quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Um ano de paz para todos.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Tela em decúbito ventral



Óleo sobre tela

De Solivan

Oxigênio

Não quis mutilar um cilindro
de oxigénio enferrujado.
Senti pena
abri-o
e disse
vá mudar nuvens de lugar,
soprar árvores e veleiros
balançar oceanos.

Informe policial

Heroína

O soldado
que o retirou das ferragens
foi condecorado.
A mãe que irá cuidar do tetraplégico
pelo resto da vida, não.

De Solivan

Fragmentos do diário de Ariel

Caminho pela praia
com minhas calças brancas arregaçadas
e chinelos nas mãos
arregaçassem-se as mangas da camisa para trabalhar
e as calças para andar na praia.
Meu olhar coletor
junta conchas,
barcos de pescadores ancorados na areia
gaivotas e velhos casais passeando.
Bares à beira mar,
fechados e sendo abertos.
Minha sombra vai a minha frente,
desliza como um delfim
sobre a areia
abraça os barcos como uma pele
imprime-me neles
na cor deles,
é transpassada por águas
e espumas
que às vezes
chega a meus pés.
Invejo-a, quero também este mimetismo.
Algo no presente
os prédios novos, modernos
restaurantes
placas oferecendo frutos do mar
e crianças brincando
foi me trazendo o passado:
pai, mãe, minha infância, casas de veraneio
passeios, calçadas, ruas, conchas apanhadas,
viagens, shoppings
vitrines, livrarias, cinemas, casas de artesanato
e de artigos de praia, odor de bronzeador.
Sou um homem com ilustrações na alma
ando com ilustrações e passos vagarosos
um banco ao lado de uma árvore
convida-me a olhar a imensidão
sinto-me enorme, sou até aonde
minha visão alcança.
Olho um pássaro no alto, distante
no céu azul com nuvens brancas
e me pergunto
quem é mais livre neste instante
o pássaro lá no alto
com olhos fixos na terra
ou eu de olhos perdidos e livres no firmamento
e neste momento
em que a retina engole o oceano
o céu e a linha do horizonte,
ouço o mar
e o barulho do mar
lembra-me
o som do interior das conchas.

De Solivan

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Velório na Vila dias


De Solivan

Cinema

Gosto de ver cartazes nos cinemas
como se fossem uma exposição,
por um longo tempo olhei o cartaz do filme do Homem-aranha,
que linda a perspectiva, o nadir.
O uniforme entrou em mim até a segunda babuska.
Compro entrada,
será um suvenir.
Entro no banheiro
sinto o perfume do sabonete líquido,
morango,
cai sobre as mãos como calda,
devia ser comestível.
Compro coca
beber coca-cola é uma performance pop,
salgo a pipoca
a deixo com gosto do Mar Morto.

Dúvida nostálgica
entre mentos fruit box ou confetes m&m`s,
Discutem a terceira e a segunda babuska.

Com olhos esfomeados
entro no cinema.

Quero sentir, toco as paredes do corredor,
procuro detalhes bonitos, bebo o néctar dos detalhes.

Como é fresco, algo de templo,
o clima deve ter sido importado de uma montanha tibetana
veio de iaque, avião, navio, caminhão até aqui

Reverente, vontade de nadar, passear como peixe num aquário
sobre as poltronas, passar perto da tela, do projetor.
As luzes me atraem, tenho algo de mariposa, queria morrer na luz.

O filme tem
de movimentos graciosos algo de balé
mas gostaria de ter mais tempo para ver os cenários, a cidade,
acho que as edições são muito rápidas para uma alma contemplativa.
The end
Arranco um pedaço da alma do cinema
e saio,
tirar a alma não mata, alma é como fígado se regenera.



De Solivan

Supermercado(fragmento)

No supermercado
A uva embebeda, a cana embebeda,
cevada embebeda.
Tentam sempre inovar, de novo repetições
tentar inovar sempre é uma repetição.
Tem um pouco de mar
em cada produto
e o mar aqui causa hipertensão.
Pego na gôndola uma maçã
diluída de seus significados, mordo
e recoloco diferenciada, simbólica, engraçada,
porém estou ciente
de que a maçã perdeu todo seu valor comercial.

