alma
que se desprendeu do corpo.

Vou esculpir uma Vênus renascentista
usando como pedra o urinol de Duchanp.

Hexágono amoroso

Mesmo
Que me cortem a asa direita,
Reaprendo
e alço um vôo torto,
só com a asa esquerda.

O mais importante em um poema são as perguntas,
mesmo que o poema não tenha perguntas.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

revista Babel 2

Amigos meus poemas sobre Quedas Do Iguaçu,minha querida cidade,
estão na Revista literária Babel 2
editada por Ademir Demarchi

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Oferendas dos homens para os deuses




Ó Iemanjá, a rainha do mar
Beba os esgotos que te ofertamos

Ó anjos, Ó querubins, Ó belo e corajoso Arcanjo,
Receba em suas nuvens alvas
As emanações dos escapamentos
E dos chaminés de fabrica

Ó Hades, Ò Netuno
Aceita estes rejeitos atômicos postos em teu altar.

Ò Gaia,
Em tua formosa boca colocamos os aterros sanitários,

Ó Apolo,
Do belo loureiro que tocou
Cortaremos os galhos
E os braços de Dafne,os seios,
Serão incinerados em uma termoelétrica.


Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Lembra Neuzza Pinheiro

Este poema para Neuzza Pinheiro que esta com seu seu livro novo"Pele e osso"




Lembra Neuzza, eu lembro como se fosse hoje
quando disse :

Olha Neuzza um Pinheiro carmim.

Olha Neuzza ,olha, no Pinheiro estão nascendo maças.

Olha Neuzza um Pinheiro com cheiro de mar e rosas.

Olha um Pinheiro florescendo como um ipê.

E foi assim a tarde inteira,
como que te alimentado
do que tinha de belo onde eu moro.

Neuzza, Neuzza,
como gosto de te mostrar coisas bonitas,
Sabe
teu nome tem um gosto de Paraná.

Lembra Neuzza, quando vimos
as cataratas brancas como os cabelos de minha avo
da ponte, dos rios e dos perfumes.

E então anoiteceu e você cantou,
respirávamos na mesma sala
mas quando exalava
o que saia do seu peito era canção.
Foi bom ouvir
seu peito moldar o ar
e fazer dele musica.
É bonito
quando algo simples transmuta-se em belo.

Ha Neuzza, lembro tanto de tua voz,
tenho certeza Neuzza,
que na noite que você foi gerada
teu pai bebeu vinho
e tua mãe comeu pêssegos aveludados e pombos no jantar,
por que é destas substancias
vinho,veludo e pomba
que é feita sua garganta canora.

foto e poema de Solivan

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Estranha cidade

Este é poema sem esperança,acho que poucos irão gostar da uma estranha mistura de rock
e regionalismo,acho que só um quedense pode entender, mesmo assim gosto dele e vai para meu livro,e um poema em homenagem a uma banda de heavy metal que nunca existiu ou só existiu em mim chamada falange é uma das dez cancões para uma banda que nunca existiu
Solivan

Estranha cidade 1987





Mãe, não vou a barbearia Dalila escalpelar meus
cabelos, nem suturar meu jeans ou fazer uma
reconstituição facial do crânio em minha camiseta,
chuto a mesa de centro, gane com o fêmur quebrado
bato a porta num estampido de tiro,as juritis voam

Crem no local do crime, o canibal é paranaense

Na rua os braços decepados dos ligustros
Céu ferido,o entardecer esta ensangüentado
E agoniza como um corvo apedrejado
Há em mim o grito silencioso, desesperado
Sonar de um animal em extinção no cio

Vodu em uma Barbie com espinho de taquaruçu

A vizinha reza na janela como em uma vitrine
Com seu terço feito de calmantes coloridos
É uma destas senhoras viciada em pílulas
Que pedem para seu marido parar de beber
Já me cuspiu Aves- Maria com hálito de tráira.

O vanerão dos afogados com a noiva do mirante

Passo por bares feitos com araucárias mortas
Salões de beleza e lojas rosnam quando passo.
No restaurante há pessoas desconhecidas bem
Vestidas, em carros estranhos, morreu alguém
Esta cidade só recebe visitantes em funerais

No Paraíso um novo anjo com asas de gralha azul

Cova recente no antigo cemitério dos polacos
Entre rosmeias carpideiras e túmulos cariados
Acendo meu baseado num fogo-fátuo e vou,
Com o spray cheio de sangue de um kaigangue
Atropelado fazer o ultimo grafite no colégio

Fabrica de bestas e mordaças sabor de piroqui


Foto e poemas de solivan

terça-feira, 11 de outubro de 2011


Dissecação da felicidade

Há felicidade
no crime com o processo envelhecido
como manuscritos do mar morto.

No soco daviniano num estacionamento.

Nos paleolíticas êxtases religiosas pentecostais
porque Deus nasceu numa gruta decorada
com euroques e cavalos.

