sexta-feira, 23 de abril de 2010

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Não gosto de decorar poemas

Não gosto de decorar poemas,
Prefiro falar poemas com um livro na mão
o livro é meu instrumento musical.

De Solivan

Relojoaria

Impossível saber que horas são numa relojoaria,
discordantes, vaidosos, pretensiosos
os relógios marcam horas divergentes.
Faz anos que libertei meu braço desta coleira,
detesto mesmo os corretos, os precisos.
Seu meio-dia não é o meu meio-dia
nem meu sono, termina em algum ponto programado
e estridente da manhã.
Porém,
tenho certa simpatia pelos relógios parados
errados sempre
salvo, por um instante, por um segundo
durante o dia no qual estão certos.
Um certo, que tem a beleza do acidental
do impossível que acontece
como o exato lance ou arremesso longínquo.
O perfeito ocorrido por um acaso mágico.

De Solivan

Aboios

Os aboios longínquos
voam pelo céu azul
ocres aves de vozes,
tênues pássaros
que pousam na arapuca de meus ouvidos
e são aprisionados
pela minha lembrança
para que voltem a cantar
para mim toda a manhã.
A música dos aboios
vem dos distantes tropeiros
brilhando em torno deles,
como raios em torno do sol
ou perfume em volta do jasmim.
Os aboiadores se aproximam,
embelezando a estrada de terra
em meio à mata,
assim como o canto do canário
embeleza uma árvore ao amanhecer.
Os aboios
trançam com as vozes
um balaio onde
prendem a tropa.
Aboio é música
que rostos curtidos
de olhar com rugas
iguais a raízes,
sulcos arados
pelo brilho e calor do sol,
pela vida dura
e por sorrisos francos
escrevem no vento e no pó,
o seu canto rude como couro,
salgado como suor,
ríspido como poeira.
São retratos de suas faces morenas.
Têm aboios
que são
repetidos
como contas de um rosário.
Aboios
compridos
como o canto das bocas escancaradas vermelhas
das carrancas do rio São Francisco.
Um canto que não quer acabar mais
ou de sons dissonantes, roucos, rasgados
agudos, encardidos
feito marcas de espinhos do sertão,
na roupa dos vaqueiros.

De Solivan

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Oração para São Francisco




É uma guirlanda de pássaros tua aura
uma aura cantante
e a juta de tuas vestes voltou a florir.
O cervo veio beber tolerância
em tua mão
e o lobo mansidão.
Teu beijo na testa do bêbado
transformou o desejo de vinho em água,
porque tocas o coração de todos
com a mesma facilidade
de quem colhe uma maçã vermelha
entre as ramagens verdes da macieira.
E quando afagou o leproso
a voz de Deus falou-lhe no íntimo do peito:
“Apenas o consola, que esta é sua hora
que um dia fez-se novamente
presente, a morte a Lázaro
e o cego outra vez vê minha face
e o coxo que fiz andar, veio a mim envolto em linho”.
Então somente abraçou-lhe a ferida
e fê-lo descansar
sentiu o peso da cruz na cabeça agradecida
deitada sobre seu ombro
e chorou com seu irmão.

De Solivan

Tempo

Dentro de um relógio
toquei no tempo.
Vácuo pulsante circulava nas artérias,
num cálice vazio estavam suas entranhas inodoras.
Em seus nervos inexistentes
marcas,calosidades
tentativas de segurá-lo
como se fossem rédeas.

De Solivan

Convenções

Desconfio do nexo, das convenções.
No jogo do encaixe
estrelas deviam caber no círculo.
Que estrelas são circulares
o que não se enquadra é o brilho.

De Solivan

sexta-feira, 9 de abril de 2010



Auto-retrato

Meu rosto é um triângulo
com barba por fazer.
Meus olhos, gelo
e no degelo, lágrimas.
Minha boca
tragicômica banana,
e a orelha bicolor.
Meu peito
tem um coração quadrado
dentro deste recipiente
o infinito
que é destilado
pelos dois retângulos dos braços,
chega à minha mão, melífluo pentagrama
e goteja das digitais letras
no reorganizado alfabeto dos teclados.


De Solivan

Todos os livros

Quero ler
todos os livros, todos,
mas não só os livros,
também os papiros e pergaminhos
todos os sites,
ler mãos,estrelas e búzios.
Ler música,
adormecer lendo as majestosas partituras de uma sinfonia.
Ler, ler ate não saber mais nada
e ter a alma jogada
no caos
que é a ordem do universo.