De Solivan

Zé Limeira e o diabo

Dentro do ano de 1975
Zé Limeira
despediu-se
de seus filhos morenos
com brincos de ranho no nariz.
Eles brincavam no quintal,
sob a sombra da casa,
ossos e gravetos
eram boiadas e cercas.
Estavam ao lado de um cão magro
enrodilhado como caramujo,
todos rodeados pela caatinga.
A mulher da janela
ergueu a mão, porém mais parecia tremer que
dar adeus,
logo voltou a varrer.
Estavam todos acostumados por
herança das gerações de retirantes
anteriores a despedidas.
Zé Limeira
começou sua viagem
pela estradinha longa, reta e empoeirada
entre arbustos secos ásperos e emaranhados.
Corria quando menino
nessas matas de arame farpado
como delfim salta o mar.
Deixava a casa,
mas sua imagem ia dentro dele
forte, se a evocava
trazia a mesma segurança
que sentia ao tocar seu amuleto.
Parecia acariciar
a casa preguiçosa
a porta sempre aberta em bocejo,
as paredes quentes de barro avermelhado
ressequido e rugoso.
Tato e aparência de casca de árvore
sempre envolvida por um ar parado ressequido,
num silêncio denso,
engarrafado dentro deste silêncio morno
moscas de zumbido sonolento.
A lembrança da casa era seu oratório
onde amorosamente colocava sua família.
Um passo após a linha do horizonte
a caatinga clareou.
Tudo pareceu novo,
estranhou aquela paisagem tão familiar
de repente mais brilhante, viva
sua alegria de viajar
incidia como um sol,
deixava tudo mais alegre e claro.
O ar seco empoeirado
filtrado por suas narinas felpudas
caia limpo, fresco em seu pulmão
como água de nascente.
Um pé de espinheiro
projetou na parede
interna do osso da testa
as duas aparições que teve.
A primeira,
quando era criança com suas duas irmãs
atrás da casa,
depois de sua desfolhada plantação de mandioca
no começo da caatinga.
Apareceu a eles uma Nossa Senhora de Aparecida
de gesso
suspensa sobre os espinheiros
aquela gigantesca estátua
nem arqueava os raquíticos galhos,
parecia
uma leve mariposa pousada.
Nossa Senhora de gesso entre nuvens de gesso
pairava sobre o espinheiro
negra, seus olhos parados pintados de azul celeste
mãos em oração
só a boca autômata, movia-se
com voz gutural pastosa
vinda de uma garganta de gesso.
Os bodes passeavam à frente dela
ruminavam folhas, calmos.
Zé Limeira e suas irmãs
não escutaram a mensagem
após os olhos arregalados de medo
captarem tudo, rápido e nítido
e o susto estampar e fixar as imagens
em suas almas.
Um temor tosco de lavrador
em frente de um rei
fez todos fugirem.
Na segunda aparição
anos depois
vindo embora, à tarde
em dia de São João
a caatinga estava avermelhada
sol forte
Zé dançava sozinho na estrada
os pífaros ainda soavam nítidos,
como um radinho de pilha
dentro de sua cabeça
quando viu numa encruzilhada da estrada,
Padre Cícero Romão
também enorme
estampado numa folha calendário
tentou falar com Zé.
Este se conteve o máximo que pôde,
mas o medo dentro dele
tinha vontade própria
mandava em suas pernas
fora possuído pelo medo,
seu medo mais parecia uma entidade
que um sentimento.
Tentou manter-se
olhou para baixo
tentou se concentrar nas datas
seus olhos no desespero
acharam com mais facilidade
os feriados em vermelho.
Procurava distrair-se,
não ousava encarar os olhos do padre,
mas nada adiantou.
Suas pernas possuídas correram
era tanto medo que por mais que corresse
parecia não sair do lugar
depois, sentou-se e acalmou o seu próprio coração
com palavras de mãe para um filho assustado.
E fez um diabinho de madeira
pintou de vermelho, pôs em uma garrafa
se levasse o amuleto
na algibeira de couro e odor de cavalo,
nas missas
benzedeiras e enterros
acreditava que não veria mais santos.
Assim caminhava distraído
numa visão bifocal
via lembranças
coloridas do passado
e a estrada no presente.
Mas as recordações que mastigava
salgadas, cheias de emoções
foram engolidas
a caixa craniana escureceu
ficou somente o que enxergava
quando chegou à BR.
O sempre, mais estéril, presente
geralmente insosso
que só cria sabor
depois de ficar de molho na alma.
E continuou andando no acostamento
seguiu o asfalto como quem anda à beira de um rio.
Como única distração acompanhava
a sua sombra,
movendo-se a sua volta, lentamente
como um ponteiro de relógio
enquanto andava
e após passar por
dias secos, como carne de sol
dias amarelos, desidratados
de raios solares ressequidos
e noites estreladas
de receber estilhaços de nuvens pelo corpo
e beber na palma da mão pedaços de nuvem,
Zé Limeira
nem sente
seus pés escorregarem no suor
das sandálias,
não percebe
os automóveis
que começam a passar rente
em filas coloridas
como bandeirinhas de São João
e os caminhões
que urram e sibilam
estremecem a terra
e bafejam um sopro quente
de borracha e diesel em seu rosto.
Apenas recordações rodam
como um carrossel
um cavalo após outro
cada qual com uma cor, histórias
imagens e sentimentos diferentes.
Paravam ao sabor da sorte atrás de seus olhos
passagens de sua viagem
agora sem ele notar quase no fim.
Primeiro
da sua felicidade
numa pequena rodoviária
das quatro árvores a sua frente
com pulseiras de pedra caiada
do longo pátio, lago de terra
areada e ondilhada
onde flutuam tufos de gramas esparsas.
Nas paredes e vidraças sujas
marcas de pés e mãos
desenhos de caverna
os vidros embaçados
de incrustações de saliva ressecada
das respirações.
Pessoas morenas
andam, comem, dormem.
nos bancos
numa fila hospitalar.
Ouve-se
tosses, conversas, suspiros, gritos, risos infantis
e murmúrios
exalam um cheiro de ansiedade
junto do suor
aguardam inquietos
a viação Careonte.
Lembra depois
da sua alegria infantil
contente só por ver as luzes, cores e movimento
ao conhecer a grande estação rodoviária
com odor de vômito
de estar no meio da correnteza
incerta das multidões,
de seu encantamento
na vitrine
da loja de artigos mágicos
truques de baralho, canetas que desaparecem
chicletes que deixam a boca azul,
imitações de fezes, máscaras de monstros.
Em outra,
de lembranças da cidade e brinquedos,
da mercearia
com redinhas de náilon amarelas expostas
de laranjas ou maçãs,
a gôndola cheia
com frascos plásticos de refrescos
imitando framboesas em azul,
revólveres vermelhos,
elefantes amarelos
causavam a seus olhos
fascínio e avidez de jóias.
Se algum dia,
estivesse na frente de um quadro colorido
sua mente se lembraria
desse momento, desse deslumbre.
Da fome
devido ao cheiro dos pastéis
presos num aquário gorduroso
da lanchonete.
Da sua ereção ingênua na frente
da banca com revistas eróticas, gibis
e palavras cruzadas,
de ver no segundo piso
os ônibus entrarem e saírem
das gengivas das plataformas.
De estar no ônibus
com o mesmo odor de vômito da rodoviária
e assistir à janela
que lembrava uma televisão
a caatinga transformar-se em cerrado,
as vilas
passarem em rápidas manchas coloridas
a tarde incendiar-se
numa monumental abstração
sobre o azul
amarelos e vermelhos orquestrais
um Kandinsky momentâneo
pintado no seu vidro rasurado com impressões digitais.
Depois ir de encontro
à boca da noite,
ver atrás das negras silhuetas recortadas das árvores
um fundo gris enevoado.
Olhar as galáxias das cidades distantes
cintilantes cravejadas no meio da escuridão
depois a casa solitária, misteriosa à frente
sua curiosidade de saber quem mora nela, que fazem
quem lava e estende a roupa
como se chama o cão.
O motor ronronava uterino
seus olhos sonolentos
nublava
e raiava com pétalas agudas
igual ao imaculado coração de Jesus,
as luzes amarelas das janelas
de um casarão entre grandes mangueiras.
Adormeceu quando a paisagem
era completamente negra
submarina.
O ônibus ia imerso, solitário
suas luzes tateavam
no mais abissal e escuro fundo de oceano
visão de seu perispírito
nadando na estratosfera.
De acordar
já atravessando periferias
de ver maravilhado os prédios ao longe.
Lembra
que descansou
em frente de um bar
com hálito de cerveja saindo
de suas boca-porta
de ouvir o barulho gorgulhante
das bolas de bilhar
sendo engolidas.
Que pousou
em postos de gasolina
entre caminhões
e descansou
à sombra de uma placa
de sinalização amarela
e adormeceu, à tarde
ouvindo o trânsito
sobre a braquiária poeirenta
da beira da estrada,
vendo o céu azul
raios brancos de sol
atravessavam a fresta de seus dedos
em seus dedos floresceram estrelinhas de luz.
Da cabeça cheia de água
por causa da sede
enquanto andava
cheia de água límpida
torneiras, cacimbas
copos brilhando como diamantes.
Zé Limeira pensava em tudo isso
quando viu uma placa verde em formato de portal:
Bem-vindos a São Paulo
e ergueu os olhos e vislumbrou assustado
com o mesmo sentimento
de quando viu a enormidade verde, temerosa
do mar pela primeira vez,
as favelas
que subiam e desciam morros
numa planície de casebres
e depois uma longínqua e enfumaçada
linha de horizonte inteiramente feita de prédios.
Parou inquieto nervoso
sentiu fortes vontades antagônicas
queria voltar e seguir
indeciso, perdido
perdeu sua certeza
que era sua bússola, sua segurança.
Desorientado
sentou no acostamento e esperou
sua alma acalmar e se decidir
o asfalto fervia, soltava seus vapores invisíveis
e sufocantes,
o lixo das favelas cheirava
como um arroto
o trânsito intenso, rente
dava a mesma vertigem
o mesmo medo da morte
de estar à beira de um precipício.
Foi quando o diabo apareceu
um diabo nu, em vermelho vivo lustroso
como madeira polida, lambuzada
com óleo de peroba
seus cascos fizeram um barulho
de tropel de cavalos
ao caírem no acostamento,
Zé sentiu um cheiro
que sentia quando disparava
sua espingarda quarentinha
e viu-se, face a face, com o capeta
de guampas lisas, pontudas,
negras, compridas, luzidias
como berrantes.
- Entra. - Falou o diabo,
e ofereceu suas tentações
com uma voz radiofônica de um programa policial
amplificada e grave
e gestos de garçom,
apontando para a auto-estrada que ia dar
em São Paulo.
O som retumbou dentro do peito
de Zé Limeira
o medo
rompeu os comandos medulares
ficou paralisado e mudo,
pássaro hipnotizado por cobra luzente.
O diabo não é condescendente como os santos
e sem desaparecer
esperou uma resposta, aguardou até que
Zé, trêmulo começasse a falar
com a cabeça baixa
gacarejantes sons repetitivos
sem poderes para dizer não
como se tivesse uma arma apontada para sua cabeça.
O capeta
diluiu-se no ar
só após o contrato
ser tremulamente assinado
então, Zé jogou
o diabinho do amuleto fora
preferia ver santos
e retornou para a casa.
Pode ter vendido a alma,
mas não sua vida
sua vida ainda
pertence a ele
e continuou
a viver com singeleza
até ser recebido
em um auto pela Compadecida.

De Solivan

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A beleza e o tempo




De Solivan

Pesadelo

Garotos brincam
de pintar pessoas
de vermelho
com seu fuzil.

De Solivan

Oração pela santificação do sublime

Senhor
das humildes e singelas
estátuas santificadas
que dão fé e milagres ao povo
concedamos pedir graças ao magnífico.
Oh! Virgem Maria sublime de Leonardo da Vinci.
Rogai por nós.
Sagrada Família de Rafael.
Rogai por nós.
Os Profetas de Aleijadinho.
Rogai por nós.
Oh! Cristo que veio do maculado
coração de Caravaggio.
Rogai por nós.
Auto-retrato de Frida Kalo que parece
dolorosa MARIA sem concepção.
Rogai por nós.