Há felicidade
quando um sacerdote asteca reencarnado transplanta corações.

Na heresia
ao desrespeitar os dogmas da evolução num gozo
não reprodutivo em um banheiro público grafitado.

No regozijo ocidental
quando maças do Édem envenenadas com átomos
caíram sobre o Japão.

Há felicidade
na satisfação reconfortante
de beber rum pela manha
como Cronos engolindo seus filhos.

No comer um hambúrguer
quando a vaca hindu
e o trigo milenar passam sua vitalidade a um Office-boy.


Na agencia de automóveis
quando um visigodo web design
excitado pelo cheiro de cio dos carros novos
fatia o valor em sessenta pedaços salgados.


Há felicidade
em correr no parque com um Nike novo,
após roubar um cetro.

No trazer
do supermercado carne e cerveja para um churrasco
como canibais trazendo membros e cauim.

Na sonegadora fabrica de iogurtes
que se expandem como macedônios.

Há felicidade
no passear por babilônicos shoppings.

Nos ambientalistas hospedados no Hilton Hotel
como lideres comunista em seus palácios
que qualquer poder é aristocratizante.

No descobrir um novo agrotóxico para figos
cujos componentes químicos são à base de Lívia e Drusilla.

Há felicidade
no assistir corridas de formula um
e torcer pelas bigas vermelhas.

Em beber alquímicos coquetéis em bares.

No poder inquisitorial das editoras
de queimar livro com recusas
ao aprisioná-los em gavetas escuras como masmorras,
seguindo cegamente o Sumo Pontífice Mercado.


Há felicidade
no abortar
com segurança na luxuosa clinica de obstreticia Medeia.


No pedir demissão de um escritório contábil
e ir morar num quilombo.

No usar sapatos de couro italiano
elegante como nobres Maias em pele de jaguar.

Há felicidade
em achar salsichas de hot-dog feito dentro das leis islâmicas.
que Maomé como Cezar se manteve no poder após a morte,
já Stálin foi deposto messes depois de morrer.

No comprar um diamante na Tifany
sem lembrar dos negros cadavéricos como judeus no holocausto.

No vender ovelhas para o frigorífico,
por que matamos os lobos pelo mesmo motivo
que leões matam hienas.

Há felicidade
em comprar um filme pirata do Spider-mam,
tão fácil como comprar imitações
da estatua de Atena na Ágora.

No executivo da júpiter S.A.
com uma prostituta de luxo
vestindo couro de preto de vaca
como Europa.


Na estrela pop deificada como Nero
que cheira coca nos intervalos dos shows.
Mas cuidado, que o inferno
é seus desejos elevados ao máximo.

Poema e fotografia de Solivan

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

O interior do tempo


Conheci
o interior do tempo
a fabrica do tempo
e olhei as Tecelagem de rugas,
milhões de teares,
e sua boca, a terrível cratera dos esquecimentos
e sua fome abominável, interminável
onde caem as vidas, estatuas, os livros
as cidades,
onde caem quase tudo, quase tudo.
Só umas poucas coisas paradoxais são recusadas
como as guerras e o belo,
o belo, o realmente belo
é indigesto para a boca do tempo.
Vendo tanta destruição
minha alma cansada, prostrou-se
e murmurou-Estou diante do divino.
Mas ouvi Maldoror blasfemar
E gritar, um grito terrível
que saia de sua boca como sangue,
o ar do grito vinha de uma ulcera do seu estomago
não dos pulmões.
-Tempo, você é um Deus fraco!
só pode ir,
Porque não volta, retorne
se é tão poderoso?
refaça esta maçã mordida?
Isto não seria simples para um deus?
ou torne velho o menino desta imagem.
E o Tempo tentou e se contorceu
e vomitou ossos e pelos
devido ao extremo esforço
como uma coruja regurgita o rato.
Mas só conseguiu
apodrecer a maça,
envelhecer e rasgar
a imagem.
mas o menino retratado permaneceu belo.

As verdades ulceraram os ouvidos do Tempo
e Maldoror foi crucificado em suas próprias asas
E para se alimentar tinha que comer
suas próprias vísceras.


Poema e ilustração de Solivan

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Transgressão da matéria



Se mineral são todos os elementos
que formam a vida
então é o sentir
uma transgressão da matéria
portanto
quanto mais percebe um homem
mais distante fica do real
Somente quando ossos
Passamos a ser algo solido
Passamos a existir com contundência
Sermos reais, quase que definitivo.


Ilustração e poema de Solivan

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Jazz session



Jazz session


Minha alma
tem um revólver carregado
com seis peixes de prata
e toureia um Minotauro
e apanha pássaros com uma rede de pesca
e vê guardas ingleses treinando
para serem homens estátuas nas praças.