De Solivan

Pégaso

Escrevo com uma pena de tua asa Pégaso.

Quando te vi
pensei que era anjo
de algum cavalo morto.
Tinha a cor de uma nuvem branca
quando resplandece.
Num gesto intuitivo rompi meu colar
e você veio comer os rubis na palma de minha mão.

Coloquei minha armadura de
escamas azuis e montei.
Voamos sobre um campo de lírios,
cavalgamos sobre um lago
e sobre os Alpes.
aqueles caninos do mundo, porque você queria
sentir a neve dos cumes em seus cascos.
Depois mergulhou no céu
com giros alegres de delfim,
feliz como um peixe de volta ao mar.
Quando pousamos
senti no rosto vento resinoso e fresco
de uma floresta de pinheiros.

Circunvagávamos no céu,
quando sentiu um cheiro salgado de cio.
Relinchou
e seus cascos transformaram-se
em pés de cisne.
O oceano nos recebeu corcoveando
como fêmea furiosa.
Domado, ficou dócil como um lago,
e mergulhamos.
Galope no frescor abissal do fundo do mar.
Fui sultão das sereias, elas gostavam de acariciar
as escamas metálicas de minha armadura.

Nas savanas
aticei Pégaso como se fosse
meu falcão.
Ele abateu uma cegonha
em pleno vôo, caiu como um anjo rebelde,
baque de Ícaro.
E leoas serviram de almofadas
para meu descanso.

Entre dunas, ondas escaldantes de mar amarelo
em tendas Tuaregues.
Músicas, dançarinas, tâmaras
e carne de camelo na frincha dos dentes.

Os vinhedos floresciam no Mediterrâneo.
Uma rainha lasciva
acariciou suas crinas
sentiu de seu perfume selvagem
e pôs seu membro dentro do útero
sentiu seu quente gozo.
O rei gostou de ver sua rainha satisfeita e prenhe
do deus cavalo.
e a cobriu de tesouros.

Em pirâmides Astecas
vimos pulsantes corações infantis.
E me vestiram com um manto de canários vivos
feitos de um trançado de asas e caudas.

Refinado e orgulhoso como qualquer deus
só queria beber icebergs,
pastar caudas de pavão
e beija-flores com o estômago cheio de mel.
Voava entre bandos imensos de andorinhas
e as engolia em pleno vôo.
Todas cantavam ao serem mastigadas para melhorar
o gosto de sua carne.
Seus estridentes cantos eram especiarias picantes.
Também fui confundido com um deus.
Tornei-me petulante,
aceitei oferendas
e passei a acreditar que era divino,
fiz exigências arrogantes.
Quando necessitava de sal
lambia o suor
que porejava como orvalho
no corpo das dançarinas Árabes e Coptas.
Comia somente ostras com pérolas
e hímens em baixelas de prata.
Bebia só um magnífico e raro vinho judeu
feito por um nazareno chamado Jesus,
a pedido de sua mãe em um casamento.
Entediado,
distraia-me com refinadas brutalidades.
Certa vez,
encantado com os olhares maliciosos que recebi ao
entrar no harém de meu anfitrião,
exigi que cegassem as odaliscas
e enriquecessem o banquete
com um prato daquelas íris verdes
azuis e negras.

Então voltei para casa sem tesouros.


De Solivan

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Retratos de uma viagem



De Solivan

Futebol europeu

Para Armando Nogueira

O brasileiro Noite
recebeu a bola no peito
dominou com acrobacias.
Correu.
Músculos magníficos
cobertos por uma pele cor do universo.
O pé regeu,
pastoreou a bola.
Samba, ginga de mestre-sala
entre miúras.
E chutou com telecinésia.
O que dividiu a multidão
em agonia e êxtase.


De Solivan

Eis a palavra da salvação

Unge tua cabeça
a palavra santa
verdade de ferro em lava.
Conforme o molde
de sua alma
funde-se,
espada ou cálice.

De Solivan

Na rua d’ouro durante uma chuva

Chovia e ventava
o casacão preto dava um ar sorumbático
a Fernando Pessoa.
O vento pareceu levar
seu chapéu
mas era sua alma,
que se desprendera do corpo
e brincava na chuva
de chapéu
rodopiava nua, invisível
com saltos de ginasta.
O corpo
de casacão preto a seguia
com passos envergonhados
como um pai atrás de seu filho levado.

De Solivan