De Solivan

Ribeirão Preto

Hopper,
foi minha primeira associação
quando entrei no hotel.
Lembra um quadro de Hopper.
O corredor escuro
parece levar ao infinito
como num jogo de espelhos
e tem odor de gavetas cinqüentenárias,
um túnel
mal iluminado desabitado
de fiação exposta
os fios, riscos coloridos
são as únicas alegrias do teto.
Passo por inúmeras portas grandes, insondáveis
esses vultos negros
perfilados guardiões
repetiam-se em ecos visuais
esfaqueei um deles no quadril
com a chave
e entrei
no meu quarto antiquado
com porta chapéu.
Móveis semelhantes à alaúdes
escuros, gigantescos
fazem me sentir pequeno.
uma escova de dente amarela
cheia de pó
sobre o guarda roupa
deixa uma impressão
de objeto abandonado numa cripta.
A janela dá para velhos telhados
e caixas d‘água com musgos ressequidos
aprisionados num retângulo
entre o prédios do hotel e outro,
depois dos telhados cor de dunas
com manchas negras
dia salpicado de noite,
flamam num oásis verde as árvores da praça.
Após esquadrinhar quarto e vista
saio
percorro novamente o corredor, sempre sozinho
percebo que acaba numa vidraça longínqua
hoje está azul, tingido pelo céu
porque o vidro
tem a cor camaleônica das transparências.



De Solivan

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Luwak cocaine

Poema para Mário Bortolotto


Engulo coca, foda-se a condicional.
Com tacadas mato a caixa de correio,
hipotecas no chão, vendo a televisão
e viajo ouvindo os gritos do rock roll.

Jogo latas de cerveja no asfalto.
Atiro em placas, baleio um outdoor,
atropelo cães, fecho e ultrapasso.
Meu carro cheira a baralho velho.

Dou carona para uma puta estradeira.
Num motel de piscina suja e vazia
e o luminoso com uma letra queimada,
bebo, fodo e vejo desenhos animados.

Não olho a porra do Gran Canyon.
Quero gasolina, num velho posto,
bebo tequila, encaro a garçonete,
jogo pinball, roubo um ray bam.

Esmagando o acelerador cruzo desertos,
cidades empoeiradas,cemitérios de aviões.
Em Las Vegas vendo ovos e sou rei.
Livre, a falta de esperança liberta.



De Solivan

sábado, 5 de dezembro de 2009

O circo de Hélio Leites

Homenagem a Hélio Leites.




De Solivan

Patinação artística

Gosto de tocar um quadro com as mãos,
deslizar ,passear
sobre um cartaz de filme,
um retrato.
Tocar não é um ato bárbaro,
é uma carícia,
como arrumar o cabelo de quem se gosta.
A vontade de tocar e farejar uma obra
é um elogio,um doce elogio.
Sinto não poder abraçar a música.

De Solivan

Na palma da mão estava escrito chaga

Na palma
da mão estava
escrito chaga,
num corte subjetivo
a palavra
na palma da mão
a negra palavra
nua sob a pele.
Quando vestida
pelo significado
mostra-se rubra
ferida em carne e dor viva.

Na palma
da mão estava
escrito chaga.
A palavra,
a palavra abre-se vermelha
uma cortina de veludo
ao espetáculo
rasga-se num
sorriso malabarista e suplicante
de um palhaço
e tinge de sangue seus lábios
batom de seu sorriso ruge.

Na palma
da mão estava
escrito chaga.
A palavra, a palavra dói
lateja na palma da mão,
dói teu olho na palavra
em minha palma,
teu olho,
metáfora de teu dedo
em minha chaga.


De Solivan

Ode a minha câmera fotográfica

Como é bom ter uma máquina capaz de apanhar
um momento delicado como um sorriso de filho,uma paisagem.
Uma máquina fotográfica não machuca o tempo,
o colhe sem incisões, sem o entalhar ou pintar,
reproduz apenas com uma luz doce,tão suave,
toca um segundo com tanta delicadeza e ternura
que não o machuca,o deixa inteiro,
como a mão de Gandhi segurando uma borboleta azul
e nos permite emoldurar uma lembrança,eternizar um segundo.

De solivan

terça-feira, 1 de dezembro de 2009



De Solivan

Cavalo dócil

Vida é um
cavalo dócil
que enlouquece
ao sentir o cheiro da velhice
sobre suas ancas.

Solivan

Estante

Colo dos poetas,
cavalo de cedro que leva lápides
teu cavalgar é no tempo, não no espaço.
Minha alquimia,
escolho uma poção na estante e bebo com os olhos
até ficar sábio.
Como seios de Artemis em Éfeso,
embala
edições reencarnadas
de significados poliglotas.
Livros com pinturas fotogênicas,
de estátuas esmagadas
como rosas dentro de um diário.
Meu templo
com um marcador de páginas,
esta faca de ritual
abro talismãs,
búzios de couchê
e leio vísceras.
Como num ritual crematório
espalho-me sobre este oráculo
porquê o pó
sobre suas prateleiras
é feito de minha pele.

Uma carranca protege sua proa.

De Solivan

Luz bonita

Noite, a luz veio bonita e de aço, esmagou o índio bêbado no meio do asfalto pareceu luz de pegar, brincar, levar para as crianças. Mergulhou no vidro, água de rio, de novo menino nadando no rio.
Viu Iracema submersa.
Susto, o índio surge do escuro, emoldurado pelo pára-brisa, depois da curva, com um sorriso assustador de quem olha algo belo. Só vê a face iluminada, o resto era negro, claro-escuro. O baque, o sorriso contra o pára-brisa, engano de pássaro pensando que vidraça era céu. O cheiro defumado do bugre manchou o odor caricatural de flores do campo do aromatizador, e continuou, não em uma fuga de onça, fuga da delicadeza, a feminina fuga assustada do veado.
Outro índio no acostamento viu o carro vindo, aviso de araponga, mas grito não empurra. Dos três o único que sentiu dor, sentiu nele o estalo de taquara das pernas que o outro quebrava, o rasgo na barriga, a cabeça contra o vidro, e o cair de bicho grande abatido no acostamento, odor de anta carneada, o morto cheio de urucum. Jogou com raiva uma pedra inócua, pedra de algodão, de pluma no carro que sumia, pedra que se dissolveu no escuro.

De Solivan

De como as coisas adquirem uma nova beleza

O novo resplandece, tem odor
há nele uma aura contemporânea.
Mas os anos que parecem apagar seu brilho,
deixá-lo inútil, feio e inodoro
formam as décadas
e elas vão sobrepondo em camadas
pacientes e cuidadosas,
nobreza sobre o antiquado.
Uma nobreza que atinge o sagrado.
Qualquer fragmento milenar
exerce um fascínio que beira a idolatria.

De Solivan

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ikebana


De Solivan

Proustinianas brasileiras n 1 (fragmento)

Assistindo o jornal da manhã,penso como futilidades faladas por alguém com terno e gravata passa por algo sério e inteligente, raramente assisto ou leio jornal, há muita notícia irrelevante, como de uma professora que dançou nua em boate, índices econômicos descartáveis,a festa junina do presidente,um acidente de automóvel sem vítimas em São Paulo. Gosto de notícias que me ensinem algo durável ou que ao menos divirta, informações que poderei usar para sempre.Tirando a previsão do tempo, raramente uma notícia que morrerá em uma semana ou em um dia me interessa,é só ler um jornal velho para ver que a maioria das notícias políticas e econômicas terão menos valor que uma receita culinária, por isto mesmo, por separar o que é relevante, quando leio um jornal ou revista não me importa que sejam antigos, porquê sei retirar notícias ainda vivas. Quando trabalhava com meu pai,o que detestava por ter que fazer poemas e desenhos escondido ou sob seu olhar de desaprovação, mas gostava dos dias de chuva,dos dias de tempestade com lindos raios era melhor ainda, o movimento caia muito e era uma delícia ir nas pilhas de jornais velhos e achar notícias frescas principalmente nas páginas culturais.