E imagina árvores que no lugar de folhas
tem lambaris
brilhando ao sol.
e o vento e o vento
minha alma gosta de viajar
agarrado nas crinas do vento
de hoje até ontemontem
e grita.
Um corte no indicador de um escritor é como corte na língua.

Minha alma vai indo fluindo
fluindoevindo

Visita à lua crescente,
abre a boca e se amamenta
de um raio solar.
e viu Deus
e ele espalitava os dentes.
viu
marcianos e eles comem apenas
folhas de eucalipto como coalas
e também quis
brincar de moldar
genes de leões.
Leões em miniatura,
leões negros,
leões camaleônicos,
leões bioluminescentes,
leões coloridos,
mega-leãos,
leões malhados,
leões poodle.

Minha alma é errante toca em tudo.

Entra nas cobras,
entoca-se no cerne das árvores,
nos rios,
em balaios kaikangues,
dentro
de uma andorinha em migração,
dentro de um abutre
e consegue comer como carniça com gosto.
Minha alma entra
numa orquídea e explode em flor.

Cavalga no centauro Gerridae
pelos sete mares.
No grifo Actias Luna
que voou em torno do sol
até morrer.

Minha alma viu
o caçador levar a anta abatida
nas costas até o shopping center,
estaquear, carnear e comer.


Minha alma sentiu
e gritou:
Beethoven, Beethoven!
como deve ter sido difícil
e pesado levar dentro
do peito a nona sinfonia,
deve ser como ter uma tempestade no peito
se debatendo dentro do útero,
chutando a barriga.
Que alivio quando finalmente nasceu.

Os olhos de minha alma.
Os olhos de minha alma.
Grudam nos livros,
tromba de pernilongo
sugando, sugando o sangue dos livros.
Mãos de carrapato grudam na capa dos livros e não querem mais soltar.
Hematófago,
o vampiro Desmundos lambe livros com sua anti-coagulante secreção,
suga, suga a essência dos livros,
seus eflúvios,
seu ectoplasma,
minha alma se alimenta dos livros
e passa para eles doenças sexualmente transmissíveis.


E os olhos de minha alma engolem
programas de televisão
revistas, viagens, seios,
e transformam tudo em poesia.

Minha alma tem sede de poder,
quer tudo o que é belo,
quer demarcar meu território com urina
em qualquer arvore bonita,
qualquer montanha elegante,
ou por de sol cor de rosa.

Minha alma sabe
de um boi que caçava galinhas.
Se uma galinha
passava perto dele
virava pasto.

E que o ditador Somoza
comprou uma estatua eqüestre de Mussolini,
em promoção depois da deposição do Duce.
retirou a cabeça de Mussolini da estátua
e colocou uma sua.
E acha que radiografia é pop
porque já olhou para radiografias
com garrafas de Coca-cola no reto,
com souvenir da torre Eiffel
e da torre de Dubai,
com casulos de cocaína,
com réplicas da Apolo 11,
e miniaturas de mísseis nucleares enfiados no intestino.

Minha alma sonha
que no Amazonas caçadores perseguem
onças e sucuris
com uma matilha de carrancas.

Minha alma inventa
um isqueiro com um dispositivo
que segure a chama e possa ser usado como vela.

E diz
que muitos problemas emocionais
acontecem quando se tenta domar
a emoção pela brutalidade
e pela obediência cega a razão.
Às vezes temos que levar a emoção para passear
alimenta-lá bem, dar carinho.
Se a emoção ficar presa,
se você bater nela
e a deixar com sede de sexo,
sua emoção vai morder sua mão,
e morder seu cérebro macio,
arranhar seu coração
como um gato angustiado o sofá.

Minha alma pensa
em jazz enquanto como gabirova,
pensa em jaz enquanto chupo cana
e também consegue pensar em assobio
enquanto chupa cama
e afirma que lavagem intestinal cura disenteria.

Minha alma,
minha alma,
encosta o ouvido num cabo de aço que segurava um poste
e toca a corda como quem toca um contrabaixo
e escuta um som que parece um lazer
dos filmes ficção científica.


Minha alma gosta
de andar pelas ruas tocando harpa nas grades das casas
prrrrrrprrrrprrrrrrrrr pla pla pla pla.

Cada grade tem uma música diferente.
E também de
lamber pedaços de madeira.
Quer saber que gosto tem as árvores e não só os frutos.
sabe que o pinheiro tem gosto de resina,
guabriuva é amarga,
que cedro e marfim lembram palmito.


E o cheiro da folha de figo
e parecido com o gosto da fruta.

E flor de mamão tem um refinado perfume
cheiro de fruta e de flor juntos.

E acha
que joaninhas verdes metálicas
ficariam ótimos como brincos.