De Solivan

O dia em que meu corpo

Tento
desfazer na gravata
o nó que está no peito.
Abro a janela
e meu olhar voa como um pássaro no céu azul
[com nuvens brancas.
Lembro
por associação
(lembrar é uma associação),
o dia que caminhei
mastigando folhas de laranjeira
e olhei os pássaros no céu azul
[com nuvens brancas.
Veio-me
um poema verde
com gosto de folha de laranjeira,
um poema
no qual ando descalço
(e então tiro os sapatos embaixo da escrivaninha).


De Solivan

Oração para São Francisco

a consolação

É uma guirlanda de pássaros tua aura
uma aura cantante
e a juta de tuas vestes voltou a florir.
O cervo veio beber tolerância
em tua mão
e o lobo mansidão.
Teu beijo na testa do bêbado
transformou o desejo de vinho em água,
porque tocas o coração de todos
com a mesma facilidade
de quem colhe uma maçã vermelha
entre as ramagens verdes da macieira.
E quando afagou o leproso
a voz de Deus falou-lhe no íntimo do peito:
“Apenas o consola, que esta é sua hora
que um dia fez-se novamente
presente, a morte a Lázaro
e o cego outra vez vê minha face
e o coxo que fiz andar, veio a mim envolto em linho”.
Então somente abraçou-lhe a ferida
e fê-lo descansar
sentiu o peso da cruz na cabeça agradecida
deitada sobre seu ombro
e chorou com seu irmão.

De Solivan

A odisséia ou o erro do pavão

O pavão
de olhinhos nervosos
irrequieto bípede
tirou dolorosamente
suas queridas penas
uma a uma
e colou
em folhas de papel sulfite.
Despiu-se de suas jóias
transgrediu o pudor
sentiu frio
ficou só
sua família não agüentou
a verdade nua.
Não satisfeito
regurgitou a pouca quirela
do jantar
e vendo o vômito convulso e amarelo
lembrou-se de Van Gogh
e chorou.
Colou sua bile no sulfite
e com as folhas e penas e vômitos
profissionalmente encadernados,
a pobre ave implume
saiu a procura de editor.
Seria mais fácil, pássaro
achar editor
se deixasse as penas no corpo
e levasse as folhas em branco
profissionalmente encadernadas
sempre
profissionalmente encadernadas.


De Solivan

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

balaústres




De solivan

Orvalhos

Se uma estante fosse uma nau
as velas seriam os livros.

Cuidado Midas ao cheirar coca no escritório,
o inferno é seus desejos elevados ao máximo.

Borboleta
com uma asa mordida
como uma maçã do Éden

Neuzza
Pinheiro com pássaros.

O profeta
recorda o futuro.

De Solivan

Quadros descrito para cegos

II. Van Gogh
Auto-retrato (1890)
65 x 54 m - Museu de Orsay, Paris

Van Gogh é tenso, severo, retorcido
tem o rosto moldado de dentro para fora
pela angústia que tenta conter.
Sua barba rude,
espessa, mal cuidada incomoda e coça.
Nas duas rugas paralelas
entre seus olhos,
está uma sombra
como um erro na verdade clara
na verdade sob o sol.
Uma sombra que não devia estar, mas está
como retalho rasgado da veste da morte,
um pedaço de penumbra, de insanidade
que se aloja entre seus olhos.
O fundo do auto-retrato, de espiralados tumultuados
desenham seu interior.
As pinceladas vibram perturbadas
que em diapasão, fazem nossos nervos
vibrarem na mesma nota perturbada.
Sua roupa se integra com este fundo
só há o pequeno branco de sua gola
um branco de pomba agonizando.
Na casaca um botão é pintado
outro só contorno displicente,
como quem de tão angustiado
de tanto cansaço,
não consegue abotoar
a roupa direito.


De Solivan

Música

É uma fotossíntese,
qualquer cantor
aspira ar e expira notas musicais.
Já o blues man emite sons feitos de barro.
Vi um cego tocar acordeom,
a música o sacudia como uma ventania ou maré.
E por falar em cego
a música materializa os sentimentos,
reconhecemos um sentimento dentro do peito
como um cego apalpa e reconhece um objeto.
Músicos precisam do silêncio,
do silêncio branco como linho
para esculpir sentimentos.
Pergunto-me:
quem nasceu antes a música ou o rouxinol?
Acho que a música pousou num galho e compôs
um rouxinol.
E a beleza
a beleza nada mais é que música
de objetos não sonoros.


De Solivan

Prefácio do encantador de serpentes

Os Poemas de Solivan Brugnara

A poesia de Solivan Brugnara é diferente, especial, magnífica. Mantras, orações, blues elípticos? Tudo a ler. Também aqui e acolá tangerinas, pinturas, raios fúlgidos, sementes, frases para chaveiros, venenos gozosos. Diz ele: “Buda descansou à sombra de uma árvore/A árvore morreu/Mas a sombra ainda está lá” Taí um fragmento-apresentativo da poética de Solivan Brugnara. Já pensou? Algo zen, close translúcido. “Sou poeta porque gosto de lamber folhas em branco/Lembra leite materno”...salpica ele. Página de rosto.

A poesia de Solivan Brugnara fala. Leva fé e bagagem. Como tudo é matéria prima para o fazer poético, os poemas dele dizem de uma ótica extremamente sensível. E ele pensa o mondo cane para redefini-lo sacro-sanscrito, finamente espiritual, em artes e criações purgando o verbo viver por um prisma humanista, contemplador, melhorado, claro. Essa é a dele. Poesia é tudo o que move. E o que verte sob o olhar do artista ourives da palavra fazendo o diferencial.

A poesia de Solivan Brugnara é o que abrange o humanus mais infinitalmente telúrico no macadame de si mesmo. Fios desencapados da poesia pura e cristalina, na rota de fuga (ai a espécie!) feito um perene tear de granizos. Sim, somos todos serpentes (seres-entes) encantados na sua confeitaria de açúcares díspares. Nuances, contradições, ambigüidades, toleimas. Ele dá uma releitura de um mundo pueril no aprisco de suas inteirezas. E o nosso mundaréu de uma selva de cimento armado perdidinho. Ele, feito um sábio, um monge, recupera o aproveitável, destila, ventila, dá-se. Há encantários também. Quase salmos.

A faca cega acordando, a mão trazendo o fotograma, a pincelada magna meio mantra, meio oração, meio moendas e engenhos d´almas. Foca sentidos. Coloca-nos frente a frente com véus indizíveis. Ficamos molóides quando o lemos. Voltamos para dentro de nós mesmos, e só nós sabemos o que é estar lá em revisitança. A sua fala interior, de uma maneira ou de outra, rebusca coisas que perdemos atrás de uma estrada de tijolos amarelos. Ele recupera andanças e paisagens, feito uma enorme roda-cotia de sabenças.

A poesia nesse diapasão, mesmo assim, ainda às vezes transgride, fragmenta matizes, adota ritmos, quebra-os, desmonta andaimes íntimos de paisagens perdidas nas paredes da memória. Meio Belchior, meio Gonzaguinha, meio Tom Jobim, ele dá seu testemunho bem chão que é a nossa cara. Na enxovia do poema, a aleivosia de fluxos recorrentes (do in/consciente?). Prosopopéias e rapapés. Sal e vinagre também. Talvez mundos e fungos, ícaros e ácaros. E logo desperta a consciência inevitável de nosso desencarrilhamento existencial. Estamos todos perdidos?

E o lado sentidor do poeta? A mão hábil, a olaria do ser, a sofrência e a perda. Rocambole de idéias. Cortes. Nódoas da vida, nichos dela, jazidas de construções epigramáticas. Para o poema, tudo é; vetor e orgânico, ralo e lirismo, organismo sensorial de entregas e resultantes diletas de. Criar é se afirmar como ser. A coletânea O Encantador de Serpentes mostra o poeta em fibra e lucidez, recodificando signos ficantes de um mundo insano. Pois não é que ele tem jeito próprio, peculiar, estilo e vertente. Vida louca? Olha o rock do Cazuza.

Um peregrino que sonda o calibre das palavras, os flancos delas, os cabimentos e os universos em movimentos. Compõe poemas. Edifica, transmuta, corrói quando soa feito um templo nas nuvens e deposita-se num mosaico de letramentos e livramentos. Arames da memória, pensares (talvez por falta de peças de reposição para o ser tão pouco humano nesses tempos tenebrosos), torpedos poéticos com tons de cítaras, harpas, tudo num embonitamento fora de série. Quando não irônico ao pé da letra.

Foi o que li/vi (senti) de muito gostosamente lê-lo nessas novas paragens. Todo poeta res/pira pelo círio ardente de suas próprias criações-colheitas, em livros-testemunhos. Os loucos herdarão a guelra, numa futura Atlântida pluridimensional entre pirâmides marinhas, oásis cósmicos, cavaleiros trovatores, campos de lavandas náuticas. O que virá do passado nos surpreender no quartzo-róseo do futuro? Poetas dão testemunhos de cismares enluados, radares edificantes, revisões e tabuleiros, incensos e recolhimentos, pois na versalhada do viver/crer/ser, quer no baratinado surgimento das idéias, quer entre cabides de pregos, sempre haverá a voz que canta no deserto, a voz que soa na montanha, a voz que edita no mosteiro, a voz que imprime em livro os cânticos dos verdes campos do Paraná.

Solivan Brugnara dá seu testemunho em alto estilo. Sensível e conferidor de resultados do verbo viver, mostra asas de resistências na sensibilidade aflorada, dentro de sua ótica madurada a depurar poemas muito além dos estúpidos que fermentam impropriedades. Ele sabe o que faz. Ele faz bem. Ele é do ramo. Árvore que viça poemas. E assim se enlivra, livrando-se do que cria muito bem feito um liquidificador do que capta e dilue em versos, dizendo mais coisas maravilhosas dessa vida do que nós mesmos captamos na correria da sobrevivência sacrificial. Afinal, o sol é grátis, a poesia é seqüela de labirintos, e escrever é dar um registro de luz. Solivan Brugnara pintou mais um livro.
-0-

Silas Correa Leite
e-mail: poesilas@terra.com.br
Site pessoal: www.itarare.com.br/silas.htm
Autor de Porta-Lapsos, Poemas






“Um pacote congelado cheio de asas/quantos vôos mortos”

Solivan Brugnara escreve como quem parece querer fazer pacotes congelados de palavras, esmagadas, amarfanhadas, constituindo miscelâneas cuja característica é fugir a um estilo único e agir como uma ventosa que suga todas as possibilidades de expressão, sempre ainda insuficientes, afinal o sentido da vida e, em última instância, da palavra, é inalcançável, ainda que se possa percorrer o caminho da sua busca.
Por isso vai de uma descrição bucólica de uma paisagem a uma cena com meninos simulando tiros com os dedos em direção a um avião – será que eles querem mesmo derrubar aquela ave? aquela paisagem, que dor é aquela, exposta nas cores, nos detalhes obsessivos?; vai de um poema que se derrama parecendo por um momento interminável em palavras – onde ele quer chegar? - a um poema visual que logo contradiz a simplicidade de forma/conteúdo típica desses poemas para se somar a outros recursos como se fosse um baralho de palhaço – aquele cujas cartas são interligadas para que o jogo não seja o que se espera, mas outro; vai do panfleto político transformado em máximas de uma frase a pautas musicais por ele mesmo compostas, assim como desenhos que transitam de uma aparência naif a uma crueza cortante que dialoga comVan Gogh, todas formas de representação de um mundo globalizado visto de um lugar rural, no interior do Brasil, típico como quase tudo neste país em que agricultura tem o mesmo sentido de cultura.
Mas ao olhar desse que escreve isso não fica barato, pois o mundo rural é descrito com crueza crítica, em pinceladas secas e ao qual se agregam sentidos estranhos que o tornam, por isso, peculiar: “(...) Quero-quero nos potreiros. / Cinqüenta alqueires gramados com soja/ E um pinheiro solitário no meio./ Cinqüenta alqueires de terra arranhada pelo arado/ E um pinheiro./ Oitenta alqueires de soja, cem alqueires,/ E um pinheiro (...)”.
E é na regularidade da paisagem e, por extensão, da descrição poética dela, que nos deparamos com o inusitado que quebra a expectativa e faz peculiar a poética, um centauro no meio da plantação: “Me cumprimenta do soja,/ Como alguém com mar na cintura,/ Lembra um centauro, é só meio-homem/ O resto plantação”.
Como a arte não escolhe lugar, está nos mais improváveis, como nesse homem “com mar na cintura”, o soja; como Miró encontrado numa joaninha pousada no indicador; ou na constatação paradoxal e agônica de que é impossível saber a hora numa relojoaria.
Assim, nesses poemas/pacotes de palavras congeladas, parecendo asas, esse que escreve parece lamentar o tempo todo “quantos vôos mortos” estão à vista, entregando ao leitor o estranhamento, função poética elementarmente máxima, que não deixa na mesma aquele que o lê.

Ademir Demarchi, escritor, editor da revista de poesia BABEL
revistababel@uol.com.br

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


De Solivan

Rapsódia sobre a palavra(fragmento)

O som crocante da chuva é sua palavra.

O doce da cana é sua palavra
e o rum, sua ira.

O urro da onça é sua palavra.

O voo da borboleta é sua palavra.

A beleza do pavão é sua palavra.

As fotos de Cartier Bresson
é sua palavra,
e seu discurso.

O amargor benigno do boldo
é sua palavra.

Seu nome é sua palavra
mais íntima.
Seu nome é seu coração,
Sua mão
e o cabelo que cai.
Seu nome tem a mesma cicatriz que você tem
e é seu osso,
e o sexo escolhido.
Seu nome envelhece.
E a ferida no seu corpo
é uma ferida no seu nome.

Por isto a palavra Aleijadinho
é desmembrada
e sua vogais não tem dedos.


De Solivan

Hotéis

1. Porto Alegre

Segundo andar,
um bucolismo urbano
me acorda
sempre muito cedo
gosto de ver da janela
a manhã
escavar a noite, retirar as sete camadas atmosféricas
de escombros escuros
dos nossos ombros,
ver a claridade lavar, de cada canto, o negro.
Os prédios e ruas solitárias
surgem suaves frescos e orvalhados
o semáforo troca suas ordens de cores simbólicas
para ninguém.
Olho para os postes elétricos
numa procissão silenciosa
suas luzes a esta hora apenas aureolam
as lâmpadas
e não se estendem mais num luminoso retalho âmbar
sobre as calçadas.
Ouço do âmago de uma árvore
os pardais-teclas cantarem quando os dedos
[da manhã tocam neles.
Os sons dos pardais cintilam em meus ouvidos
em multidões de estrelinhas de prata agudas
sobrepostas em escamas cintilantes.
Na rua
há sempre dois ou três transeuntes
personagens que só aumentam a sensação de solidão
parecem bibelôs sem vida
desenhos de uma lição de perspectiva
apenas peças, objetos para nos dar parâmetros das
proporções.
Os edifícios parecem mais impregnados de vida do que
as pessoas.

Leio por algumas horas
e desço à sala do café
de camarote pela vidraça,
vejo que os mesmos prédios cinzas
receberam mãos de luz e calor
uma pintura que estragou
a serenidade dos edifícios e ruas
deixando-os quentes, com ângulos duros
agressivos e claustrofóbicos.
Agora há cardumes suados pelas calçadas
e manadas agressivas de carros
rosnam raivosos, leões de circo
impotentes ante a luzinha vermelha
do farol.
Distraio-me com os automóveis
param e seguem
no ritmo de uma pulsação.
Desço as calçadas
no fundo abafado
do canyon de prédios.
Ao meu lado
sinto as íris gastarem os ponteiros dos relógios
e os ternos negros puírem os corações
farpas, limalhas de alma ficam no tecido
por isso este odor azinhavre
este gosto de prata enegrecida
nos quentes ternos escuros.
Sou o único a olhar para o alto
há sempre uma pomba ou avião
cruzando um céu canalizado
entre edifícios
sou novamente um menino encantado
com sua pipa.