De repente minha alma
que estava pensando em joaninhas,
cria sabores de refrigerantes,
refrigerante sabor de folha de bergamotas,
refrigerante de pitanga,
refrigerante de guabiroba e araçá,
refrigerante de cidreira,
refrigerante de pequi,
de caraguatá,




E vai para qualquer
descaminho,
com as pernas na terra,
mas braços
sempre tentando alçar vôo
sem conseguir.
Porém os olhos,
sempre,
os olhos,
gostam de seguir aviões.


Minha alma,
minha alma,
quer fazer
um teatro em preto e branco
ou um filme colorido
onde o cenário, as pessoas, o figurino.
tudo
tudo
é preto e branco.
E ver
uma baleia azul cruzar a cidade
voando e cantando,
lenta como um zepelim.

Minha alma me pergunta
será?
será?
Se conseguirmos por uma cabeça de um velho
no corpo de um jovem,
será que o corpo vai envelhecer?
ou a cabeça vai rejuvenescer?
ou ambos vão continuar distintos?

Minha alma quer fazer parques temáticos.

A cidade de Pedrok, dos Jetsons, do Asterix.
A cidade dos super-heróis da Marvel, da DC Comics.
com vilões e heróis lutando nas ruas.
Cidade dos gangsteres, com bares de jazz
e um escritor beat escrevendo sem parar,
tocando sua maquina de escrever
como se fosse um piano.
Cidades romanas, com hotéis e bordeis, e luta de gladiadores.
Uma cidade submersa imitando uma quadra de Nova Iorque,
onde só se pode entrar com submarinos ou trajes de mergulho.



Nada de partenogênese hoje.

A alma quieta,
quieta,
nada, nada.
Fumo um cigarro e nada, nada.
partenogênese me vem esta palavra,
procuro metáforas e nada, nada.
saio, vejo o Beto, pensei em fazer poesia sobre o Beto,
mas não da,
Porque o Beto viu disco voador, mas não foi abduzido,
e ainda tenho que ir ao banco.
O Beto
parece um desses imitadores de Jesus.
Nada, nada,
poema sobre o Beto não da,
Beto é um nome que não cai bem para um poema.
Um gole de água,
sem sede, nada, nada.
Penso em cavalos, ventos, brincos, no Beto.
Nada,
nada,
estou seco, sem alma,
a alma deve ter ido brincar em alguma chuva distante.
A mão batuca a mesa,
cavalgo com os dedos,
Vou ao banheiro,
Sento novamente,
sinto dores na nuca, coceiras.
Nada,
nada,
o pensamento esta imerso na escuridão.
Coço as costas, acaricio a fronte,
mais um gole de água, ginástica facial,
Vou pegar um outro cigarro,
parece insônia
debato-me,
e nada, nada como falta de sono
nada se idéias,
nada de tema
nada
penso em avião, no Beto, não no Beto não adianta não dá poema.
O telefone toca,
O subconsciente não está para
peixes bioluminescentes.
Esta tedioso,
o milagre da multiplicação dos peixes profundos
não acontece,
raiva,
soco na mesa, coceira, dores,
Nada disso acontece quando
quando consigo escrever.

Sem alma
sinto-me um ídolo de pedra
e ninguém devia ler
o que um ídolo de pedra escreve,
seria idolatria.
Olho meu sapatenis,
preciso comprar outro
o tempo passou hora do almoço,
outro dia, minha alma foi passear sem mim.
Vi meus e-mails,
Estou perdido,
cérebro sem pensamentos
é um celebro com cegueira, é tudo escuro.
Acendo um cigarro,
sinais de fumaça para minha alma me localizar,


nada de idéias,
nada,
nada,

A minha garrafa ou mar foi engolida por uma baleia.
Jonas, Jonas volte para tua caverna estomacal
e leia esta mensagem.

O telefone grita como gato esfaqueado,
bebe com fome
e quer ser atendido,
procura as glândulas mamarias de minha orelha.

Minha alma voltou,
minhaalma voltou,
estou fluindo e vindo.
Minha alma me leva,
alimenta-me de estrelas,
de flores com néctar.

E me conta
Que a criação sempre surge antes da realização
portanto a criação esta sempre um passo a frente do real.
A criação é o objetivo do real.
E que as fantasias sexuais que um casal tem quando fazem sexo
é uma evolução da masturbação.
E posições sexuais acrobáticas são para casais sem imaginação
é que seu melhor parceiro sexual
e aquele que você pode partilhar todas suas fantasias.

Minha alma assiste televisão
a lutas,
corridas,
feras,
panis et circus televisivos




Minha alma me diz enquanto vou comprar pão:

Não tenho medo de alturas,
temo é minha vontade de me jogar,
pareço estar sendo puxado por algo magnético,
sempre que fico perto de uma platibanda ou sacada.


Se temos o mesmo antecedente primata dos chipanzés
e os chipanzés têm apenas os pelos negros,
mas as peles deles não são apenas pretas,
pois há muitos chipanzés de pele branca,
então, teoricamente os primeiros homens africanos
também poderiam ser pretos e brancos e não só negros.