De Solivan

Heterônimos

C. Miguel de Couto e Alves
(Poeta romântico, bissexto, abolicionista que
não domina perfeitamente a arte de metrificar)

Páscoa

E o sol da liberdade em raios
fúlgidos.

África, no rico oriente pragas
todos primogênitos atingiram.
Até anjos, transpassaram adagas
e inocentes corações feriram.
Traga justiça para outras plagas.
Se num lado os mares se abriram
para multidões serem libertadas
Por que?! Por outro saem escravizadas?!

À frente de sangüíneo cafezal
no tronco, marca as costas, o chicote
risca, corta, que ideograma brutal.
Tentam retirar à custa de açoite
a liberdade, que é de força tal
é fígado de Prometeu, reverte
fica cada vez mais e mais forte
parece, se alimenta do corte.

Do cão, está muito distante o uivo,
mas é longe o palmares combativo.
Da tua fome faça um incentivo.
Cavalgue em tua fibra fugitivo.
Mata, proteja a fuga do cativo.
Noite, camufle logo o dia nocivo.
Árvores, frutifiquem quando passa.
Fonte molhe, seca sede o perpassa.

Mães apontem ao que bebe em seu peito,
a águia livre, deleite no céu aberto.
Fale do pássaro, diga a respeito
que preso cala, só canta liberto.
O seu filho entenderá o conceito
distinguirá o instituído do certo.
Com doce candura mostrará a luta
nada terá a prole de irresoluta.

Vergonha! enrubesça verde flâmula!
Gritem! nem que ao toque deste clarim
a arregimentação se mostre nula.
Heróis é a hora da glória enfim!
Gorjeiem poetas, a palavra é cânula
que leva bravura a alma e ao confim!
África! mostre, teu sangue tem leões
só fortes não morreram nos galeões!

Ou escutem! as asas da liberdade
creiam, são feitas de pena ou de faca.
Se espadas escrevem sua verdade
na dura lei que hoje, o negro ataca.
Por uma pluma! a vida na herdade
no negreiro e na nação onde atraca.
Por uma pluma! ser modificada.
O Moisés de uma raça libertada!

De Solivan

Frida

Frida com Diego.
Mulheres a invejam.
- Queria ter uma cicatriz assim
e pernas finas como a tua Frida.
- Frida! Teu sexo está
- Frida! Teu sexo está
manchado de tinta,
Diego esteve aqui?
-Sim, sim, e deixou-me um o poema de amor.
Como abelhas

Ai, amor
abelhas
sempre rondam
teu coração
Ai, defenda
tua doçura com ferrões.
Há beija-flores
apaixonados por tuas sobrancelhas.
Senta aqui perto
quero fazer tranças
em teu cabelo.
Brincar com
os dedos de tua mão.
Ai, amor, defenda
tua doçura com ferrões.



De Solivan

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Cor


De Solivan

Máxima força

O sonho e a força máxima.
O sonho é o deus infantil escondido atrás
do racional.
O sonho tece tratores
monta fábricas, compõe andaimes.
O sonho abre um shopping.
O sonho não é ingênuo.
O sonho rouba.
O sonho depreda.
O sonho angustia.
O sonho frusta.
O sonho quer ser eleito.
O sonho quer conhecer a África.
O sonho quer vender a cura de doenças.
O sonho planta quatro mil alqueires
de soja todo o ano.
O sonho quer escravos.
O sonho mata e desmata.
O sonho gerou esta era de desperdício.
O sonho é predador de outros sonhos.
O sonho quer mais.
O sonho mistura, aumenta, encolhe,
cães, gatos, bois e cavalos.
O sonho desmesura úberes e quer sempre mais leite.
O sonho.

De Solivan

A rudeza

Vai pela estrada, Rimbaud
no peito o ouro sem metáfora
bebe a si próprio no suor que cai dos seus lábios
e a fome come-lhe o corpo.
O calor faz a alma presa no corpo agitar-se feito um feto inquieto e febril
logo vai despetalar a roxa perna.
No quarto
de odor enfermo como hálito de um celibatário
com a angústia de um pássaro sem asas,
seu coração já coto debate-se ante o céu azul visto da janela.


De Solivan

Banho de Sol

Numa manhã fria
tomando sol
num pedaço de quintal
entre uma jabuticabeira
e um resto de horta abandonada,
velhas roseiras
e entulhos.
Fechei meus olhos
fiquei ali,
o ardente amarelo
transpassando
minhas pálpebras fechadas,
inerte,
só sentindo
o calor agradável,
sem pensar em nada,
sem ser nada.
Não existir
foi delicioso.
Quando abri meus olhos,
pensei:
Talvez
a jabuticabeira
seja feliz.

De solivan

sexta-feira, 23 de outubro de 2009




De Solivan

Marinha, cavalo e Hamlet

Há três sabores de som
no quadro,
uma marinha cinza,
escolho uma concha
cheia de marulho
e sinto saudades do oceano.
Pego minha chave
parece com uma moeda.
(Nunca antes tinha achado a chave parecida com uma moeda).
Vejo na radica de minha porta
demônios, extraterrestres e sexo.
Tenho medo de minha porta.
Corro pelas escadarias
não quero ser encaixotado pelo elevador.
Sou perseguido por demônios, extraterrestres e sexo
até derrubar o general
e sair cavalgando sobre a estátua eqüestre da praça
cheia de pichação e cheiro de urina.
À beira-mar, o cavalo em bronze
ficou colorido, leve de papel machê.
Respirar a maresia era respirar cores
como um camaleão que respira gramado
e fica verde, respira céu e fica azul.
A cavalgada que era tambor
virou dança sem música na areia.
Após a multidão
um menino solitário me sorri.
Minha angústia rega
suas linhas de expressão, que logo viram
rugas e cresceram em seu rosto como heras,
fazendo dele um velho.
A transformação me vez lembrar de uma menina que vi
pescando anjos com orações.
Perguntei a ela.
-Pode ser qualquer oração?
-Não, só as impregnadas de poesia e um pouco de vinho.
- E os anjos estão no céu ou na terra?
- Os anjos moram nos reflexos.
Depois avisto
um hindu, que reza para
uma escultura de quatro braços.
Falo.
- Não Breton, você não
criou nada, o surrealismo.
nasceu com a religião!
Ao longe
abandonado ao sol
um cadáver na restinga quente.
Uma rosa nasceu de seu umbigo.
Primeiro achei poético, depois lógico
as fezes no intestino alimentavam
as raízes da rosa.
Desço e descanso.
Faço um castelo de areia, cimento e cal.
Vejo saltar um peixe dourado
escamas feitos de dobrões espanhóis.
Quando continuei
encontrei ainda
um pintor chinês que olhava o mar, e com os pincéis
escrevia um poema na tela.
Três deuses
Marte, ele usava brutalidade
para conseguir mel.
Vênus, ela usava mel
para fazer maldades.
E a deusa que dá odor ao mar
lavando sua vulva na água.
Também Hamlet, que erguia a leveza da morte,
era a vida nele que pesa como chumbo.
Concentração é uma venda,
a distração nos faz ver muito mais.
Finalmente fiquei só com o oceano.
Olho sonhador
queria ir morar na distância,
na casa que encontraria na distância
gramada com mar, canteiros com copos-de-leite.
Mas a distância é uma miragem
que se afasta um passo
a cada passo meu.
Retorno, sonhos longos
são tediosos.
Pareço uma flor, querendo
morder o rabo de seu perfume.



De Solivan

Cor de passeio em um dia de sol

Muitos
poemas
começam pequenos,
mas o ponto final
é como uma pedra que chuto
enquanto ando distraído.

De Solivan(Obrigado Maristher por incluir este Poema nas Apostilas do Positivo)

Frustração

Os gestos da ira
desenhados
a golpes de faca.

Cores diluídas com cuspe.

Roxo retirado do hematoma
vermelho de um corte.

Quebrado a chute
o fêmur da tela.

Xingamentos
detonados
estilhaços de saliva
na cara

Na gaze rubra do quadro
esta impresso
o arremesso do vaso
do cinzeiro
a mancha do soco.