Minha alma pensa enquanto
olha as lajotas hexagonais,
lajotas quebradas por uma raiz de arvore,
cigarros mortos no caminho,
Minha alma se lembrou quando estava na praia
e fui a uma padaria.
Entra
e olho para os pães de queijo murcho como uma teta velha,
asgar de asco,
pede 10 pães franceses,
troco em chicletes Plets tutti-frutti,
e volta olhando as lajotas hexagonais.

Minha alma pensa

em um tiro no coração que explode como um vaso com rosas.

Minha alma gosta
de ver atrás dos quadros,
olhar a armação da tela,
as madeiras, os pregos,
gosta de ver as costas dos quadros.

Quer fazer um a exposição com telas viradas.
pintar telas viradas.
E diz,
Louvre
já cansei de ver a cara de Rembrandt,
virem à tela de costas,
coloquem a Monalisa em decúbito ventral.


O olho cheio de alma
chega antes.

O Hubble,
olho da humanidade,
chegou antes em Andrômeda.
O olho passeou por super novas.
O olho, já viu galáxias.
O olho pode ver o centro do sol sem se queimar.
O olho pode rondar sobre um buraco negro.
Que os outros sentidos
morram de inveja.

E por causa dos oceanos e da terra
o nosso planeta deve ter
gosto de uma lágrima
de lavrador.


Minha alma,
minha alma,
sonha
dar movimentos a fotografia
e parar filmes,
pintar estátuas,
esculpir quadros e músicas.
Sim, minha alma já experimentou muita coisa,
entalhou ventos e mares,
moldou um raio de sol,
um canto de canário
e um grito de dor,
nadou no aço
e pescou peixes fossilizados dentro de pedras.

E descobriu
que todas as estátuas de santos
que choram e sangram
foram feitos de madeira
retirada
dos instrumentos da inquisição.

Então
tirou um galho de uma coroa de espinhos
e fez
uma caneta
com a qual escrevo todos os poemas
que me dita.
Sou o escriba
de minha alma.


Com minha alma

cavalguei em um casal de libélulas azuis
enquanto acasalavam.

Cavalguei
em um garanhão
enquanto montava uma égua.

Minha alma me mostrou
leões caçando
atuns em um recife de corais.

Tubarão branco matando
uma zebra na savana africana.

Golfinhos se alimentam
bandos de estorninhos em evolução.

Com minha alma sonhei
que meus dedos se multiplicavam e viravam teclas
de marfim,
e vísceras cordas e ossos engrenagem,
e meu corpo o corpo do piano.
Que reencarnei como um piano,
desses que ficam no canto de uma sala
sem serem tocados.

Minha alma
é livre e afaga cães
e diz o que pensa.

Poetas discutem nomes
numa guerra inútil de conhecimentos.
A criatividade é a espada do poeta,
não o conhecimento,
o conhecimento é sua faca.
E
O artista louco ganhou respeito
desde Van Gogh, Artaud.
O poeta que não deciframos,
a tela que não compreendemos
deixa-nos ansioso,
em duvida,
todos ficam sem saber se o que vem
é loucura ou genialidade.
Mas o artista louco é muitas vezes só um louco,
não um gênio louco.
O louco
também pode ser apenas um idiota


Vento, vento, vento,
minha alma quer ir com o vento,
a seguro com o cordão umbilical.

e com um óculos escuro
entardece o meio dia.

Minha alma

flutuando
gosta de ler pelo escritório.
E grita:
Ler um poeta e incorporar sua alma.
Vejo Minas com as mesmas retinas de Carlos
e recife com a mesma exatidão de Cabral.

Canta Patativa, canta,
que depois que te li, teu sertão é também o meu.

Quero quando me ler,
que as guaxunbas,
as gabirobas,
as casas azuis,
que as pingas com cidreiras nas bodegas,
as pingas com milome
sejam minhas.
E quando
cavalgar numa pedra de avalanche,
cavalgar num tsunami,
lembrem de mim.


Minha alma
notou
aquele que só consegue ser ele mesmo
disfarçado e com nome falso.

E como está cansada
inveja até
cobra morta que parece descansar
enrodilhada
dentro de um vidro de formol.


Minha alma
delfim gosta
de brincar na chuva,
se lambuzar de água-doce,
ver a cidade incrustada
e as ruas espelhando céus.


Minha alma gosta
de nadar entre os arabescos dourados das músicas de Bach.

Entre os corais na primavera
e depois fumar uma nebulosa.

Minha alma
mesclou-se com o vento
e brincou com uma folha no outono.

Contorceu-se em redemoinhos
atravessando um cemitério abandonado.