De Solivan

Proustinianas brasileiras (fragmento)

...Não me sinto castigado, apesar que querer, e muito, ser alimentado somente pela poesia, por que sei que é histórico a jornada dupla que submetem os poetas, mesmo os melhores não viviam de poesia, Drumond em sua repartição pública, Cabral e Vinicius e Dante diplomatas, Lemiski traduzindo, para se viver de poesia é preciso ser vegetariano,viver de pastar as folhas de sua coroa de louros. A poesia sofre de uma distorção mercadológica, atingiu uma excelência generosa, quis dar brioches para todos, mas o povo quer pão, e a poesia foi destronada, esta no calabouço, mas mandelica não perdeu seu brio,sua convicções e conspira, nem que seja falando com as paredes,na esperança que estas tenham ouvidos.Para vender poesia,e necessário distribuir nossos livros, estar nas livrarias em lugares vistosos, o que tenho visto é livros de poesia escondidos em cantos,em lugares que dão torcicolo, precisamos de gôndolas de ofertas, que pareça uma bananeira,com o slogan" poemas a preço de banana"...

De Solivan

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Jazz session (fragmento)

Minha alma gosta
de ver atrás dos quadros,
olhar a armação da tela,
as madeiras, os pregos,
gosta de ver as costas dos quadros.

Quer fazer um a exposição com telas viradas.
pintar telas viradas.
E diz,
Louvre
já cansei de ver a cara de Rembrandt,
virem à tela de costas,
coloquem a Monalisa em decúbito ventral.

De Solivan

Livros sobre Hiroshima e Nagasaki

Quero livros
Que deixe quem ler bêbado,
que viciem
e sejam cheios de propagandas subliminares.
Quero livros vasodilatadores,
que causem priapismo,
e se picotar suas paginas de para fazer um cigarro de maconha.
Quero livros que dividam o mundo.
Livros que sejam excomungados,
que matem Deus
e que Deus e revide escrevendo seu terceiro livro.
Livros com sabor de carne
para serem devorados por leões.
Livros que entrem como fantasmas dentro dos computadores.
Livros sobre Hiroshima e Nagasaki.
Livros nasçam em pés da marula e macieira
e que os livros vermelhos floresçam nas papoulas.
Livros que tenham cheiro de cio e cartões de credito.
Que façam as mulheres se masturbarem.
Livros venham em formato de falo
e vibrem e que suas letras façam vezes de espermatozóides e fecundem
úteros.
Livros que gritem, que se aumente o volume das letras
ate elas deixarem os olhos surdos.
Quero livros que alucinem quem se atrever a lamber suas paginas.
Que seja pego no antidoping pela substancias deixadas pela leitura no sangue.
Livros pretos que voem com urubus.
Livros que explodem quando aberto.
Quero livros cheios de veneno,
e só passar a ponta do dardo na capa, pegar a zarabatana
e sair para matar macacos na selva da Venezuela.
Livros que possam ser transplantados no lugar dos corações e rins,
e que se coma suas letras amargas com arroz.


De solivan

Conversa sobre a teoria da evolução com um gato

Do que adianta
sua elegância e graciosidade
construídas em milênios sobrepostos
de fina evolução gato?
Eu estou no topo
e posso matar o tigre e o guepardo
porque sou homem,
e nós fizemos a escolha certa.
Não perdemos tempo
atrás de força e agilidade.
Muito menos com asas,
ou tecendo belas plumagens,
nem com sentidos apurados.
Em vez dessas delicadezas
escolhemos
a brutalidade da inteligência.

De Solivan

A odisséia ou o erro do pavão

O pavão
de olhinhos nervosos
irrequieto bípede
tirou dolorosamente
suas queridas penas
uma a uma
e colou
em folhas de papel sulfite.
Despiu-se de suas jóias
transgrediu o pudor
sentiu frio
ficou só
sua família não agüentou
a verdade nua.
Não satisfeito
regurgitou a pouca quirela
do jantar
e vendo o vômito convulso e amarelo
lembrou-se de Van Gogh
e chorou.
Colou sua bile no sulfite
e com as folhas e penas e vômitos
profissionalmente encadernados,
a pobre ave implume
saiu a procura de editor.
Seria mais fácil, pássaro
achar editor
se deixasse as penas no corpo
e levasse as folhas em branco
profissionalmente encadernadas
sempre
profissionalmente encadernadas.



de Solivan

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Bar




De solivan

Comics

para Arrigo Barnabé

1. São Paulo no sexto bilênio

Fumo, sujo a parede com
meu pé erguido como um pelicano.
vejo o sol quadrado
que hoje nos aquece,
uma estrela artificial menor
mas bem próximo da terra.
No horizonte os sete mega-edifícios
onde quase todos vivem.
E volto o olhar para meu bairro,
a calçada cheias de faunos, hermafroditas
homens-camaleões com cores
em constante mutação.
Depois que legalizaram a operação
os híbridos juntaram
a multidão de humanos
e alguns extraterrestres
em turismo sexual.
Nas esquina bonodos evoluídos
fazem michês.

Como alcançamos a felicidade
química todos estão sorrindo,
para experimentar a tristeza
é preciso tomar drogas ilícitas
ou sobre prescrição medica.
Com a alegria universal
a criminalidade aumentou
mas a maior produtividade
compensa o investimento estatal.


Na minha rua ha muitas
lojas velhas e empoeiradas,
Antiquários cheios
de arte primitiva
do período pentacontinental,
Computadores e nostálgicas
peças de tele- transportadores.
No numero1204
fazem tatuagens moveis e inserções,
vejo pela vitrine alguém
colocar asas de albatroz nas costas.
Na catedral restaurada
atores encenam celebrações para turistas,
os ritos foram recriados por antropólogos.
alguns artistas de rua
venden as mesmas coisas de sempre
estátuas de fogo e diamantes esculpidos,
nebulosas de fumaça e luz moldável,
filmes e quadros feitos
com materializadores de pensamentos.
Músicos tocando suas
névoas fluorescentes e sinestésicas

Ser o dono da única funerária
desta cidade com bilhões de habitantes
tem um certo charme antiquado,
quase ninguém mais morre.
Tenho alguns alaúdes,
mas as famílias preferem
que os corpos sejam colocados
no meu inspecionado viveiro de abutres,
é mais natural.
Como é raro aparecer um cliente,
passo meu dia limpando minhas
unhas com um clipes.
Não ganho muito
mas consigo ler muitos comics holográficos.

Minha namorada é assistente
da lojinha de capacitores da frente.
As máquinas de sua firma transformam
todos que querem em gênios.
Já foi uma grande indústria, mas hoje
com quase todos transformados,
se tornou um pequeno negocio de bairro.
Mesmo com a popularização do processo
não conseguimos a esperada igualdade mental,
como diz um ditado do primeiro bilênio
destes que perdemos o significado das palavras
mas não o significado do todo, que diz:
Em terra de Eistens , Stephen Hanking
é um idiota.

Também clono mortos
para aumentar minha renda,
a morte não é mais uma perda completa
é tradição fazer um clone do morto,
e transferir sua personalidade e lembranças.
Eu mesmo sou o décimo terceiro clone de Xartam.
Já estamos acostumados com inversões
Que a clonagem trás
Como o filho ter de criar
o pai clonado, o irmão mais novo
se transformar no mais velho
a mãe cuidar da filha envelhecida.
Clonam até a si mesmos,
um europeu causou escândalo
quando se casou com uma versão
feminina de si mesmo.

A imortalidade já foi conseguida
com a renovação celular
mas é privilégio dos poderosos,
Anestesiados eles brincam de guerras,
com armas de época,
velhas armas a laser ou espadas
so não e permitido desintegradores.
Se morrem são reconstruídos
e ressuscitados por médicos,
e vão tomar cerveja e rir.
Prefiro a versão mais clássica
da reencarnação pela clonagem.

É tarde, hora de fechar,
vou para meu cubículo habitacional
comer uma pasta de nutrientes,
vestir minha roupa especial
e entrar na minha mansão virtual,
hipotecada mas cheia de concubinas e pajens.
Esta ficando mais caro viver no mundo
virtual que no real.



de Solivan

Idéias póstumas para Magritte

Poemas-quadro onde o leitor
é a tela do poeta

Liberdade

Dentro de uma gaiola dourada
uma pomba
voa livre
ante um céu azul com nuvens brancas.

O letrado

Um homem sentado entre suas estantes
tem na pele a palidez
transparente da cera,
está de chapéu coco.
Sua face
é a capa de um livro aberto
“Flores do mal,”
capa verde com letras
e arabescos dourados.
Veste um paletó negro-funeral
tem um odor de morte recente
ou muito antiga
de porões e bibliotecas.

O império das nuvens

Na parede da sala
duas janelas:
na fechada
vê-se um céu azul tranqüilo, com
[nuvens brancas
por detrás da vidraça.
Na que está aberta
nuvens escuras tempestuosas.


O letrado II

Um homem
entre suas estantes
de chapéu coco e paletó preto
em pé, de costas
seu cabelo é preto luzidio
tem os braços virados
para trás.
Segura na mão
um livro aberto
“Flores do mal”
de capa verde com letras
e arabescos dourados.
Sua nuca
lê atentamente o livro.

Contemplação

Um homem
solitário de paletó preto
sem chapéu coco
(está no porta-chapéu
ao lado da porta)
braços abaixados, nas costas
mãos juntas
parecendo alguém
que reza ao contrário.
Com este gesto dos contemplativos
olha atentamente a janela
que é feita de tijolos à vista.
As paredes da casa é que são de vidro.

Premonição

Entre os prédios
nas calçadas, atravessando a rua
caixões transeuntes
com duas pernas de madeira.
Andam de um lado para outro
atrasados
verificam a hora
e estão bravos com
as esposas.

O homem que lê poesia

Um
homem que lê poesia
tem dois narizes no lugar das orelhas
a boca no nariz
digitais no buraco do olho
e um olho de Cíclope
onde era para ser a boca.

Cabeça

O corpo veste um paletó
negro
e acima da gravata
está escrito: cabeça.


De Solivan
do livro incoêrencias

Queria ser teu braço esquerdo

.

Queria
ser teu braço esquerdo,
poema
aquele que não faz nada direito.
O braço esquerdo,
aquela criança
dono de letras e desenhos sempre infantis.
Quero ser
este braço carinhoso
enquanto
o direito escreve,
acende cigarros, faz poema, soca a mesa
você, periférico, na terceira pessoa
como a consciência
acaricia a fronte do poeta
deita langue
gato ou prostituta
sobre a página.
Quero ser teu braço esquerdo, poema
descobri que queria ser teu braço esquerdo
quando
não quis fazer poemas
em teclado algum.
Queria meu braço esquerdo
a acariciar
enquanto escrevo
a coroa de rugas-de-louros, vezes de espinhos
em minha testa.

De Solivan
do livro incoerencias

sábado, 26 de setembro de 2009

Não se preocupem

Não se preocupem, quando o inferno estiver cheio
os demónios podem colonizar
o sol.

De Solivan

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Cine São luiz



De Solivan
para ilustrar o poema
A historia do inicio

Paraíso

Ontem estive no Éden e senti dores no paraíso,
vi anjos lindos morrerem de peste negra
e canários e andorinhas afogados
nadarem em um aquário
que tem forma de um cristo crucificado.
Com saliva de tigre temperei a salada.
Comi carne com sabor de morangos.
Como um dândi
andei com roupas feitos de ovos pelas ruas
com negros
amarrados por correntes e grilhões
feitos de pombas brancas.
Comprei um templo vermelho
um descongestionante nasal
com o qual respiro
cacos de vidro e pedras e giletes
assim consegui
beber chimarrão com água do atlântico.
Junto com humanos que evoluíram de bonodos
e engravidei uma estatua de Afrodite
ouvindo um leão cujo
a pata esquerda cantava como rouxinol
enquanto a esculpia uma pomba
num coração de pedra.
Era paraíso porque trocavam brincos e colares de lacrimas
por zebras mortas
e fabricavam aviões com restos de navios naufragados



De solivan

Mudança

Para meus avós maternos.



Meu olhar infantil vê subir
uma cama de casal
com um lado rude outro bondoso,
mas o desgaste dava-lhe unidade.

Um berço, duas pequenas camas
que recebiam toda noite
trazidas por um colo
delicadamente para não quebrar o frágil sono
o sagrado relicário
de três crianças que já continham sonhos.

A cristaleira anciã
gemeu uma frágil sinfonia de vidros
quando foi erguida
pareceu cheia de pássaros canoros.
E o ano de 36 guardado em suas
gavetas tinha um hálito antiquado.

O relógio que marcava
as horas líquidas de segunda à sexta
as horas gasosas das manhãs de domingo com missas e
as que corriam pastosas nos domingos à tarde.

A cozinha americana,
velha precoce
era o sacrário das bolachas
tinha furtivas marcas de mãozinhas infantis
que a coloriam como um sorriso
numa face.

A singela mesa sobre a qual
todo o meio-dia
ouvidos engoliam gritos sem mastigar
durante as refeições
subiu encolhida, cabisbaixa, canina.

Já a mesa da sala
mais empossada, ergueu-se orgulhosa,
era a mesa das ceias
e nos domingos tinha sobre ela
o leque das cartas de baralho.

Uma caixa
com uma
foto-pintura emoldurada do casal.
Um crucifixo gasto pelo vento
das ave-marias
e um terço pelas ondas do polegar.
Um bule que acordava a todos
com o canto de seu odor de café.

Uma bicicleta
com feridas de ferrugem.

E por último um cão
seu olhar, dois pingos de mel
adoça o amargor amadeirado
incrustado nas línguas.

Na ponta do meu braço erguido
o trapejar de um adeus.
Atrás de mim
uma casa vazia.
A fruta cristalina de meu olho.
nasce
esmago a lágrima
(tem uma oleosa consistência
de saudade e solidão).

De Solivan

A desconstrução do boi

Matar
o martelo afaga a testa do boi
bem entre seu olhar negro e bondoso
cheio de estrelas brancas
e a faca procura um resto de vida
escondida
dentro do seu pescoço
e como um sopro frio
apaga as estrelas assustadas
no olho do boi.
O corte tem um gosto
oxidado e gelado da lâmina
língua abusada metálica dentro da carne.
Do talho
ubre de ordenhações rubras
saem abstrações brutais
de um coração se debatendo
caem vermelhos, brilhos, lampejos
sobre o alumínio
com digitais e moscas verdes.

Estremecimentos
o sangue abundante acomoda-se
aninha-se
transborda pastoso, calmo.
Morte
ainda sai um colar de rubis
no fim lágrimas de um olho vazado.

Estaquear
erguer no galho da cabriúva
a rês de cabeça para baixo
quatro cascos suspensos
pelas pulseiras rudes
de corda de sisal
estranha flutuação de alma


Corear
arrancar o branco
colorir num processo inverso
de retirar
deixá-lo rascunho
de boi a crueza de um esboço
vermelho, inconcluso
riscado de nervos brancos.
Pendurado
ante o matagal enrediço rasurado de inverno
a suave sombra dos ramos
parece arder sobre a cor carne-viva
como mão áspera sobre queimadura.

Decepar a cabeça
pô-la sobre a mesa
o sangue procura os veios das tábuas.
Um corte no abdômen
abre-se num fácil sorriso
e vomita intestino pardo e fedido.
Na bacia.
após o parto
o coração dorme
sobre as vísceras.
O boi morto ainda adula
seu odor de presa
deixa o ar quente e ensebado
e espalha felicidade
moscas varejeiras zunem
coroam os coágulos
como esmeraldas ávidas.
O rabo do cão sorri.
Um menino, pernas e braços finos
magro de barriga grande
olha o pai
com um sorriso atento,
dentro dele uma alegria inocente de oncinha.

Carnear
a faca apaga
os membros dianteiros
deixa no lugar a terra que se escondia
atrás deles.
Abre-se a espinha.
Os posteriores ficam balançando enforcados
após recortados,
retirados
restam dois cascos, dançarinos
de um boi invisível, desconstruído.

De Solivan