Em viagem astral
minha alma,
minha alma,
já foi pintar desertos americanos,
os creosotes e cactus
e ao fundo a parte de traz dos de motéis,
e depósitos com pneus velhos,
lanchonetes, postos de gasolina.
Pintava ouvindo os automóveis passar
e bebia sua areia com gelo
e sobrevoou com abutres a procura
de carniça no asfalto quente.
Morou em trailers prateados
escrevendo poemas tristes,
esvaziou uísque e jogou
as garrafas com mensagens
ao céu.
Tinha a geladeira cheia de cascavéis e enlatados
dormia sobre um sofá rasgado em
frente a uma TV preto e branco,
ouvindo apenas os pulsares.
De madrugada discos voadores
perturbam seu sono.
Andava pela noite ouvindo
o coração e dissecando
cada pedra do Mojave
e voltava pela manhã apenas música.


Viagem astral,
viagem astral,
minha alma,
minha alma passa
por distritos industriais com cheiro de cinzeiros,
com imensas catedrais de aço
ligadas por tobogãs com feridas de ferrugem.
Motores e máquinas que parecem
tubulações intestinais,
é possível ler a sorte
em suas vísceras expostas.
Alguns corvos sentam
em seus galhos metálicos.
Há apenas algumas árvores empoeiradas
como artefatos em uma tumba.
Sirenes uivam, gemidos
e ranger de dentes,
o choro das engrenagens, caldeiras e seus guizos.
Containeres como legos nos pátios.
Abutres que comem ferro podre
rondam a putrefação bio mecânica.
Telas eletrificadas como
velhas meia-calças desfiadas,
como redes de pescas velhas e rasgadas.


Minha alma
continua,
minha alma não para.

Minha alma,
minha alma
joga uma pedra no ar
e a pedra se transformou em pomba
que continuou a voar
e fez ninho,acasalou,ensinou seus filhos a voar.
A pedra-pomba procurou frutas,
comeu milho nas praças
e restos de pipoca.
Minha pedra pousou nas platibandas
e num entardecer, caiu e morreu.
Sua carne e penas foram reaproveitadas
mas os ossinhos lindos ficaram em um canto da praça,
delicados em uma posição elegante de fossilizados,
Quem diria que uma pedra ia acabar assim,
porque geralmente uma pedra já nasce morta,
mas esta não, esta viveu e morreu.


Minha alma,
minha alma
procura os cantos,
olha cada canto da cidade
como quem procura,
um quadro bonito em uma galeria.

Minha alma
encantou-se com um pedacinho de mato
que cresceu sobre pedra brita
encostado em um muro velho de um estacionamento.
Cresceu silencioso, sem gritar flores,
certamente já gemeu algumas florzinhas
minúsculas em alguma primavera,
mas agora acho que não consegue mais florir.
Agora só tem algumas folhas envelhecidas,
empoeiradas
e alguns galhinhos ressequidos,
descarnados, ossinhos pretos e sem carne,
esqueletinhos secos de planta.
Nem insetos parecem se interessar por seus
galhinho.
Vejo formigas passarem displicentes.
Pode ate ter milhões de micróbios, mas
aparentemente não tem nada.
Tão lindo este cantinho de mato
enfeitado com embalagens de chicletes
e bitucas de cigarros.
Um lugarzinho belamente feio,
uma feiúra que causa comoção
de tão singela, feiúra que não pede atenção,
uma feiúra discreta,
que nem se percebe, escondida num canto,
tanto que o dono do estacionamento
nem a tira, nem a nota.
como certamente faria com uma feiúra vistosa.
Só minha alma perigosamente a notou
e as plantinhas pareceram amedrontadas
com os olhos de minha alma.
Este pedaçinho de mato
sempre esteve escondido dentro da discrição,
descrição era sua toca.
Parece que nunca tiveram
a atenção de um olhar,
por isto aterrorizo este pobre matinho
e ele se sente pela primeira vez
frente a frente com o perigo.
Tento o acalmar afagando suas folhas secas,
mas é melhor eu e minha alma irmos,
para não chamar a atenção do dono e sua enxada.


Minha alma
gosta de digressões.

A magia tem milênios e só muda de roupa e língua.
A magia sempre foi ligada a uma religião
e todas as religiões querem realizar prodígios
como prova de sua verdade.
Milagre é outro nome dado à magia.
Os magos modernos
pegam seu livro milenar
a Bíblia
e recitam seus encantamentos,
conclamam poderes superiores
e com gestos e palavras mágicas
chamados de oração
tentam curar doenças,
fazer paralíticos andar sobre as águas



A arte é uma invenção da religiosidade.
A arte esqueceu que nasceu como oferenda
para caçar mamutes.
Sim, sim sua origem é singela
e Michelangelo foi coveiro do Papa Julio II.

A arte faz
uma haste de ferro
florescer rosas vermelhas,
consegue fazer uma maçã
que não e uma maçã.


E o que é um poema?

O que é um poema?

A melhor definição de algo é sempre sua palavra,
fora a palavra toda a definição é incompleta.

Pode se dizer que um homem
é um bípede,
mas se alguém não anda
ele continua sendo humano.
Que são racionais
mas se alguém nasce sem cérebro
ele continua sendo humano,
Portanto bípede e racionais são em si conceitos falhos
que não servem para todos os humanos,
então a melhor definição para o que é homem
é a palavra homem.






Como a melhor definição para a poesia
é a palavra poesia.
E a melhor definição da uma árvore
é a palavra árvore,
e a melhor definição da palavra
pedra é a palavra pedra.

E uma pedra tem alma
e uma árvore também tem alma,
tudo tem alma,
porque, se olhássemos
as pedras
apenas como pedras
e as árvores
apenas como árvores
nos é que não teríamos alma.
Porque uma pedra
não olha a alma de outra pedra
nem uma árvore
olha para alma de outra árvore.
Apenas quem tem alma
consegue ver almas em coisas
inanimadas.

Minha alma,
Minha alma
curiosa,
curiosa
gosta de entrar em casas vazias.
Com jeito de arqueólogo,
de ladrão de tumbas,
entra nas casas a beira do asfalto
que vemos quando viajamos de carros.
Em casas que parecem casamatas.
Em casinhas azuis com portas abertas.
Minha alma
abre as geladeiras,
mexe em gavetas,
nos guarda-roupas, nos perfumes
vejo se usam xampu pra cabelos secos ou não.
Experimento todos os perfumes,
os sabores dos alimentos,
tomo os remédios,vejo as plantas,
leio as revistas e livros.

Minha alma
vai para a ilha de Utopia
e lá fazem sexo como bonobos
e em toda a praça tem
uma estatua da Liza Simpson.


Minha alma explica
o porquê do homossexualismo entre os animais:
É porque o sexo é feito para o prazer e não para procriar.
Se o sexo não fosse delicioso, faríamos sexo apenas para procriar
como um sacrifício para a continuidade da espécie.
O prazer é uma isca atraente demais para ser evitada e a evolução a usa, então o homossexualismo existe entre os animais
porque o sexo existe para ser prazer.
Comer também é um prazer e se um alimento
não tem nenhum valor nutritivo,
mas é muito saboroso como o sal,
será consumido com avidez.

Minha alma vai fluindo indo,
sem lenço ou documento,
leve, leve descompromissada e diz o que quer.
E minha alma quer uma máquina que retrate cheiros,
que ao achar uma flor, possa levar seu perfume para casa.
Uma máquina para que eu possa me perfumar
com o cheiro da maçã,
com o cheiro de uma
manhã orvalhada.
Minha alma
quer uma máquina que retrate o sabor.
Telescópios que nos permitam lamber estrelas,
sentir o gosto de uma nebulosa,
Quero saber que gosto tem os confins do universo,
telescópios que nos permitam lamber estrelas,
sentir como seria fumar uma nebulosa.
Quero que seja possível
procurar no google um sabor e um cheiro.



Minha alma me diz:

Não se preocupe quando o inferno estiver cheio
os demônios podem colonizar
o sol,
este inferno que nos aquece no inverno.

Minha alma fala
que dobras espaciais,
universos paralelos.
viagens no tempo
são besteiras.
Einstein foi o gênio
que atrai uma legião de seguidores estúpidos,

Como o podre Leonardo da Vinci
atraei ocultistas.
e Duchamp artistas idiotas,
Minha alma brinca
com fogo
e sopro de dragão não apaga velas.


Minha alma vai para onde quer,
vai para onde,
vai parar aonde?

Sentado em uma pedra com as mãos no queixo
pensa em pavões cor de rosa,
agulhas para suturar líquidos,
cigarros feitos com água de mar,

Minha alma gosta de fumar um cigarro,
quando chega a uma praia,a uma cidade,
gosta de soprar sua fumaça xamânica
em todo lugar bonito,
Gosta de passear
soltando pela boca a cada tragada
um ectoplasma
que me mescla
com as casas, rios,
une-me em ligação sensual com o todo.

Minha alma,
Minha alma
vendo uma imensidão
gritou do cume:

Eu sou tudo que minha visão alcança, sou enorme
sou ate aonde vai meu olhar.
Com meus olhos toco as nuvens e o céu,
com meus olhos sinto os pássaros,
com meus olhos apanho as frutas mais altas.
Sou uma redoma de olhar,
imenso,moldável,
em mim cabe uma parte de rua
com seus carros,
mas a massa de meu olhar para nos prédios.
Se num quarto,
acabo em suas paredes,
e em uma janela para a amplidão
sou até a linha do horizonte,
se vejo a noite vou até as estrelas.
A carne do meu olhar tem tato,
e sente os ventos.
A carne do meu olhar sente gosto,
com ele lambo a prateada lua,
A carne do meu olhar tem olfato
e cheira a primeira flor de
Andrômeda.
Meu olhar é tentáculo
vai ao longínquo,
e toca o fim visível do cosmos,
Meu olhar é língua de camaleão
e engole estrelas.
Por isto gosto de imensidões onde meu olhar cresce
e me estendo até o Máximo,
sem meu olhar me reduzo,
fico apenas do tamanho me meu tato,
do tamanho de meu gosto.
Só meu pensamento é ainda maior
que meu olhar
e vai ainda mais longe,
Meu pensamento é o olhar do meu olhar
e chega ate depois da linha do horizonte
e chega ao depois do Cosmos,
mas o pensamento
também tem seu final.

Minha alma
estava nas profundezas do oceano
assando um peixe bioluminescente,
olha para cima e vê um sol,
duas luas e um planeta anelado,
e grita:
Espero
que no próximo estado evolutivo
da humanidade os músculos
responsáveis pelas gargalhada se tornem mais fortes,
e os falos sejam mais sensíveis e as vulvas mais
receptivas.
Sim,sim e acredito no improvável,
porque se o aço levita,
se o aço flutua,
então posso ser ascendente, sempre ascendente,
pólen pronto para fecundar
e quero
um poema forte como uma oração,
um poema milagroso
que ao ser entoado faça
minha carne flutuar
quero cuspir tempestades,
inundar, irromper ,erupção
libertar sinfonias,






rasgar o peito e gritar mais forte ainda:
Voa meu coração com azas
está livre destas grades de ossos,
e gemer um gozo,
um êxtase eterno
que irá arrancar de mim
cachos de notas floridas perfumadas,
notas soltas com dente de leão ao ar.
Arrancar de mim
e rodar uma valsa do tornado
e vou
escrever na pele de meu amor uma ode a seu seio pequenino,
aranhando suas costas brancas uma ode a borboleta
pousada perto de seu ombro.
e na sua face um poema sobre seu olhar.

Minha alma.
minha alma
ouviu um grito de dor no paraíso.

Exegese de Eva

Eva, Eva
o Édem gritou de dor
quando você
Imolou o que mais amava,
Eva, Eva
Agora em sua boca ressaibos de carne crua.
Eva, Eva
seu cabelo foi a serpente
Eva Eva
sangra tua lagrima azul.
Eva,Eva
tua face; uma escultura bela
Foi remodelada pela angustia
Eva,Eva.
Trançados de espinhos envolvem o útero
Eva,Eva
tua pele é um sudário tecido de angustias e dor
Eva, Eva.
Com o coração mordido,
como uma gazela por um leão,
Eva, pobre Eva
tenta devolver
a maça a maça ferida.


Minha alma,
minha alma
é onívora
e come todos os estilos de poemas,
alimenta-se de todas as músicas.
Mas colhe solitária
os cabelos da estátua de Davi
que estavam no meu travesseiro
pela manhã.

Minha alma,
minha alma
marcou a ferro quente o vento
e a primavera
marcou a ferro a poesia.

Minha alma
arrancou um pedaço de minha própria carne
e alimentou uma águia
para que pelo menos uma parte de mim seja livre.
Que parte de mim voe.
Que parte de mim saiba o que e ser águia.

E quer ser
Como certos pássaros quando se esquecem que são pássaros
e se pensam vento.
Como certos pássaros se esquecem que são pássaros e vivem
como peixes.
Como certos pássaros se esquecem que são pássaros
e se deixam frutificar.
Como certos peixes quando se esquecem que são peixes
e se pensam oceano.

Minha alma diz:
Para rever a beleza de algo a tire do normal.
Se uma noite comum,
a mesma noite de sempre,
com as mesmas estrelas,
com a mesma lua,
apenas florescesse em pleno meio dia,
todos olhariam novamente para a noite
com encantamento.
O olhar novo sempre rompe o hímem
que nasce entre a beleza e o cotidiano.

Minha alma
é entranhada com minha carne,
minha alma perde cabelo,
se me corto a minha alma também levará a cicatriz.

Minha alma grita:
Serei o que me falta?
o que não sou,
serei o que almejo?
Serei eu, a parte que não sou?
Serei eu, as azas que não tenho?
Serei eu as barbatanas que me foram amputadas
ou as guelras que não tive?

Sou o que desejo ou o que sou?
O que desejo ou o que faço?
Será este sonho eu,
Ou sou o que possuo,
meus braços e minhas pernas e o que tenho como meu,
Serei eu?
Serei eu insatisfação
e falta ou o excesso?
Então me falto ou me sobro?
Será que sou o terceiro olho que não tenho?
Será que ser é uma essência alimentada
pelo que não existe,
enraizada no nada e quando este nada
vai se transformando aos poucos
em substância,
a essência morre,
porque a essência bebe seu néctar
nas inflorescências do nada.

Minha alma
não quer mais pensar.
Minha alma quer descansar,
voar no colo de
uma pomba sem cabeça.

Ilustração e poema de Solivan